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Domingo, Agosto 1, 2021

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Torres Novas | Virgínia da Silva, o caráter e a glória que a História esqueceu

Quem foi Virgínia Dias da Silva? O Teatro de Torres Novas deve-lhe o seu nome e sabe-se que aí nasceu em 1850. O Museu Municipal dedica-lhe agora uma exposição, por altura dos 150 anos da sua primeira atuação enquanto atriz, aos 16 anos, e patente ao público até 31 de dezembro. Mas pouco, muito pouco, se sabe além das dramáticas performances, dos aplausos entusiastas e dos elogios estrondosos da crítica. A história daquela que aos 23 anos foi considerada a primeira atriz portuguesa permanece um segredo de bastidores, esquecida por uma História que a deu como falecida na miséria e sem os brilhos da fama dos seus verdes anos.

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Margarida Moleiro, diretora do Museu Municipal Carlos Reis, começa por fazer um apelo: a todos os estudiosos, atores ou colecionadores que possuam cartas e outros registos documentais de Virgínia da Silva, por favor contactem a instituição! Para além de bilhetes, folhetos, algumas fotos e condecorações, e as, poucas, entrevistas a jornais da época, o espólio existente que narra a história de Virgínia da Silva é extremamente escasso. Conhece-se a vida pública, a da grande atriz que arrebatou uma época. Desconhece-se em praticamente tudo a sua vida privada e íntima, que ajudaria a recriar uma personagem que é a imagem de um tempo histórico de Portugal e dos sucessos e percalços da evolução da classe profissional dos artistas de palco.

Virgínia da Silva nasceu em Torres Novas em 1850. Muito jovem, aos 11 anos, fica órfã e vai viver com uma tia em Lisboa. À cidade torrejana sabe-se que voltou 45 anos depois, em 1895, já uma atriz de renome, quando o Teatro Torrejano (situava-se então ao lado da Praça do Peixe) é batizado com o seu nome. Sobre o momento contam as notícias da época que a sua presença exaltou a multidão. Não se conhecem porém outros episódios de visita à terra natal, encontrando-se hoje os seus descendentes a viver em Lisboa, sem quaisquer ligações ao teatro, explica Margarida Moleiro.

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Virgínia conheceu o grande palco por intermédio de um padrinho, que era sócio do teatro da Rua dos Condes. Seduzida pela arte da representação, apesar da tia querer que ela seguisse a costura, é por intermédio desse padrinho que vai às primeiras audições, com 13 anos. Sabe-se que “as primeiras audições não correram bem”, comenta Margarida Moleira, constatando que, afinal, Virgínia era “muito normal”. “Não era uma Rosa Damasceno, não era uma diva”, relata, tendo-se impondo no seio do teatro sobretudo pelo trabalho árduo, estudo e dedicação que colocava no teatro.

Rosa Damasceno foi uma famosa atriz da mesma época de Virgínia da Silva, sabendo-se inclusive que eram grandes amigas, ambas tendo passado pelo Teatro D. Maria II. Mas enquanto Rosa ficou conhecida pela sua exuberância e envolvimento com o Rei D. Luís I, só muito tarde é que se conhece um relacionamento amoroso a Virgínia, já nos seus 35 anos, com aquele que viria a ser o seu marido, um ator respeitado e inteletual da época, Ferreira da Silva.

A vida amorosa de Virgínia é, de facto, muito tardia para a época e para o próprio meio em que vivia. “Ela encarna a atriz moderna”, refere Margarida Moleiro, apesar de também ser “dotada para heroína dramática”, conforme atestam as críticas de então nos jornais Ilustração Portuguesa ou Diário de Notícias. Aos 16 anos sobe pela primeira vez ao palco, com “Mocidade e Honra” no Teatro do Príncipe Real, e nunca mais pára. Conforme confirmam os cartazes e contratos de trabalho que resistiram ao tempo, Virgínia está sempre a trabalhar e em tournées, inclusive no Brasil, até terminar a carreira aos 56 anos. Aos 23 anos já era considerada a “primeira atriz” portuguesa, tendo sido comparada a nomes como Sarah Bernhard ou Julia Barlet.

Virgínia da Silva nasceu em Torres Novas em 1850 mas com 11 anos foi viver para Lisboa. FOTO: espólio Museu Municipal Carlos Reis
Virgínia da Silva nasceu em Torres Novas em 1850 mas com 11 anos foi viver para Lisboa. FOTO: espólio Museu Municipal Carlos Reis

Em 40 anos de carreira, 27 dos quais no Teatro D.Maria II, Virgínia passa sempre por grandes companhias de teatro e integra inclusive uma dedicada ao teatro moderno, na Companhia Rosas & Brazão. “Ao longo da sua carreira viveu muito bem e casou muito bem”, explica Margarida Moleiro, salientando que, apesar de tudo, Virgínia teve “muita sorte” em termos de carreira. Virgínia “foge aos estereótipos das atrizes da época e do cancan, era uma atriz de grande austeridade, uma senhora”, defende, destacando a sua dedicação ao teatro, ao estudo, à arte, para estar ao mesmo nível que atrizes mais bonitas ou mais exuberantes.

Em 1902 recebeu a Ordem de Santiago, tendo sido a primeira atriz a receber tal distinção. Ao longo da sua vida seria ainda agraciada com outras condecorações e homenagens, algumas delas patentes na exposição no Museu Municipal Carlos Reis.

O seu último papel enquanto atriz sucede aos 70 anos, na sua primeira e única aparição no cinema. A obra foi “O Condenado”, película de 1921 que está dada como desaparecida da Cinemateca Portuguesa, onde contracenou com Almada Negreiros. O filme tem a particularidade de ter sido gravado no Médio Tejo, em Ourém e Tomar (e Batalha) com cenas de uma Festa dos Tabuleiros de 1920.

Nos arquivos do Museu de Torres Novas descobriu-se um pedaço muito pequeno deste filme. Margarida Moleiro não sabe explicar como foi ali parar. É um frame de uma cena com Virgínia Silva, já idosa, no seu derradeiro trabalho enquanto atriz.

O desaparecimento

Virgínia da Silva foi respeitada enquanto atriz até à sua morte, em 1922, mas narra a história que morreu miserável, a viver de espetáculos que organizavam em seu favor e da ajuda de amigos. Alguns meses antes do seu falecimento, o Estado concede-lhe uma pensão vitalícia, que já pouco viria a usufruir. Foi das atrizes que mais tempo se manteve no teatro, escapando ilesa a um certo tipo de vida mais decadente que muitas das suas colegas viviam. Era tida como portadora de um “espírito fidalgo”, com “qualidades de disciplina e de primores de caráter pouco vulgares”, cita a Ilustração Portuguesa.

Porque não a imortalizou então a História?

É aqui que se perde o rasto da vida de Virgínia da Silva. A investigação da equipa de Margarida Moleiro esbarrou com a inevitável falta de documentos de origem privada, que pudessem dar uma personalidade, sonhos, ambições e mágoas à brilhante atriz que encantava os palcos de Portugal e do Brasil. Este foi, aliás, o “primeiro trabalho de fundo” sobre Virgínia da Silva, onde muito ficou por contar. Da atriz há os cartazes, as críticas, as pequenas entrevistas aos órgãos de comunicação de então. Mas quem era a mulher?

O início do desaparecimento de Virgínia dá-se quando deixa o teatro, em 1906, com as peças “O Marquês de Villemer” e “Os velhos” no Teatro D. Maria II. A sua retirada, noticiou-se que “por doença”, foi muito falada na imprensa de então. O que se passou ao certo não se sabe. Mas há muitos palpites e muitas “estórias”, conforme constata Margarida Moleiro, mas nada que possa ser dito em público sem que não venha carregado apenas de boa dose de especulação.

Virgínia da Silva morreu em 1922, após enfrentar grandes dificuldades a nível pessoal. A Assembleia Nacional concedeu-lhe uma pensão vitalícia no ano da sua morte. FOTO: espólio Museu Municipal Carlos Reis
Virgínia da Silva morreu em 1922, após enfrentar grandes dificuldades a nível pessoal. A Assembleia Nacional concedeu-lhe uma pensão vitalícia no ano da sua morte. FOTO: espólio Museu Municipal Carlos Reis

Factualmente apenas se sabe que, sete anos após abandonar a vida artística, Virgínia pede o divórcio a Ferreira da Silva. “Um momento muito penoso que a debilita fisicamente e a nível monetário” e que se vai arrastar por seis anos até ser resolvido. Nesse processo, Virgínia vende muitos dos seus bens, razão pela qual estaria em más condições económicas no final da vida. Desta época há muitos rumores, mas pouco de sabe de facto. Apenas que Virgínia teve a coragem de pedir a separação em 1913 a um homem socialmente bem estabelecido e poderoso, num penoso percurso que a retirou de uma vida cómoda para uma outra, muito modesta.

“No final da sua vida, como começam a perceber as dificuldades económicas, há muitas festas em seu apoio”, salienta Margarida Moleiro, referindo os vários amigos escritores e artistas que rodearam a atriz. A própria Virgínia era uma mulher socialmente muito ativa, envolvendo-se na proteção de atrizes em fim de carreira que não tinham como sobreviver.

Ante uma vida que saiu das altas rodas e se perdeu na sua austeridade e força de caráter, sem o glamour e excentricidade de outras, terá sido, eventualmente, esta a razão pela qual o nome de Virgínia da Silva perdeu inevitavelmente a glória.

Narra uma lenda que, mesmo no leito de morte, não esqueceu o ex-marido, por quem nutria ainda uma grande paixão. Do relacionamento nasceu uma filha, Maria Ema, que lhe deu quatro netos e com quem manteve sempre uma boa relação. Mais pormenores ficaram no passado dos que já não partilham este mundo, ou em eventuais documentos, cartas e textos da própria que estejam perdidos, à espera que Margarida Moleiro e a sua equipa consigam por fim estudá-los e reconstruir a biografia de Virgínia da Silva.

“Estou desejosa de começar a ler coisas escritas pela própria mão” da atriz, confessa Margarida Moleiro, adiantando posteriormente que os descentes de Virgínia da Silva pensam trabalhar numa biografia sobre a bisavó, trisavó e já tetravó. “Embora tenha sido uma lutadora, para levar a cabo o seu sonho, teve imensa sorte porque, afinal, nasceu em Torres Novas”, constata a diretora do Museu. “Acho que devia ser uma mulher que valeria a pena conhecer, porque era uma inteletual e devia ser um gosto falar com ela. Tinha óptimo caráter e dizia-se que não ligava às invejas do teatro. Seria uma pessoa bastante inteligente e íntegra. Fiquei com vontade de estudá-la…”

De Virgínia da Silva há assim ainda muitas histórias por contar e trazer à luz deste século XXI. Do Museu Municipal Carlos Reis é deixado novamente o apelo para que quem se depare com referências a esta atriz torrejana possa comunicar à equipa que está a reconstruir os retalhos da sua passagem pelos teatros portugueses e brasilerios e pela vida social de Portugal.

O mesmo se pede a quem saiba onde pára “O Condenado”, filme mal amado pela crítica mas que representará o único testemunho registado para a eternidade das capacidades e do talento de Virgínia Silva, nos finais da Belle Époque portuguesa.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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