Ferreira do Zêzere | Nossa Senhora do Pranto. A Virgem das romarias (círios) a Dornes

Santuário de Nossa Senhora do Pranto, em Dornes, foi mandado edificar pela Rainha Santa Isabel Foto: mediotejo.net

Entre a Páscoa e o mês de setembro, 40 paróquias de 11 concelhos circundantes a Ferreira do Zêzere realizam, em várias datas, a sua tradicional romaria anual ao Santuário de Nossa Senhora do Pranto, na vila de Dornes. Noutra época, traziam um círio (vela religiosa de grandes dimensões), hoje trazem uma bandeira. O termo “círio” associou-se porém às grandes romarias. Dornes possui inclusive um museu com círios antigos, a maioria dos tempos da monarquia, emblemáticos desta tradição.

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A 15 de agosto, dia da Assunção de Nossa Senhora, realiza-se uma das romarias que regista maior adesão, com a presença de oito paróquias. Este ano espera-se uma participação mais modesta em Ferreira do Zêzere devido à pandemia, mas vai haver missa campal e quermesse.

“Gostávamos de ir à Igreja, é possível?”

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“Sim, claro. Desejam ver também o nosso Museu?”

Jorge Silva é voluntário na Igreja de Dornes e refere que os artigos que mais saem são os pequenos círios, reflexo da cultura de romarias da localidade Foto: mediotejo.net

O senhor Jorge  Silva é reformado e passa algumas das suas tardes na pequena loja de artigos religiosos da Igreja de Dornes, por onde se entra para visitar o templo. Por norma, explica, tendo que estar alguém presente a vigiar o Santuário, este só abre durante a tarde, mas aos fins de semana e feriados está aberto todo o dia. Quem entra vem de telemóvel em riste, tira fotos a tudo, mas nem sempre está efetivamente a olhar para a profundidade histórica e cultural deste património, reflete o reformado.

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Nesta tarde de sexta-feira é muita a afluência. A população enfeita a Igreja e prepara o andor de Nossa Senhora do Rosário para a romaria do dia seguinte, 15 de agosto, uma das mais concorridas dos círios a Dornes. Todos os anos junta várias centenas de pessoas, reflete Jorge Silva, mas este ano a presença popular deverá ser mais modesta devido à pandemia.

A minúscula loja faz lembrar uma das congéneres de Fátima, mas o seu foco é a Nossa Senhora do Pranto. É a imagem da Virgem amargurada com o filho morto nos braços que mais se vende por aqui, refere, assim como as miniaturas do tradicionais círios que compõem o património material de Dornes. O orago do Santuário é de tal forma importante na cultura popular que tornou-se no nome da freguesia aquando a reorganização administrativa, embora a sede da União de Freguesias tenha passado para a Frazoeira.

Diz a lenda que, em 1453, Guilherme de Pavia, feitor da Rainha Santa Isabel, perseguia um veado na Serra Vermelha quando ouviu um choro doloroso. Por muito que procurasse, porém, não conseguia identificar quem chorava. Tendo contado o sucedido à Rainha, esta manifestou saber o que se tratava e o local exato onde o cavaleiro templário iria encontrar uma imagem de Nossa Senhora com Cristo morto nos braços. Após o achado, a Rainha Santa mandou erguer a capela e deu à localidade o nome de Dornes.

População preparava na sexta-feira, dia 14, a procissão da romaria tradicional do 15 de agosto Foto: mediotejo.net

A imagem de Nossa Senhora do Pranto esteve na origem de memoráveis zaragatas com a população de Cernache do Bonjardim (Sertã), do outro lado do rio, que reclamava para si a propriedade da escultura, uma vez que fora encontrada na Serra Vermelha. A imagem, diz a lenda, desapareceu várias vezes, mas voltava a surgir sempre na ermida de Dornes.

“A imagem de Nossa Senhora do Pranto atrai pelo valor patrimonial, mas também pela beleza”, reflete ao mediotejo.net o pároco de Dornes, Padre Manuel Patto.

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“É o olhar da Virgem, a mão de Jesus, o entrelaçar de mãos”, tenta explicar. “É uma imagem única pois, não sendo barroca, não é estática. Com a luminosidade o rosto de Nossa Senhora vai parecendo diferente, por vezes chorando, por vezes sorrindo”.

“A imagem é gótica, da renascença, e marca pela aflição visível. É uma imagem de luto, de sofrimento”, explica.

A ermida deu lugar a uma Igreja e é considerada um Santuário. Todos os anos atrai largas centenas de romeiros no período entre a Páscoa e o mês de setembro, mas o 15 de agosto e o Pentecostes (23 de maio) são as romarias mais concorridas, reconhece o sacerdote.

À semelhança de outras localidades espalhadas pelo mundo católico, o culto a Nossa Senhora do Pranto originou todo o género de promessas. Um “círio”, refere a mais recente brochura sobre Dornes, citando Leite Vasconcelos, “é uma peregrinação religiosa de um grupo de romeiros, formado pelos habitantes de uma povoação, que culmina com a visita a um templo/Santuário, como forma de pagamento de uma promessa coletiva”.

Igreja de Dornes, edificada originalmente no século XV e alvo de sucessivas remodelações e de grande riqueza artística, é visitável durante a tarde e todo o dia aos fins de semana Foto: mediotejo.net

Estes grupos, explica o Padre Manuel Patto, traziam anualmente um círio, a vela religiosa das celebrações católicas, motivo pelo qual os nomes se associaram. A dada altura deixou-se de trazer a vela e as paróquias entregaram ao Santuário, a título simbólico, círios de madeira, que ali permanecem todo o ano.

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O Museu da Igreja de Dornes tem 22 círios votivos, uma coleção “única”, recentemente restaurados e integrados num espaço museológico próprio, financiamento pelo Turismo de Portugal. A obra de 30 mil euros já está concluída, mas encontra-se a aguardar inauguração oficial.

Museu dos Círios ainda não foi inaugurado, mas já pode ser visitado Foto: mediotejo.net

“Em Dornes há festa todo o ano”, afirma o sacerdote, frisando que todas as romarias ao Santuário são igualmente importantes e que aquando a inauguração do Museu e da requalificação da Torre Templária quer ter presentes as 40 paróquias que todos os anos continuam a realizar a sua peregrinação a Nossa Senhora do Pranto.

É este o motivo, explica, porque o projeto “Zêzere Sagrado”, que integra estas e outras obras num investimento de 400 mil euros, ainda não foi apresentado ao público. Mas já é possível ser visitado.

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