Sábado, Fevereiro 27, 2021
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“O Ciclone de 1941: Há 80 anos, a maior de todas as tempestades”, por António Matias Coelho

Faz neste mês de fevereiro 80 anos que ocorreu a mais violenta tempestade a atingir Portugal desde que há registos, ou seja, em pelo menos um século e meio. Veio do Atlântico e varreu o país de sudoeste para nordeste, com ventos violentíssimos que atingiram entre 130 e 150 quilómetros por hora. Provocou mais de cem mortos e um número indeterminado de feridos, deixando à sua passagem um desolador rasto de destruição. Em Constância, a chamada Casa dos Arcos, onde a tradição popular diz que Camões viveu, ficou transformada numa completa ruína.  

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A mãe de todas as tempestades 

15 de fevereiro de 1941, um sábado: na parte da tarde o diabo andou à solta por este país além, como nunca se tinha visto nem mais se tornaria a ver até ao momento que vivemos. Sendo tempo de inverno, nem por isso se pode dizer que o dia tivesse nascido com ar ameaçador. Choveu, é certo, mas coisa relativamente pouca, nada que assustasse a gente do povo ou fizesse prever o que chegaria depois do almoço. 

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As rajadas de vento, duma violência de que não havia memória, levaram tudo adiante: fizeram voar telhados de casas e até instalações agrícolas e fabris menos resistentes, arrancaram pela raiz ou partiram pelo meio centenas de milhar de árvores, muitas das quais caíram sobre habitações e em inúmeras estradas que ficaram intransitáveis; as redes elétrica, de telégrafo e de telefone foram seriamente danificadas, interrompendo por vários dias o fornecimento de energia e as comunicações; diversos pontos da rede ferroviária foram também atingidos pela queda de árvores, impedindo a circulação dos comboios e, em alguns casos, como aconteceu entre a Lamarosa e Coimbra, causando acidentes de que resultaram mortos; as condições meteorológicas anómalas, resultantes da depressão muito cavada e de pressões atmosféricas anormalmente baixas, para além dos ventos ciclónicos provocaram uma subida repentina e acentuada do nível do mar com as consequentes inundações nas zonas ribeirinhas onde muitas pessoas morreram afogadas; largas centenas de embarcações foram afundadas pelas águas revoltas e muitas outras ficaram seriamente danificadas. 

1.ª página da edição do «Diário de Lisboa» de 15.02.1941

Os jornais da época, tanto nacionais como regionais, estão cheios de descrições e de imagens da imensa destruição que o ciclone espalhou. O Diário de Lisboa, por exemplo, referia em título, na sua edição do dia seguinte, «a fúria dos elementos», informando que «Lisboa [foi] açoitada por um vento ciclónico de extraordinária violência que derrubou chaminés, telhados e árvores, chegando a atirar, nas ruas, os transeuntes ao chão». Por seu lado, O Século titulava que «Lisboa foi assolada no dia de ontem por um terrível ciclone. O vento, que chegou a correr 127 quilómetros à hora, causou grandes estragos e muitos desastres, afundou barcos e provocou cenas de pânico. Há a lamentar algumas mortes e é enorme o número dos feridos». Dois dias depois, a 18 de fevereiro, o Jornal de Notícias, que se publicava no Porto, fazia «o trágico balanço dum dia negro» e falava de «mais de cem mortos». 

O ciclone fez-se sentir com especial violência no vale do Tejo, onde os estragos foram bastante avultados. Só na zona de Abrantes terão sido derrubadas cerca de 200 000 árvores e há notícia de pelo menos sete mortos na nossa região, quatro deles em Abrantes e três em Torres Novas (1). Quando o país se conseguiu recompor e fazer contas aos prejuízos, verificou que eles, para além de tantas vidas e de tanto sofrimento, terão ascendido a cerca de um milhão de contos, ou seja, o correspondente a quase metade do orçamento do estado para esse ano de 1941!  

A Casa dos Arcos em Constância, que terá acolhido Camões, ficou uma completa ruína  

Quando foi construída (2) cerca de 1515, uns anos antes do nascimento de Luís de Camões, a grande casa não tinha os arcos que depois lhe viriam a dar o nome. Era uma construção sólida, tipicamente quinhentista, enobrecida com porta manuelina. Diz o povo, através de uma muito antiga tradição, que terá acolhido o poeta, cerca de 1546-47, durante o seu desterro em Punhete, como a povoação então se chamava. Mais tarde, nela estaria instalada a Câmara Municipal, durante um longo período a partir do século XVIII. Até que, nos princípios do século XIX, foi parcialmente demolida, tendo o seu novo proprietário, o bacharel João António de Moraes, decidido construir, no primeiro andar virado ao Tejo, uma arcaria de cinco vãos de volta perfeita. Esses arcos, que conferiram à casa uma nova imagem, deram-lhe também um nome novo, passando a ser conhecida por Casa dos Arcos. Foi tão forte a marca dessa designação que o escultor Lagoa Henriques, ao conceber o Monumento a Camões, inaugurado nas proximidades do Zêzere em 1981, lhe deu, tanto no elemento de betão como no de mármore, a forma arredonda a evocar os arcos da casa – os arcos que Camões, se esteve em Constância como o povo diz, obviamente nunca terá contemplado… 

Mais de um século depois, quase a meio do século XX, a casa, onde entretanto terão estado instalados serviços de calafate, encontrava-se há muito desabitada e evidenciava os efeitos do tempo e do abandono. Mas mantinha, no essencial, o aspeto airoso e icónico que lhe proporcionavam os seus icónicos arcos. 

Estado em que ficou a Casa dos Arcos em consequência do ciclone Foto: DR

 Na sua corrida devastadora, o ciclone de 1941 atingiu violentamente a Casa dos Arcos, arrancando-lhe por completo a arcaria do primeiro piso e deixando o conjunto do edifício na mais completa ruína. Seriam necessários muitos anos, mais de trinta, e muitos esforços – em especial do médico de Constância Adriano Burguete (1872-1956) e da jornalista Manuela de Azevedo (1911-2017) – até que essas ruínas vissem reconhecida a sua dignidade, através da classificação como valor concelhio (1974) e depois como imóvel de interesse público (1983). Sobre elas, uma vez consolidadas, seria erguido, segundo projeto da Faculdade de Arquitetura de Lisboa e num processo de obras muito demorado, iniciado em 1991 e só terminado já neste século, o atual edifício da Casa-Memória de Camões.

O ciclo dos ciclones 

Os ciclones são fenómenos atmosféricos extremos que ocorrem em todas as partes do mundo. As designações variam, porque também são diferentes entre si as condições e as características de cada um, mas este conjunto de fenómenos, que inclui os tornados, os furacões e os tufões, está em geral associado a grandes destruições e a imenso sofrimento. Portugal, verdade se diga, em comparação com o que se passa em algumas partes da Ásia e na costa atlântica do continente americano, não costuma ser especialmente assolado por este tipo de ocorrência. Ou melhor, não costumava… Sendo esporádicas até há poucas décadas, estas tempestades mais violentas, seja pelo vento muito forte ou pela chuva abundante e repentina, têm vindo a tornar-se cada vez mais frequentes na nossa terra. Das maiores, e só para citar algumas que todos por certo recordarão, basta evocar, só nos últimos anos, a depressão Gong que, entrando por Viana do Castelo, atingiu o país em 18 e 19 de janeiro de 2013, com ventos na ordem dos 130 quilómetros por hora que provocaram grande destruição, sobretudo na orla litoral, entre Aveiro e Leiria; ou o furacão Leslie, um ciclone tropical atlântico que atingiu Portugal em 13 de outubro de 2018 e registou, na Figueira da Foz, uma incrível rajada de 176 quilómetros por hora, devastando os pinhais e eucaliptais da região e inúmeras casas e outras construções; ou ainda, agora no mês de janeiro, a tempestade Filomena, que, tendo outras características, gelou o país e a península, com uns inacreditáveis 35 graus abaixo de zero na cidade espanhola de León e o maior nevão da história que paralisou Madrid. 

Embora se possam prever e acompanhar na sua evolução, os ciclones e outras tempestades não acontecem segundo ciclos certos. Mas a experiência recente diz-nos que ocorrem em ciclos cada vez mais apertados. E, como muitos estudos vêm demonstrando, é em grande parte o homem que está a provocar essa aceleração.  

(1) Adélia NUNES e outros, O “Ciclone” de fevereiro de 1941: análise histórico-geográfica dos seus efeitos no município de Coimbra, Cadernos de Geografia, n.º 30/31, 2011/12, Coimbra, FLUC, pp. 53-60, nota 2) – p. 57.
(2) Mais informação sobre a história desta casa está disponível no livro do autor “Histórias do Património do Concelho de Constância”, editado pela Câmara Municipal de Constância em 1999, pp. 49-52.

É ribatejano. De Salvaterra, onde nasceu e cresceu. Da Chamusca onde foi professor de História durante mais de 30 anos. Da Golegã, onde vive há quase outros tantos. E de Constância, a que vem dedicando, há não menos tempo, a sua atenção e o seu trabalho, nas áreas da história, da cultura, do património, do turismo, da memória de Camões, da comunicação, da divulgação, da promoção. É o criador do epíteto Constância, Vila Poema, lançado em 1990 e que o tempo consagrou.
Escreve no mediotejo.net na primeira quarta-feira de cada mês.

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