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Segunda-feira, Junho 21, 2021

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Obituário | José Diniz, o dentista da carrinha Gulbenkian que pôs várias gerações a ler (1933-2021)

José Joaquim Cesar da Cruz Diniz, figura marcante da cultura na região na última metade do século XX, morreu no passado dia 11 de janeiro, aos 87 anos, em Coimbra, mas só hoje a sua morte foi revelada publicamente. Dentista de profissão num consultório que herdou do pai, ficou conhecido para lá das fronteiras do concelho de Abrantes, onde nasceu e viveu, por ser encarregado de uma biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian durante mais de 30 anos.

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A sua carrinha Citroën tinha o número 32 e ficou gravada na memória de várias gerações de Abrantes, Sardoal, Mação, Vila de Rei, Ponte de Sor e Gavião, que começou a visitar a partir de 1963. O percurso que fazia todos os meses por vários concelhos da região era decorado pelos miúdos e ansiado de igual forma pelos mais velhos. Quando a carrinha da Gulbenkian estacionava tinha sempre já uma fila de gente à espera. Era o mundo que chegava sobre rodas, sobretudo nos anos 60, 70 e 80, quando a televisão só tinha dois canais, a oferta cultural era escassa e os livros um bem raro na maioria das casas portuguesas.

Muita gente aprendeu a ler com os livros recomendados por José Diniz, centenas de crianças descobriram as bandas desenhadas e as histórias de aventuras que iriam moldar a sua infância, jovens namoradeiros trocaram os primeiros bilhetinhos dentro dos livros que ele passava de mão em mão, cúmplice desses amores.

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José Luís Peixoto foi um dos seus fiéis “clientes” quando aprendia as primeiras letras no concelho de Ponte de Sor, onde nasceu. “Uma vez por mês, ao fim da tarde, a carrinha Citroën chegava ao terreiro de Galveias, calhava-nos as quartas-feiras. Ficava estacionada em frente da cooperativa. Depois do 25 de Abril, o clube dos ricos passou a sede da cooperativa. Quando eu chegava, vindo dos lados do São João, já havia outros rapazes e raparigas à volta da carrinha”, recordou num artigo publicado na revista Visão, em 2014. “Impressionava-me a quantidade de livros. Precisava de me esticar para chegar às prateleiras mais altas e, por isso, parecia-me que não tinham fim. O senhor Dinis conduzia a carrinha, recebia os papéis preenchidos com os códigos dos livros que requisitávamos. Levávamos sempre a quantidade máxima de livros. Líamos muito depressa os que tínhamos e, depois, íamos trocando entre nós até ao regresso da biblioteca no mês seguinte.”

O leitor tornou-se escritor, e muito por “culpa” daquele homem, que lhe aguçou a curiosidade pelas emoções que vivem escondidas em cada página. “Às vezes dou por mim a falar nisso perante uma plateia que me olha como se estivesse a dar notícias de um mundo meio real, meio imaginário”, diz Peixoto. Mas sim, a realidade mágica das bibliotecas itinerantes foi palpável durante quase 50 anos – e ainda perdura na memória de todos os que se cruzavam com elas.

A Fundação Calouste Gulbenkian criou o programa em 1958, para “promover e desenvolver o gosto pela leitura e elevar o nível cultural dos cidadãos, assentando a sua prática no princípio do livre acesso às estantes, empréstimo domiciliário e gratuitidade do serviço”. Poetas como Herberto Hélder e Alexandre O’Neill trabalharam nas bibliotecas itinerantes enquanto jovens – o nível de cultura exigido aos encarregados era bastante elevado, e muitos recordam precisamente a imensa cultura de José Dinis, que tinha sempre resposta pronta para as muitas perguntas que lhe faziam (quase como se fosse um “petite Larousse”).

Depois da Gulbenkian ter terminado este projeto em 2002, surgiram outras bibliotecas itinerantes, como projetos municipais. A sua missão estava longe de estar cumprida, como prova por exemplo a Bibliomóvel de Proença-a-Nova, que acaba de vencer o prémio de Boas Práticas Públicas da Direção-Geral de Arquivos e Bibliotecas.

Créditos: Arquivo Gulbenkian

Carismático e sempre gentil, é como muitos o recordam. Ninguém se sentia menorizado perante as prateleiras da sua pequena-grande biblioteca, e todos respeitavam o livro emprestado de forma quase reverencial, manuseando-os com cuidado para os poder devolver sem qualquer estrago adicional.

“Os livros saíam como pão quente, e qual milagre da multiplicação dos pães, voltavam intactos como se não tivessem sido comidos. Os livros saíam e entravam, e isso era o nascimento, o sangue de um novo Portugal, amassado com um fermento, a curiosidade.” Quem o diz é José Tavares, médico abrantino que entrevistou José Diniz por diversas vezes, ao longo dos anos, para escrever um livro que fixasse a memória que aquele homem tinha das gentes e das terras por onde passou. A obra “A Biblioteca Ambulante” recebeu uma menção honrosa no Prémio Literário do Médio Tejo em 2017, na categoria de não-ficção, mas a edição é garantida apenas ao primeiro classificado – no caso, “O Arneiro, 100 anos depois da guerra”, um ensaio fotográfico de Paulo Jorge de Sousa –, tendo havido posteriores tentativas de avançar com a publicação, travadas entretanto pela chegada da pandemia de covid-19.

“Não seria maravilhoso o mundo se as bibliotecas fossem mais importantes do que os bancos?”, perguntou um dia Felipe à revolucionária Mafalda desenhada por Quino. Sim, seria. Nesse mundo haveria livros sem fim, e filas de gente a encher de vida as livrarias e as bibliotecas, sempre com um José Dinis à porta, a sorrir-nos e a dar-nos um bom conselho.

“O Sr. Diniz representou para mim a primeira ideia do que era um sábio. Ele conhecia os autores e até as personagens de todos os livros no ventre mágico da carrinha. As leituras que me recomendou ampliaram o meu mundo e acabaram-me com muitos medos. Na verdade, sem elas eu não era o mesmo.”
Francisco Lopes, diretor da Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes

“Passados estes anos, acho que a primeira pessoa sábia e muito culta que conheci nesta terra que piso [Abrantes] foi o senhor José Diniz, quando a seguir a 74 nos levava os livros a trote numa biblioteca itinerante da Gulbenkian. Parava ali em Santo António e tinha leituras para sugerir a todos os meninos e meninas que acorriam à carrinha dos livros uma vez por semana. Ainda não tínhamos consciência de que a liberdade estava a passar por ali e muitos de nós só conhecíamos os livros da escola. O senhor Diniz nunca esboçava um sorriso, mas falava. Falava que se desunhava a ensinar-nos outras coisas que não aprendíamos nem na escola, nem em casa. Deu-nos mundo através dos livros que levávamos para casa.”
Fernanda Mendes, técnica de comunicação na Câmara Municipal de Abrantes

“Até sempre, GRANDE ZÉ DINIZ! Quando me juntar a ti já nao vou ter vergonha de te pedir livros para levar para casa, do teu enorme CITROEN, em Cardigos, de onde me lembro de ti. OBRIGADO pela tua grande INSATISFAÇÃO. Pegou-se, fica descansado.”
António Colaço, artista plástico, ex-assessor de imprensa do grupo parlamentar do Partido Socialista

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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5 COMENTÁRIOS

  1. Que grande pessoa o mundo perdeu! Tantas vezes penso neste senhor e na maneira como me introduziu á leitura. Ainda hoje, com 53 ano, sou uma ávida leitora e continuo a ir de biblioteca em biblioteca . Posso , sem duvida, dizer que este senhor foi muito importante na minha vida . Nunca falhava na aldeia de S Miguel do Rio Torto. Era eu uma gaiata a ler os livros dos Cinco e outros , sempre tão bem recomendados pelo Sr Dinis :) ! Que a família que deixou por cá tenha conhecimento de que somos muitos, de certeza, a homenagear e a pensar nele ate ao fim das nossas vidas!!
    RIP Sr Dinis!

  2. Adeus Caro Amigo. Conheci-te por alturas de Novembro de 1962. Convivemos bastante de div ersas formas e em diferentes alturas. Eras uma pessoa amiga do seu amigo e a nossa convivência diferenciada deu para te conhecer muito bem. Amigo do seu amigo tinhas sempre uma história para contar. Para a Maria Luisa e para a Paulinha os meus sentidos pêsames. Que descanses em Paz

  3. Envio os meus sentimentos à família do meu amigo José Dinis. Foi responsável pela biblioteca sediada em Mirandela e que percorria vilas e aldeias da região transmontana. Aprendi com ele outros caminhos de leitura e descoberta. Reencontrei-o em Lisboa, em 1969. Fiz um estágio de bibliotecas com ele e só a consciência de que o meu lugar de criação literária e de luta era em Lisboa me levou a por aqui ficar, trabalhando em publicidade e depois na secretaria de Estado da Cultura.
    José Dinis foi um dos raros homens bons e cultos que soube ajudar a abrir mundos imensos a jovens e não jovens, em Tras-os-Montes. Aqui lhe deixo o meu obrigado pela solidariedade e amizade que me deu.
    Modesto Navarro

  4. Várias vezes – e em circunstâncias diversas – evoco o efeito que tiveram sobre a minha formação cívica, as sugestões de leitura que, em Montalvo, no Largo da Cooperativa, o “senhor José Dinis” fazia ao miúdo ávido de leitura. Não me esqueço dos livros de Zola e A Mãe de Gorki … este último que, anos mais tarde, estando na Marinha, comprei para reler e … alguém me roubou (?)

  5. O Sr. José Diniz, na sua carrinha nº 32, foi uma pessoa que me cativou logo na primeira vez que fui à biblioteca, frente ao St. António (Rossio ao Sul do Tejo). Aconselhou-me os primeiros livros lidos provenientes de uma biblioteca pública. Lembro-me perfeitamente do primeiro livro que me aconselhou, um livro enorme e pesado para um miúdo franzino como era, “Pequenú e o núvem bela”. Adorei a história e li todos os livros dessa coleção. O Sr. Diniz e o meu pai eram amigos e, uma vez, fui eu que levei ao Sr. Diniz um livro, “A Ilha dos Pinguins” de Anatole France, que o meu pai tinha ficado de lhe emprestar. Não sei se era um livro proibido pela censura pois, na altura, o Sr. Diniz não lhe tinha acesso. Nunca indaguei. A sua personalidade e afabilidade deixou-me a boa memória que sempre guardarei dele. Obrigado por tudo o que foi e que fez por tantos de nós. A minha maior homenagem a esse grande Senhor de uma cultura invulgar. Obrigado a Braquinho da Fonseca e à rede itinerante da Gulbenkian.

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