Torres Novas | Junta de Pedrógão descobriu rebanho da Serra morto no estábulo

A junta de freguesia do Pedrógão, Torres Novas, descobriu no final de 2019 o estábulo edificado pela autarquia para acolher o rebanho da Serra de Aire completamente abandonado. O pastor desaparecera, assim como cerca de 30 animais. Os restantes, pouco mais de meia dúzia, estavam mortos. Há suspeita que possam ter morrido à fome e à sede, mas não há confirmação.

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O tema foi abordado pela vereadora Helena Pinto (BE) durante a reunião de câmara de Torres Novas de segunda-feira, 21 de julho, questionando o executivo PS sobre a informação de que o rebanho de “cabras sapadoras” do Pedrógão tinha morrido à fome e à sede. O presidente, Pedro Ferreira (PS), manifestou desconhecer a situação, mas rapidamente um elemento presente no público confirmou o sucedido, adiantando que o caso sucedera há cerca de um ano.

Helena Pinto questionou como se abafara assim um caso destes durante um ano, tendo em conta que o projeto das cabras sapadoras até recebeu dinheiro europeu. Apelou assim à responsabilização do presidente da junta de Pedrógão, Paulo Simões.

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Posteriormente, Helena Pinto encaminhou uma denúncia ao SEPNA – Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente da GNR em que faz uma exposição sobre a informação recebida e o ocorrido na reunião de Câmara de Torres Novas de 21 de julho.

Contactado pelo mediotejo.net, Paulo Simões explicou que o caso das cabras encontradas mortas sucedeu no final de 2019.

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A iniciativa do projeto da cabras sapadoras da Serra de Aire foi efetivamente da QUERCUS, recordou, mas há muito que a instituição se afastou do projeto. O rebanho ficou sob a gestão das duas juntas de freguesias envolvidas, a do Pedrógão e a de Fátima (Ourém).

Da parte do Pedrógão, referiu o autarca, o acordo com a QUERCUS contemplou a parceria com um pastor local, Joaquim Cardoso, que tomou conta dos animais até o estábulo da junta do Pedrógão estar concluído, já em 2017.

“O Joaquim foi para lá, mas o rebanho não aumentava”, recordou o autarca, que via potencialidades no projeto mediante o número de animais crescesse. Ao mesmo tempo “comecei a ficar preocupado com as vacinas, os registos dos animais. Afinal o rebanho era é da responsabilidade da junta de freguesia”.

Joaquim Cardoso acabou por se ir embora, entregando o rebanho ao cuidado da autarquia. Paulo Simões constata que a junta não tinha meios para cuidar dos animais, pelo que se socorreu de um rapaz local, que já convivia com o anterior pastor e tinha experiência com rebanhos, para cuidar do rebanho da Serra de Aire.

Assim permaneceram as coisas durante cerca de um ano, com a junta de freguesia a visitar periodicamente o estábulo. “Os animais estavam bem tratados” e o espaço bem cuidado, salienta Paulo Simões, pelo a autarquia estava tranquila com a solução.

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No final de 2019 a junta de freguesia foi contactada pelo veterinário para se proceder à vacinação, explica o presidente, que no entretanto tratara do registo dos animais. Paulo Simões tentou ligar por diversas vezes ao pastor, mas ninguém atendia. Sem informação do que pudesse estar a acontecer, a autarquia deslocou-se ao estábulo.

“Deparámos-nos com um cenário horrível”, admite Paulo Simões. O rebanho, constituído na altura por cerca de 40 animais, tinha desaparecido. No estábulo estavam vários animais, um pouco mais de meia dúzia, mortos. Houve suspeita de morte por inanição, mas o autarca admite que não se conseguiu confirmar se as cabras morreram efetivamente à fome e à sede ou se morreram de outros causas e o pastor simplesmente as deixou para trás.

Paulo Simões garante que foi o próprio SEPNA que entrou no estábulo, mediante contacto da autarquia, possuindo inclusive um relatório dessa ação. Do pastor não havia sinal, embora posteriormente a junta já tenha conseguido entrar em contacto com ele. As respostas porém, adianta, não são coerentes e o que sucedeu no Pedrógão permanece um mistério, embora cada um posso formular as suas suspeitas.

O presidente adiantou que estavam a tentar perceber o que fazer em relação ao caso quando veio a pandemia, pelo que só na assembleia de freguesia de junho o elenco autárquico ficou saber do fim dramático do rebanho da serra.

“Não sabemos se entramos com um processo” na justiça ou se “seguimos em frente”, comentou Paulo Simões, que entretanto já falou com advogados, constatando que a junta de freguesia tem recursos limitados para entrar nos tribunais com um penoso caso, cujo valor patrimonial é relativamente baixo.

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De toda a situação acabou por ficar o edifício do estábulo, que Paulo Simões avalia por alto nos 50 mil euros e que poderá vir a ter nova utilização.

“Nunca sonhava com um desfecho destes”, afirmou o responsável, lamentando o fim do projeto e referindo que sempre gostou da ideia.

O rebanho da Serra de Aire contemplava inicialmente dois rebanhos de cabras entregues à gestão da junta de Fátima, em Ourém, e da junta do Pedrógão, em Torres Novas. Resultou do projeto “Habitats Conservation – Conservation of natural and semi natural habitats in the Serra D’aire e Candeeiros, co-financiando pelo Programa Life + e dinamizado pela QUERCUS.

Para além da preservação dos habitats da serra, procurou-se com este rebanho fazer um trabalho de prevenção aos incêndios. Tendo já parte das condições, a junta de freguesia de Fátima começou logo em 2012 a desenvolver as potencialidades do rebanho, comercializando inclusive o queijo resultante do seu leite. Pedrógão viu-se envolvido na burocracia e só em 2017 viu concluído o estábulo, que foi financiado também pelo município torrejano.

Em ambas as autarquias, um dos problemas estruturais foram os pastores. A freguesia de Fátima teve imensas dificuldades em manter os pastores ao serviço, os quais mudavam com frequência, até que em março de 2017 a autarquia abateu todo o rebanho, na sequência de uma infeção geral com CAEV (Artrite Encefalite Caprina), “uma doença crónica que debilita os animais, impedindo a sua função zootécnica e levando-os ao sofrimento ao longo do seu desenvolvimento”, referiu na época um comunicado de imprensa.

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O rebanho não chegou a ser reposto. “A junta não tem condições financeiras para adquirir e manter outro rebanho”, explicou em 2018 o presidente da junta de Fátima, Humberto Silva, ao mediotejo.net, salientando que enquanto os animais estiveram a cargo da autarquia as faixas de contenção de incêndios foram sendo limpas.

Para Humberto Silva a grande dificuldade deste projeto registou-se ao nível do pessoal. “São muitas horas, sábados, domingos e feriados, é a ordenha”, enumerou, salientando que é necessária experiência e uma capacidade de gestão e responsabilidade que é difícil de encontrar em simples funcionários.

Humberto Silva elogiou por isso a solução encontrada pela Junta de Pedrógão, que entregou a gestão do rebanho a um particular, tendo conseguido manter o projeto apesar das várias dificuldades. “Se não for o dono, a gestão torna-se complicada”, referiu, preferindo não adiantar mais pormenores.

Em Pedrógão, porém, o rebanho viveu em condições bastante precárias até à edificação do estábulo, com a perda de vários animais ao longo do tempo. Criadas as condições, desapareceram ambos os pastores e acabaram mortos os animais.

Um triste fim para o projeto das cabras sapadoras da Serra de Aire.

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