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Sexta-feira, Setembro 17, 2021

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Torres Novas | Capitão Irina Pinto, “A carreira militar é uma condição, um modo de vida”

Irina de Fátima Henriques Lopes Pinto, 35 anos, é desde 2015 Comandante do Destacamento Territorial da GNR de Torres Novas, a única mulher a deter este cargo a nível distrital. A Capitão, natural do concelho, aceitou falar com o mediotejo.net no âmbito do Dia da Mulher, data que se celebra esta quarta-feira, 8 de março. A entrevista esteve inicialmente marcada para realizar-se de forma presencial, mas problemas de índole pessoal acabaram por resultar numa troca de mensagens e emails. Ainda assim Irina Pinto não se inibiu, respondendo de forma bastante franca e extensa às questões colocadas.

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Mulheres no serviço militar ainda não são muitas e as provas físicas permanecem um dos grandes desafios. Ainda assim, constata a Capitão, foi a luta de muitas mulheres nos últimos 150 anos que permitiu que hoje existam direitos e equidade e o fim das fronteiras das profissões ditas masculinas. O sacrifício é sempre exigido e a responsável sublinha que ser GNR tem que ser encarado como um “modo de vida” e não apenas como profissão.

Contraria assim a ideia que a maternidade é um limitador do crescimento da mulher, ela que tem inclusive uma menina de três anos. Às mulheres deixa uma mensagem de força, para que nunca se esqueçam daquelas que morreram a lutar por aquilo que hoje se tem por adquirido.

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Como é que uma menina chega a Capitão da GNR? Foi um percurso difícil?

Desde que decidi seguir a carreira militar, o percurso foi, de facto, difícil. Quando decidi seguir a carreira militar, o meu objetivo era ingressar na Academia Militar, para ser militar dos quadros permanentes do Exército. Quando acabei o 12.º ano de escolaridade e concorri à Academia Militar, não passei nas provas físicas. Dado que havia a hipótese de me alistar como voluntária, decidi ir para o Exército, no regime de contrato. Estive a fazer serviço na então designada Escola Prática de Engenharia, em Tancos. Concorri novamente à Academia Militar, agora com o objectivo de ingressar na GNR. Ingressei na Academia Militar, sendo a única mulher do meu curso. Os cinco anos do curso da Academia Militar foram muito exigentes, tanto do ponto de vista físico, como académico, mas foram superados com sucesso. Este sucesso deveu-se a um enorme esforço (muito estudo, muito treino, muitas privações…) e ao espírito de entreajuda e camaradagem que se cultiva na Academia Militar. Para se chegar ao fim do curso temos de trabalhar em equipa. Muitas vezes fui ajudada nos exercícios físicos (marchas, corridas, etc.) e muitas vezes ajudei no estudo para as frequências das várias cadeiras que tínhamos.

Foi este o seu objetivo desde jovem?

Não. Esta ideia apenas surgiu quando já estudava na Escola Secundária Artística António Arroio, em Lisboa. No percurso que fazia de comboio desde a minha residência (Sintra) até à minha escola (Lisboa) passava na então Escola Prática da Guarda (agora designada por Escola da Guarda) e via os militares a fazerem exercícios e também as formaturas. Também passava pelo Instituto Militar dos Pupilos do Exército e via as mesmas coisas. Quando fiz os testes psicotécnicos no 12.º ano, o instinto protetor era algo que se destacava na minha personalidade.

Isto despertou-me o interesse pois, apesar de adorar as artes e de ter notas para ingressar em qualquer curso da minha área, a verdade é que nunca foi meu objetivo de vida ser arquitecta ou pintora, por exemplo.

O que ambicionava ser em criança?

Em criança nunca tive o desejo de querer ser alguma coisa em especial. Decidi fazer o ensino secundário numa escola de artes porque acho que tenho uma aptidão natural para esta área. A Escola Secundária Artística António Arroio é uma escola de referência a nível nacional e decidi aprender mais do mundo das artes.

Da sua experiência, como são encaradas hoje as mulheres no serviço militar?

Nos dias de hoje, tenho a sensação que as mulheres são encaradas com mais naturalidade do que há uns anos atrás. Foi no ano de 1996 que as primeiras mulheres ingressaram na GNR. Nas Forças Armadas já existiam mulheres há mais anos mas neste caso a sua visibilidade é muito menor dado que, em maior parte dos casos, as mulheres trabalham dentro dos quartéis.

Na GNR é diferente pois as mulheres fazem serviço nas ruas, em contacto com o cidadão. A GNR ficou a ganhar com o facto de ter mulheres a servir a instituição porque, naturalmente, as mulheres têm uma sensibilidade diferente para tratar alguns problemas. A GNR, sendo uma força próxima, humana e de confiança, necessita de mulheres e homens capazes de estar à altura dos desafios com que se deparam todos os dias.

Há mais equidade no acesso ou a mulher ainda tem que provar que consegue fazer o mesmo que os homens, apesar da condição física ser diferente?

Há equidade no acesso, como sempre houve. Como a condição física é diferente, também as provas físicas de mulheres e homens têm tabelas diferentes, o que considero justo.

Como é encarada quando está em serviço? Consegue impor o mesmo respeito, apesar de estarmos num ambiente rural?

Quando estou em serviço, sou encarada de forma natural, penso eu. O respeito obtém-se pela competência, não pelo género. E ser competente é, entre outras coisas, saber respeitar os outros.

Como encara a celebração do Dia da Mulher? Há quem afirme que o dia nem devia de existir…

Infelizmente, ainda existem pessoas que não conhecem o verdadeiro motivo da celebração deste dia, dizendo que nem devia de existir…Quanto a mim, neste dia relembro as dificuldades que as mulheres tiveram no passado, reivindicando melhores condições de trabalho, equiparando-as às dos homens, por exemplo. Foi graças à sua luta que hoje nós, mulheres, podemos usufruir de alguns direitos fundamentais que agora damos por adquiridos mas que em tempos eram exclusivos dos homens.

Quem mensagem deixa às jovens que gostariam de seguir uma carreira militar?

Que sejam persistentes e que nunca desistam dos seus objetivos. A carreira militar é uma condição, um modo de vida. Não é apenas uma profissão. Para seguir a carreira militar, é preciso gostar realmente do que se faz e ter incutidos alguns valores (espírito de sacrifício, lealdade, obediência, entre outros). Não se pode escolher seguir uma carreira militar a pensar que é uma profissão com um futuro garantido. Ser militar tem de ser a única escolha da pessoa. Não pode ser encarada como sendo mais uma opção…

Quais os seus objetivos de carreira? Até onde gostaria de chegar?

Gostaria tão-somente de chegar até onde a minha competência e dedicação me permitam…

A maternidade ainda é um entrave para um bom percurso profissional?

Na GNR não é, seguramente, um entrave. No meu caso em particular, que sou mãe de uma menina de 3 anos, nunca senti qualquer entrave. O meu percurso profissional tem sido marcado por escolhas feitas por mim, sempre a pensar na conciliação da vida familiar com a profissional.

Ainda há profissões para homens e profissões para mulheres? 

Não, de todo!

O que ainda é preciso para promover a igualdade de direitos?

Neste momento, existe uma igualdade de direitos porque houve grandes mulheres que lutaram pelos direitos de todas as outras.

Neste Dia da Mulher, que mensagem deixa às mulheres?

Que provem que as mulheres que lutaram pelos nossos direitos não o fizeram em vão…

Irina de Fátima Henriques Lopes Pinto, 35 anos, é desde 2015 Comandante do Destacamento Territorial da GNR de Torres Novas, a única mulher a deter este cargo a nível distrital. Foto: DR

 

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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