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Sábado, Outubro 23, 2021

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ENTREVISTA | Luís Damas: “Portugal é o único país do mundo que proibiu a plantação de eucalipto”

Luís Damas nasceu há 58 anos em Abrantes, no dia 25 de março de 1963. Engenheiro Florestal de profissão, com mestrado em recursos florestais, reside na sua cidade natal, há três anos assumiu a presidência da Federação Nacional das Associações de Proprietários Florestais, função que acumula com a presidência da Associação de Agricultores de Abrantes, Constância, Sardoal e Mação cargo que exerce há seis.

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É também vice-presidente dos bombeiros de Abrantes. Gosta de caça, principalmente ao javali, momentos de espera que aproveita para meditar, e de percursos pedestres, nomeadamente dos vários caminhos de Santiago de Compostela. Não fosse a pandemia e teria lá chegado no dia do seu aniversário. Espera, ainda este ano, caminhar até lá desde sua casa, sem pressas. Assume-se um homem da natureza para quem a fé passa por acreditar ser capaz de fazer tudo aquilo em que acredita. Afirma que “se as pessoas acreditassem mais em si próprias resolviam-se muitos problemas”.

É casado tem dois filhos, um rapaz também na área florestal, a trabalhar na Serra de Monchique e uma rapariga que escolheu Sociologia. Foi presidente da Associação de Estudantes no liceu de Abrantes, presidente do CDS de Abrantes, candidatou-se duas vezes à Câmara Municipal. Primeiramente numa lista do PSD/CDS e depois integrou uma lista de independentes liderada pelo arquiteto Albano Santos. Revela ter sido convidado recentemente por uma força política para integrar novamente uma lista à Câmara Municipal nas próximas eleições autárquicas mas recusou.

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Diz gostar muito do que faz. Tem uma pequena quinta onde passa os tempos livres entre a vinha e a plantação de flores. Mais de 30 anos na Associação, que celebra 36 anos em setembro de 2021, ensinou-lhe que a política regional tem a ver com pessoas e “as forças vivas têm de viver com os políticos e indicar alguns caminhos. Uma voz ouvida”.

Por isso considera melhor “ter independência e não ficar amarrado politicamente”. Gosta de dizer o que pensa e essa independência dá-lhe liberdade e gozo. “A mim não me vai ver na política e se me vir pode dizer-me: Você não está bom!”. É benfiquista. O mediotejo.net foi saber como encara o futuro da floresta e o ordenamento do território às portas de mais um verão.

Luís Damas, presidente da Federação Nacional das Associações de Proprietários Florestais e da Associação de Agricultores dos concelhos de Abrantes, Constância, Sardoal e Mação. Foto: mediotejo.net

Vem aí o verão, sendo que após os incêndios de 2017 surgiram novas leis de defesa da floresta contra incêndios. A floresta está defendida?

O grave é que não surgiram novas leis! Já existiam desde 2007. A prevenção custa muito dinheiro e só com a tragédia – em 2017 morreram pessoas – as leis foram implementadas. A prevenção era uma obrigação partilhada pelas Câmaras e pelos proprietários, depois empurram para os proprietários as responsabilidades, sendo que Estado também as tem nomeadamente na limpeza das faixas de primeira ordem.

Então a lei não inovou?

Duplicaram as coimas e a sociedade civil começou a ter alguma preocupação porque viu que contra os grandes incêndios não há nada a fazer.

Mas as pessoas estão mal informadas?

Sim. Por isso, parte da ‘bazuca’ europeia destina-se a ações de sensibilização da população, para minimizar os comportamentos de risco. Mas pensamos que a ‘bazuca’ tem de se aplicar no território e torná-lo mais resiliente, com algo que se veja no terreno. Há medidas que reclamamos há muito tempo; por exemplo, manchas agrícolas no meio da floresta serem compensadas. Além disso precisamos de técnicos no território, no ICNF os quadros foram-se reformando e está tudo em Lisboa. Um dos grandes problemas são os engenheiros florestais, na Associação temos três ou quatro mas a rotatividade tem sido grande e começa a ser um problema.

A legislação de limpeza de terrenos e de proteção de populações é o que deveria ser?

A limpeza dos terrenos é um fardo para o proprietário. A limpeza das aldeias e das faixas dos 100 metros é Proteção Civil pura. São medidas para proteger pessoas e bens e tem um custo, são onerosas para os proprietários porque, a mata cresce, e todos os anos têm de limpar. Não tendo uma utilização de solo, com oliveira, medronhal – que “pague” essa limpeza, o controlo da vegetação, todos os anos é um prejuízo para o agricultor. E está a defender um bem público do qual não é ressarcido, é um encargo. O mais grave é que alei só obrigou a cortar árvores – o pinheiro e o eucalipto têm de estar a 10 metros de copas – portanto, abrimos, o sol entra e os materiais finos (ervas e matos) crescem mais. Fez-se o mais fácil – limpar por limpar – mas tecnicamente nem foi estudado. É um custo para os proprietários, para as autarquias, para todos nós enquanto contribuintes.

É também por isso que entende que os incêndios – pelos menos na nossa região – são inevitáveis?

Não só na nossa região. Nos climas mediterrâneos – Portugal, Espanha, na Califórnia, na Austrália. O ciclo do fogo está muito acelerado devido à atividade humana, portanto, temos de saber lidar com os incêndios. Digo que 98% dos incêndios são de origem humana, não quer dizer que sejam criminosos. Resultam de um comboio que passa, da linha de eletricidade, da limpeza das bermas, das máquinas na agricultura, dos fumadores, de queimadas mal planeadas. São descuidos.

Luís Damas durante a nossa entrevista na Associação de Agricultores de Abrantes, Constância, Sardoal e Mação. Créditos: mediotejo.net

Portanto surgiram leis para proteger pessoas e bens…

Exato. Mas dentro da floresta ainda não se mexeu. Podemos fazer uma limpeza à volta de uma aldeia, mas se não ordenar dentro da floresta, se não reduzir combustível, o fogo chega com uma certa intensidade e os 100 metros limpos podem não ser suficientes. Em 2017, se as pessoas tivessem ficado dentro das casas não tinham morrido. A casa até pode ser tomada pelo fogo mas para a consumir demora tempo. É preciso explicar às pessoas que se a casa for tomada saímos para a rua porque já ardeu à volta e estamos seguros. É complicado ver lume vir na nossa direção e ficarmos quietos… é natural que o instinto seja fugir, mas às vezes a fuga resulta mal.

Falou em queimadas mal planeadas. São outro problema?

É outro drama de que ninguém fala. As mortes de idosos no inverno. Pessoas com pouca mobilidade e pouco desempenho. Têm essa pressão de limpar e vão fazer queimadas sem segurança. Depois de 2017 já morreu muita gente a fazer queimadas porque são de idade avançada, não têm meios económicos, querem resolver o problema e acontece o pior.

Defende que o terminus do prazo de limpeza de terrenos até 15 de março, como determina a lei, é cedo. Quer explicar?

Ainda bem que o Governo voltou a estender o prazo até 15 de maio, embora tenhamos pedido até dia 30. Até 15 de março não faz sentido algum. Ainda estamos no inverno e há crescimento das plantas, materiais finos, que alimentam os grandes incêndios. Se o proprietário limpar até 15 de março terá de voltar a limpar mais tarde. É um custo que duplica ou triplica. A lei tem de se adaptar aos ciclos, não há leis fixas para a natureza. Os incêndios de 2017 aconteceram fora do período critico – um 17 de junho e outro a 15 de outubro. As plantas têm ciclos anuais, após a semente param de crescer e secam. É nessa altura que se deve cortar e é isso que pedimos. O Governo argumenta com um espaço temporal, no caso do proprietário não limpar, para a obrigação passar para as autarquias. Mas mesmo assim achamos não ser razão.

Luís Damas na Associação de Agricultores de Abrantes, Constância, Sardoal e Mação. Créditos: mediotejo.net

A pandemia agravou a questão da limpeza de terrenos?

Devido à falta de mão de obra e ao confinamento agravou-se. Muitas pessoas vivem nas cidades no litoral e vinham ao fim de semana fazer as limpezas. Agora estão impedidas de se deslocar ao fim de semana. Há essa condicionante. Também há falta de tecnologia. Até 15 de março as máquinas estavam a atascar por causa do excesso de água nos terrenos. É certo que tem havido alguns fogos mas são incêndios frios, há muita humidade e não têm condições para se tornar grandes incêndios, com danos maiores.

Ou seja, mesmo com a implementação das leis que obrigam a limpeza dos terrenos, a floresta continua a arder. O Governo (ou os governos) acordou tarde para os incêndios?

Todos os governos acordaram muito tarde. Os incêndios não se resolvem em quatro anos, só com um governo mas com um pacto para a floresta e pensar no seu ciclo para 30, 40 ou 100 anos. Sabemos o caminho. A desertificação e o abandono do interior tem múltiplos fatores, alguns longínquos como a emigração nos anos 1960, o êxodo para as cidades, etc. As populações limpavam a floresta por necessidade porque não havia energia, nem eletricidade nem gás. Roubava-se mato para cozinhar e para a cama dos animais. As populações retiravam da floresta tudo o que podiam para sobreviver. Não queremos esse tempo de miséria mas queremos que quem vive no litoral pague esse serviço porque as pessoas que vivem no interior estão a contribuir para o bem comum.

Nesta questão de litoral versus interior acha que a pandemia mudou mentalidades?

Com a pandemia muitas pessoas já começaram a pensar… lembra-se daquele episódio da falta de oxigénio nos hospitais? Estes territórios estão todos os dias a produzir oxigénio e ninguém lhe dá valor. Contribuímos para a paisagem – agora está na moda percorrer trilhos -, a água que 3 milhões de portugueses bebem corre nesta bacia no interior desde a Serra da Estrela. A qualidade da água do rio Zêzere deve-se ao que temos feito aqui na região Centro. Esses agentes do território têm de começar a ser compensados por esses bens que promovem à sociedade.

E de que forma se atribuiria essa compensação?

Através de benefícios diretos a quem viva no interior, essencialmente do Tejo para cima, ou através de impostos. Defendo a discriminação positiva. Uma pessoa quer vir para o interior porque tem um olival, logo tem de ser paga para o manter porque vai servir para a paisagem e de tampão ao fogo. É certo que os agricultores têm ajudas diretas através do pedido único, são compensado pelo olival, pelas vacas autóctones, pelo trigo, etc. Mas as populações do interior que exerçam alguma atividade agrícola têm de ser bem pagas. É a única forma de mudar o território; com rendimento. Com a pandemia os jovens perceberam que podem trabalhar no campo e ter melhor qualidade de vida. Queremos os novos povoadores e que se sintam bem a viver cá, com a mesma dignidade. Isso consegue-se com incentivos.

Mas nos território de baixa densidade acontece o mesmo êxodo. As pessoas também saem das aldeias para as cidades devido à perda de serviços na ruralidade…

Outro erro! É verdade, em Abrantes, Sardoal, Mação, as pessoas saem das aldeias para a cidade. As burocracias também impedem de se investir nas aldeias. Curiosamente, todas as aldeias já têm energia e água, chegou quando as pessoas já lá não estavam. Agora não temos cobertura de rede móvel nem Internet, algo essencial para o desenvolvimento do território. Os filhos dos agricultores que vivem em montes, muitos não têm acesso à Internet para ter aulas à distância e isso é grave!

Associação de Agricultores de Abrantes, Constância, Sardoal e Mação. Créditos: mediotejo.net

No que toca ao combate aos incêndios, por que razão estão os proprietários contra o investimento do Estado em meios aéreos? O que defendem?

Têm de se investir mais na prevenção. É o trabalho da formiga. Este Governo vai comprar mais 14 meios aéreos… então em 2020 não conseguiram colocar seis a voar!? Os helicópteros kamov estão parados no hangar por problemas como falta de manutenção ou judiciais, e vai gastar 127 milhões de euros na compra. Temos de ser claros: combate às vezes não é eficaz. defendemos a inversão deste pensamento. O combate é essencial mas cada vez gastar mais em prevenção: pôr dinheiro no território, dar dinheiro aos agricultores, às câmaras para operações de redução de combustível, incentivar um diferente uso do solo, fazer projetos globais, dar incentivos para as pessoas voltarem para território e ter rentabilidade, se não se conseguir pelos produtos, criar mecanismos do Estado. É um caminho que vai demorar. Sei que é um trabalho que não se vê, mas os fogos veem-se!

Então encaramos a prevenção e o combate aos incêndios de igual forma desde 2017?

Não. Houve algumas mudanças. Foi criada a AGIF [Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais] para juntar o conhecimento e não apenas ir atrás do problema, houve um relatório de uma comissão independente que trouxe algumas diretrizes e indicou o caminho. Conseguiu reduzir-se as ignições, o uso do fogo pela população e dos descuidos estava acima da média mundial. Mas a estrutura de combate não está preparada para lidar com incêndios de grande dimensão. Pensa-se logo – e bem – em defender as aldeias mas não há um planeamento prévio.

E há planos para alterar os procedimentos?

Penso que vai ser invertido. Foi pensado o programa de sapadores florestais no qual estavam previstas 500 equipas e aumentaram muito. A Associação passou de três para sete. Fizemos um esforço e demos o exemplo na aposta na prevenção, temos 35 sapadores ao dispor dos agricultores, dos municípios e da região. O seu trabalho divide-se em três fases: a prevenção, onde estão durante 55 dias no ano, num sistema liderado de primeira vigilância e intervenção no terreno, combatem os fogos nascentes; o trabalho de serviço público sendo o Estado a indicar os locais seja nas faixas de primeira ordem ou nas matas nacionais; e os restantes 110 dias é trabalhos para os agricultores, nossos associados e quem queira usufruir.

Com financiam essa prevenção?

Recebemos anualmente por cada equipa 45 mil euros. Um trabalho que fazemos ao Estado muito barato. Os sapadores florestais deveriam ter melhores salários e serem mais valorizado pela sociedade. Nos Estados Unidos um bombeiro florestal é uma entidade reconhecida, aqui é um tipo que não têm mais nada para fazer e vai cortar mato. Mas estamos a conseguir que seja um trabalho reconhecido. Curiosamente temos um dos sapadores mais antigos do País, o programa começou em 1999, e temos uma das primeiras equipas.

Deduzo, então, que já não pensa como há uns anos quando disse que a reforma era para português ver…

Não. Acho que estão a ser dados passos diferentes. Reduzir incêndios só mudando a paisagem, o uso do solo e contribuindo para a valorização das pessoas que cá vivem, dando-lhes rendimento. Agora o Estado quer alterar a paisagem, com planos de condomínios de aldeia e olhar para o território em escala. Há projetos em andamento nomeadamente em Vila de Rei após os incêndios que atingiram Sertã, Oleiros, Mação, em 2019. Os proprietários estavam preocupados quando surgiu a ideia dos arrendamentos coercivos mas tem de haver um espírito de bem comum. Todos com a mesma receita. Este território precisa de investimento e direção, com continuidade. Em floresta estamos a investir para os nossos netos.

Defende então que alterar a paisagem é o caminho?

Sim. Estamos esperançados! Se há alguém que conhece o território é o secretário de Estado da Floresta, João Paulo Catarino. É engenheiro agrónomo, ex-presidente da Câmara de Proença-a-Nova, portanto conhece o território, vive num aldeia, foi responsável pela Divisão do Núcleo Florestal do Pinhal Interior Sul e faz o favor de ser meu amigo. Sei o que defende. Se ele não conseguir…

Eucaliptos. Foto: DR

Na nossa região a floresta é basicamente eucalipto e continua a grande mancha no Centro do País, a árvore que muitos dizem ser responsável pelos incêndios.

Não há soluções mágicas, a floresta foi crescendo como quis. Salvo exceções houve algum ordenamento. Sim, aqui temos o patinho feio da floresta. É a floresta que cresceu mais no País porque também teve uma industria por trás que conseguiu passar o know how aos proprietários, com plantas melhoradas. O eucalipto não nasce espontâneo, teve de ser plantado. Conseguiu dar algum rendimento ao agricultor no intervalo dos fogos. Aos 12 anos consegue-se tirar rendimento, o ciclo do fogo andava nos 15 anos. Um agricultor não vai investir em pinheiro, que demora 30 anos, para arder. Só investe se for pago para isso. Tem de haver uma parte económica nisto tudo. Ou então não investem e fica ao abandono.

Mas para ser rentável o eucalipto não deveria estar onde chove mais, por exemplo no Norte do País?

O eucalipto tem uma adaptação edafoclimática onde chove mais, mas também não gosta de sítios alagados. Existem 600 espécies de eucaliptos e em Portugal temos a globulus, a mais estudada. A industria já vai em clones, híbridos, temos resistência ao frio, foi uma árvores muito trabalhada e tem aumentado a produtividade. No entanto, temos um grande problema: As zonas de fronteira no distrito de Castelo Branco já foram abandonadas por falta de pluviosidade. No Médio Tejo estamos numa zona intermédia, no Centro vê-se grande matas. No Norte, nomeadamente no Minho, impera o minifúndio e é difícil fazer um hectare. Aqui conseguiu-se fazer zonas com 40 ou 60 hectares. No Alentejo não há eucaliptos devido ao clima seco, na Serra da Estrela também não por causa do frio.

Aos seus associados aconselha a plantar eucalipto?

A plantação de eucalipto está proibida. Se for reflorestação as pessoas têm o direito de escolher e replantar ou retirar. Mas a propósito da pandemia costumo perguntar: há um ano o que açambarcaram para levar para casa? Papel higiénico, um produto do eucalipto. Tivemos sorte do eucalipto globulus se dar cá, mas não se dá nos países do Norte da Europa nem no interior da Espanha senão também plantavam. A Austrália veio buscar pinheiros ao pinhal de Leiria e no país os ecologistas combateram o pinheiro bravo porque lá o árvore autóctone é o eucalipto. Portugal é o único país do mundo que proibiu a plantação de eucalipto. Uma espécie não se proíbe de plantar! Tem é de haver técnicos que indiquem os locais certos. O eucalipto continua a ser uma árvore e para azar de alguns é a que retém mais carbono.

O governo anunciou que ia pagar por árvores que capturem carbono. Já paga hoje?

Estão previstos incentivos na tal estratégia de mudança da paisagem. Esse negócio da retenção do carbono todas as árvores fazem, é a vida delas! Embora esse mercado do dióxido de carbono já exista entre grandes emissores, o Estado tem o monopólio da produção toda do país. Mas existem empresas, devido à emissão de dióxido carbono, que compram quotas. Comprava-se quotas a países subdesenvolvidos, com florestas, e tinha-se um equilíbrio. É outro negócio!

Luís Damas durante a nossa entrevista na Associação de Agricultores de Abrantes, Constância, Sardoal e Mação. Créditos: mediotejo.net

Sem povoamentos florestais industriais não há retorno económico para floresta?

Se for visto como um condomínio há lugar para tudo. Para manter estes territórios temos de ter alguma produção. Alguns territórios podem ter floresta de proteção, não há problema nenhum! Sendo que o montado de sobro está a subir, é uma planta que resiste aos incêndios e está a adaptar-se. As condições climatéricas estão a empurrá-lo para Norte. Cada vez vamos ter temperaturas mais altas, mais secura. Além disso para atingirmos as metas da descarbonização, a floresta é parte essencial porque retém o carbono. Portugal para atingir essas metas tem de contar com a floresta. Mas se arder é ao contrário, aumentamos o nível de dióxido de carbono. O comportamento de todos nós também conta nesta equação.

Mas no combate, aplicamos hoje uma intervenção mais rápida. Que erros continuamos a cometer?

Os bombeiros não têm de estar nos quartéis! É um erro! Em dias de risco têm de estar no terreno. Os bombeiros a sair de Abrantes para o Sul demoram 45 minutos. Os nossos sapadores vão para Martinchel, outros para Bemposta outros para Fontes e estão lá o dia todo, é essa a sua função! A ideia de ir tudo junto, em força, está a começar a mudar. No distrito de Santarém somos pioneiros a nível nacional, já se consegue fazer uma malha para reduzir o tempo para chegar a um incêndio. Temos uma comissão distrital de defesa da floresta, temos outras nas câmaras e Abrantes também foi inovadora porque reúne de 15 em 15 dias todas as forças na época de incêndios para colmatar algumas falhas. É preciso diálogo e trabalho conjunto.

Como entende o reordenamento do território? Defende a regionalização?

Tenho algumas dúvidas quanto à regionalização. Quanto ao reordenamento do território… há o desordenamento florestal mas há uma coisa ainda pior: o desordenamento urbano. Por exemplo as bombas de combustível em Carvalhal. Quando há um incêndio é para lá que vão todos os meios que estão na floresta. Quem autorizou uma bomba no meio de uma mancha florestal? Os meios, em vez de defender a floresta, vão defender uma bomba de combustível e depois arde sempre tudo. Há ali um desordenamento total. Outro exemplo: alguém constrói uma casa ao lado de um pinhal que tem 30 ou 40 anos e o proprietário do pinhal é obrigado a limpar 50 metros para esse alguém que construiu posteriormente a vivenda. Não! O proprietário da casa deve ter 50 metros por excesso para se defender e não obrigar os outros que já lá estavam. Isto é desordenamento!

Voltando à prevenção, os municípios serem detentores de um cadastro atualizado resolve o problema?

É bom para algumas coisas mas para os fogos vale zero. Mação tem cadastro, Sardoal tem cadastro, Abrantes tem cadastro, Vila de Rei não tem cadastro mas em 2019 o fogo veio de Vila de Rei e entrou em Mação e não olhou ao cadastro. Dizer que com cadastro se resolve os incêndios é mentira! Mação é um dos concelhos que mais ardeu em Portugal.

É um defensor do associativismo florestal mas ia mais além do que está implementado hoje?

Haviam as associações, depois chegaram as ZIF [Zonas de Intervenção Florestal] dizendo que quem está dentro tem de cumprir as regras, por exemplo cada agricultor pagar uma parte do projeto. Muito apoiada pelo Estado, muita área – no mínimo 500 hectares -, quem não estava na ZIF não podia aceder a projetos do PDR, quem estava na ZIF tinha uma maior majoração, mas não tem figura jurídica. Nós formámos duas, faltou-se dar um passo: a colocação de um técnico. Uma ZIF deveria caminhar para olhar para um território com uma escala interessante, mas é difícil os produtores florestais cederem alguma gestão. Ainda não estão preparados para os seus terrenos serem geridos para um bem comum. Temos de ganhar escala a nível florestal, sem escala não vamos lá.

Portugal era um país agrícola. Podemos dizer que agora é um país florestal?

Sim. A atividade agrícola mantém-se nos solos bons. Quando entrei para a Associação eram dois técnicos agrícolas e um engenheiro florestal. Hoje temos um agrícola, três florestais e um misto. Havia uma atividade agrícola maior e a floresta silenciosamente vai ocupando esses espaços. Temos muitos matos, mas com valor para as abelhas ou para a caça. É impensável que de um ano para o outro se destrua tudo. É preciso equilíbrio!

Luís Damas é o presidente da Federação Nacional das Associações de Proprietários Florestais. Créditos: mediotejo.net

Podemos voltar a ser um país agrícola?

Fazemos boa agricultura em vários setores muito específicos. Temos vinho, amendoeira, olival. Ainda somos um país agrícola em muitas regiões. O Alqueva veio transformar a paisagem alentejana, no Douro o vinho, as amendoeiras. No gado também temos boas indicações. De Abrantes para baixo, o Tramagal e depois toda a lezíria é excecional na agricultura, produz o que o mercado exige. No campo de Rio de Moinhos, era só milho, e agora é milho, olival e amendoal. No campo de Tramagal já vê macieiras. Há uma transformação. Os agricultores são muito bons no que o mercado exige, adaptam-se muito bem. Note que o olival e o amendoal persiste sem subsídios.

Mas quando Portugal entrou na CEE houve subsídios para arrancar olival e depois subsídios para o plantar, o mesmo com os pessegueiros. Andámos a navegar à vista?

Portugal entrou com uma baixa produtividade por hectare e para a CEE eram olivais velhos e abandonados. Era a técnica: tudo o que é novo é bom. Hoje vinhas velhas e olivais velhos têm um produto de maior qualidade, gourmet, não para as quantidades daquela época. Valorizava-se a quantidade, a mecanização, etc. por outro lado, havia excesso de produção de alguns produtos. Pagávamos para armazenamento do leite, da carne de vaca. Chegaram também algumas medidas para abandono da agricultura e fazer florestação, ou seja, terrenos marginais passavam a floresta com sobreiros, pinheiro manso. A Europa defendia limpar os terrenos marginais. Depois foi evoluindo mas houve erros e desvios. Hoje não é assim. A União Europeia interessa-se cada vez mais pela agricultura em Portugal. Com a pandemia tivemos falta de produtos que vieram da China como máscaras, ventiladores, mas a alimentação não faltou. Aquando do primeiro confinamento, as pessoas açambarcaram mas nunca faltou alimentos. Mas se as fronteiras fechassem todas íamos ter alguns problemas alimentares, apesar da nossa balança agrícola estar positiva. A Europa, em termos de abastecimento próprio, conseguiu manter-se. Veio dar razão ao apoio à agricultura. Povos sem comida é difícil.

Associação de Agricultores de Abrantes, Constância, Sardoal e Mação. Créditos: mediotejo.net

O que dizem os produtores florestais que o Governo ainda não ouviu?

Não ouviu a tal necessidade dos apoios. Há um grande combate desigual. Falo do produtor e de quem consome os produtos dos produtores florestais. Uma indústria forte, quer de cortiça, pinho e eucalipto, parece haver uma concertação dos preços perante a fragilidade da oferta dos produtores. Temos culpa como Associação. Não temos a força suficiente para inverter esse papel. Os produtos florestais são comprados por muitas indústrias, no pinho há mais, no eucalipto há duas, na cortiça há meia dúzia e o preço está muito concertado. É duvidoso. O Governo devia tomar medidas para estabelecer um equilibro entre os proprietários e os grandes consumidores dos produtos florestais. Com o pinho, depois de arder, então, é ao desbarato. A indústria do pinho tem vivido da desgraça dos proprietários.

Para além dos apoios, o que pode fazer o Estado quando mais de 90% da floresta é privada?

Diria 98%. Tem de dar as mãos aos proprietários, aos produtores florestais e não criar leis – como a das limpezas – contra eles. O Estado vai precisar dos proprietários e, como já disse, tem de haver rendimento. Tem de envolver as câmaras, as associações, é um trabalho continuo. Além disso o Estado tem de dar o exemplo. Nas suas propriedades não pode acontecer o que aconteceu ao pinhal de Leiria. Uma referência e ardeu por falta de manutenção, com rendimentos de um milhão de euros por ano. Não foi o único, a mata de Murça também ardeu.

Que árvores defende para a floresta na região do Médio Tejo?

Sobreiro bem instalado, pinheiro manso que dá pinhões, pinheiro bravo, eucalipto. São as espécies que estão melhor adaptadas e dão rendimento. Essencialmente não podemos inventar mais que isto. Se quisermos fazer mais coisas com quercíneas e carvalhos tudo bem, mas é paisagem, florestas de proteção. Só digo a um associado para plantar carvalho se houver mercado.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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