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Quinta-feira, Agosto 5, 2021

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Carlos Saramago, um génio que vive mesmo ao nosso lado

Quando me convidaram para escrever aqui no mediotejo.net, a única condição que coloquei foi ter liberdade para não escrever apenas sobre política. E hoje, de facto, não vos venho escrever sobre política mas sim contar uma história de vida, que serve de exemplo e ilustra bem as características que considero ser a chave para o sucesso na vida de cada um: criatividade, capacidade de sacrifício, coragem e humildade.

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Ainda hoje me recordo de quando andava na Escola Secundária de Mação e conheci um aluno, mais velho, quase da idade do meu irmão, que tinha umas mãos “diferentes” e que diziam ter muito jeito para desenhar.

Na altura, tivemos o privilégio de ter na escola o Professor Pina, que rapidamente se apercebeu da genialidade de um estudante humilde, que tinha uma doença rara, mãos aparentemente “esquisitas” mas uma vontade, coragem e uma genialidade que raramente se encontravam.

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Era o “Lides”, ou o Carlos Saramago, que fez da sua maior dificuldade a sua maior virtude.

Saramago5Mais de perto, ou mais à distância de Bruxelas, fui acompanhando a sua evolução, o seu percurso com altos e baixos, como todos nós os temos. Hoje, graças às novas tecnologias, é muito mais fácil saber e acompanhar com imenso orgulho o que ele vai fazendo e o que da obra dele vão dizendo, cá e lá por fora.

Desde o seu início mudou o estilo, mudaram até as suas dificuldades físicas que o têm obrigado a adaptar a forma como agarra os pincéis, ou seja, tem reaprendido a pintar várias vezes ao longo da vida. Curioso é que, até para um leigo como eu, se nota claramente uma evolução notável, uma profunda mudança de estilo e um amadurecimento reconhecido por críticos nacionais e internacionais. Isto só podia ser fruto da sua coragem e vontade para nunca desistir, fosse qual fosse a dificuldade que lhe surgisse e da sua entrega, que determina a capacidade que tem para se superar e inovar a cada instante, sem nunca deixar de ter a sua identidade e de ser quem é.

Saramago2Se há traço que nunca perdeu, se há características que nunca mudaram foram a sua humildade, simpatia e a genialidade. Há quem diga que os artistas têm sempre os seus feitos, o seu feitio, o seu ego e a sua vaidade. O Carlos Saramago também terá os seus, nunca me apercebi, mas aparentemente fez dos seus defeitos a sua virtude e, das mãos, que não nasceram como tantas outras, aproveitou a virtuosidade que coloca em cada pincelada, em cada tela. E talvez seja mesmo isso que torna o seu trabalho tão especial e lhe permitiu fazer aquilo que é tão difícil fazer: arte. E ele é mesmo um grande artista….até nas “caretas” que adora fazer.

Hoje é um surrealista, com exposições feitas em todo o lado, com quadros comprados por portugueses e estrangeiros. Curioso que, numa área que não é estável, nem tão pouco um mar de rosas, o Carlos nunca se queixou, nunca perdeu a humildade que o leva, todos os verões, a ir para a marginal da Nazaré fazer caricaturas a turistas para sustentar a família.

Outros, supostos ícones culturais, preferem viver à custa dos subsídios do Estado ou das autarquias, para depois aparecerem de Jaguar nos eventos culturais, quando pagam uma miséria aos seus colaboradores. São esses os que normalmente mais se queixam, são esses os que mais protestam porque viveram sempre à sombra dos apoios do Estado, do privilégio protegido por um status quo cultural que, há demasiados anos, “pulula” em torno do dinheiro e do subsídio público, mas sempre sem público, sem audiência e com duvidoso retorno social. Talvez seja altura de se questionarem se fazem arte para si ou para a sociedade.

São artistas como o Carlos que fazem a cultura portuguesa, por vezes tardiamente reconhecidos pelo grande público mas que deixam obra, que deixam um exemplo para as gerações vindouras, que deixam uma mensagem, que deixam uma identidade mas sobretudo, que deixam uma inspiração.

Do seu portfólio recorto a frase de Luiz Morgadinho, operário plástico e Punkonês (seja lá o que isso for), “na sua obra, o Carlos transporta a precariedade da sua saúde com traços e pinceladas seguras para qualquer suporte, criando narrativas pictóricas e poéticas, num delírio crescente, repleto de vivências em que as metáforas se mesclam no universo da costa de prata, onde o popular se espraia nas entranhas do seu âmago num corpo enfraquecido e em falências, de feridas abertas à dor e ao sofrimento e se abre  na dualidade de membros realistas, mãos e pés desenhador com mestria, como se operasse um milagre.”

Ontem visitei uma exposição do Carlos, a qual aconselho toda a gente a ver, certamente que não passará indiferente. Está num restaurante em Lisboa, chamado Quermesse D´Artes, que fica na Rua da Glória, ali ao pé da Praça da Alegria. O “Lides” não tem grandes padrinhos, mas já tem um nome no sector, já é uma referência do surrealismo português e é sobretudo um orgulho para Mação, e decerto para o Médio Tejo, ter um artista assim.

Dá gosto ver as suas pinturas, falar dele aos meus amigos, divulgar a sua arte, recomendar os seus quadros, mas sobretudo dá gosto olhar para a forma simples e humilde com que fala da sua obra, da sua paixão.

É por todas estas razões que o Carlos não destaca a sua obra pelo problema que tem nas mãos. Não precisa de causar pena para se destacar e está à vista de todos quando comparam os seus quadros aos de outros pintores que nasceram sem qualquer problema. Isto prova que o instrumento da arte não é apenas físico, que esse é o meio de transmissão mas que há algo muito mais importante que é o motor da criatividade de qualquer artista: a paixão e a sensibilidade.

No entanto, o Carlos merece, sim, admiração, não por ter o problema que tem, mas pela forma de como lidou e lida com ele todos os dias, a forma de como se superou e supera, a sua persistência, coragem e capacidade para tornar as suas fraquezas em virtudes. É esta sua forma de ser e encarar a vida que fazem dele uma inspiração e um exemplo.

Por isto e tantas outras razões, valorizem a arte que se faz em Portugal, os grandes artistas que temos e, sobretudo, os exemplos que vemos todos os dias e nos inspiram, directa ou indirectamente.

Se tiverem curiosidade, que espero que tenham, podem conhecer a obra do Carlos Saramago em http://carlos-saramago.blogspot.pt e para saber um pouco mais sobre o seu percurso podem clicar em https://www.facebook.com/photo.php?fbid=649204901788578&set=a.107294119312995.3849.100000972212477&type=3&theater

Se quiserem mesmo saber mais e tiverem oportunidade, passem pela suas exposições. Afinal de contas, não há maior reconhecimento para um artista do que aquele que provém do seu público.

Duarte Marques, 39 anos, é natural de Mação. Fez o liceu em Castelo Branco e tirou Relações Internacionais no Instituto de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, com especialização em Estratégia Internacional de Empresa. É fellow do German Marshall Fund desde 2013. Trabalhou com Nuno Morais Sarmento no Governo de Durão Barroso ao longo de dois anos. Esteve seis anos em Bruxelas na chefia do gabinete português do PPE no Parlamento Europeu, onde trabalhou com Vasco Graça Moura, José Silva Peneda, João de Deus Pinheiro, Assunção Esteves, Graça Carvalho, Carlos Coelho, Paulo Rangel, entre outros.
Foi Presidente da JSD e deputado na última legislatura, onde desempenhou as funções Vice Coordenador do PSD na Comissão de Educação, Ciência e Cultura e integrou a Comissão de Inquérito ao caso BES, a Comissão de Assuntos Europeus e a Comissão de Negócios Estrangeiros e Cooperação. O Deputado Duarte Marques, eleito nas listas do PSD pelo círculo de Santarém, foi eleito em janeiro de 2016 um dos novos representantes portugueses na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, com sede em Estrasburgo. É ainda membro da Assembleia Municipal de Mação.
Sócio de uma empresa de criatividade e publicidade com sede em Lisboa, é também administrador do Instituto Francisco Sá Carneiro, director Adjunto da Universidade de Verão do PSD, cronista do Expresso online, do Médio Tejo digital e membro do painel permanente do programa Frente a Frente da SIC Notícias.

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1 COMENTÁRIO

  1. Um texto simples, sincero, com conhecimento de causa e muito bem escrito. Pena que o autor (segundo parece) escreva mais sobre politica do que arte, não sendo despropositado que o faça.
    Com a tremenda lacuna que o médiotejonet tem em relação aos artigos que deixa escrever sobre o assunto. Este texto é uma golfada de ar fresco, de senso comum maravilhoso sobre este artista maçaense.
    Agradecido

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