VN Barquinha | “Apitos, assobios, guloseimas e até ‘bichas’ com a chegada da neve a Lisboa”, por Fernando Freire

Poço de neve do Coentral .Fotografia de João Almeida Fotografia - @joaoalmeidaphoto

Os Filipes (de Espanha), que tanto nos levaram, deixaram pelo menos cá três modas: a dos trajes negros, a dos coches e a da neve…versa a presente crónica sobre esta última moda, “a neve”. Parece ser muito antiga, devendo-se possivelmente aos árabes a iniciativa de a comercializar. A neve e a estrada de neveiros entre a Serra da Lousã e a Barquinha meteu apitos, assobios, guloseimas e até ‘bichas’ numa história que parece inacreditável, mas que na verdade foi real e autêntica.

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“A neve vendia-se, então, nas ruas da capital à cabeça dos vendedores, homens ou mulheres. Apitos ou assobios anunciavam aos encalmados a refrescante mercadoria… o gosto de tomar neve fez-se moda. Água gelada, chiando nos pucarinhos de barro, era uma gulodice cortesã das tendas dos doceiros da Rua Nova da Confeitaria, da Rua do Saco, das antecâmaras do Paço e dos salões fidalgos. O fornecimento fazia-se de maio a setembro, mas os contratadores faltavam amiúde às obrigações tomadas. … Em 1671, o neveiro António Correia deixou de a vender. Era tanta gente que lhe assaltava a loja, que teve de vir um soldado guardar-lhe a porta para manter os compradores a respeito… desconfio que foi a neve que iniciou em Portugal a instituição da “bicha”. Já nesse tempo se usava gelo para tratamento de doentes com obrigação de fornecê-lo para o Hospital de Todos os Santos.

O sorvete, que foi uma glória do velho Martinho (da Arcada), já se apreciava igualmente…

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Os sorvetes vendiam-se nem em copos ou taças de vidro como hoje, mas em xícaras. O limão era mais barato o de almíscar era caro, o de coral era caríssimo.” 1

Em Portugal, o ofício dos neveiros terá conhecido o apogeu durante o século XVIII, mas há notícia da atividade dos contratadores da neve desde os princípios do século XVII certamente devido à visita do monarca Filipe III de Espanha.

Outrossim, Tirso de Molina, autor dramático espanhol, que viveu de 1583 a 1648, referindo-se a Lisboa, compôs no “Burlador de Sevilha”: nieve da serra da estrela que por las calles apitos puesta sobre las cabazas la vendem …”

Certo é que com a chegada dos Reis espanhóis ao trono de Portugal a moda de consumir neve pegou na capital do reino. A neve era a designação corrente para sorvetes, carapinhadas e outras iguarias do género. Mas também, decerto, para a conservação e refrescamento de outros bens de consumo do ser humano e utilização na saúde pública.

As Serras da Estrela e da Lousã, devido à sua localização, eram territórios de grandes nevões. Esta circunstância foi aproveitada no final do Séc. XVII e no Séc. XVIII, para no local proceder à sua recolha e armazenagem, com o objetivo de chegar ao consumidor final, à capital do Reino.

Depois da sua apanha, a neve, era comprimida em poços cobertos de xisto, covões abertos em fraguedos serranos, com uma porta voltada a nascente para que o efeito dos raios solares fosse diminuto sobre o designado neveiro. Toda a área de armazenamento era coberta com palha.

O responsável pelas infraestruturas locais de depósito da neve, conservação, manutenção e transporte da serra até aos portos do tejo, de Barquinha até Lisboa, era o Neveiro Real.

Lanches, Cerveja e Neve – Rua da Prata, Lisboa, Pastelaria Pomona

O gelo produzido na serra da Lousã (Coentral e em Santo António da Neve), era transportado, por via terrestre, em cavalgaduras ou carros de bois, e em barcos diários, os designados “barcos da neve”. Lembro que os transportadores tinham prorrogativas reais nas várias portagens e, inclusive, preferência nas travessias fluviais entre o porto da Barquinha e de Lisboa.

Na altura do calor a neve era fendida em grandes blocos, muito bem embrulhada em palha e isolada do calor exterior para que não derretesse pelo caminho.

“O gelo – amontoada em pequenos montículos será depois acartada em cestas, às costas, até ao poço de gelo mais próximo. Nada é deixado ao acaso, para que o gelo resultante seja da melhor qualidade. Limpo, cristalino e sem impurezas. Liberto de gostos e dissabores… Há que arrebanhar a maior quantidade possível de neve enquanto se mantém solta e límpida, e depois guardá-la naquelas cavidades profundas, onde será compactada até se transformar em gelo. Tapado por palha e fetos, o gelo permanecerá ali até ao final da primavera, início do verão, altura em que será então cortado em grandes blocos e transportado em carros de bois, pela serra, até Constância e Barquinha de onde embarcará, rio abaixo, desta feita até Lisboa, aos armazéns do Martinho da Arcada, e outros de menor nomeada, para deleite de senhores e senhoras”.2

Fotografia da Hemeroteca Municipal de Lisboa

Face à procura do bem comercial gelo e às difíceis condições de acesso nas Serras da Lousã e da Estrela, os contratantes começaram a dar privilégio à Serra de Montejunto, às portas da capital. Em 1741, foi aí construída a Real Fábrica do Gelo para colmatar as falhas de fornecimento da Serra da Lousã e da Estrela. Quando chegavam os dias mais frios enchiam-se os tanques com água e esperava-se que, durante a noite, o frio a congelasse, formando o gelo. Posteriormente, era embalado e transportado por animais devido ao declive da serra. Quando existiam condições no relevo passava para carroças que o levavam até aos «barcos da neve», do porto da Vala do Carregado, e seguiria, via fluvial, até à capital do reino. A fábrica esteve em atividade até finais do século XIX.

A procura era imensa e apesar do “reforço” da neve da Serra de Montejunto muitas vezes, devidos às condições climatéricas dos anos mais quentes, ela escasseava ou esgotava na cidade de Lisboa.

Vejamos dois exemplos que recolhi: “Joaquim Coelho de Ataíde, arrematante do contrato do fornecimento da neve, participa ao público, que a mesma neve em rama está à venda desde o dia 13 do corrente mês de Maio no armazém n.° 290, da rua dos Ourives do Ouro junto ao Terreiro do Paço, e do mesmo dia a manufatura na loja de Bebidas do Rocio, conhecida pela denominação do Nicola, e se porá da mesma sorte à venda sobredito armazém da rua dos Ourives do Ouro do dia 21 do corrente mês em diante. Pede ao mesmo tempo a todos os Senhores, que carecendo de porção maior de arroba, fação aviso no sobredito armazém quinze dias antes, não obstante a condição do contrato ser de dez dias; por quanto tendo caído muito pouca neve na Serra desta Província, vem a ser indispensável fazê-la conduzir da Beira.” 3

“Os contratadores da neve previnem ao público, que no dia 25 do corrente Agosto acabou a venda do mesmo género, por motivo da sua colheita este ano ter sido muito escassa.” 4

Segundo a “Gazeta de Lisboa”, vendia-se neve, em 1792, no botequim da “Casa da Ópera” da Rua dos Condes e, em 1793, também esse produto natural se vendia no Largo do Rato, na loja de José Rodrigues Ferreira. Já no século XIX, há várias alusões às lojas que vendiam neve, sorvetes e demais doces gelados … Em S. Roque, vendeu neve o botequim do Tavares. No Rossio, eram servidos gelados na loja de bebidas do “Madre de Deus”. E outros cafés e botequins, como o “Marrara”, o “Minerva das sete portas”, o “Toscano”, o “Nicola” e o “Grego” venderam neve – uns desde o dia 1.º de Maio, outros desde o dia do Corpo de Deus, como se pode ver nos anúncios que então publicavam na imprensa. 5

Registos mostram que, em 1782, se vendia neve no Martinho da Arcada, que em tempos se chamou “Casa da Neve” por isso mesmo. Há outras notícias da existência em Lisboa de poços destinados a armazenar a neve. Houve poços no bairro da Graça e até a torre Norte do Castelo de São Jorge, do lado da Calçada de Santo André, sofreu obras para ser transformada em depósito de neve. 6

Movimento fluvial na Barquinha – Fotografia do Arquivo Municipal

Mas existiu uma estrada entre a Barquinha e Segade – Lousã?

No nosso território existiu a antiga estrada romana que ligava Scalabis (Santarém), Sellium (Tomar) e Conimbriga (Coimbra). Na crónica de Dom Fernando refere-se que o infante Dom João partiu um dia de Alcanhões, teria passado pela Cardiga, a caminho de Tomar, menção que confirma a existência de uma estrada que ligava ambos os termos. Depois de chegar a Tomar parte ele para Coimbra, passando por Espinhal, onde dormiu, Foz de Arouce (a 7 Km de Segade) e Almalaguez 7

Compulsando a legislação régia encontramos relatos de 10 de setembro de 1861, pág. 328, do Diário de Lisboa, onde é reforçada a verba para a manutenção da estrada Barquinha, Thomar, Miranda do Corvo e Foz de Arouce.

Em 1909, a estrada real n.º 51 ligava a Barquinha a Segade, e ali procede-se à construção de um lanço entre Semide e Pedreira, conforme imagem abaixo.

Alexandre Herculano, nomeado comissário régio para a inventariação do património documental do País, disperso, abandonado e a saque nos cartórios dos extintos conventos, inicia a sua peregrinação no porto da Barquinha, no dia 14 de Junho de 1853. A comitiva faz-se a caminho a cavalo, como meio de transporte convenientemente indicado para o vencimento dos escolhos e dificuldades das localidades a percorrer. A comitiva quando chega à Lousã, desloca-se à serra, provavelmente em demanda de um conventinho ali perdido e é então que depara com os poços nas proximidades, destinados à recolha da neve.

“Dia 20 de Julho: Viagem à serra da Lousã. Ajunta-se a caravana na aldeia do Fiscal, nas faldas da serra. Vista cortada pelo nevoeiro para o norte. Passeio até à montanha da neve. Os depósitos – uma ermida; absurdo de um templo no cume de uma montanha. As duas montanhas estão unidas por uma lomba de onde nascem duas ribeiras em sentido oposto para poente e nascente e que divide os três concelhos de Lousã no noroeste e norte, o de Góis ao nascente e o de Figueiró ao sul e sudoeste. As montanhas só de mato rasteiro. Os poços de neve num recôncavo: como se vai derretendo em volta dos poços e dando uma fonte perene: como a apanham mulheres: chegou este ano em Fevereiro, a 14 pés de altura no recôncavo. É transportada em carros para a Barquinha. Modo singular de descerem os carros com mato do alto da serra: o juntar no barracão junto ao poço e o sorvete preparado ali.”  8

Segundo o mesmo historiador foi público até aos anos setenta, a presença de um marco da estrada de neveiros entre a Barquinha e Segade (Miranda do Corvo). Mais, precisamente, o 1.º marco perto da agência da Caixa Geral de Depósito (junto designado prédio do ferro de engomar) e o 2.º marco era presente antes de chegarmos à antiga cerâmica Moinho de Vento. Em tal documento físico estavam inscritas as distâncias e as designações das duas localidades.

Esta estrada real ou de neveiros, era igualmente frequentada para muitas outras atividades sem ser a neve. Lembro que o porto da Barquinha, nos primeiros anos do século XIX, tinha um enorme movimento comercial. Por ali passava todo o comércio que ia e vinha das Beiras para Lisboa e de Lisboa para as Beiras, pois as populações que ficavam entre o Zêzere e Mondego – por não haver ponte – faziam por este porto o seu comércio.

As mercadorias transacionadas eram, essencialmente, neve, madeira, sal, arroz, azeite, peixe, carne e tecidos de algodão.

Era tal o apogeu que só a exportação do concelho de Ourém para o porto da Barquinha “de azeite, aguardente e madeiras, era em transporte de carros e cavalgaduras, e o cálculo com respeito aos carros, às cargas, e seu valor, foi deste modo estimado com respeito à estrada, somente do Furadouro ou na direção da Villa da Barquinha, porto da via fluvial do Tejo mais frequentado. Passavam uns 50 carros por semana levando cada um termo médio 4 dúzias de tábuas de solho, dando resultado no ano, 2600 carros, com 10400 dúzias de tabuas, sendo o preço da venda de cada dúzia, 1$000 réis, é valor transportado do concelho para a Barquinha de 10 400$00 réis. Não é contada a madeira conduzida por outras estradas, ou seja, em direção à mesma Villa, ou para outra parte e a que é conduzida em cavalgaduras, etc.” 9

Naquele tempo, segundo factos históricos, entravam no nosso concelho milhares de carros de bois por ano, facto demonstrativo da pujança comercial de Vila Nova da Barquinha.

Verificamos no relato acima que só do Furadouro (Ourém) chegavam à Barquinha 2600 carros por ano. Deste movimento mercantil se socorreu o 1.º presidente da câmara da Barquinha, Manuel Henriques Pirão, nascido na Sertã, para em 1837, introduzir portagens à entrada da Barquinha cobrando 20 réis por carro de bois. Assim, equilibrou as finanças municipais e, com essa receita, construiu os Paços de Concelho da novel Vila.

Certamente muitas das pedras daquele edifício são resultado do esforço de muitos trabalhadores neveiros das povoações de montanha, bem como, de almocreves, arrais e marítimos.

Com a introdução da refrigeração artificial, em meados do Séc. XIX, pararam as memórias e os movimentos regulares no tocante a tão frescas matérias naturais, entre outras, de sorvete de leite e de morango feitos à base de neve.

O passado ficou para trás. A estrada real n.º 51 Barquinha-Segade deixou de ser a de neveiros, mas quão agradável foi descobrir num marco de estrada à saída da Barquinha o testemunho dos nossos antepassados e a alma deste lugar que por força das circunstâncias me acolheu.

Poços de neve em Espanha e Itália

Bibliografia

1 Matos Sequeira, da Academia das Sciências. Feira da Ladra, n.º 1, 1931.

2 Miranda, Emílio Gouveia. Os Autos da Barquinha – Gelo por sal, Edições Mahatma, janeiro de 2014

3 Diário do Governo, n.º 119, de 20 de maio de 1823

4 Gazeta de Lisboa, n.º 201, Sábado 27 de agosto de Ano 1825,

5 Machado, Herlander. Revista da Armada, n.º 93, 1979

6 Padilha, Cariana. A fábrica das neves, Jornal Publico, 12 de Janeiro de 2013

7 LOPES, F. Chronica de El-Rei D. Fernando, vol. II. Lisboa: Bibliotheca de Classicos Portuguezes, 1895

8 Roldão, António. A neve e o porto da Barquinha, Jornal Novo Almourol, n.º 389, Setembro, 2013

9 Elyseu, José das Neves Gomes. Esboço histórico do concelho de Vila Nova de Ourém, Typografia Universal, Lisboa, 1868

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