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Sábado, Outubro 23, 2021

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Covid-19 | Sardoalense torna legal o casamento online na Suíça durante a pandemia

Nesta história contada em dias de angústia, o enredo é simples: o amor aconteceu e marcou-se casamento para 4 de abril de 2020. Coube a um vírus um papel surpresa no último capítulo deste romance, cancelando a cerimónia civil que amordaçada pela pandemia… decorreu no plano virtual. Valter Leitão, de Sardoal, e Alexia Barthe, a noiva suíça, determinados pela certeza daquele dia – até porque a data da boda já estava gravada nas alianças – cumpriram com rigor o cerimonial, com a família e amigos a assistirem a tudo do outro lado do ecrã. As autoridades suíças, inspiradas por esta história de amor, passaram a conferir validade jurídica aos casamentos online.

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O ano de 2020 é jovem, tal como os noivos que planeavam dar o nó desde dezembro de 2018 e recusaram esperar mais tempo. Chegada a primavera, casamento civil mais respetiva boda: “Estava tudo planeado” para uma cerimónia no sábado 4 de abril. Valter e Alexia tinham “fatos, sala e serviço de restauração reservados, convites enviados desde setembro do ano passado e as alianças gravadas com 4-4-2020”, conta o sardoalense ao mediotejo.net.

Valter Leitão, 35 anos, é natural de Cabeça das Mós, no concelho de Sardoal, onde moram os seus pais e outros familiares. Reside na Suíça desde 1994, país para onde emigrou com 9 anos de idade. Atualmente trabalha como projetista, desenha e gere obras de canalização. Alexia Barthe, a noiva de 30 anos, assistente de recursos humanos de profissão, e com quem atualmente vive em Prilly, perto de Lausanne, no cantão de Vaud, conheceu-a através de um site de encontros na Internet, há quatro anos.

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Com o vírus SARS-CoV-2 a espalhar-se pela Europa, e para desilusão do casal, o registo civil de Lausanne provou que uma desgraça nunca vem só ao cancelar o casamento duas semanas antes da data marcada, sem indicar nova data para a celebração.

“Até hoje desconhecemos quando será possível casar de forma presencial. Tivemos de anular tudo o que tínhamos preparado. Mas decidimos fazer uma cerimónia online como se fosse a verdadeira. Com o registo civil de Lausanne a cancelar todos os casamentos não nos restava outra alternativa senão inventar uma solução, mesmo sem valor jurídico”, diz. “Decidimos fazer uma cerimónia diferente e original. Um momento que vai ficar gravado para sempre! Não íamos esperar mais tempo para meter a aliança no dedo e festejar”, refere o noivo.

Valter Leitão e Alexia Barthe no dia do seu casamento online. Créditos: DR

Na Suíça, Valter e Alexia terão sido os primeiros a optar por uma cerimónia online, no contexto da covid-19. Após essa reinvenção do matrimónio, o registo civil de Lausanne entrou em contacto com o casal para perceber o formato da cerimónia e, a partir daí, propor a opção de casamento online com validade jurídica, aos cidadãos que quisessem casar durante o período da pandemia.

Contrariamente ao casamento de Valter e Alexia, cuja cerimónia demorou meia hora, a versão oficial digital suíça tem agora uma duração de 10 minutos, apenas na presença dos padrinhos e dos noivos. Apesar da possibilidade, o português e a noiva escolheram esperar pelo casamento a realizar no formato tradicional.

Valter reconhece que um casamento online “é mais económico”, mas problemáticas financeiras à parte, o casal aguarda com ansiedade pela reunião familiar, “um verdadeiro casamento!”, quando as autoridades decidirem ser possível. “Casar online é diferente, esquisito. Nunca será tão bom como a possibilidade de reunir a família para festejar. Nada é melhor que a união na partilha desses momentos”, garante.

Além de noiva, Alexia desempenhou o papel de criativa. Para o casamento online desenvolveu uma certidão de casamento falsa semelhante à verdadeira. Um amigo do casal representou o papel de conservador do registo civil e o casal reuniu os padrinhos, os pais e cerca de uma dezena de convidados através da plataforma WhatsApp.

“Mesmo que o verdadeiro casamento tivesse sido celebrado, os meus pais não poderiam ter vindo porque o voo para a Suíça foi cancelado”, lamenta Valter. Assim, no dia da cerimónia online, os noivos prepararam-se “como se fosse a verdadeira cerimónia”, embora sem os fatos comprados a pensar no casamento oficial. “Esses estão guardados para quando for possível”, diz Valter, que usou nesse dia “um papillon e a Alexia embelezou-se”. Sobre a mesa da sala estavam dois telemóveis – afinal, os telefonemas sempre nos aproximaram –, “o contrato, as alianças e também uma garrafa de espumante com dois copos”, conta.

Após a celebração por WhatsApp, de declararem o “sim”, colocarem as alianças no dedo e assinarem a certidão de casamento, os noivos trocaram votos e as madrinhas também discursaram. Depois toda gente abriu uma garrafa de espumante na sua casa e brindou à felicidade, num brinde comum.

Para cumprir a tradição, os telemóveis foram transportados até à varanda onde Alexia lançou o bouquet. “Felizmente não havia ninguém na rua senão levava com as flores em cima da cabeça”, brinca Valter. Como não poderia deixar de ser, o casamento contou com uma sessão fotográfica na zona exterior da casa dos noivos. Os comes e bebes, tal como a noite de núpcias, tiveram lugar em casa. “Lua de mel, só para o ano”, lamentam.

Valter Leitão e Alexia Barthe no dia do seu casamento online. Créditos: DR

Segundo Valter Leitão, devido à covid-19 a Suíça encontra-se em “semiconfinamento” desde o início da pandemia. “Quase tudo está fechado. Só os supermercados é que estão abertos, mas toda a gente pode sair, dar uma volta onde quer, só temos de respeitar as medidas impostas pelas autoridades, como a distância de segurança”.

No mundo laboral, “a maior parte das pessoas vai trabalhar seja no escritório, nas fábricas ou nas obras, mas é aconselhado o teletrabalho em algumas áreas. Eu estou em teletrabalho três dias por semana, os restantes dois no escritório”, revela.

O casal diz “viver bem” a situação de pandemia. “Trabalhamos em casa e no fim do trabalho vamos dar uma caminhada, para sairmos um pouco. Experimentamos novas receitas e compomos música. O mais complicado é não podermos estar com os amigos ou não podermos ir comer fora ou sair para dançar”, refere Valter, manifestando-se preocupado com o regresso à normalidade se a situação epidemiologia se agravar.

A vida, como a conhecíamos, mudou e o mundo vive a História num cenário de isolamento, enquanto a vontade em regressar a Sardoal, onde vêm pelo menos duas vezes por ano, aumenta. “Uma vez no verão e outra no inverno, íamos sempre. Apesar de Alexia ser suíça, gosta muito de Portugal e da minha família. Por ela já estávamos a viver aí”, diz, um projeto que esperam concretizar dentro de dois ou três anos.

O casal confessa ter saudades de “momentos em família”, juntos. “O Natal e o fim de ano, ir à praia, às festas das aldeias… e da comida”. Para Valter, “nada é melhor que Portugal”. E quando puder viajar, depois da pandemia da covid-19, “vamos logo!”, vinca.

Neste momento aguardam por uma nova data para o casamento civil na Suíça, enquanto temem que a celebração agendada para Fátima, em Portugal, no dia 19 de setembro, também seja cancelada. “O futuro dirá. Mas se essa festa também for cancelada será mesmo triste. Esperemos que corra tudo bem”.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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