Sardoal | Pedro Gonçalves, o fundador de uma das melhores startups de turismo do mundo

Pedro Gonçalves, um dos trE^s fundadores da HiJiffy, em Sardoal. Créditos: mediotejo.net

A HiJiffy, startup portuguesa de inteligência artificial vocacionada para hotéis, venceu o prémio de solução mais inovadora de 2020, na segunda edição dos prémios para novas empresas tecnológicas da Organização Mundial do Turismo, das Nações Unidas. Validou-se assim como uma das melhores startups do mundo na indústria do turismo. Um dos três fundadores é de Sardoal. Pedro Gonçalves, licenciado em Matemática Aplicada e Computação, desenvolve este projeto desde 2016 juntamente com Tiago Araújo, do Porto, e José Mendonça, da Vidigueira. O mediotejo.net quis conhecer o percurso profissional do sardoalense. Fala de um caminho de persistência e trabalho árduo até alcançar o sucesso. A empresa tem sede em Lisboa, mas Pedro acredita que poderia funcionar em Sardoal, até porque a tendência para o trabalho remoto é uma realidade.

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Criada no final de 2016, já se encontra presente em mais de 14 países e conta com mais de 500 hotéis como clientes, tendo em Portugal como clientes cadeias hoteleiras como os NAU, PortoBay, Martinhal e Grupo Pestana, no estrangeiro com propriedades da Marriott e Grupo Accor. A empresa de Pedro Gonçalves, natural de Sardoal, está a crescer em outros países e por isso vai abrir escritórios em Barcelona, Paris e Bangkok até 2021.

Pedro, 33 anos, estudou na vila até ao ensino secundário e depois seguiu para a capital onde se licenciou em Matemática Aplicada e Computação no Instituto Superior Técnico. Escolheu ficar em Lisboa muito pelo vontade empreendedora de criar algo inovador. Trabalhou na RTP onde esteve um ano e meio no departamento de audiências e depois decidiu sair para abraçar a área de marketing digital (venda de publicidade online). Nessa empresa conheceu os dois sócios com quem fundou a HiJiffy; Tiago Araújo, do Porto (30 anos) e José Mendonça, da Vidigueira (41 anos).

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Os três fundadores da empresa HiJiffy. Pedro Gonçalves, de Sardoal, à direita sentado na cadeira. Créditos: HiJiffy

“Nunca fiz nada diretamente relacionado com a licenciatura. O meu pai foi professor de Matemática e talvez tivesse sofrido essa influência. A ideia de tirar o curso passava pela capacidade de poder ajudar a pensar, a abrir horizontes e poderia servir para múltiplas áreas o que acabou por acontecer. Deu-me muita bagagem em termos de organização de raciocínio e pensamento abstrato”, explica Pedro Gonçalves ao mediotejo.net.

A semana é vivida em Lisboa, a trabalhar, guardando os fins-de-semana para a família, incluindo o filho pequeno, em Sardoal. “Só me sinto em casa quando venho a Sardoal. Quando ando pelas ruas sinto mesmo que estou no lugar a que pertenço. Em Lisboa estou por obrigação profissional. E não sou aquela pessoa que diz não gostar do campo, que é uma vida parada… Não tenho essa perspetiva sobre a nossa região”, nota.

A startup da qual foi fundador e na qual trabalha, a HiJiffy empresa de inteligência artificial vocacionada para hotéis, venceu o prémio de solução mais inovadora de 2020, depois de selecionada entre cerca de 5000 candidaturas, de 150 países. Portugal, no total, viu três startups selecionadas: também a Live Electric Tours premiada na categoria de sustentabilidade, por gerir um serviço de aluguer de pequenos carros elétricos nas cidades de Lisboa, Porto e Évora. E ainda a startup LUGGit.

Tiago Araújo na cerimónia da entrega do prémio em Madrid. Créditos: HiJiffy

Pelo segundo ano consecutivo, a Organização Mundial de Turismo (OMT) lançou a maior competição mundial de startups em turismo. Este concurso faz parte de várias iniciativas da OMT no sentido de promover um setor de turismo mais competitivo e sustentável. Esta competição abriu um convite a startups de todo o mundo para mostrar como estão a trazer a inovação para o setor de turismo.

De entre 5000 candidaturas, as 16 principais startups selecionadas apresentaram ao vivo as suas ideias com prémios nas categorias de Smart Mobility, Disruptive Hospitality, Innovative Tourism Solutions, Deep Tech, Rural Development Smart Destinations e ainda UNWTO Special Award for Sustainability.

Como vencedores de um galardão com a dimensão das Nações Unidas, “foi uma grande alegria! É o culminar de mais de 3 anos de trabalho e apesar de não haver nenhuma componente financeira, ou prémio monetário, dá uma grande visibilidade à solução que se refletiu na prática, com muito mais volume no nosso site desde então, muitos mais contactos de potenciais interessados e depois dá uma confiança ao mercado. Agora não somos só nós a dizer que temos uma boa solução, o prémio valida isso”, refere Pedro.

Antes de iniciaram esta aventura, os três jovens contavam com um emprego estável. “Gostávamos do que fazíamos mas sentíamos que faltava qualquer coisa. Trabalhávamos juntos há seis anos, em áreas complementares, o Tiago trabalhava na parte comercial, José estava responsável pela tecnologia da empresa e eu sendo de Matemática fazia a ponte entre as duas áreas. Víamos que nos complementávamos muito bem. A empresa tinha resultados muito bons com faturação ao nível de um milhão de euros por mês com uma equipa pequena, permitia ter bons salários e boas comissões o que permitiu amealhar algum dinheiro” para o que se seguiu, conta.

No Pedro e nos parceiros morava o “bichinho” do empreendedorismo e a paixão pelas viagens embora, admite o jovem “quando saímos da empresa não sabíamos muito bem o que íamos fazer. Foi um passo no escuro, sabíamos que queríamos tentar a nossa sorte e que com os três possivelmente iria resultar”. No currículo contava com uma experiência, uma aplicação para a rede social Facebook na qual trabalhou sozinho durante um ano, mas “acabou por não ter muito sucesso”.

Assim, em novembro de 2015 partiram para Dublin onde decorria a Web Summit com o objetivo de “começar a viver o espírito das startups. Foi uma experiência gira!”, lembra.

Solução para hóteis da HiJiffy que mereceu o prémio da Global Tourism Startup Competition organizado pela Organização Mundial de Turismo. Créditos: HiJiffy

E a história mostra, incluindo da tecnologia, que as soluções com maior sucesso, por norma, parecem simples de conceber. “É sempre mais fácil falar à posteriori, depois de existir, e isso também acontece com as empresas. Aplicações como o Facebook, agora aprece óbvio que ia funcionar mas acabou por ser pioneira. Também somos pioneiros porque quando começamos não havia ninguém que fizesse isto e entretanto já há 3 ou 4 empresas” a trabalhar em projetos semelhantes.

Antes da HiJiffy, os três lançaram-se numa primeira experiência, constituindo uma startup cujo negócio se baseava na disponibilização de guias de viagem personalizados para turistas. Mas também esse projeto fracassou. “Percebemos que quase ninguém estaria interessado nesse tipo de solução porque as pessoas preferem viajar quase ao sabor do vento do que ter planos definidos, ainda assim lançamos o projeto online”, refere Pedro.

Em agosto de 2016, na tentativa de vender a tal solução aos hotéis, deparam-se com uma realidade que viram como possibilidade real de mercado: os hotéis tinham um problema de comunicação com os hóspedes. A solução passava por “conseguir ter um assistente num chat que ajudasse no processo de reserva e respondesse às perguntas mais frequentes dos hóspedes”.

Assim, a HiJiffy ajuda os hotéis a aumentar o número de reservas diretas ao mudar a forma como comunicam com os hóspedes, oferece um assistente de reservas via chat, com tecnologia inteligência artificial, e uma plataforma completa que permite aos hotéis gerir todos os seus canais de comunicação de forma automatizada e centralizada.

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A solução tem, por isso, três vertentes fundamentais: centralizar, automatizar e embeber todo o apoio ao cliente dos hotéis. “Centralizar porque juntamos todos os pontos de contacto dos clientes com os hotéis, fica tudo numa única plataforma, uma espécie de agregador de canais. Antes de passar para o hotel passa pela inteligência artificial da HiJiffy: sempre que há uma pergunta muito simples, o sistema responde automaticamente. Nos casos de perguntas mais complexas, transferimos para o hotel”, explica, falando de “uma redução enorme” do número de contactos com que o hotel tem de lidar.

Basicamente por cada 100 mensagens que o hotel recebe, 70 são tratadas pela solução e as restantes 30 continuam a necessitar de resposta personalizada.

Pedro explica que no caso da HiJiffy houve “uma abordagem mais pragmática, ou seja, começar a vender ao mesmo tempo que estávamos a desenvolver. Começou logo a ter sucesso e conseguimos vender a solução a alguns hotéis. Uma área completamente diferente para nós mas onde vimos que havia um caminho a percorrer”.

Empreender e desenvolver novos negócios é sempre uma aposta de risco, mas devido aos bons resultados iniciais, em novembro de 2016, uma aceleradora de Barcelona interessou-se pelo projeto, investiu na empresa o que permitiu que Pedro, Tiago e José tivessem um salário e apoio no crescimento da empresa. As aceleradoras são responsáveis por otimizar as operações das startups, bem como prepará-las para um enorme crescimento das receitas com o mínimo de recursos possível. Os três fundadores, permaneceram em Espanha até fevereiro de 2017.

Solução para hóteis da HiJiffy que mereceu o prémio da Global Tourism Startup Competition organizado pela Organização Mundial de Turismo. Créditos: HiJiffy

Conheceram, em Barcelona, o seu principal adviser (conselheiro), um ex-diretor de crescimento do Twitter. Com esse investimento “houve uma validação do mercado e mais portas abertas para falar com mais hotéis, mais investimento sobretudo de capitais espanhóis” que permitiu a contratação de outras pessoas para além dos três fundadores. Atualmente trabalham na HiJiffy 8 pessoas, no escritório da Avenida das Forças Armadas, em Lisboa. A capital “acabou por ser um ponto de encontro e aí fazer a nossa base”, diz Pedro.

Mas reconhece que a empresa poderia funcionar no Sardoal. “Com algumas dificuldades, certas reuniões são mais facilitadas em Lisboa com os hotéis da região, mas reunimos com hotéis de todo o País até porque a ambição da HiJiffy é global e não nacional” observa.

Neste momento, grande percentagem da faturação chega de países estrangeiros, 40% do fundo de negócios chega de fora de Portugal. “Temos clientes em 14 países diferentes. E nesse sentido seria completamente indiferente estar em Lisboa ou em Sardoal. Há uma questão que no interior seria mais difícil: a captação de talento. É uma das grandes dificuldades. Não sei se seria impossível, mas seria certamente mais difícil” nota.

Além de Portugal, Espanha, França e o mercado asiático são de eleição. Este último “acabou por ser muito relevante. Não fomos especificamente atrás de clientes mas acabaram por falar connosco porque sentiam mais necessidade desta solução do que os hotéis da Europa. O uso de mensagens para falar com amigos e com empresas está mais implementado na Ásia do que na Europa”, indica.

Atualmente contam “com métricas muito interessantes”. Recentemente fecharam com o Grupo Pestana e neste momento a solução está online em todos os hotéis do grupo. Quanto ao futuro “sentimos que precisamos escalar internacionalmente, não podemos ser só a solução mais relevante nesta área em Portugal queremos ser mundialmente relevantes, queremos garantir que ninguém é mais rápido do que nós, com inovações, a melhor tecnologia, as pessoas mais qualificadas, tudo isso conta”.

Os três fundadores da empresa HiJiffy. Pedro Gonçalves, de Sardoal, à esquerda. Créditos: HiJiffy

Financeiramente a HiJiffy apresenta-se como uma empresa sustentável e poderia continuar a crescer lentamente mas a opção será outra, de aceleração do seu crescimento para aumentar a implementação no mercado, apresentando-se como uma referência, na área de comunicação de hotéis. Para tal elaboraram uma nova ronda de financiamento com investidores exteriores, na ordem dos milhões de euros. A ideia é passar rapidamente de 8 colaboradores para 20.

A solução “funciona também em muitas áreas diferentes dentro da indústria do turismo. Podemos expandir dentro de dois ou três anos para companhias aéreas, restaurantes, agências de viagens. É a nossa ambição, o próximo passo de crescimento”, avança.

E hipoteticamente, trocar Lisboa por Sardoal definitivamente… pelo menos no que toca a residência permanente. Pedro vê-se “a viver no Sardoal! Gosto de alguns aspetos da vida urbana: da cultura, espetáculos, mas por outro lado gosto da calma da vida rural. Quem sabe daqui a uns anos… se por algum motivo deixar a HiJiffy via-me perfeitamente a abrir um negócio na região. Não um negócio vocacionado para a região mas com uma ambição mais global. É possível recrutar pessoas para trabalhar remotamente. Pode ser o futuro e uma solução muito importante para as áreas mais despovoadas sobretudo com a pressão imobiliária que há nas grandes cidades”.

Fala dessa “tendência” de talentos procurarem o interior do País para obterem maior qualidade de vida. “Cada vez conhecemos mais casos e ouvimos falar de mais pessoas que trabalham para empresas que têm escritórios em Lisboa ou até para empresas que nem sequer têm implantação em Portugal, por exemplo nos Estados Unidos, Inglaterra. Esses países, para atrair talento, já procuram uma visão global e não local. Nesse perspetiva será cada vez mais fácil trabalhar no interior remotamente”, defende.

Ser empreendedor, contudo, não é fácil, assegura Pedro. “Vive-se com muito esforço sobretudo nos primeiros anos. Então quando tivemos a ideia e nem salário tínhamos foi mesmo com muito sacrifício, com a ajuda da família. É muito difícil alguém ser empreendedor sem sacrificar alguma parte da sua vida”.

O trabalho rouba-lhe tempo. Sem ambiente familiar em Lisboa acaba por trabalhar muitas horas, o dia é passado à volta do projeto. Ao fim-de-semana dá atenção à família, portanto é complicado encontrar tempo para o lazer. Além de gostar de viajar, diz ter gostos similares aos dos jovens da sua idade como ir a um concerto musical, ao cinema, ler, tarefa que considera “muito importante” no sentido de conhecer experiências de outros empreendedores e atualizar o conhecimento, ter outras visões do mundo.

Os galardões da segunda edição da Global Tourism Startup Competition foram entregues em Madrid, no dia 20 de janeiro de 2020, pelo Secretário Geral da Organização Mundial de Turismo, Zurab Pololikashvili.

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