Mação | Jovem cria videojogo para sensibilizar sobre a realidade dos incêndios

Luís Oliveira tem 21 anos, é natural de Mação e ali reside, tal como a maior parte da sua família. Terminou há pouco tempo o curso de Animação e Videojogos na ETIC, em Lisboa, de onde surgiu o jogo educativo “Chama”, que pretende sensibilizar os mais jovens sobre o tema dos incêndios e a forma perigosa e destrutiva com que invadem e prejudicam as vidas das comunidades que assolam. Aqui, os últimos incêndios em Mação assumiram protagonismo e serviram de inspiração, não tivesse o pai de Luís conduzido máquinas de rastos e ajudado no combate aos grandes fogos, como os de 2005 e os de 2017.

Luís começou o percurso escolar em Mação, no Agrupamento de Escolas Verde
Horizonte, que frequentou até ao 9º ano, para depois passar a frequentar até ao 12º ano a Escola Secundária Doutor Solano de Abreu, em Abrantes. Posto isto, ingressou no curso de Animação e Videojogos na ETIC, em Lisboa. “Acabei há pouco tempo”, diz ao mediotejo.net, referindo que agora o foco está em “continuar a desenvolver o “Chama” e conseguir investimento para o projeto”.

Sobre o porquê de desenvolver este jogo baseado nos incêndios, Luís menciona que se muito se deve à sua realidade, desde muito cedo, pois vivendo em Mação, tal como a maioria da família e amigos, sempre assistiu e sentiu de perto o horror e o medo provocados pelos intermináveis dias de combate aos fogos e de proteção das pessoas e suas casas.

PUB

Entre as memórias, surge esta realidade como a que mais o marcou. “Talvez o que me tenha marcado mais, foi mesmo ver o fogo a chegar às casas. É muito fácil ver na televisão, mas quem está realmente a viver aquele momento… Ver amigos e familiares a ficarem sem bens é uma experiência de perder o ar. Foi sem dúvida alguma uma grande influência para o desenvolvimento do “Chama”, assume.

O historial de incêndios em Mação é o ponto de partida para o videojogo que Luís Oliveira, juntamente com os colegas de curso Luís Patrício e Catarina Esperança, desenvolveu durante o percurso académico na ETIC, formando a ST Studios. Foto: DR

O facto de viver em Mação e estar mais desperto e sensível ao assunto dos fogos florestais também se deve ao pai, que trabalha com máquinas de rastos e tem colaborado nos grandes fogos do concelho para travar a sua propagação. Luís cresceu a assistir à convocação do pai para o combate contra aquele fim do mundo em chamas.

“O meu pai trabalha com máquinas de rastos, então sempre que há incêndios a Câmara Municipal de Mação entra em contacto com ele para que possa ajudar. Nesses dias fazia diretas a trabalhar, e nós não sabíamos nenhuma notícia dele, até porque não havia rede”, lembra.

Por outro lado, recorda 2017, em que acabou por não suportar a ideia de o pai seguir sozinho e de estar tanto tempo sem notícias. “Houve alturas em que acabava por ir com ele, mas nunca me deixavam ir realmente para as zonas de incêndio, ficava a ajudar
os bombeiros fora da frente de fogo”, conta.

“Mesmo afastado, o que vi foi arrepiante!”, desabafa o jovem maçaense.

Em causa também o sofrimento de amigos, que sentiram na pele os prejuízos, algo que felizmente não foi tão flagrante na sua família. Alguns perderam as suas casas e terrenos, e perderam para as chamas alguns bens.

“A maioria dos incêndios que aqui passaram foram muito marcantes para todos nós, no entanto, o incêndio de 2017, tal como o de 2005, foi bastante avassalador no nosso concelho pelo total de área ardida e prejuízos causados”, afirma, aludindo aos mais de 90% de área ardida no concelho entre 2017 e 2019.

As personagens estão construídas com base em animais caraterísticos das florestas de Portugal, que são jogáveis ao longo dos mini-jogos apresentados, na ótica de fornecer maior consciencialização ao jogador. Foto: DR

Este é o ponto de partida para o videojogo que Luís Oliveira, juntamente com os colegas de curso Luís Patrício e Catarina Esperança, desenvolveu durante o percurso académico na ETIC, formando a ST Studios.

“Tínhamos que desenvolver um projeto sobre eventos atuais, e não foi preciso pensar muito para chegar a esta ideia. Sendo de Mação, onde é muito comum esta situação dos incêndios, juntei-me com uns colegas e começamos a desenvolver o projeto, com o objetivo de tratar deste assunto de uma forma mais séria”, começa por dar conta.

Luís lamenta que os jovens da sua idade, fora de Mação, parecessem muitas vezes alheados da realidade e não percebessem o real impacto que um incêndio pode ter num território em várias vertentes, quer a nível social, económico, emocional. Uma realidade com a qual está mais do que familiarizado.

O jogo incide sobre a história de Ana Raposa, uma jornalista encarregue de fazer uma reportagem e investigar sobre os incêndios que assolaram a vila de Mação, sendo dividido por vários mini-jogos, protagonizados pelos habitantes da vila. Foto: DR

“Sentia que fora de Mação, entre jovens (da minha idade) parece que o impacto dos incêndios é diferente. Talvez porque não consomem muita televisão, rádio, jornais… não sei. Mas, o mundo dos videojogos é definitivamente um meio que todos conhecem. Daqui surgiu a ideia do “Chama”, enquanto um jogo que tem como foco sensibilizar as pessoas sobre este tema”, diz.

O jogo tem uma forte componente didática/pedagógica, e é baseado em factos verídicos, uma vez que o grupo de trabalho fez uma recolha de depoimentos sobre pessoas que sobreviveram aos fogos no concelho.

“A audiência vai jogar dentro das memórias de quem passou pela experiência. A nossa intenção não é ensinar a ‘apagar’ incêndios, para isso há profissionais super qualificados para o fazer. O “Chama” tenta sensibilizar para as estórias das pessoas, como sobreviveram, o que tiveram de fazer, e como foi passar por toda aquela experiência”, também alertando para possível prevenção desse risco.

O jogo continua em desenvolvimento e permanece o sonho de poder vir a ser jogado, para breve, em PC, PlayStation® 4 e Nintendo Switch.

Incide sobre a história de Ana Raposa, uma jornalista encarregue de fazer uma reportagem sobre os incêndios que assolaram a vila de Mação, sendo dividido por vários mini-jogos, protagonizados pelos habitantes da vila. O jogo foca-se em técnicas reais de prevenção de incêndios e procura evidenciar uma realidade desconhecida por muitos.

As personagens estão construídas com base em animais característicos das florestas de Portugal, que são jogáveis ao longo dos mini-jogos apresentados, na ótica de fornecer maior consciencialização ao jogador sobre as adversidades dos incêndios com o lema “aprende enquanto jogas”.

Foto: DR

Luís Oliveira insiste que é “muito difícil, para quem nunca experienciou essa realidade, ter noção do horror que os habitantes destas zonas vivem anualmente”.

A ST Studios, onde Luís trabalha juntamente com os colegas, foi fundada em 2018, e já desenvolveu um outro título, “Shadows of Tomorrow”. A equipa considera que o projeto “Chama” está a ser “mais ambicioso”.

Terminado o curso e com o novo videojogo em desenvolvimento, Luís continua por Mação atualmente, mas sem descartar a hipótese de agarrar uma oportunidade noutro ponto do país ou até fora.

“Sempre tive um grande carinho por Mação, no entanto, estou preparado para tudo. Nunca se sabe onde pode surgir uma outra grande oportunidade. Neste momento o foco é desenvolver o “Chama”, o que não impede que possa fazer outro tipo de jogos no futuro. Tanto eu, como a minha equipa, queremos é comunicar utilizando um meio mais familiar entre os jovens”, admite.

Em Mação, Luís destaca o “maior sentido de comunidade”, em detrimento da capital, onde tudo se amplifica.

“No concelho conhecemos a maioria das pessoas, e se precisarmos de ajuda, sabemos que vão ajudar sem hesitar. A grande desvantagem são as oportunidades, que normalmente são menores. Nos locais maiores, como Lisboa, há de tudo…”, refere.

Ter saído da pacata vila para Lisboa “foi um choque” no início, e mesmo estando rodeado de milhares de pessoas e de ter noção das muitas oportunidades, o jovem continuou algo inseguro.

Habituado que está à sua terra, à sua envolvente e natureza que lhe serve inspiração no ar puro da serra, nas ribeiras que correm na floresta, com a empatia entre as pessoas das aldeias.

“É outra forma de viver. Mas gostei imenso da experiência em Lisboa, e agora espero juntar a minha vivência de Mação com a de Lisboa, e com isso contribuir para concluir e projetar  o “Chama”, até porque é o jogo perfeito para o fazer”, conclui.

PUB
Joana Rita Santos
Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres: o conhecimento e o saber, a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).