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Quinta-feira, Dezembro 9, 2021
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Entrevista | Ana Laíns, a menina de Montalvo que há 20 anos leva na voz as nossas raízes pelo mundo fora

A 14 de maio Ana Laíns lançou o álbum que assinala os seus 20 anos de carreira. Pretexto para uma entrevista de vida onde confessa alguma tristeza por não ter mais reconhecimento no seu país, embora frise que nunca ambicionou ter fama ou dinheiro, mas apenas seguir a sua verdade e entreter as pessoas: "Cantar é, para mim, um serviço público."

Assume-se como “100% de Montalvo” (apesar de ter nascido em Tomar) e recorda com um sorriso na voz os tempos em que jogava à lata e à sirumba no pátio do bairro onde cresceu, no concelho de Constância. Foi num festival inter-escolas, em Malpique, que cantou pela primeira vez em público, aos 6 anos. Aos 18, fintou aquele que seria o caminho esperado e assumiu perante os pais que não queria ir para a universidade e que era da música, e com a música, que desejava viver. Foi nessa altura, após vencer a grande final do programa Big Show SIC, que rumou a Lisboa para tentar a sua sorte. Desde então, cada conquista foi guardada com orgulho até hoje, na caixinha das memórias de uma carreira que adjetiva de “discreta”, por não encaixar nos moldes do imediatismo e do mediatismo.

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Muitas vezes sem receber a reciprocidade desejada pelo país que a viu nascer, é no estrangeiro que a “cantora colorida que canta as raízes” tem obtido o reconhecimento, tendo sido, por exemplo, a primeira cantora portuguesa a subir a palco no Festival Internacional de Música de Izmir, na Turquia. Dona de uma “voz sublime”, nas palavras de Boy George, gravou com ele o tema “Amazing Grace”, que veio a incluir o álbum do músico britânico “Ordinary Alien”.

Com três álbuns editados – “Sentidos” (2006), “Quatro Caminhos” (2010) e “Portucalis” (2017), este último considerado um dos 10 melhores álbuns do ano pela imprensa Sueca e Espanhola – Ana Laíns celebrou em janeiro de 2020 os 20 anos de uma carreira de “serviço público”, com um concerto esgotado no Salão Preto e Prata do Casino Estoril, numa noite onde se homenagearam a língua e a cultura portuguesas, com a participação de convidados como Luís Represas, Ivan Lins, Mafalda Arnauth e grupos de cantares tradicionais.

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No dia 14 de maio lançou o álbum “20 Anos – Ana Laíns e Convidados ao vivo no Casino Estoril”, um disco/livro onde dá asas à sua missão de valorizar a cultura portuguesa, com a tradução de todas as canções para mirandês. Em pré-venda desde 14 de abril (tendo alcançado o 1.º lugar no top de pré-vendas na Fnac), a artista descreve este disco como “uma carta de amor escrita com a pena da resiliência”.

E como uma novidade nunca vem só, foi também anunciado o regresso aos palcos da cantora com uma digressão nacional e internacional que vai passar pela sua terra do coração, Constância, a 7 de agosto. Vinte anos depois do início do sonho e já “sem vontade de ter papas na língua”, Ana Laíns desfia as raízes da sua vida, em entrevista ao mediotejo.net.

A artista, de 41 anos, diz-se orgulhosa do seu percurso na música. Imagem: Divulgação Ana Laíns

Associamos o nome Ana Laíns a Constância, mas as suas origens passam também por Tomar?
Nasci em Tomar e fui viver para o concelho de Ourém, de onde os meus pais são oriundos, mas acabei por ir para Montalvo com 1 ano. Por isso, eu sinto que sou de Montalvo, sou 100% de Montalvo. Foi ali que me fiz menina, que me fiz mulher e é a minha terra. Tudo o que eu sinto em relação às minhas raízes de bom, e na construção da minha pessoa, foi criado ali. É uma terra muito especial para mim.

Quando pensa em Montalvo, quais são as memórias que lhe vêm à cabeça?
A escola, a telescola – ainda sou do tempo da telescola. Fiz a primária numa daquelas escolas antigas, salazaristas ainda. Nós íamos na mesma para a escola, só que depois tínhamos aulas pela televisão, com uma professora que nos ajudava com as lições e os exercícios que tínhamos que fazer. Lembro-me obviamente também de brincar no bairro onde cresci. É um bairro em U e tinha um pátiozinho no meio, e era nesse pátio que nós brincávamos, que jogávamos à lata, à sirumba.

E durante essas brincadeiras, já havia música à mistura?
Não, nem por isso. A música apareceu nessa idade, foi na escola. Na região havia um festival inter-escolas que acontecia todos os anos em Malpique. E eu fui, com outros meninos, durante três anos representar a minha escola nesse festival. E foi assim que eu cantei em público pela primeira vez e que eu comecei a ter alguma noção do que era a minha voz. Depois tive imenso tempo sem voltar a cantar. Eu só me recordo de voltar a cantar com uns 12 ou 13 anos, quando fiz parte dos Cega Rega, que era um grupo de música tradicional de Montalvo. Depois disso, tive uma banda de garagem, que se veio a chamar Renovação. Fez carreira nos bailaricos pela região. Fui a primeira vocalista mas acabei por nunca me estrear com eles. Depois, começaram os concursos de televisão.

A música já vinha de família?
A minha mãe sempre gostou muito de cantar, mas nunca ninguém teve um contacto, pelo menos consciente e com responsabilidade, na música.

E o desenvolvimento deste interesse, através da participação em concursos, foi algo que aconteceu já com a consciência de que havia algo mais do que só o gosto pela música?
A partir de uma determinada altura passou a ser consciente. Eu também acho que à medida que as pessoas com quem eu me cruzei iam ouvindo, iam percebendo “a miúda tem talento, olha vou chamá-la para isto’”, e depois este chama, o outro chama e a malta vai começando a ganhar ali algum endurance, vai começando a perceber que afinal tem jeitinho, vai ganhando gosto. E depois depende muito das pessoas com quem nos cruzamos no caminho. Eu cruzei-me com muitas pessoas, na minha adolescência e até me tornar profissional, que também foram puxando por mim. Uma figura da região, o Fernando Barralé, que era ele que chamava a malta toda para cantar nas festas, nos bailaricos. Também a RAL e a rádio Tágide, que nos chamavam para fazer pequenas coisinhas. Depois, quando concorri ao Big Show SIC, com 18 anos – era um acontecimento, era ‘o’ programa de televisão – e ganhei a final, juntei um dinheirinho e mudei-me para Lisboa.

O facto de ter ganhado o Big Show SIC foi uma confirmação do caminho a seguir, uma motivação para enveredar profissionalmente na música?
Nesses concursos, uma final dava-nos um dinheirinho e foi o suficiente para eu iniciar a minha vida. Nunca me vou esquecer que foi com esse dinheiro que paguei a minha carta, comprei o meu primeiro carrinho, paguei uns sofás aos meus pais, lá para casa. E agarrei nalgum e fui para Lisboa tentar a minha sorte.

E uma rapariga que chega a Lisboa com 18 anos, sem a garantia de um emprego, sem nada, como é faz?
Quando nós somos jovens tudo é muito exacerbado, quer para o bem quer para o mal. Eu recordo-me que estava super instigada e super cheia de vontade, e cheia de fé e de força, e acreditava também muito nas minhas capacidades. Mas tive muito medo. Recordo-me do dia em que o meu pai e a minha mãe me deixaram em Lisboa, no quartinho que alugámos, eu vi-me sentada naquele beliche e a pensar “o que é que eu fiz à minha vida”… (risos). A confiança dos meus pais é que me alimentou, porque eu tinha consciência de que não ir para a faculdade naquela altura era um golpe. Qualquer pai à partida pensa que o caminho certo para o seu filho depois do secundário será ir para a faculdade, e eu ter dito aos meus pais que não queria ir… eles depositaram também em mim muita confiança mas ao mesmo tempo muita responsabilidade. Recordo-me do meu pai me perguntar, e faço questão de partilhar este episódio porque definiu tudo aquilo que aconteceu depois, “olha lá, tu vês-te daqui a 20 anos a ganhar a tua vida honestamente, a ser uma profissional como deve ser? Sabes que a vida que escolheste é uma vida que exige muito investimento, é muito efémera, não tem grandes garantias… Tu vês-te daqui a 20 anos a ser uma profissional honesta que venceu na vida a fazer aquilo que queres fazer?” E essa pergunta foi o que me alimentou este tempo todo. E ao celebrar os meus 20 anos de carreira no Casino Estoril, que foi o primeiro lugar onde eu cantei profissionalmente, mas desta vez estar lá com a minha banda em nome próprio, no salão principal, com cerca de 1000 pessoas a assistir ao meu concerto… eu senti que cumpri. Foi realmente fechar um ciclo e, sinceramente, honrar a palavra que dei aos meus pais.

O seu nome saltou para os jornais em 1999, quando ganhou a Grande Noite do Fado. É ainda hoje um facto muito relevado nas entrevistas que lhe fazem…
Eu já cantava profissionalmente no Casino do Estoril e depois é que concorri à Grande Noite do Fado, em 1999. Já tinha concorrido no anterior, tinha ficado em segundo lugar, e nesse ano venci. E digo com alguma franqueza que foi porreiro, fica bem no meu currículo, mas não teve grande relevância na minha vida. Fez bem ao meu ego. Fui despedida do Casino Estoril na altura muito porque concorri a esse concurso – já era profissional e eles não achavam bem que uma profissional estivesse a concorrer a um concurso amador. Eu escondi que tinha concorrido, e depois como ganhei fui manchete de jornal [risos]. Mas tudo isto faz parte do caminho, tenho muita gratidão por esses momentos.

Não se rotula como fadista.
Não, de todo.

Mas não nega a ligação ao fado?
Não, claro que não. Eu só acho que não é justo. Se fores uma cozinheira que cozinha vários pratos não és só uma cozinheira que faz cozido à portuguesa. Se fores um médico de clínica geral não és um otorrino e eu encaro a música um pouco assim. Eu sou uma cantora que canta as raízes, que tem imensa curiosidade pelas raízes da música tradicional portuguesa.

“Incomoda-me que nós tenhamos uma facilidade muito grande em adotar a cultura dos outros em detrimento da nossa”

E o que é cantar as raízes?
Cantar as raízes é cantar tudo o que está ligado à nossa história enquanto forma de expressão musical cantada, tocada, a nossa etnografia, e o fado também faz parte dessa etnografia. O fado é a canção de Lisboa, tal como o adufe é um instrumento super importante na região das Beiras ou a concertina no Minho. Eu sinto e costumo dizer que sou uma cantora colorida, porque abraço um pouco de todas essas formas de expressão. Por exemplo, este disco que estou a lançar foi traduzido para mirandês porque acho que é importante também que passemos a mensagem aos portugueses que temos uma segunda língua oficial. Sinto que essa é um bocadinho a minha missão como cantora. Portanto, acho que estar a reduzir o meu trabalho ao fado não só é injusto para mim como é injusto para quem dedica realmente a sua vida ao fado.

Fotografia: Arlindo Homem

A língua portuguesa, a sua defesa e celebração, é – como refere – uma das missões à qual tem dado voz. Sente que a língua portuguesa precisa de ser mais celebrada pelos artistas portugueses e pelo público?
Eu acho que sim. Normalmente, esta questão levanta-me alguma controvérsia. Eu noto isso à minha volta, sinto que por vezes pode levantar algum contraditório porque as pessoas podem associar essa defesa afincada, essa paixão, a um certo nacionalismo e eu não quero isso, não se trata disso. O que eu sinto em relação à língua portuguesa é o que eu gostaria de saber que qualquer povo no mundo sente em relação às suas próprias raízes. O que me incomoda maioritariamente é estarmos muito preocupados em aprender inglês, em aprender francês, em aprender mandarim, e não sabermos escrever e falar corretamente português. Incomoda-me que nós tenhamos uma facilidade muito grande em adotar a cultura dos outros em detrimento da nossa. Eu acho que isso em nada contribui para a diversidade. Se todos nós, enquanto povos, defendermos e alimentarmos a memória em relação ao que são as nossas raízes, o mundo torna-se cada vez mais diverso e isso também é importante para termos mais respeito uns pelos outros, para praticarmos a equidade, a diversidade. E a diversidade só nos abre portas, não nos pode fechar portas.
Eu fico sempre deprimida quando vejo um português deliberadamente a fazer uma publicação no Facebook a dizer ‘Today i’m gonna be …’ Qual é a dificuldade de dizer isso em português?

No concerto de celebração dos 20 anos de carreira, no Casino Estoril. Fotografia: Arlindo Homem

Falta valorizar a língua portuguesa?
Falta. Isso não significa desvalorizar qualquer outro idioma, significa simplesmente dar primazia a algo que é a nossa própria identidade. Se tiveres o teu pai a passar fome e um desconhecido a passar fome, não vais alimentar primeiro o desconhecido, vais dar prioridade ao teu pai, penso eu. No fundo é isso, uma questão de identidade.

E esta missão de dar voz aquilo que é português está bem presente neste álbum comemorativo dos 20 anos de carreira, com a tradução das músicas para Mirandês, em colaboração com a Associação de Língua Mirandesa.
Sim, eu já tinha curiosidade em relação ao Mirandês há muito tempo. As pessoas pensam que o Mirandês é um dialeto e não é, é uma língua e é oficialmente a nossa segunda língua desde 1999. E eu achei que seria uma excelente oportunidade para contribuir de forma positiva e útil para que as pessoas desenvolvam alguma curiosidade em torna da nossa segunda língua oficial. Em fevereiro do ano passado tive um concerto num festival chamado Convergências, em Braga, e nesse festival aconteceu uma palestra sobre as línguas minoritárias. Ora, se eu já estava demasiadamente envolvida com essa questão, de repente eu senti que seria fundamental abraçar essa causa. E acho que este disco foi a oportunidade ideal para fazê-lo de forma muito simbólica, mas útil também.

Ou seja, na prática, as músicas são cantadas em Português mas no livro do alinhamento das canções, aparecem as letras em Português e em Mirandês?
Sim, e o que tem piada é que as pessoas que compraram em pré-venda já folhearam o livro e, inevitavelmente, quando veem a canção em português e ao lado em mirandês tentam logo cantá-la em mirandês e isso é delicioso. É tudo o que eu quero!

Este disco “20 Anos – Ana Laíns e Convidados ao vivo no Casino Estoril”, é o primeiro gravado ao vivo, resulta do concerto que esgotou o Salão Preto e Prata do Casino Estoril e contou com uma diversidade de artistas, desde Luís Represas, Ivan Lins, Mafalda Arnauth, Fernando Pereira, Silvestre Fonseca, Fernando A. Pereira (trovador) até ao Grupo Cantares de Évora e às Adufeiras de Idanha-a-Nova. Como é que surgiu a escolha destes nomes?
São pessoas que surgiram na minha vida. Qualquer um dos artistas que esteve nesse palco  cruzou-se comigo num determinado momento, fazem parte da minha vida. O exemplo do Ivan Lins, que é um nome da música mundial, que se cruzou comigo em 2015 num concerto de celebração dos 800 anos da Língua Portuguesa. E algum tempo mais tarde, em conversa com o Edgar Canelas, da Antena 1, pôs Ivan Lins à conversa comigo ao telefone, eu estava a gravar o meu disco “Portucalis“, e o Ivan Lins disse “Então, Ana, mas não vai querer uma canção minha?”… E eu: “Claro que quero!” E fomos estreitando laços a partir daí. Eu achei que tinha de celebrar 20 anos da minha carreira abraçando as pessoas que gratuitamente e genuinamente também me abraçaram ao longo da minha carreira. Todas essas pessoas fazem parte do meu caminho.

Duas décadas de um caminho com três discos editados e este quarto a sair oficialmente a 14 de maio, numa carreira que assume como discreta. Porquê?Todos nós decidimos encarar a nossa vida profissional com um determinado objetivo e a fama e o dinheiro nunca foram um objetivo, quero apenas entreter pessoas. Desde muito cedo, percebi que o meu canto e a minha voz estariam sempre ao serviço da comunidade, das pessoas. Eu gosto de encarar a minha profissão e a minha carreira como se estivesse a fazer serviço público. Aliás, eu sinto que estou a fazer serviço público. E isso obviamente traz coisas muito positivas mas também traz outras que atrasam a minha vida do ponto de vista comercial. O tipo de música que eu faço e o tipo abordagem que eu tenho em relação à minha carreira não contribui para o imediatismo e para o mediatismo, então acabo por desenvolver os meus projetos de uma forma discreta que não chega ao mainstream, às rádios comerciais da vida, aos grandes festivais da vida. Eu costumo dizer que há um grande rio e estou sempre ali à volta, nos afluentes, mas tranquilamente. Não é um objetivo meu fazer música só porque sim e gravar um disco só porque as editoras acham que está na hora de gravar um disco. Para mim, não funciona assim.

“Gostava que me dessem um pouquinho mais de atenção e às vezes tenho dificuldade em conseguir essa atenção por não ser uma cantora da Universal ou da Sony. (…) Mas tenho consciência que é uma consequência da forma como eu escolhi abordar a minha carreira e isso talvez seja o grande dissabor disto tudo”

Em 20 anos, o que é que guarda, de positivo e de negativo?
De bom guardo o facto de sentir que tudo o que eu fiz, 90% do que fiz até hoje como cantora, serem histórias das quais eu me orgulho profundamente. Situações que eu sinto que de alguma forma contribuíram para o conhecimento das pessoas em relação à nossa língua, às nossas raízes, à nossa história, à nossa identidade. Guardo o facto de tudo ser muito suado. Todos os meus conseguimentos são difíceis de alcançar. Costuma-se dizer que sem ovos não se fazem omeletes e eu acho que tenho que criar galinhas que dão ovos para depois fazer omeletes. É tudo muito mais difícil, tudo muito mais lento, mas depois, por outro lado, é tudo muito mais prazeroso.
O que é negativo também passa um bocadinho por aqui, pelo facto de muitas vezes eu me sentir um pouco injustiçada, porque se calhar gostava que me dessem um pouquinho mais de atenção e às vezes tenho dificuldade em conseguir essa atenção, por não ser uma cantora da Universal ou da Sony. Um exemplo muito claro: faço constantemente parte de programações de festivais que anunciam uma série de nomes e o meu nunca está entre os cabeças de cartaz. E isso às vezes é difícil de suportar, porque não é justo, já estou cá há muito tempo. Tenho consciência de que é uma consequência da forma como eu escolhi abordar a minha carreira, mas isso talvez seja o grande dissabor.

Nas linhas que acompanham o lançamento deste disco dos 20 anos de carreira, diz que o mesmo é “uma carta de amor escrita com a pena da resiliência” e destaca que não é fácil “entregar um coração inteiro a um país, à condição de se ter nascido dele, e nele, sem obter, muitas vezes, a reciprocidade desejada”. O que é falta receber por parte do seu país?
Sempre que eu canto em Portugal, sempre que eu tenho a oportunidade de mostrar a minha música em Portugal, o público reage maravilhosamente. Portanto, a minha questão nunca é com o público, jamais. Mas incomoda-me um pouco, essencialmente por parte da comunicação social, sinto-me um pouquinho triste porque muitas vezes eu não consigo chegar a determinados meios de comunicação porque não faço parte da agência A, porque não gravei com a editora B, porque o meu manager não é fulano C, e é isso que essencialmente me incomoda. Incomoda-me que eu contacte a Câmara Municipal de Miranda do Douro, porque quis integrar nos meus 20 anos a contratação dos pauliteiros de Miranda, e nem sequer tive oportunidade de falar do projeto… e tenho consciência que se fosse agenciada pelo fulano tal ou da editora não sei quê, isso não seria assim. Esta mentalidade meio elitista incomoda-me porque não abona, não ajuda. Há muitos projetos em Portugal, projetos incríveis, musicalmente maravilhosos com cantores formidáveis que não conseguem furar, ir mais longe e atingir novos públicos porque não lhes é dada essa oportunidade. Isso incomoda-me, é aí que eu sinto que o meu país falha comigo, quando eu faço tanto por ele e para o divulgar no estrangeiro, e consigo! Maioritariamente, o que eu faço é concertos no estrangeiro, onde sou muito respeitada, onde sei que me contratam precisamente por ser assim, e depois no meu país é muito difícil, tem sido muito difícil. Há de facto um lobby instaladíssimo entre as editoras e os grandes agentes e a comunicação social de um modo geral, os grandes grupos de comunicação. Onde eu tenho tido mais facilidade em projetar o meu trabalho e apresenta-lo é com a imprensa regional. Os meios nacionais fomentam os mesmos três ou quatro nomes sempre em loop e não há espaço, não há abertura para projetos que não façam parte desse dito lobby.

O que é que gostava de fazer na música que ainda não fez?
Que pergunta tão difícil! Os discos que vou gravando, as pessoas que vou conhecendo, elas vão-me mostrando caminhos. Por exemplo, eu comecei a lidar mais de perto com as Adufeiras de Idanha a Nova porque um dia vi um concerto de um colega com elas e pensei “caramba, é mesmo isto”. Há muita coisa que eu quero fazer: gostaria de deixar documentados, no meu espólio pessoal, alguns dialetos que não estão escritos, porque os dialetos maioritariamente são oralizados e não têm um dicionário, e eu gostava de um dia gravar um disco onde fosse buscar vários dialetos portugueses. Por exemplo, agarrar num fado da Amália e gravá-lo num dialeto. Há muita coisa por fazer. Essencialmente, há muita coisa documentação por deixar, porque de outra forma esse património vai acabar por se perder.

Hoje, qual é a visão que acha que as pessoas têm da artista Ana Laíns?
As que me conhecem, acho que já compreenderam o que é que me move. Eu espero que as pessoas tenham de mim a impressão de uma lutadora que não desiste de abraçar as causas do seu país, sempre de forma honesta.

Abrantina mas orgulhosa da sua costela maçaense, rumou a Lisboa com o objetivo de se formar em Jornalismo. Foi aí que descobriu a rádio e a magia de contar histórias ao ouvido. Acredita que com mais compreensão, abraços e chocolate o mundo seria um lugar mais feliz.

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