Tomar | Residências do IPT tiveram de reduzir lotação e estudantes desesperam sem conseguir alugar quartos na cidade

O Instituto Politécnico de Tomar tem 2.300 alunos vindos de mais de 40 países e apenas 120 vagas nas residências no campus

Com início de mais um ano letivo no ensino superior, inicia-se a corrida ao alojamento. Mas em ano de pandemia, e por diretrizes da Direção-Geral de Saúde, as residências escolares viram-se obrigadas a reduzir para metade a sua capacidade, uma vez que os alunos não podem partilhar quarto. O Instituto Politécnico de Tomar tem procurado encontrar soluções através de parcerias com alojamentos locais mas muitos estudantes não conseguem pagar alternativas mais caras, com a agravante de não existir oferta de arrendamento de longa duração em número suficiente na cidade. O mediotejo.net foi alertado para a existência de um grupo de estudantes guineenses que teve de sair das residências do IPT, ficando numa situação especialmente difícil. 

O Instituto Politécnico de Tomar tem duas residências no campus, uma masculina e outra feminina, que têm normalmente 254 camas disponíveis, entre quartos individuais e coletivos. Porém, a DGS impôs em tempo de pandemia de covid-19 que a capacidade deveria ser reduzida para metade, passando a cerca de 120 camas, com a imposição de não existir partilha de quartos.

Em declarações ao mediotejo.net, Rita Anastácio, pró-presidente do Instituto Politécnico de Tomar, explicou que o regulamento prevê dar “prioridade aos alunos bolseiros” e mais carenciados e que têm tentado “encaixar os alunos” [que não conseguiram lugar na residência], promovendo parcerias com alojamento locais.

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Assim, “por ordem de carência”, os alunos foram ocupando as vagas existentes e outros foram sendo encaminhados para a (pouca) oferta privada da cidade mas, reconhece Rita Anastácio, os alunos na sua maioria não aceitaram as alternativas apresentadas, uma vez que “o preço a pagar é superior ao da residência”, onde os alunos não bolseiros pagam entre 109 a 131 euros por mês.

O mediotejo.net teve conhecimento de um grupo de alunos guineenses que ficou descontente por não ter continuado nas residências do campus, onde estavam alojados no ano letivo passado. Porém, a presidência explica que estes são estudantes internacionais que tiveram de atestar ter capacidade económica para frequentar o Politécnico de forma autónoma e sem a instituição ter qualquer obrigação de apoio em termos habitacionais. “Quando um estudante internacional se candidata, tem que comprovar que tem forma de sobrevivência. O que tem acontecido é que os alunos estão a vir, apresentando atestados de como conseguem fazê-lo, e depois na verdade isso não acontece”, argumentou Rita Anastácio.

Campus do IPT em Tomar. Foto: mediotejo.net

“O que aconteceu engloba esses alunos, mas também muitos outros de nacionalidade portuguesa, que tiveram de sair da residência”, disse Rita Anastácio, frisando que alguns dos alunos de nacionalidade guineense não aceitaram proposta de ajuda para permanecerem numa das residências, e outros “nunca procuraram o IPT para encontrar soluções, estando em casa de familiares em Lisboa”.

O Instituto Politécnico garante estar “a envidar todos os esforços para ajudar todos os alunos a procurarem soluções para se alojarem na cidade”, ainda que admita que o problema da falta de alojamento seja premente. Mesmo em circunstâncias normais, antes da pandemia, “as residências estão sempre lotadas, e nota-se que não há muita oferta” nesta área, comentou Rita Anastácio.

O mesmo atesta Hugo Cristóvão, vice-presidente da Câmara Municipal de Tomar e vereador com o pelouro da Educação, que lembrou que este é um constrangimento de longa data em Tomar e noutras cidades do país, mas que não se consegue resolver a curto-médio prazo. O vereador assumiu que a questão foi inclusivamente abordada no passado Conselho Municipal de Educação, que decorreu a 27 de outubro, onde se deu conta da “dificuldade de alunos, não só estrangeiros mas também portugueses, em encontrar alojamento”.

Segundo o autarca, já foram estudadas possibilidades para alargar a oferta de alojamento para estudantes, nomeadamente “uma ala do antigo Colégio Nun’Álvares poder ser transformada em residência, mas verificou-se que o número de camas não iria ser suficiente para ser viável”.

Hugo Cristóvão referiu que há dois investimentos privados em cima da mesa, com vista à construção de residências escolares.

Politécnico de Tomar. Foto:DR

“Um desses investimentos prevê a construção de uma residência de estudantes numa urbanização que está em fase de aprovação, ficando essa residência sob gestão da autarquia ou do IPT”, deu conta. Porém, alerta o vereador, trata-se de uma solução que “não se consegue de um dia para o outro”.

“Não temos uma solução imediata”, lamenta, e o problema agravou-se “com o aumento do turismo no concelho, e em especial na cidade, com muita da oferta de arrendamento que existia a passar a alojamento local”. Assim desapareceu grande parte do aluguer de longa duração que existia, “e muito dele para estudantes”, referiu, indicando que no concelho existem atualmente 166 alojamentos locais licenciados.

As soluções “não são fáceis de criar” e terá de passar pelo equilíbrio entre a oferta de alojamento local e o arrendamento de longa duração. Algo que, apesar de o Município e de o Instituto Politécnico de Tomar tentarem criar parcerias com privados, nem sempre é conseguido.

“Passa muito pela vontade dos privados. Não há forma de podermos ‘obrigar’ a esta tipologia de aluguer de longa duração. É uma solução que não é de fácil alcance para um problema que não existe só em Tomar, existe noutras cidades do país, e a base é muito semelhante: deve-se às preferências mais vantajosas em termos financeiros para os proprietários privados. De facto é-lhes mais rentável outro tipo de alojamento”, reconheceu.

O Instituto Politécnico de Tomar tem um universo de 2.300 alunos vindos de mais de 40 países, e a realidade é que a maioria vai continuar a enfrentar dificuldades para encontrar alojamento no decorrer do seu percurso académico. Na pior das hipóteses, alguns podem optar por sair e enveredar por outro curso, noutra cidade.

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Joana Rita Santos
Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres: o conhecimento e o saber, a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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