“O cais de Tancos é um encantador mosaico de memórias, estórias de vida e paisagem”, por Fernando Freire

Vista de Almourol - Fotografia de José Alfredo Lopes

O cais de Tancos, com vista sobre Almourol e Arripiado, é um encantador mosaico de memórias, estórias e vida que, ainda hoje, marcam a paisagem deste sítio ímpar em Portugal.

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“O que me vai valendo nesta penitenciária pátria é nunca perder de vista alguns recantos que nela são oásis de libertação e de esquecimento. Empoleirado no terraço desta fortaleza lírica que os Templários ergueram no meio do Tejo, debruçado sobre o abismo a deixar o rio deslizar brandamente na retina, quero lá saber se a política vai bem ou mal, se a literatura anda ou desanda, se a nau colectiva singra ou soçobra! Extasio-me, apenas. Ou melhor: numa espécie de petrificação emotiva, acabo por fazer corpo com as muralhas, e ser o próprio baluarte erguido na pequena ilha, inexpugnável a todas as agressões do real.”  Miguel Torga – Diário – Vols. IX a XII.

A paisagem que hoje vislumbramos do cais de Tancos, do concelho de Vila Nova da Barquinha, para o Arripiado, concelho da Chamusca, e a quietude da grande massa de água que ali o Tejo detém, desde antanho designado pego de Almourol, tendo por nascente a vista majestosa do Castelo, concorreu para a grandeza temporal e intemporal do lugar, numa suavidade incomum em Portugal.

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A história do cais de Tancos, mormente as diferentes intervenções que lhe foram sucedendo, tem grandes lacunas.

Cais de Tancos – Fotografia de Pérsio Basso – Arquivo Municipal da Barquinha

Vejamos uma das conclusões do relatório a que me socorri para a feitura da presente crónica:

“Para o século XX, a descrição histórica das intervenções relacionadas com este cais sofre das mesmas dificuldades documentais, o que se acentua pelo contraste flagrante entre a expressão material objetiva que é possível observar-se – em que o uso de materiais e soluções construtivas deste período é presente e incontestável – e a total ausência de testemunhos documentais de qualquer espécie relativos a essas mesmas intervenções… processos de obras, grandes ou pequenos, de restauro, beneficiações ou meros amanhos de conservação, nada se encontrou, nem planos, nem cálculos, nem uma nota de encomenda ou recibo de despesa.” 1

Com a presente investigação procurarei documentar, cautelosamente, a sua evolução sem esquecer as memórias e o espaço circundante histórico do sítio consequência da sua dinâmica comercial durante séculos.

As origens do nome do povoado de Tancos ainda hoje não se encontram integralmente clarificadas. Várias teorias surgiram sobre o nome desta povoação. Segundo Viterbo, Tancos foi fundada por cavaleiros franceses, dos que vieram ajudar D. Afonso Henriques na luta contra os Muçulmanos, à conquista de Lisboa em 1147. Dos seus primitivos moradores ficaria o nome de Francos, que depois se teria corrompido em Tancos. Outros autores dão-lhe uma fundação mais antiga, derivando esta toponímia dos Tancos ou Tabucos (Tabuci), povos da antiga Lusitânia que se fixaram neste local, pelo que o local seria sido fundado uns 400 ou 500 anos antes da era cristã.

Certo é que o território era habitado por romanos. A via romana que ligava Tomar (Sellium) a Mérida (Emerita) passaria pelo Alto da Mariana onde existe um possível miliário, fincado no chão junto do marco divisório, assinalando seguramente uma milha ao rio Tejo, seguindo para o local da forca de Tancos, campo de futebol e cais fluvial de Tancos.

Miliário e marco de concelho – Fotografia de Fernando Freire

O sítio da travessia do rio Tejo entre Tancos e Arripiado seria feita na “Testa da Barca” 2

O nome de Tancos aparece igualmente na confirmação da doação à Ordem do Templo, em 1169, do castelo de Tomar e termo e da doação dos castelos do Zêzere e da Cardiga. 3

Por outro lado, numa descrição do tempo de Dom Sancho II, colhemos: “… a estrada a mais real, e cursada de Portugal, que é a que vem de todo ele, e de Galiza passar a ponte de Coimbra, e por Tomar vai passar o rio Tejo em Tancos, que em todo o dito rio não há outra passagem tão acomodada, pela qual já de tempo de Romanos lhes era forçado passar com seus exércitos para as outras bandas: pelo que se fundou ali o castelo de Almourol, dizem pelos Templários, para defesa daquele passo…”4

Tanto a presença de miliários como os vestígios de vias reais sugerem um ponto de confluência de estradas em Tancos, do qual a via fluvial faz igualmente parte integrante.

Certo então que desde a presença romana em Portugal o lugar de Tancos seria uma referência para a região.

Cais romano

Se o era no tempo da romanização, a Idade Média veio a reforçar esta importância nacional.

Garantidas as fronteiras a sul, este sítio, no centro do reino de Portugal, era pertença da Ordem do Templo, e depois de Cristo, organizações dedicadas à cultura dos campos e ao comércio, usaram o lugar de Tancos e as suas margens nas ligações com as Beiras e o Alentejo, quer na passagem de pessoas, quer de mercadorias para cargas e descargas.

A definição de uma urbe e do seu estatuto e relevo nas várias dimensões sociais e económicas que se lhe apresentam, é, pois, consequência do valor das suas vias de comunicação e do seu porto onde a passagem era ali simplificada pelo contexto natural de aproximação das margens e da pré-existência de cais romano.

O fluxo foi em crescendo, cada vez mais intenso. Mercadorias circulavam no rio, pessoas, acolhimento de viajantes, presença de marítimos, comerciantes, artesãos e até de salteadores que calcorreavam a nação à procura do sustento material. Aqui se cruzavam numerosos peregrinos, recordando que a vida religiosa, o misticismo e a fé em Cristo eram valores de elevada grandeza no quotidiano do homem medieval.

Desde meados do século XIII que todos os caminhos tinham um denominador comum, a atracção ao túmulo do Apóstolo S. Tiago, em Compostela, Espanha. O fim era o cumprimento de promessas, remição dos pecados, conhecimento de outras terras ou simplesmente a singela curiosidade.5

No mapa acima podemos vislumbrar a importância estratégica de Tancos, a sua centralidade para os Caminhos de Santiago, e a ligação de norte a sul de Portugal.

Tancos releva a sua importância no começo do Séc. XV, com o início dos descobrimentos. As primeiras embarcações serão feitas no rio Zêzere e com especial empenho de Frei Gonçalo Velho, Comendador do Castelo de Almourol “que está sobre o Rio Tejo, arriba da vila de Tancos, de quem por sua virtude grande esforço e prudência tinha muita confiança, o mandou descobrir as ilhas dos Açores…”6

Assumindo Dom Manuel os comandos da Ordem de Cristo “… de imediato manda levantar um imponente cais, em sólida alvenaria de pedra, para facilidade – e aumento, com toda a certeza – das funções navais que até aí se desenrolavam.

O cais terá sido edificado já na dimensão presente, capaz de resistir e sobressair de cheias até 7 metros de altura, que às vezes se registavam, aos mesmo nível das casas e armazéns da beira rio, e já com todo o comprimento que ainda apresenta num total de cerca de 215 metros!

Foto do Arquivo Municipal da Barquinha

Dada a bolsa de águas mais profundas, não teria sentido construir um paredão que não a aproveitasse integralmente, até porque deste modo fica mais bem «encaixado», e, portanto, mais resistente à força das cheias recorrentes.

Recentemente, em escavações realizadas por Carlos Batata, em 2019, junto da embocadura da ribeira de Tancos, foi achado o antigo paredão dos cais Manuelino, o que demonstra que os construtores aproveitaram, integralmente, a profundidade do pego no seu limite.

Cais Manuelino – Fotografia do Arquivo Municipal da Barquinha

“Pela dimensão edificada, não se pode negar que o «Venturoso» imaginou para este lugar um papel de primordial importância, para ligar a Beira Interior e o Alentejo (Alto e Central) à capital do reino. A ordem de construção visava o engrandecimento das possessões e infraestruturas da Ordem de Cristo, decisão que se enquadrava nos seus deveres de maior da Ordem, mas não podemos esquecer que esta milícia religiosa era um braço (e poderoso…) do poder real. Portanto, estes investimentos, se bem que na aparência localizados, não deixavam de integrar a melhoria da gestão do país, e o centralismo do seu governo, que este rei procurou instituir em todo o seu reinado.

Foi D. Manuel, também, quem estabeleceu legalmente os padrões de pesos e medidas que se passaram a usar em todas as transações, até aí uma miríade de localismos que tornavam impossível uma verdadeiramente eficaz cobrança de impostos e taxas em prol da Casa Real. As novas tabelas de Regimento e a imposição legal das funções de fiscal de impostos, garantiam o seu uso obrigatório, e a obtenção dos rendimentos devidos (e necessários…) ao Estado. Nesse processo foram também reformados os forais medievais, substituídos pelos da «leitura-nova», onde estes novos preceitos de rigor e centralização eram consignados, uniformizando e atualizando quer os deveres e privilégios, mas igualmente as movimentações comerciais de bens e géneros … Como o propósito do rei era, de facto, garantir um controlo efetivo da atividade comercial e económica do país, onde esses documentos medievos não existiam não tardou a atribuí-los de raiz, como foi o caso de Tancos, elevada à categoria de vila (e sede de concelho) a 7 de Setembro de 15177… a arrecadação de receitas queria-se tão sólida e duradoura como as paredes do novo cais!

O novo cais de pedra passou a centralizar os barcos de maior dimensão que vinham aqui abastecer-se de variados géneros – em quantidades agora muito maiores em cada transbordo – que eram necessários aos abastecimentos, alimentares e de outros tipos, na capital do reino agora senhor das rotas da África, Brasil, Índia e tantas outras paragens.

A continuidade no relevo dado pela Casa Real à Ordem de Cristo, que se verificou no reinado de D. João III, e o cuidado e interesse pela navegabilidade integral no rio Tejo que marcou a governação no período dualista sob o mando de Filipe II (1º de Portugal), garantem-nos que esta estrutura de acostagem foi mantida em boa operacionalidade e que foi sendo cuidada a sua conservação material.

Durante as Guerras da Restauração, entre 1641 a 1670, o cais de Tancos adquire funções suplementares no embarque de minérios – com destaque para o salitre, produto integrante da mistura da pólvora – que D. João IV ordenou fosse explorado nas terras a norte deste local, onde era posteriormente carregado em grandes quantidades a caminho dos arsenais de Lisboa. O mesmo sucedia com grandes cargas de minérios de ferro, retirados de Tomar, Figueiró e Pedrogão”. 1

Com a Guerra da Restauração, 1641 a 1670, ao movimento habitual do cais foi aditado o embarque de minérios destinados aos arsenais de Lisboa.

Antigos armazéns do Cais de Tancos – Foto de Maria Esteves

No numeramento de 1527 aparece a vila de Tancos tem 118 vizinhos (fogos) cerca de 500 pessoas.

Em 1712 tinha 400 vizinhos (fogos) e uma população de cerca de 1500 habitantes.

Em 1758, resultado dos inquéritos paroquiais, tinha 257 fogos (vizinhos), cerca de 1000 pessoas. 8

Nos inquéritos paroquiais de 1758, para a região da Barquinha, o prior João Vasconcelos, enaltece a capacidade do cais e do rio neste local: “corre por esta terra de nascente a poente o rio Tejo, tem aqui um grande pego em que podem ancorar navios. É navegável e capaz de muitas embarcações, mas os deste porto (de Tancos) são barcos grandes, bateiras e batéis.” 9

É a partir desta data que se inicia a decadência de Tancos como urbe.

Há autores que argumentam que a decadência de Tancos é consequência da existência de um imposto de 50 rs por pipa, e 30 rs por carga, uma provisão régia com o propósito de ajudar a Misericórdia de Tancos, imposto que não era quebrado no porto da Barquinha, foi uma das razões da deslocação do comércio fluvial para a novel Vila. Outros que teve a ver com o desenvolvimento de portos a montante, com especial relevo para o porto de Abrantes. Certo é que o principal comércio e transporte fluvial, que acontecia no rio Tejo, desviou-se para outros territórios.

Ainda a propósito das atividades no Tejo, o quadro de Adrien Balbi, “Essai Statisque”, Paris, 1822, regista o seguinte:

Localidades                       Barcos                                             Tripulantes
Barquinha                            25                                                       75
Tancos                                 14                                                       46
Abrantes                              40                                                       80
Constância                           10                                                       20
Paio de Pele                          77                                                      154
Atalaia                                 30                                                       260

Por estes dados conclui-se que a percentagem de gente de mar e pescadores, no nosso concelho era considerável.

Em 1878, existiam 245 habitantes (hab.), em 1981, 376 hab., em 1991, 301 hab., em 2001, 295 hab. e em 2011, 275 hab. Tanto na Vila de Tancos, como no caso da Barquinha, o traçado urbano, paralelo ao rio e em volta do cais, foi a matriz a partir da qual se estruturaram as outras ruas.

A construção das casas na zona ribeirinha era feita à base de granito e de pedra da região. Também os cais dos prédios adjacentes eram destes materiais, base predileta de construção dos nossos antepassados. O granito era explorado nas pedreiras da margem esquerda e direita junto de Almourol. Na antiga praça, junto aos cais, foi erigido o pelourinho. Junto ao cais nasceu, também, a Igreja da Misericórdia: «ESTE PORTAL SE FEZ DAS ESMOLAS DOS IRMÃOS DA MISERICÓRDIA SENDO [PROVEDOR O] CONDE DA ATALAIA 1585». Esta é a frase inscrita no friso do entablamento do seu portal. Com esta epígrafe surge o brasão do conde da Atalaia, Dom Francisco Manuel de Ataíde, que se juntou aos irmãos como mecenas da construção deste local de culto e que que deverá ser o fundador da misericórdia de Tancos, em 1582, a mais antiga do concelho da Barquinha. A Igreja da Misericórdia deixou de desempenhar a sua função religiosa devido às constantes cheias do Tejo que a deixavam, frequentemente, em mau estado. Em 1937, devido à ruína da estrutura e à impossibilidade de executar uma campanha de restauro, a Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais decidiu remover os painéis de azulejos seiscentistas, de forma a serem reaproveitados noutros templos que estavam então a ser restaurados, como a Igreja de Jesus de Setúbal. A partir dessa data o templo seria ocupado pelo Exército tendo servido como camarata e armazém, para apoio náutico, da Escola Prática de Engenharia. 10

Na década de 80, do século XX, o município construiu um anfiteatro no lado sul e na antiga igreja instalou o Centro Cultural de Tancos, sede do Grupo Coral.

Fora da zona do Cais existe a Igreja Matriz de Tancos, monumento de meados do Séc. XVI abundando no seu chão lajes tumulares com inscrições, todas identificadas como sendo do século XVI e XVII.

Segundo a Direção Geral de Património Cultural, sofreu diversas modificações em épocas posteriores, nomeadamente na frontaria, datável de finais da centúria de quinhentos e possivelmente contemporânea da Igreja da Misericórdia local, e no programa decorativo interior, originários de diferentes campanhas de obras dos séculos XVII e XVIII. O seu altar de talha é do Séc. XVII. A talha da capela-mor da igreja matriz de Tancos teve como outorgantes, no ano de 1696, em Lisboa, Vicente Lourenço de Carvalho, mestre sirieiro de Tancos e José Ramalho, mestre entalhador, pessoa que terá executado a obra.11

À entrada da localidade, na parte ocidental da vila, localiza-se a Capela de Nª Sr.ª da Piedade, edifício do século XVIII. Há referências às ermidas do Espírito Santo e de São João Baptista, entretanto desaparecidas. Desta segunda existe apenas a capela-mor, que é atualmente a capela do cemitério.

Caes de Tancos – Cópia microfilmada. Portugal, Torre do Tombo, mf. 3540, ano de 1853
Desenho das plantas de levantamento do Tejo

Documento realizado pela equipa dirigida por M. J. Guerra (1861), integrado nos projetos de melhoria da navegabilidade do maior rio ibério que tinham sido iniciados por Filipe II (1º de Portugal). Na apresentação da vila de Tancos percebe-se o desenho do grande cais, no qual é relevante o desenho da estrutura «contrafortada» que dá resistência à parte central do paramento. 1

Imponência do cais de Tancos – vista de Almourol
Fotografia do Arquivo Municipal da Barquinha, onde se observa, perfeitamente, o muro do antigo cais em elevado estado de degradação bem como todo o edificado adjacente
Fotografia do Arquivo Municipal da Barquinha. O transporte de grande volume era feito à vara. Ao fundo um edifício de 2.º andar. As mulheres a lavar roupa no rio no local onde foi aberto a via para acesso automóvel. Vislumbra-se, ainda, o muro do antigo cais.

Em junho de 1810 dá-se a terceira invasão Francesa. O ano de 1810 e de 1811 foram anos cruéis para o nosso concelho. Mais de 400 pessoas foram assassinadas conforme consta dos assentos paroquiais. Todas as populações sofreram destruições, saques e lutas. Os soldados franceses simplesmente destruíram a nossa história, dinamitaram o cais, provocando-lhe grandes danos, E até os livros dos cartórios serviam para fazer fogueiras, como aconteceu na praça de Tancos, tendo sido vistas a labaredas pelos habitantes do Arripiado do outro lado do rio 12

Em 1825 é feita a ponte que atravessa a ribeira de Tancos e que ligou esta Vila ao território de Paio de Pele “Pela intendência das Obras Públicas se participou a conclusão da obra da nova ponte construída sobre o Ribeiro das vilas de Tancos e de Paio de Pele, tendo a ponte 797 palmos e meio de comprimento e 30 de largo …” 13

Em 21 julho 1860, o Conselho de Obras Públicas dá parecer positivo acerca da segunda secção de caminhos-de-ferro da linha do Leste entre Ribeira de Santarém a margem do tejo em frente de Constância, definindo o seu traçado, secionando a vila de Tancos, no lado norte e no lado sul. 14

Em 7 de novembro de 1862, abre à exploração o troço da ferrovia entre Santarém e Abrantes,

Como advento do caminho-de-ferro o fluxo fluvial começa a perder importância, porque mais oneroso, entrando em decadência.

Fotografia do Arquivo Municipal Barquinha – Fragmentação do cais para acesso de veículos

Todavia, aparece um novo pólo dinamizador do território, a instalação de unidades militares no designado Polígono de Tancos. Por Portaria do Ministério da guerra, Diário de Lisboa n.° 180, é ordenando que na charneca de Tancos se forme um acampamento para os exercícios e manobras dos corpos do Exército. Curiosa é a situação da toponímia ser associada a Tancos quando de facto é território de Paio de Pele, atual Praia do Ribatejo.

Os fundamentos para a instalação constam do preâmbulo deste diploma: “Considerando que a Charneca de Tancos, medianamente acidentada é próxima à foz do Zêzere sobre o Tejo e do Nabão sobre Zêzere, está em condições topográficas recomendáveis para exercício e operações militares; Considerando que nas imediações da dita Charneca não há pântanos, nem arrozais que a tornem suspeita de insalubridade, e que elevação em que está sobre o leito o Tejo, e a natureza do seu solo a colocam em favoráveis condições higiénicas; Considerando que a vizinhança dos dois importantes rios permite, com o auxílio de alguns meios mecânicos, o abastecimento do campo com excelente água, e na abundância que se queira e for conveniente; Considerando que a circunstância de passar junto à dita Charneca o caminho-de-ferro de Leste e o rio Tejo facilita as comunicações daquele campo com a capital e com o resto do país, e contribui assim eficazmente para a economia dos transportes, reduzindo a despesa que é necessário fazer; Considerando que o terreno de que se trata é inculto e aberto, e confina pelo Norte com a charneca da Asseiceira que se presta a evolução de manobras com bastantes desenvolvimentos;  Houve por bem que o mesmo augusto senhor determinar que na Charneca de Tancos se forme o acampamento tropas que no presente ano devem fazer exercícios e manobras de instrução militar, aguardando resultados da experiência para resolver de um modo definitivo se o terreno agora designado pode com vantagem ser destinado terminantemente para aquele fim. Paço, 3 agosto 1866, António Maria do Fontes Pereira de Mello”.

Fotografia do Arquivo Municipal Barquinha

De relevar que no ano de 1940, no boletim abaixo indicado, é mencionado que … “há três portos fluviais em Tancos, todos se encontram em péssimo estado (certamente fragmentados, dai o numero três) e com más vias de acesso pelo abandono a que têm sido votados”.15

 

Da análise das estruturas de longa duração inscritas no sítio, e dos documentos analisados, podemos concluir:

O cais manuelino foi realizado em alvenaria de pedra granítica e tem cerca de 7 m de altura. Na zona poente o muro está fundado diretamente no substrato rochoso (granito alterado).

Na zona nascente o muro está fundado na formação aluvionar compactada com estacas de madeira, observadas nas sondagens realizadas em 2019.

Das imagens do final do Séc. XIX início o Séc. XX, verificamos que o muro teria uma extensão de cerca de 215 metros, encostaria a poente perto do curso de água ainda hoje ali presente, depois da Igreja da Misericórdia, e a nascente, junto da bacia da ribeira de Tancos, o que seria um colosso para a época.

Na zona ribeirinha são os portais e as janelas dos velhos muros que nos recordam silenciosamente a azáfama de outras épocas.

No início do Séc. XX, talvez aquando dos exercícios militares da Escola de Engenharia (pontoneiros), foi aberto uma estrada de acesso direto ao rio, com corte a meio do cais (fragmentando-o), para acesso à ponte das barcas tendo em vista a realização de exercícios militares.

O cais foi fundamental para o desenvolvimento de Tancos e veio a influenciar o traçado urbano da Vila e a localização dos edifícios mais nobres como a Casa da Câmara de Tancos e a Igreja da Misericórdia, e pelourinho, que na sequência das guerras liberais foi substituído pela forca.

O cais foi, em Tancos, uma de fronteira natural, um corredor de comunicação entre as terras altas e as terras baixas, e entre o lado norte e o além tejo, desde o tempo dos romanos, com ligação duradoura aos portos a este e oeste e com capacidade para barcos de grande carga.

O cais criou homens marítimos, arrais, artífices, pescadores e comerciantes.

Muito falta por narrar e dar a conhecer desta Vila banhada pelo rio tejo, bem como da via civilizacional que, ora em correria, ora em mansidão, nos acompanha na longa jornada de séculos, a que chamamos Tejo, tendo o cais de Tancos como testemunha perene deste caminho.

Arripiado – vista do cais de Tancos – Fotografia de Carlos Mateus Lima

1 PROJECTO DE REABILITAÇÃO DO CAIS DE TANCOS, CÂMARA MUNICIPAL DE VILA NOVA DA BARQUINHA, Fase 1 – Relatório Preliminar, Memória Descritiva e Justificativa, maio de 2018, Rui Mateus, A2P, Estudos e Projetos

2 SAA, Mário, As grandes vias da Lusitania: o itinerário de Antonino Pio, Volume 6, 1967

3 Azevedo, Rui, Documentos Medievais Portugueses, Documentos Régios, Vol-I, p.388-389. Doc. 297

4 Andrada, Miguel Leitão, Miscellanea, Nova Edição Correcta, Lisboa, Imprensa Nacional, 1867

5 Bronseval, Frére Claude, Peregrinatio Hispanica, 1531-1533, tomes I e II, Paris, 1970

6 Frutuoso, Gaspar, Saudades da terra, L.III, Santa Maria, ed. 1922

7 Chancelaria de D. Manuel, liv. 10, H. 100; liv. 12 da Estremadura, fl. 78 v.

8 Mação, Helder Vitória, Tancos-Ecos do passado do presente, Edição Câmara Municipal da Barquinha, 1995

9 Pereira, Julio Manuel. A Região da Barquinha no Séc. XVIII. A visão dos inquéritos paroquiais. Edição da Câmara Municipal, 1993

10 Pinho, Joana Balsa, As casas da Misericórdia: confrarias da Misericórdia e a arquitetura quinhentista portuguesa, tese de doutoramento de 2013

11 Ferreira, Sílvia Maria Cabrita Nogueira Amaral da Silva -A Talha Barroca de Lisboa (1670 – 1720). Os Artistas e as Obras. Volume 1- Doutoramento em História, Universidade de Lisboa. 2009

12 Memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Tomo VIII, Parte I, 1823

13 Gazeta de Lisboa segunda-feira, número 78, 4 abril 1825

14 Gazeta dos Caminhos de Ferro, n.º1649, 1 de setembro de 1946

15 Boletim da Junta de Província do Ribatejo / dir. ed. Abel da Silva. – Santarém, J.R.R, 1940

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