O Tejo visto das Portas do Sol, em Santarém. Foto: DR

Muita gente pensa que Ribatejo é o distrito de Santarém. Nada mais errado! Desde logo porque há concelhos do distrito de Santarém que não fazem parte do Ribatejo; depois porque vários concelhos ribatejanos não pertencem ao distrito de Santarém; e, sobretudo, porque o Ribatejo não foi aqui, Tejo adentro, que nasceu, mas bem mais a jusante, na margem esquerda do estuário, entre o ribeiro das Enguias e a ribeira de Coina – as terras do concelho de Ribatejo, assim mesmo chamado, que teve remota existência, nos séculos XIII e XIV. Só depois o nome Ribatejo migrou. Como tanto de nós com ele.

O concelho de Ribatejo

No processo de formação de Portugal, através das conquistas à moirama, iniciado no século XII, os nossos primeiros reis confiaram às ordens militares extensíssimos territórios, sobretudo a sul do Tejo, procurando desse modo garantir a sua defesa, o seu povoamento e o seu aproveitamento económico. Assim, em 1186, tinha Portugal apenas meio século, D. Sancho I doou à Ordem de Santiago, com sede em Palmela, uma imensidão que abrangia toda a margem esquerda do Tejo, na zona do estuário.

Os freires de Santiago chamavam Chacoteca às terras entre a ribeira de Lavre / rio Almansor e o ribeiro das Enguias. E às terras entre o ribeiro das Enguias e a ribeira de Coina chamavam Riba Tejo.

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Limites aproximados do medieval concelho de Ribatejo segundo António Gonçalves Ventura, A «Banda d’Além» e a Cidade de Lisboa (…), [tese de doutoramento], 2007

Fernão Lopes, na sua Crónica d’El-rei D. Fernando, referindo-se ao movimento de navios no estuário do Tejo, deixou-nos uma das primeiras e mais belas referências às terras do Ribatejo medieval:

E portanto vinham de desvairadas partes muitos navios a ella [Lisboa], em guisa que com aquelles que vinham de fóra e com os que no reino havia jaziam muitas vezes ante a cidade quatrocentos e quinhentos navios de carregação; e estavam á carga no rio de Sacavem e à ponta do Montijo, da parte de Riba-Tejo, sessenta e setenta navios em cada logar, carregando de sal e de vinhos [sublinhado meu].

O medieval concelho de Ribatejo, já existente no século XIII, não era um concelho perfeito, dependendo da Mesa Mestral da Ordem de Santiago da qual era comenda. Integrava duas freguesias – São Lourenço de Alhos Vedros e Santa Maria de Sabonha – que acabariam, no século XIV, por se autonomizar, formando dois concelhos novos em terras de Ribatejo.

Alhos Vedros, que abrangia o território entre a ribeira de Coina e Sarilhos Pequenos, foi terra próspera por um período longo, mas entraria em decadência no século XVI, dando origem aos concelhos do Barreiro e da Moita – da Moita do Ribatejo.

O concelho de Santa Maria de Sabonha, cuja sede se situava no atual lugar de S. Francisco (Alcochete), abrangia o restante território de Ribatejo, ou seja, dos Sarilhos ao ribeiro das Enguias. Seria desmembrado no século XV, dele resultando os concelhos de Alcochete e de Aldeia Galega do Ribatejo, a atual cidade do Montijo. Aldeia Galega do Ribatejo, sublinho!

Ocupando o território dos atuais concelhos do Barreiro, da Moita, do Montijo e de Alcochete, da ribeira de Coina ao ribeiro das Enguias, é este o Ribatejo primordial – vamos chamar-lhe assim. É um Ribatejo com muito longa História, mais de 800 anos, quase tantos como tem Portugal, do século XII até agora. Tudo o resto é uma história de migração. E uma história muito recente.

Ribatejo, uma região migrante

Como o peixe que arriba, como os cagaréus, varinos e avieiros que arribaram atrás dele, tudo migrou por este Tejo acima. Ao contrário de outras regiões do país, possuidoras de matrizes identitárias muito sólidas e territórios há muito tempo definidos, como é, por exemplo, o caso do Algarve, o Ribatejo é uma região migrante. Progressivamente, por um fenómeno que os geógrafos designam como de contágio, o Ribatejo foi subindo o rio, já não apenas pela sua margem esquerda mas por ambas. E, ao longo delas e às vezes mesmo um pouco afastadas, foram surgindo ou sendo rebatizadas terras que trazem a palavra Ribatejo no nome por que se conhecem: Alverca do Ribatejo, Castanheira do Ribatejo, Valada do Ribatejo, Glória do Ribatejo, Benfica do Ribatejo, Azinhaga do Ribatejo, Praia do Ribatejo…

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Como se vê, o Ribatejo está longe, muito longe, de coincidir com o distrito de Santarém.

Ainda nas primeiras décadas do século XX, há menos de um século portanto, todo este território da Borda d’Água onde vivemos nós hoje pertencia à Estremadura, a mesma tradicional região que integrava Lisboa e o Oeste. Por esse motivo, o jornal fundado por João Arruda, que desde 1891 se publicava em Santarém, chamava-se Correio da Extremadura, só tendo mudado a designação para Correio do Ribatejo em 1945, após a reforma administrativa operada pelo Estado Novo. Tudo isto foi, historicamente, há muito pouco tempo…

O Ribatejo do Estado Novo

Em 1936 o Estado Novo procedeu a uma profunda reorganização do mapa administrativo do país. Esse processo levou à criação da província do Ribatejo, com capital em Santarém. O mapa de Portugal, que os mais velhos de nós conheceram na escola primária antes do 25 de Abril (e do qual tínhamos de saber tantas coisas de cor), demarcou um novo Ribatejo. E marcou-nos a nós, ribatejanos, de uma forma bem vincada. Mas, já então, a nova província não coincidia com o distrito de Santarém.

De facto, o Ribatejo incluía os concelhos da Azambuja e de Vila Franca – que, convenhamos, alguém duvida que sejam ribatejanos? –, pertencentes ao distrito de Lisboa. E o da Ponte de Sor, do distrito de Portalegre, o que faz algum sentido se pensarmos na forma de colonização interna das suas terras de charneca, na segunda metade do século XIX, muito semelhante à que se praticou nos concelhos da margem esquerda do Tejo: no da Ponte de Sor nasceram os Foros do Arrão, como, afinal não muito longe, surgiram os Foros da Branca (Coruche), os Foros de Almada (Benavente), os Foros de Salvaterra ou os Foros de Benfica.

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Mapa do Projecto GeoRibatejo [http://www.georibatejo.org], elaborado segundo a reforma administrativa de 1936

De fora do Ribatejo o Estado Novo deixou dois concelhos do distrito de Santarém: o de Mação, integrado na Beira Baixa, e o de Ourém, considerado da Beira Litoral. E deixou também de fora os ribatejanos concelhos de Alcochete, Montijo, Moita e Barreiro – ou seja, o Ribatejo primordial… A ribeira das Enguias que, no século XII e nos seguintes, por muito tempo, era onde o Ribatejo começava, passou a ser a estrema onde o Ribatejo termina…

Não termina, não… Mesmo quem pensa que Ribatejo é só lezíria, cavalos e toiros, campinos e forcados há de convir que os mais marcantes ícones com que o Estado Novo pretendeu sintetizar o Ribatejo – o barrete verde e o colete encarnado – têm as suas conhecidas e populares festas fora do distrito de Santarém: o Colete Encarnado é cartaz de Vila Franca e o Barrete Verde da vila de Alcochete!

O Ribatejo é, sem dúvida, a mais dinâmica das regiões portuguesas. Medieval na sua origem, migrou e estendeu-se Tejo arriba. Nos tempos de Salazar foi elevado a província, mas deixou de fora a génese de onde veio. Após o 25 de Abril, com a Constituição de 1976, as províncias foram extintas. O Ribatejo, como foi delimitado em 1936 e nos ensinaram na escola, durou apenas 40 anos.

E hoje, enquanto entidade administrativa, o Ribatejo não existe. Mas existe dentro de nós que somos ribatejanos e ribatejanos nos sentimos.

*Republicação

É ribatejano. De Salvaterra, onde nasceu e cresceu. Da Chamusca onde foi professor de História durante mais de 30 anos. Da Golegã, onde vive há quase outros tantos. E de Constância, a que vem dedicando, há não menos tempo, a sua atenção e o seu trabalho, nas áreas da história, da cultura, do património, do turismo, da memória de Camões, da comunicação, da divulgação, da promoção. É o criador do epíteto Constância, Vila Poema, lançado em 1990 e que o tempo consagrou.
Escreve no mediotejo.net na primeira quarta-feira de cada mês.

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7 Comentários

  1. Boa tarde, gostei muito deste pedaço de história, mas tenho uma questão, pode dizer-me no sentido de Lisboa vindo de Vila Franca de Xira, onde termina o Ribatejo?
    Grato pela atenção e bem haja.
    Miguel

    1. Caro Miguel Pontes,
      Só agora, ocasionalmente, vi o seu comentário.
      Muito obrigado pelo interesse pelo tema e pelas palavras de apreço.
      Não tenho uma resposta inequívoca à questão que coloca. Não existe, em rigor, que eu saiba, um limite preciso para o Ribatejo nessa parte do território que, como sabe, sempre foi muito mais afetiva do que administrativa.
      No entanto avançarei o seguinte: se considerarmos o limite físico, poderemos admitir como limite o rio Trancão; se considerarmos o limite administrativo, será a estrema dos concelhos de Vila Franca e de Loures. Em todo o caso, e aí com toda a segurança, o Ribatejo chega, no mínimo ao limite das freguesias de Vialonga e Forte da Casa com a de Alverca DO RIBATEJO. Situa-se sensivelmente na zona das portagens da A1.
      António Matias Coelho

  2. Em primeiro lugar quero agradecer ao autor do artigo a renovar em mim, morador em Lisboa há mais de 40 anos (tenho 59) a “ribatejanice” que, por via do longo afastamento, andava um pouco esquecida.
    Não fazia ideia de que a história do Ribatejo fosse tão antiga e complexa.
    Sou de Alpiarça e querem agora que eu seja alentejano. Não tenho nada contra os nossos vizinhos, muito pelo contrário, mas não somos alentejanos e nunca me sentirei alentejano.
    Como muito bem disse, o Ribatejo vai muito para além da antiga demarcação (como aprendi nos anos 60/70) territorial.
    Ser ribatejano é um sentimento de pertença a uma cultura e a uma maneira de estar e ver a vida bem diferente de outras regiões.
    Não me refiro, sequer, à cultura marialvista e toureira que abomino.
    Não, para mim ser ribatejano é sentir nas veias correrem os esteiros, é beber a seiva das doces margens do Tejo e é sentir na alma a verde e imensa tranquilidade da lezíria e a aspereza da charneca, é inalar o perfume único e inexplicável dos mouchões e paúis.
    Em segundo lugar, e na sequência do que acabei de escrever, respondendo à pergunta feita pelo Sr. Miguel Pontes, o Ribatejo termina onde termina a sensação de pertença a estas realidades.
    O Ribatejo não é compatível com subúrbio de grandes cidades. Quanto mais perto de Lisboa menos Ribatejo se encontra, menos traços existem de “ribatejanice”.
    Mais uma vez obrigado por este tempo que ganhei a ler o seu artigo.
    Parabéns!

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