Terça-feira, Março 2, 2021
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Sertã | A geografia sentimental e política de Cláudia André

Foi professora de Geografia durante 20 anos e optou por dedicar-se a tempo inteiro à política há precisamente 10 anos, assumindo o lugar de vereadora na Câmara Municipal da Sertã. Acaba de ser apresentada como cabeça de lista do PSD pelo distrito de Castelo Branco, nas eleições legislativas de outubro. Não sabe se viver na Sertã a condicionou a ser geógrafa, ou se ser geógrafa a condiciona a adorar a sua terra. “Se calhar são as duas coisas”, suspira, de olhos postos na Alameda da Carvalha, onde nos encontramos para uma entrevista “à mesa”, mais informal. Na mesa da esplanada acabaria por pousar apenas um café e uma água. O prato principal foi mesmo a conversa.

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B.I.
Cláudia Sofia Farinha André, 47 anos. Nasceu na Sertã a 24/05/1971.
Casada. Tem uma filha e um filho, com 16 e 18 anos, respetivamente.

Geógrafa/Professora de Geografia, licenciada pela Universidade de Coimbra (1993-1997).
Vereadora da Câmara Municipal da Sertã. Teve os pelouros de Ação Social, Cultura, Educação e Turismo (2009-2017) e Floresta (2009 -2013). Foi igualmente deputada da Assembleia Municipal da Sertã (2005-2009).
No currículo recente destaca-se ainda a presidência do Conselho de Administração da empresa Prazilândia, detentora da Praia das Rocas, em Castanheira de Pêra, cargo que desempenhou até setembro de 2018.

Da infância feliz aos estudos

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Nascida e criada na Sertã, tendo saído apenas para estudar no ensino superior, Cláudia André diz ter regressado “logo” à sua terra. Depois de uma infância feliz, passada no bairro da Eirinha, com oito casas, e com muitos garotos vizinhos que formavam bandos e apadrinhavam animais que eram deixados junto ao cemitério, dando-lhes alimento e cuidados, recorda que, desde cedo, se mostrou preocupada com o mundo que a rodeia, mas essencialmente com aquilo que está mal à sua volta e que sente poder contribuir para que melhore.

Concluiu o 12º ano na Sertã, seguindo durante dois anos para Lisboa, para frequentar o curso de Segurança Social. “Regressei porque me senti frustrada no curso, não foi ao meu encontro”, assume ao mediotejo.net. Ficou um ano na Sertã, trabalhando num escritório e numa loja de pronto-a-vestir, e logo percebeu que tinha que se aplicar, visto não ser suficiente para si. “Candidatei-me novamente, entrei em Geografia na Universidade de Coimbra, e fiz a Licenciatura”, conta.

Cláudia André é uma amante da natureza. Foto: DR

Porquê Geografia?

“A Geografia é uma ciência – ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, porque o ensino anteriormente assim o dizia, não é já o mero decorar das estradas, dos caminhos-de-ferro e dos rios e das serras… É a ciência que estuda e analisa todos os fenómenos da superfície da Terra e tenta harmonizá-los”, começou por explicar, deixando naturalmente a veio de docente vir à tona.

Depois de explicar que há a Geografia Física, que diz respeito à natureza, e a Geografia Humana, a docente logo refere achar que “a Geografia é a ciência que faz a melhor conciliação entre estes dois grandes grupos que habitam nesta Terra e parece que andam um pouco em choque”, e esse é um dos pontos que a fascina.

Além do muito trabalho de campo feito durante o curso, terminou o curso com um seminário sobre a adaptação dos edifícios escolares ao clima, expondo que não havia diferenciação na construção das escolas de todo o país.

Feito o estágio pedagógico, entrou de imediato no mundo do ensino. “Ser professora, já nessa altura, era o que é hoje. Em muitos anos de serviço só consegui repetir a mesma escola dois anos consecutivos. Portanto, todos os anos mudava de escola…”, lamenta.

Começou a lecionar em 1997, quando ainda não tinha concluído o curso. Conta já com 22 anos de docência, com intervalos marcados pelo trabalho autárquico.

“Corri uma série de escolas. Havia locais que deixava a chorar copiosamente, já cheia de saudades dos alunos e dos colegas, da comunidade… É muito dramático! Nós integramo-nos e depois é muito difícil desintegrarmo-nos. É óbvio que também houve escolas e sítios que vim a pensar ‘Nunca mais concorro para aqui!’… (risos) Mas é uma profissão que adoro”, diz, sem hesitar.

“é uma profissão mal remunerada, infelizmente, mas é das profissões mais belas que existem. É muito compensador ser professor”

Para a docente, ter à sua frente” 20 pares de olhinhos e 20 cérebros para pôr a funcionar… é um desafio diário”, expressa, sorridente.

Apesar da itinerância a que a vida de professora obriga, diz ter conseguido sempre viver na Sertã, embora às vezes tivesse de alugar um quarto, viajando para a terra natal apenas aos fins-de-semana.

“O mais longe que estive a dar aulas foi no Teixoso ou em Tábua, consegui estar um ano na Escola Secundária da Sertã, e depois vieram os anos que mais me custaram, devo confessar. Foram dois anos seguidos, um em São Vicente da Beira e outro no Fundão. Ia e vinha todos os dias para a Sertã, porque nessa altura já tinha filhos. Daqui para o Fundão são 100 km e para São Vicente são 115 km… Com a agravante de que, em São Vicente, tinha aulas à noite. Eu fazia 200 km por dia durante dois anos. Foi muito desgastante”, desabafa, recordando a luta travada por amor à sua profissão.

Também em Abrantes chegou a dar aulas à noite. “Eu e os não docentes da escola riamo-nos porque éramos nós que fechávamos a escola à sexta-feira, à meia noite.”

Também o fez em Vila Velha de Ródão, mesmo tendo os filhos pequenos, o que nem seria legal… “Senti-me sempre agradecida por ter colocação e também acho que o gosto pela profissão ajudou a ultrapassar esses sacrifícios”, conclui.

O gosto pela sua profissão levou sempre a melhor. Até quando sentiu que a antiga ministra Maria de Lurdes Rodrigues “humilhou os professores”, não respeitando “os sacrifícios desta profissão”. Cláudia André diz que foi devido às políticas desta governante que decidiu aceitar o convite para ser vereadora.

“Sempre achei que não era capaz de fazer outra coisa senão ensinar, mas estava tão desanimada e tão desiludida, tão maltratada pelo Ministério da Educação, que aceitei o desafio”

“Quando me convidaram para integrar a lista, tendo a possibilidade de ser, eventualmente, eleita vereadora… já estava na Assembleia Municipal, gostei sempre do trabalho de intervenção, de identificar problemas, de propor soluções, e nem questionei.” Optou por dedicar-se a tempo inteiro à Câmara Municipal há precisamente 10 anos.

A Sertã e a portugalidade

Não sabe se viver na Sertã a condicionou a ser geógrafa, se ser geógrafa a condiciona a adorar a sua terra. “Se calhar são as duas coisas”, suspira, de olhos postos na Alameda da Carvalha, onde nos encontramos para esta entrevista em jeito de conversa mais informal.

Para Cláudia André, a mística reside no concelho da Sertã e nos concelhos à volta, nas suas características. “Acho que preciso do verde que nos envolve, da natureza, das ribeiras… a Sertã é a portugalidade em si. É tudo o que é tipicamente português!”, considera.

“Os portugueses são valiosíssimos. E tenho muita pena quando começo a ver a aculturação da gastronomia, dos hábitos,… Acho bem que venham novidades, mas não devemos trocar as nossas para pegar nestas. Temos de somar e não subtrair”, entende.

“Adoro o concelho, a vila, porque me traz energia, sol… a Sertã é natureza. Como amo muito a natureza e Portugal, acho que aqui me sinto em pleno”

Começou por se mover por amor à Sertã e por discordar de “algumas coisas” que viu serem feitas, seguindo máximas e conceitos pré-concebidos, tidos como verdades absolutas. Sentiu que fazia falta mais pensamento crítico.

Sempre questionou o mundo que a rodeava. Recorda, por exemplo, uma visita de estudo que fez no 11º ano a uma empresa de pasta de papel. “Os senhores diziam que era tudo uma maravilha, os eucaliptos e a pasta de papel, e que aquela fábrica era ótima, porque dava muitos empregos e pagava muitos impostos. Lembro-me de já nessa altura questionar o senhor… Então e a poluição? O que é que vocês fazem para não poluir?”

Para Cláudia André, a defesa do meio ambiente “tem que ser uma máxima técnico-científica que todos temos que cumprir”, achando que se associa “erradamente” a defesa do ambiente aos partidos de esquerda.

“O planeta é de todos, e todos temos que ter consciência que o temos que preservar. Porque todos nós ficamos sem ele e vamos ter consequências… é uma ideia lógica e básica, não podemos falar em ideologias políticas”, afirmou.

Na sua opinião, a natureza “não tem que ser intocável”, acreditando que “uma boa gestão florestal dá para tudo e tem que dar para tudo”, desde que prime pelos princípios da sustentabilidade.

“Tem que haver boa gestão, para sabermos que neste ano podemos cortar ali, para produção e comercialização. No ano seguinte cortamos além, e já plantámos o que cortámos no ano anterior. Tem que haver uma gestão florestal para também ser produtiva”.

Cláudia André, durante a entrevista Foto: mediotejo.net

E de onde surge o espírito crítico? E os valores que defende?

“Talvez se deva aos meus professores, porque na altura não tínhamos acesso a informação nenhuma… tínhamos dois canais de televisão e o segundo nem se apanhava na minha casa. Esperávamos às seis da tarde que a televisão abrisse para vermos desenhos animados, ao sábado tínhamos a sorte de abrir ao meio dia, e depois dava ‘A Pantera Cor de Rosa’ que era cinzenta, porque não havia cores”, recorda, entre risos.

“Os jornais só chegavam À sertã ao meio-dia ou uma da tarde. Era um sítio onde havia muito pouca informação”

“Talvez aí sim, se deva às minhas professoras de Geografia, lembro-me delas todas”, acrescentou, convicta. Mas também as referências familiares tiveram papel preponderante na sua formação enquanto cidadã que questiona e que quer encontrar respostas para os problemas que vai identificando.

“Os valores foram claramente transmitidos pela família. O meu pai, a minha mãe… o meu pai já não está connosco, faleceu em 2012, mas a minha mãe felizmente está. E mais recentemente, tenho também como referência o meu marido”, vai enumerando.

“São pessoas que estão muito na base da minha estruturação e da minha visão das coisas e não me esqueço da máxima que o meu pai dizia vezes sem conta. ‘Filha, mais vale pobrezinhos, mas de cabeça erguida na rua’. E esta máxima acompanha-me todos os dias”, aludiu, abrindo portas à saudade.

“Recordo-o com muita saudade. Era um homem que, embora com a quarta classe, trabalhava no stock de peças de uma oficina, era muito mais evoluído do que muitos homens no presente. A minha mãe tirou a carta de condução primeiro que porque precisava da carta, e o meu pai não. Era professora primária”.

“[o meu pai] Fazia algumas coisas há 30 anos atrás que muitos homens hoje não fazem. era um homem muito à frente do seu tempo”

“O meu pai cozinhava para as filhas porque a minha mãe estava numa aldeia aí perto e não podia estar, e quando vínhamos da escola ela deixava o almoço preparado, ele vinha primeiro e acabava o almoço para nós”, recorda, não escondendo o orgulho em ter crescido com este amparo.

Quanto à envolvência na vida política, Cláudia André lembra que tudo começou igualmente pela mão do pai. O patrão filiou-o ao PSD no pós-25 de abril. “O meu pai idolatrava Sá Carneiro. Lembro-me de ver a minha mãe a chorar ao ver o funeral de Francisco Sá Carneiro na televisão. Aprendi com os meus pais a admirar Sá Carneiro e a ideologia do Partido Social Democrata”, concluiu.

A igualdade de género: o estigma social e a aceitação na vida política

Quanto a este tema, e vindo de uma família onde todos cooperavam e assumiam as tarefas que tinham de assumir, independentemente do género, Cláudia André diz não ser fundamentalista e crer que “temos que ser vistos todos como seres humanos”, independentemente do género.

“Acho que temos que conquistar o respeito da sociedade, e perceber que a sociedade hoje exige das mulheres o mesmo que exige aos homens, e por esse motivo tem que dar o mesmo às mulheres que dá aos homens”, afirma.

Do ponto de vista social, vê com alguma preocupação o “mediatismo” à volta das mulheres, e só à volta das mulheres.

“Há tanto barulho que não deixa espaço para realmente refletirmos e percebermos que, ninguém faz favor a ninguém, ao preocupar-se com a igualdade de remuneração no trabalho, ou ao preocupar-se com a violência doméstica…”.

E pegando no tema da violência doméstica, entende que está a ser mediatizado demais. “Temos que nos preocupar igualmente com a violência contra crianças e idosos. Temos que nos preocupar com a violência na família, que é um sentido mais lato, mas que realmente existe. Cria-se uma leveza no tratamento dos assuntos, começa-se a instrumentalizar as coisas…”, prossegue, defendendo uma “estratégia concertada, entre todos, desde Ministério da Justiça, da Saúde, do Trabalho, da Educação, da Segurança Social… Mas também deverá incidir na prevenção desta violência em família. Temos de a prevenir, percebendo porque é que acontece”.

Por outro lado, preocupa-se com o facto de algumas mulheres não perceberem esta luta da busca pela igualdade. “Algumas mulheres entendem isto como um show off, que não precisam de nada disto, que são boas o suficiente, não precisam de uma série de medidas e de regras. Se não existissem quotas e medidas deste âmbito, para atingirmos o número de mulheres que temos neste momento em cargos de maior responsabilidade, precisávamos esperar 70 anos!”

“Para já, para obrigar a que a mentalidade e a mudança se faça de forma mais rápida, tem que haver estas quotas”

Ainda que não concorde com as quotas, refere que “são um mal necessário” e espera que o mais depressa possível “sejam retiradas”, e que “um dia cheguemos ao ponto de dizer que já não são precisas, porque a mentalidade mudou e toda a gente chega a todo o lado, independentemente do género”.

“A sociedade não tem de se adaptar às mulheres. Temos todos em conjunto, se calhar, de repensar a família e como é que a sociedade está ou não a respeitar a família e os tempos em família”, raciona, em voz alta, enquanto encadeia as suas ideias sobre o tema.

Quanto à disponibilidade das mulheres, ao contrário do que se faz crer, existe. “A aceitação das mulheres na política, publicamente é ótima, no privado se calhar não é assim tanto… Penso que há diferenças entre o mundo mais urbano e o mundo mais rural, mas ambos têm uma coisa em comum. Que é a necessidade de a mulher precisar de provar e fazer um esforço muito maior para mostrar que é tão credível como um homem?”. Isto acontece, diz, devido a “um estigma social, tal como o estigma do interior, porque as pessoas imaginam o mundo rural dos anos 70. E com as mulheres é igual.”

“Quando eu estava com o senhor Presidente da Câmara num sítio onde não nos conheciam, as pessoas deduziam uma de duas coisas: ou eu era filha, ou era secretária. Nunca imaginavam que podia ser a vereadora da Câmara Municipal onde ele era Presidente”, constata, com alguma mágoa.

Ainda assim, este estigma não chega a todos os meios, como é o caso da Educação. “Toda a gente encara um professor ou uma professora da mesma maneira. E os próprios alunos tanto respeitam uma mulher que é professora como um homem professor”, considera.

“Há um trabalho muito grande a fazer e as próprias mulheres também têm que se mentalizar que têm um papel importante na família, e que elas próprias não são mais importantes que os maridos para os filhos, para a casa”.

Lembrando-se de um encontro em que integrou um painel de debate, juntamente com Maria do Céu Albuquerque, Cláudia André lembrou uma frase dita pela atual Secretária de Estado do Desenvolvimento Regional (então na qualidade de Presidente de CM Abrantes) com a qual se identificou. “Quando vamos convidar um homem para uma lista, ele pergunta para que lugar. E quando vamos convidar uma mulher para integrar uma lista, a mulher pergunta o que é que é preciso fazer. E esta é a grande diferença entre homens e mulheres na política”, citou.

Para Cláudia André, grande parte das mulheres estão na política “por causas, para trabalhar, mas aos homens, além do trabalho e das causas, interessa-lhes também o exercício do poder”.

Às mulheres também interessa, concede, “mas põem à frente disso outros princípios e causas, o que as torna mais lutadoras, teimosas, persistentes”.

Coordenadora das MSD Sertã (Mulheres Social Democratas – movimento que tem por finalidade a promoção e defesa da igualdade de oportunidades entre homens e mulheres), diz ter trazido o movimento para o concelho precisamente por este motivo. Com tomada de posse a 17 de julho de 2017, já haviam começado desenvolver ações e atividades em janeiro de 2017. “Este movimento surge pelo estigma e dificuldade que há em olharem para as mulheres como seres políticos. Acho que, no concelho, era inconcebível na cabeça das pessoas uma mulher ser presidente de junta, e felizmente agora é banal”, mencionou.

Ser coordenadora das MSD “foi também agarrar as mulheres que conhecia e que sabia perfeitamente que o seu espírito de guerreira era um espírito que as levaria à política de uma forma sã, e por isso temos trabalhado em muitas temáticas, para conseguirmos afirmar as mulheres na política neste concelho”. Mas “ainda há muito trabalho para fazer… Muito, muito, muito”.

Sobre o convite para integrar a estrutura nacional do PSD

Com o atual líder do PSD, Rui Rio. Foto: DR

“Nunca me tinha passado pela cabeça, não era um objetivo. Até porque, na própria estrutura local do PSD, eu fui chamada muito remotamente para o último lugar da lista”.

Foi assim que Cláudia André começou por referir-se àquele que foi, certamente, o convite mais marcante (até ao momento) que lhe fora feito nas lides políticas.

“Sempre tive todo o gosto em participar em eventos políticos, comícios, jantares… e nunca me passou pela cabeça outra coisa que não a minha colaboração enquanto militante de base”, admitiu.

Tal surgiu após a demissão de Passos Coelho, e após ter abdicado dos pelouros que tinha na Câmara da Sertã, estando já naquela altura a lecionar em Ponte de Sor.

“Quando surgem os dois candidatos para a direção do partido, e a dada altura, liga-me a o mandatário distrital de apoio ao Dr. Rui Rio a perguntar se eu estaria disponível para ser mandatária no concelho da Sertã”, começou por recordar.

“A minha reação foi dizer que iria pensar. Portanto, pensei que estava livre de decidir por quem entendo. E ponderei quais os prós e contras entre os candidatos, e decidi por quem acreditei que seria o melhor presidente de partido”, disse.

Mais tarde, também as estruturas das MSD estavam a ponderar quem deviam apoiar, e foi feito um encontro nacional para ouvir ambos. Foi nesse encontro que Cláudia André percebeu quem iria apoiar.

“Pela forma de pensar, pelas ideias, vi que o Dr. Rui Rio ia ao encontro da minha forma de ver as coisas. E ali decidi que iria apoiar o Dr. Rui Rio, impondo uma condição: só seria mandatária se viesse à Sertã. Porque a Sertã não se lembrava que ele tivesse cá vindo. Não só veio cá, como ficou para almoçar, tivemos uma estrutura de cerca de 50 pessoas num almoço de apoio”, lembrou.

Depois foi feito o convite para integrar a direção do Partido. “Obviamente aceitei com todo o orgulho e honra, e lá estou muito satisfeita e cada vez mais convencida que temos o melhor presidente que podia existir e que Portugal tem a quase derradeira hipótese de escolher um Primeiro-Ministro certo”, indicou.

Quanto a Rui Rio, descreve-o como “uma pessoa séria”, e que tem uma visão integrada do país. “A prova disso é que tem corrido o país todo, seja em reuniões do PSD, seja por ele próprio – e preocupa-se com o país de igual forma”, duvidando que algum líder partidário, pelo menos do PSD, tenha feito tanto pelo país todo. “É um homem que está preocupado em identificar os problemas e em encontrar soluções para eles”.

Lembrou ainda o Conselho Estratégico Nacional, o qual integrou, e que envolveu quase duas mil pessoas. “Não foi para discutir lugares em lista nenhuma. Não estivemos ali para estar a medir forças nem poderes, nem com interesse, a não ser um: discutir conhecimento, experiências, perspetivas e visões sobre as diferentes áreas técnicas das diferentes partes do país”.

“Identifico-me com a visão de rui rio, penso como ele e partilho 95% das orientações e visões sobre os assuntos”

“Sinto-me ouvida, e completamente concretizada nesta equipa de trabalho, ainda mais sentindo que muitas das minhas posições ou sugestões foram atendidas e acatadas pelo partido”, demonstrou, com brilho evidente nos olhos.

Ainda assim, os laivos de humildade vão aparecendo nesta e naquela expressão. “Devo confessar que senti alguma timidez, por não estar habituada a andar assim nestes campeonatos. E ainda hoje sinto, porque lido com pessoas que têm carreiras políticas monstruosas e eu respeito imenso todas essas pessoas, e acho que têm tanto mérito que eu tenho que me reduzir à minha insignificância, porque sou “pequenina” a nível político, académico…”, justifica.

Por outro lado, admiração também é uma das emoções que vive quando se depara com figuras ímpares e de destaque, caso de Graça Carvalho, “que tem um percurso académico distinto, bem como um currículo vasto e diversificado, ao que acresce o facto de ser uma pessoa extraordinária”.

“São pessoas inspiradoras, e com elas tenho que aprender muito. Sinto-me muito feliz quando estou junto a elas, transmitem sempre tanto e acrescentam tanta coisa a nós. É um grupo de trabalho que constrói, que acrescenta. De envolvimento de todos, e todos contribuímos e sentimos que a nossa prestação faz a diferença e está ali a ajudar”, descreve.

Quanto ao futuro, Cláudia André diz saber o que não quer e diz que não tem ambições. “Tenho ideias que gostaria de ver concretizadas. Para tal, se algum dia o conseguir, terei que passar por alguns lugares e caminhos… Mas se não concretizar não tem mal nenhum”.

Em reconhecimento da sua postura e trabalho, foi apontada como cabeça de lista do PSD pelo distrito de Castelo Branco, nas próximas eleições de outubro à Assembleia da República.

Algo que considera ser “um desafio de muita responsabilidade e honra” que parte da “confiança do presidente do PSD” para representar o distrito.

Com Rui Rio. Foto: DR

O peso da responsabilidade aumenta, tendo por base “os múltiplos desafios que surgem no distrito de Castelo Branco”, nomeadamente no que toca ao défice e dificuldade de acesso aos serviços, bem como a necessidade de aposta e investimento em diversos setores com vista à criação de emprego e que, por sua vez, funcione como motor de fixação de população na região.

As fileiras com potencial “desaproveitado”, que merecem a atenção da candidata, são a floresta, agricultura, agro-alimentar e agro-pecuária, funcionando como motor de muita da indústria. Também o turismo, no seu entender, merece ser melhor aproveitado, contribuindo para a dinamização e promoção não só do território, como do país.

“O distrito de Castelo Branco está sub-aproveitado, o país não tem olhado para estas regiões do Interior com a atenção devida, e julgo que se isso já tivesse acontecido, já estaríamos a contribuir para acrescentar riqueza”, defendeu.

Também no âmbito das medidas para atenuar as alterações climáticas, o distrito poderá assumir especial importância, “não só pelo desenvolvimento de projetos de energias renováveis, como pela reflorestação e captura de carbono”, referiu, dando algumas das ideias por si defendidas para a região.

O que mais a aborrece: a hipocrisia, a mentira e o desprezo e desdém de alguém para com o outro.

“O que mais me tira do sério são duas coisas: a primeira, e a mais importante e que mais abomino, é a mentira, a falsidade… A calúnia, o diz-que-disse mas inventando, e acrescentando coisas nefastas, seja de factos, seja de pessoas. Para mim é desprezível. Seres humanos que conseguem fazer isto são muito medíocres.

A discriminação de um ser que se acha superior ao outro, seja lá por que motivo for. A altivez, o rebaixar os outros e a falta de capacidade de olhar para o outro como um ser igual, que merece a mesma preocupação e as mesmas coisas que qualquer um de nós. Quem trata o outro como um ser menor, não é uma pessoa digna”.

O que mais lhe dá prazer: Lutar por uma causa.

“Dá-me prazer lutar por algo que eu acredito”, e no dia-a-dia, na vida prática, “dá-me prazer ver o horizonte, seja no cimo de uma serra, seja na costa a olhar para o mar, seja num ponto alto a olhar para as serras… dá-me muito prazer ver o horizonte sem fim, a perder de vista”.

Sonhos por concretizar: “Sonho um dia fazer a diferença na vida de pessoas com dificuldades, não interessa como, onde, de que forma… Havia um sonho que tinha e ainda não cumpri, que era ir para África ajudar nas escolas e nos hospitais, fazer ajuda humanitária. Não cumpri esse sonho ainda. Mas sonho poder fazer a diferença na vida de pessoas que estejam a sofrer. Não sei a sofrer de quê, se de guerras, fome, desprezo… Ajudar pessoas e acrescentar na vida das pessoas. Acho que é um sonho que um dia vou conseguir cumpri-lo, faço o esforço de todos os dias aproveitar para o fazer, pessoa a pessoa, e através da escola temos essa oportunidade também, porque infelizmente também temos alunos em dificuldades, sejam financeiras, sejam familiares, etc…”

A nível pessoal, “também sonho ver os meus filhos bem, mesmo profissionalmente, é o que ambiciono para me sentir concretizada”.

Sobre os direitos dos animais: 

“Detesto que haja desrespeito por qualquer ser vivo, seja planta, seja animal… Maus tratos nem pensar. Não gosto de ver pássaros nas gaiolas, acho horrível, e penso que o sitio deles é nas árvores. Não gosto de ver cães presos pela coleira numa corrente. Não gosto de ver os animais sem serem livres e à vontade”.

Conselhos para enfrentar o futuro:

“Digo aos meus filhos, e também aos meus alunos, que todos somos capazes de ser bons nalguma coisa que fazemos. Nós podemos fazer diferença, e não interessa em quê. Podemos ser excelentes médicos ou excelentes carpinteiros. Interessa que sejamos bons no que fazemos, não interessa a profissão que desempenhamos. O orgulho tem de estar em fazermos muito bem aquilo que fazemos. Depois, digo-lhes que devemos ser pessoas que saibam respeitar os outros, porque se não soubermos fazê-lo, não sabemos respeitar-nos a nós próprios. Os outros são tão importantes como nós, independentemente da condição em que estão. Também lhes faço ver que tudo o que fizerem hoje, é óptimo para mim, enquanto mãe fico muito orgulhosa, mas é muito importante é para as suas vidas futuras. Que se esforcem para, no futuro, poderem ser aquilo que gostam e que querem. Acima de tudo, temos de ter respeito por tudo e por todos”.

Quanto aos filhos…

Não é um tema que goste de partilhar publicamente. Mas o orgulho de mãe falou mais alto e contou alguns pormenores, nomeadamente sobre a não-relação de ambos com a política. 

“Eles são completamente diferentes de mim e, para já, não querem saber nada de política. E eu respeito perfeitamente. Depois, quando lhes digo onde vou, questionam em que qualidade vou… Às vezes ficam baralhados. Mas estando mais tempo por casa, não estando a tempo inteiro na autarquia nos últimos tempos, souberam aproveitar esta estadia mais calma. Mas encaram com a maior das naturalidades… Para eles eu sou a mãe. E tudo o resto, passa-lhes ao lado, mas se me vêem aborrecida com algo, não me perguntam diretamente sobre o assunto, mas tentam distrair, mandam umas piadas, para me deixar mais descontraída ou mais feliz. Mas não se envolvem noutros assuntos. Têm-me como mãe, e desfrutam de mim. Não misturamos nada. Dois campos separados, interligados em mim, mas na prática completamente separados”.

Otimista, pessimista ou realista?

“Pessoa otimista, sem dúvida. Se não acreditarmos no melhor não o conseguimos atingir. E se não o atingirmos, temos de encontrar outra forma de resolver o assunto.

Temos que acreditar no melhor das pessoas, no melhor dos acontecimentos, no melhor caminho, na melhor forma de chegar e de ser… Temos que acreditar sempre no melhor e trabalhar para ele, para conseguir. Se acreditarmos no oposto, nunca lá vamos chegar”.

Pessoas inspiradoras: além da figura do pai e da mãe, admira muita coisa em Gandhi, em Nelson Mandela, “enquanto sumidades morais” para seguir. “Admiro-os mas inspiro-me nas referências que tenho, nas causas em que acredito.”

E músicas inspiradoras?

“Há músicas que me inspiram! Que me dão força. O básico dos anos 80, rock e pop-rock.” E como referência surgem bandas como U2, Guns’n’Roses… “Gosto muito de música brasileira, Adriana Calcanhoto, Elis Regina.”

Depois de um dia mau, a música que a ajuda a aliviar é “Where the Streets have No Name”, dos U2. “A nível de música portuguesa gosto de fado, adoro Dulce Pontes”. E logo lembrou Vânia Fernandes e a música que levou ao Festival da Canção, reiterando que tinha uma grande voz e que esta é uma das músicas que a revitalizam depois de um dia de trabalho ou que transforma um dia difícil num dia fácil.

“Sou péssima a cantar! Costumo dizer aos meus alunos que começo a cantar como castigo, caso não se portem bem… Mas já fiz rádio”, contou.

“Era uma rádio pirata, o que era normal naquela altura, tinha 16 anos. Tínhamos uma rádio concorrente à Condestável, ambas piratas na altura. Eu fazia parte da Rádio Clube Sertã, começou no Clube, numas águas furtadas muito velhas, cheias de teias de aranha. Depois passámos para um apartamento, e eram as duas rádios da terra. Depois com a nova lei, que acabou com as rádios piratas, fechou. Mas eu fazia os anúncios todos, com outro locutor, o Paulo, que é trabalhador da Câmara. E tinha um programa com uma amiga minha, ao sábado à tarde. Na altura tínhamos os discos de vinil, fazíamos a mistura dos discos com dois pratos, tira uma música, põe outra… Adorei fazer rádio!

“Eu gosto de dizer que, um dia que deixe a política, vou fazer rádio. Eu tenho de ter um programa de rádio, seja em que rádio for”

Foi daquelas coisas que ficou no goto. “Acho que um dia hei-de arranjar alguém que me dê uma horita, nem que seja numa altura em que não há audiência nenhuma (risos)”.

Não gosta de desporto, mas adora dançar

“Tenho três desportistas em casa: marido e filhos. Chateiam-me imenso para fazer desporto, porque já estou na idade de tratar da saúde… Mas não gosto”, diz, sorridente.

“Volta e meia faço um esforço para fazer uma pequena caminhada… vou levar o lixo com os cães e passeio um bocadinho, dou uma volta maior do que a distância do contentor. E faço um ‘esforçozito’ para caminhar 500 metros (desata à gargalhada). Reconheço que o devia praticar mais, mas não gosto”.

Por outro lado, há uma atividade física pela qual tem preferência: dançar. “Não é fácil na Sertã. Não há danças de salão, há o zumba, mas para mim não é bem dançar… Quando cheira a desporto eu fujo! Já nem na piscina coberta me aguentei, estive lá três meses e vim embora, tinha muito frio (era desculpa, mas pronto…). A seguir, também fiz aeróbica… Não consigo apaixonar-me pelo desporto”, assume, em jeito de lamento.

“Também já disse que um dia que tenha mais tempo e que deixe a política, vou para um rancho folclórico, que é algo que aprendi a gostar, especialmente ao ser vereadora.”

E porque gostaria de fazer parte de um rancho? O que é que a cativa?

“Por causa da dança, da sincronização… Eu gosto de juntar o exercício físico à música, e depois aquele espírito de grupo, a boa disposição, e o dançar. Eu gosto de dançar, mas nunca dancei. A minha filha adora dançar também, e frequenta aulas de ballet, e é pena não termos outras estruturas que lhe dessem um bocadinho mais. Eu gosto de dançar aquela música popular mesmo… O meu pai tinha duas filhas, mais a esposa. Os meus pais eram conhecidos nas festas de arraial, quando eram novos, antes de casarem e terem filhos, diziam que era “o casal dançante”, porque mal entravam numa festa, começavam a dançar e só paravam quando se iam embora. Deve estar nos genes”.

Dentro da portugalidade, algo que lhe traz indignação...

“Andamos muito preocupados em preservar cultura, de certo estilo, em trazer culturas de outros países, e só porque é associado ao mundo rural, há um completo desprezo do rancho folclórico e do folclore português. E eu acho que merecia muito mais atenção por parte das entidades competentes, a parte dos ranchos folclóricos e das bandas filarmónicas”, começa por explicar o seu ponto de vista.

“É o autêntico ser português. Têm um papel social, lúdico, pedagógico, educativo, além do cultural. E não estamos a cuidar deles como devíamos, e já estou a falar do ponto de vista nacional. Até porque acho que as autarquias têm sido a salvação desta gente toda, se não fossem as autarquias, talvez já tivesse acabado de vez…”, admite.

E ainda que não tenhamos cumprido à risca o habitual brinde da rubrica “À Mesa com…”, do nosso jornal, ainda assim ficou no ar o propósito para tal.

Ao que brindaria?

“À vida! Acho que às vezes nos esquecemos da preciosidade que temos. Distraímo-nos tanto com coisas, boas ou más, que nos esquecemos que o bem mais importante que temos é a vida. E esquecemos do quão delicada é a nossa vida, como a podemos perder num segundo, de qualquer forma, em qualquer idade, em qualquer momento e em qualquer sítio… Mas se tentarmos ter isso presente, de forma mais ou menos consciente, acho que conseguimos ser muito mais felizes. Porque a saboreamos verdadeiramente. A vida é fugaz e temos que celebrar todos os momentos que temos na nossa vida.”

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres: o conhecimento e o saber, a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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