Terça-feira, Março 2, 2021
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Covid-19 | Jorge Torgal: “O medo instalado levou a um conjunto de medidas desproporcionadas”

Natural de Santarém, o médico Jorge Torgal tem sido uma das poucas vozes dissonantes no Conselho Nacional de Saúde Pública. Em entrevista ao mediotejo.net explica que no centro dos seus argumentos está a preocupação com a falência do Serviço Nacional de Saúde e a falta de foco nos cuidados das principais vítimas desta pandemia: os idosos.

Com uma larga experiência de trabalho em África, professor catedrático e doutorado na área da Saúde Pública, preside à Associação Portuguesa de Epidemiologia e defende que, mais que confinamentos gerais, devia haver uma abordagem organizada às camadas vulneráveis da população. O pico de mortalidade de janeiro, argumenta, deveu-se sobretudo à falta de uma estratégia focada na população mais em risco, em especial nos idosos, e vai agravar-se nas próximas semanas, apesar das medidas em vigor. Contudo, está optimista: se a vacinação continuar a este ritmo, diz, dentro de três a quatro meses poderemos retomar a vida “normal”.

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O ceticismo do professor catedrático e especialista em saúde pública em relação à real eficácia dos confinamentos tem-no deixado à margem do debate sobre a pandemia. Mais recentemente, chamado a uma audição conjunta com outros especialistas em saúde pública, no âmbito da Comissão Eventual para o acompanhamento da aplicação das medidas de resposta à pandemia e do processo de recuperação económica e social, na Assembleia da República, Jorge Torgal argumentou ser “ilusório pensar que vamos controlar a epidemia com as medidas que estamos a tomar”.

Crítico do papel da comunicação social nesta pandemia, considera que o alarmismo só alimenta a irracionalidade no combate à crise sanitária. Continua também a defender que as escolas não são o principal foco de infeção (posição que lhe valeu muitas críticas em março do ano passado), não obstante tenha admitido o lado útil do seu encerramento para diminuir a transmissão. “Vamos ter problemas sociais graves, de desenvolvimento das crianças, de saúde mental e também consequências económicas muito relevantes. Devíamos ter um foco mais preciso no combate à pandemia”, disse em entrevista à Lusa.

O especialista escalabitano falou com o mediotejo.net entre reuniões com outros especialistas em saúde pública, e recordou a sua ligação ao distrito, o seu trabalho em África e procurou explicar a sua posição controversa sobre a crise sanitária. Frisa que a sua principal preocupação é a mortalidade, apelando a que se pare de misturar infetados (SARS CoV-2 positivo) com doentes reais. No centro dos seus argumentos está a preocupação com aqueles que considera serem as reais vítimas da pandemia: os mais frágeis, em particular os idosos.

É natural de Santarém. Que ligações mantém a esta zona do país?
Nós temos sempre uma ligação com a cidade onde nascemos, não é? Onde estudamos, onde fizemos o liceu e onde temos um número grande de amigos. Tenho ainda família em Santarém, de maneira que me desloco lá com alguma irregularidade. Vou acompanhando o que se passa na cidade. A título de exemplo desta ligação: eu uso óculos desde os sete anos de idade e continuo a ir fazer os meus óculos a Santarém (risos). Ainda hoje tenho o mesmo oculista, agora gerido pelos filhos, porque o pai já faleceu. Mas continuo a manter esta ligação.

Com que idade deixou Santarém?
Quando concluí o liceu, com 17 anos. Passei a ir a Santarém só aos fins de semana. Fui para a Universidade numa altura importante, que foram as últimas eleições do Estado Novo. Já estava em Coimbra a estudar e a vida tornou-se muito diferente. Passou a ser uma outra perspetiva de cidadania nessa altura.

Envolveu-se com os movimentos estudantis da época?
Com certeza. Fui suficientemente ativo para estar satisfeito com o que fiz na altura.

No seu currículo contam-se várias missões em África. O que aprendeu sobre epidemias com essas experiências?
Foi o passar da teoria à prática. Infelizmente, África ainda hoje tem um conjunto de doenças endémicas, isto é, estabelecidas, que são muito preocupantes em termos de saúde. A malária continua a ter uma escala de mortes a nível mundial, a SIDA ainda tem um peso muito grande em África, as parasitoses, as doenças respiratórias. Há muitas doenças que de facto provocam uma mortalidade muito precoce, isto é, as pessoas morrem mais cedo do que seria normal. Também aí ocorrem com muita frequência surtos de epidemias, muitas vezes ligados aos fenómenos naturais, dado que os países têm muito baixas condições de higiene (no sentido de não terem esgotos, não terem água canalizada, não terem tratamento de água para a generalidade das populações). Portanto, quando há fenómenos naturais, como agora o furacão em Moçambique, na semana passada, isto vai provocar seguramente mais surtos epidémicos de cólera, vai provocar um agravamento da endemia normal por malária. Há muitas situações que se agravam por estes fenómenos naturais, mas porque a situação base é muito débil do ponto de vista de condições de vida, de estruturas físicas e de condições básicas de alimentação, de condições básicas de cuidados de saúde que possam servir as populações. Essa fragilidade tem efeitos muito graves na saúde das pessoas.

Foi um choque muito grande quando passou a esta prática, que é tão diferente afinal da relativa comodidade que vivemos na Europa?
A primeira vez que fui trabalhar em África foi em 1979, penso… já foi há muitos anos (risos). Fui fazer uma avaliação de um programa da Organização Mundial de Saúde contra uma doença chamada “a cegueira dos rios”. É uma doença provocada por uma pequena mosca que pica as pessoas e vai inocular um parasita que provoca a cegueira. Como essas pequenas moscas vivem só onde há água corrente abundante, as pessoas que vivem junto dos rios são as principais vítimas dessa doença. Por isso se chama “a cegueira dos rios”. Havia um programa da Organização Mundial de Saúde contra essa doença, que teve um sucesso muito importante. O programa decorria sobretudo na bacia do rio Volta, um rio que nasce no Burkina Faso e que atravessa outros países e vai desaguar na Costa do Marfim. Nós fomos avaliar a eficácia desse programa, que já durava há seis anos. Fomos a uma aldeia junto a um rio que tinha cerca de 400 pessoas. O objetivo era fazer uma avaliação da capacidade de visão de todas as pessoas dessa aldeia. Dessas 400, mais de metade da população adulta era cega. Isto foi um choque enorme! Eu tinha 30 anos… Mas a vida da aldeia continuava. As pessoas trabalhavam no campo, os cegos iam levados pelos miúdos, cavavam, colhiam, diziam aos miúdos o que tinham que fazer, eles faziam, voltavam para casa segurando um pau, em que uma ponta era segurada por um miúdo e outra ponta pelo adulto… Isto foi um choque terrível.

Na primeira vez que fui a África, estive numa aldeia que era afetada por uma doença chamada “a cegueira dos rios”. Em quatrocentas pessoas, metade era cega

Como lidou com essa realidade na altura?
Fiquei decidido a ir, sempre que pudesse, trabalhar em África, para dar um contributo para resolver estas situações graves. Posso dizer que praticamente todos os anos da minha vida, ou quase todos, eu fui a África pelo menos uma vez. Claro que trabalhando em diferentes níveis, principalmente no nível de planeamento e de aconselhamento. Sou professor de Saúde Pública e portanto não sou um médico de saúde pública de estar a trabalhar no terreno, mas no plano da organização e do planeamento ou participando em programas, dei o meu contributo.

Sempre em surtos epidémicos ou noutras circunstâncias?
As condições de saúde são tão más que há sempre muito para fazer e muita necessidade de fazer. Até mais fora dos surtos epidémicos, porque estes exigem um outro tipo de resposta com alguma urgência e de ação no terreno. Todos os passos a dar para a resposta aos surtos epidémicos estão hoje muito bem tipificados. Isso está tudo escrito e organizado e, aqueles que têm que agir, agem segundo um padrão, porque a organização é fundamental para dar resposta. Como aliás estamos a ver em Portugal, neste momento. A questão fundamental é a organização, para que a resposta tenha resultados positivos.

Em relação à pandemia de covid-19: um dos grandes problemas de perspectivas como a sua, que em grande medida têm apontado alguma histeria na abordagem, é que desde o momento em que tanto o Donald Trump como o Jair Bolsonaro falaram em “gripezinha” e relativizaram a situação, o seu tipo de posição ficou ligado à desinformação e às notícias falsas. Tem consciência deste problema?
Tenho, porque tenho sido acusado de ter uma posição dessas. Acho que quanto mais grave é a situação mais ponderação tem que haver e mais equilíbrio na resposta. Quando eu falo de uma resposta mundial que tem sido muito obsessiva, digamos assim, não é porque a situação não seja grave. Eu entendo é que isso não ajuda à resposta a esta situação e tem conduzido a que os Governos sejam obrigados a tomar medidas para responder à grande ansiedade das populações, medidas que, a meu ver, podem não ser as mais adequadas às necessidades da resposta. Mas a pressão social – da comunicação social, e agora também das redes sociais – é fortíssima e os governos têm que dar essa resposta. Nós vemos que todos os Governos, mesmo os da Europa, têm dado respostas mais ou menos semelhantes. Os governos que mais têm resistido são os do norte da Europa, que têm uma outra organização social, mais desenvolvida que a nossa, e que conseguem ter uma capacidade de resposta mais tranquila. O quadro desta epidemia não excede o quadro doutras epidemias que se vivem no mundo e que não levam ao encerramento da sociedade. As medidas tomadas na generalidade dos países, de encerramento da sociedade, têm consequências muito graves – gravíssimas no meu entender – porque isto leva a uma paralisia dos sistemas de saúde e do seu funcionamento normal e, em consequência, a uma acréscimo de mortes muito grande por outras patologias. Leva também a consequências económicas graves, que nos países ricos podem ser mais ou menos facilmente ultrapassáveis, mas nos países com uma estrutura social ainda muito débil, como a nossa, vão ter consequências graves. Porque a pobreza e a escassez de meios são muito importantes para a saúde das populações.

Acho que quanto mais grave é a situação mais ponderação tem que haver e mais equilíbrio na resposta. Quando eu falo de uma resposta mundial que tem sido muito obsessiva, digamos assim, não é porque a situação não seja grave. Eu entendo é que isso não ajuda na resposta à gravidade desta situação

Mas as pessoas não ouvem isto. As pessoas ouvem que estamos a desvalorizar e a fazer o jogo daqueles que, por razões puramente políticas e de interesse pessoal, descuraram completamente a resposta à epidemia, como foi o caso dos EUA e do Brasil, onde não houve uma resposta concertada, organizada, planificada, com os meios que esses países podiam ter, muito diversos um do outro, face à epidemia. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. O que eu digo é que o medo instalado levou a um conjunto de medidas, a meu ver desproporcionadas, que têm consequências graves e não permitiram uma resposta bastante mais organizada e concertada.

O Governo mais uma vez fechou a sociedade, porque há um nível de transmissão muito elevado, mas a meu ver o foco, desde há meses, devia ser na proteção dos mais idosos. Se olharmos para os números da passada sexta-feira (29 de janeiro) nós temos 405 mil pessoas com menos de 50 anos que tiveram covid e destas houve 134 que morreram. Houve 45 mil pessoas com mais de 70 anos que tiveram covid e destas morreram 7 mil. Portanto, o essencial deveria, e deverá ser, tentarmos a todo custo proteger aqueles que têm uma idade avançada, que são aqueles que, se se infetarem, vão morrer. Ou mesmo infetando-se, podem não morrer se tiverem um conjunto de condições de vida que as ajudam a ultrapassar a situação da doença. Ora, não tem sido esse o caminho seguido. Têm-se tomado medidas gerais, globais, importantes, sem dúvida, para baixar a transmissão, mas que têm um escasso efeito naquilo que para mim é o mais importante, que é a mortalidade. Com a consequência gravíssima de termos os hospitais completamente entupidos porque toda a gente acorre para o hospital, porque não houve a resposta dirigida a este grupo em particular – que exigia meios excecionais, com serviços excecionais, fora do quadro normal de funcionamento das estruturas de saúde e das estruturas de segurança social. Não houve a criação desse quadro.

Têm-se tomado medidas gerais, globais, importantes, sem dúvida, para baixar a transmissão, mas que têm um escasso efeito naquilo que para mim é o mais importante, que é a mortalidade

O que nós temos neste momento é os hospitais cheios de pessoas que acorrem aos hospitais sem terem razão para ir para lá – como vemos nas notícias, 85% dos que se dirigiram ao Hospital Santa Maria na semana passada não tinham razão para ir lá – e temos por outro lado uma paralisia total dos outros cuidados de saúde que vai mais uma vez agravar a condição de saúde de muitas outras pessoas que necessitavam desses cuidados. Isto não é ir contra as medidas que foram tomadas, é a necessidade de elas serem complementadas com uma resposta que deveria ser, no meu entender, o foco principal da resposta do Governo a este quadro. Mas também compreendo que o Governo dificilmente pode fugir a esta situação, porque a pressão social é muito grande e neste momento apenas a França e a Espanha é que conseguiram não fechar a sociedade. Mas o pico da onda epidémica já passou lá, enquanto que aqui ainda estamos numa fase de viragem. Na região centro sul ainda temos algum crescimento, ainda não se atingiu o ponto de viragem, para começar a descer o número de infeções. Mas eu repito: essa subida ou essa descida não vai ter impacto na mortalidade que a epidemia provoca. Penso que nas próximas duas/três semanas vamos continuar a ter uma mortalidade muito, muito elevada.

O que explica este aumento brutal da mortalidade? Tem-se culpado o Natal. Qual a sua opinião?
Penso que há razões sociais muito importantes. Primeiro, a debilidade social, a fragilidade económica dos muitos idosos que nós temos. Temos em Portugal mais de 500 mil pessoas com mais de 65 anos a viver sozinhas. Depois, dos mais idosos, 1 milhão e 200 mil vivem com menos de 400 euros por mês. Portanto são pessoas que vivem numa situação muito frágil, do ponto de vista económico e social, em geral em habitações com fraca qualidade. É preciso dizer também que muitas dessas pessoas vivem isoladas, sozinhas. Era necessário que houvesse o acompanhamento dessas pessoas da parte das Câmaras, das Juntas de Freguesia, para que as apoiassem no dia a dia e lhes dessem meios, no caso de ficarem doentes, não terem que ir para o hospital. Terem quem as apoiasse nas suas residências com aquilo que é o mínimo necessário. Ou seja, uma pessoa isolada, doente, não tem capacidade de fazer as suas refeições, de se organizar, de fazer as compras. Aí as Câmara Municipais teriam um papel muito relevante.

Depois há todos aqueles que estão nos lares… e aí põe-se um problema muito grave. Hoje em dia, mesmo nos centros urbanos como em Lisboa, há uma falta de profissionais que substituam os que adoecem e que cuidam dos que estão nos lares. Nós temos um lar com 100 pessoas, ficam todas infetadas, mas também ficam os funcionários. Quem é que substitui esses funcionários? Isto é particularmente grave nas regiões onde as pessoas mais novas saíram. É o caso do Alentejo, da Beira Interior, onde só há população idosa. Nós vemos que é aí que a mortalidade nos lares é elevadíssima. Na região do Alentejo, 55% das mortes que tinham ocorrido até à semana passada [24 a 30 de janeiro] eram nos lares. Na Beira, na região centro do país, 44% das mortes ocorreram nos lares. Portanto, é claro que elas ocorrem porque não há nem pessoal de saúde, mas principalmente não há pessoal auxiliar, pessoas que tomem conta, apoiem e cuidem daqueles que ficam doentes. É aqui que se necessitava também de uma resposta excecional, uma força de emergência para dar resposta a estas pessoas. Não foi possível até agora, portanto esta mortalidade vai continuar elevada, porque muitas dessas pessoas já estão infetadas e sem cuidados, que não são cuidados hospitalares diferenciados. Uma pessoa com 90 e tal anos, depois de estar 10 dias ou 15 dias em condições de vida muito más, de alimentação, de higiene, de cuidados de saúde, dificilmente é capaz de ultrapassar a dificuldade em que vive e vem a falecer no hospital. Isto só para dizer que provavelmente nas próximas duas semanas vamos continuar a ter mortalidades certamente acima das 200 por dia, infelizmente.

Há uma falta de profissionais que substituam os que adoecem e que cuidam de quem está nos lares. Era preciso haver uma resposta excecional, uma força de emergência para cuidar dos idosos

Tinha essa questão para lhe colocar, porque é uma situação que vemos no norte do distrito de Santarém – lares onde morre muita gente e outros onde não morre praticamente ninguém, vivendo-se períodos gripais semelhantes a outros anos…
Exatamente. Tem a ver com as condições do lar, se tem funcionários, etc. Não é por estarem nos lares, é pelos lares não terem capacidade de resposta. E essa capacidade de resposta passa fundamentalmente pela organização e por pessoal para colocar em prática essa organização e capacidade de resposta. Não estamos numa região onde haja um quadro demográfico onde só ficaram os velhos e onde toda a gente, de meia idade e jovens, se foi embora. Isso é um quadro mais do Alentejo e das regiões do interior, da Beira. É aí que é mais grave. Vemos que onde há uma maior capacidade de apoio a quem está nos lares, e um melhor funcionamento dos lares, a mortalidade não ocorre. Felizmente. É a circunstância que temos. Tem a ver com a demografia, tem a ver com a debilidade económica e com as condições sociais em que as pessoas vivem e tem a ver com a falta de uma resposta extraordinária, de emergência, que não aconteceu e não me parece que venha a acontecer.

Voltando à questão da comunicação social, da qual tem sido bastante crítico. Um dos grandes problemas, neste momento, no que toca ao foco da comunicação social, é o crescimento da extrema direita e as notícias falsas…
Penso que não é só. Não estou preocupado nem com a extrema direita nem com as notícias falsas.

Não?…
Eu continuo preocupado é com os grandes difusores da informação, as televisões basicamente, fazerem uma informação que tem como base a criação do medo. E isto revela-se até no uso das palavras. Durante meses e meses andámos a dizer que todos os dias tínhamos mil casos de covid, agora dizemos 10 mil casos de covid. Não é verdade. Nós temos mil casos de infeção, nós temos 10 mil casos de infeção. Destes 10 mil haverá 5% que farão a doença covid. Os outros 9.500 não farão uma doença, estarão apenas infetados. Ora, é muito diferente eu dizer que tivemos 500 doentes ou tivemos 10 mil doentes não é? Isto todos os dias repetido cria a ideia que estamos de facto numa situação apocalítica. O número médio de mortes em Portugal, diário, é cerca de 300 a 400. Agora passámos a ter o dobro, é verdade. Mas durante nove meses todos os dias dissemos “mais duas”, “mais 10 mortes”, como se fosse uma coisa… Qual era o normal das mortes? Quanto é que isso acresceu às mortes? Este tipo de linguagem, dando um grande peso ao que ocorria no âmbito da pandemia e usando uma linguagem que distorce um pouco a realidade, não ajudou em nada, a meu ver, a uma resposta social sólida e baseada na racionalidade. Porque esta uma doença de comportamentos, já percebemos. Se as pessoas conseguirem seguir umas normas, elas evitam que a transmissão se dê. Nós vemos bem o que aconteceu quando se permitiu que as pessoas transgredissem as normas. Mas andámos nove meses a dizer que “vem aí o lobo” todos os dias e quando o lobo chegou, de facto, houve uma fraca capacidade de mobilizar os cidadãos. É este quadro que temos vivido. Quanto a mim não me preocupa o que a extrema direita diz porque acredito seguramente que a generalidade dos cidadãos tem o bom senso suficiente para saber distinguir aquilo que é uma posição extremista daquilo que é uma posição adaptada à nossa vida social e ao nosso percurso cívico. Não me preocupa no âmbito da epidemia…

Andámos nove meses a dizer que “vem aí o lobo” todos os dias e quando o lobo chegou, de facto, houve uma fraca capacidade de mobilizar os cidadãos.

A minha pergunta não era nesse âmbito. A extrema direita ficou nos últimos anos muito ligada à desinformação e às notícias falsas. Do ponto de vista do jornalismo – e é isto que eu vejo e por isso lhe coloco a questão – é que qualquer teoria que seja associada a essas pessoas, mesmo que não seja concretamente negacionista, é logo conotada dessa forma, e por isso se torna difícil este debate…
Com este pico da epidemia é difícil ser negacionista, acho eu… (risos)

Mas como é que podemos, nós jornalistas, separar com mais eficácia o que é efetivamente ciência e desinformação?
Quem tivesse essa resposta… seria um sucesso, não é? É difícil. Mesmo na área da ciência vemos muita desinformação. Nasceram milhares de epidemiologistas em Portugal nos últimos meses. Nós vemos pessoas que são sólidas sabedoras numa área a darem opiniões sobre áreas para as quais não têm formação, mas que a comunicação social aceita como boas. Há aqui muita informação que não é tão, digamos, bem fundamentada como deveria ser. Mas também para alguns foi o grande momento de aparecerem na praça pública da informação. Uns por razões políticas, outros por razões de ambição pessoal, outros por incapacidade de perceberem os seus limites e o seu desconhecimento para certas coisas. Também não é fácil para os órgãos de comunicação social fazer esta diferenciação. Nós sabemos, como em todas as áreas, que há gente que vai além do que pode quando tem oportunidade para isso.

Penso que dentro de três, quatro meses, se as vacinas continuarem a chegar a este ritmo, chegaremos ao ponto em que poderemos retomar uma vida normal

Disse há uns meses ao jornal O Mirante que achava que nunca iria aparecer uma vacina eficaz. O que pensa dos dados preliminares destas novas vacinas, da Pfizer, da Moderna e da AstraZeneca?
“Eficaz” no sentido de acabar com a pandemia, foi o que eu disse. Neste momento temos já três a quatro vacinas. Aquelas acreditadas pelas agências europeia, americana e japonesa – as vacinas chinesa e soviética podem ser muito eficazes, não discuto, mas não temos dados, elas não foram avaliadas segundo os mesmos critérios – estas vacinas são muito eficazes. Mas elas são eficazes em quê? São eficazes, e são importantíssimas por isso mesmo, porque evitam que quem se infetar vá fazer uma doença grave. É isso que é crucial. O que nós pretendemos não é fazer desaparecer o vírus, porque ele não vai desaparecer, mas conseguir que quem se infete não venha a morrer ou não tenha uma doença grave. Esse é o objetivo central. Como foi com a poliomielite, com o sarampo, com a tosse convulsa, com a difteria. Todas estas doenças têm vacinas. A doença não desapareceu, nalguns casos ela passou a aparecer raramente, mas nas que são virais elas não desaparecem, voltam todos os anos, como é o caso da vacina da gripe, que evita formas graves da doença, mas não fez desaparecer a gripe. A poliomielite não desapareceu. Isto só para dizer que as vacinas que existem atualmente são muito, muito eficazes. Felizmente.

Veja-se o resultado que temos neste momento, mais tangível, que é o resultado em Israel, onde a mortalidade e as hospitalizações caíram drasticamente, cerca de 70%, quando ainda não têm toda a população vacinada, mas já vacinaram a maior parte da população idosa. Isto prova que, se conseguirmos vacinar os mais velhos e vacinar aqueles que, não sendo tão velhos, têm outras patologias que com a covid podem desenvolver uma situação grave de saúde, nós vamos conseguir controlar a epidemia. Penso que dentro de três, quatro meses em Portugal, se as vacinas continuarem a chegar a este ritmo, mesmo lento, a que estão a chegar, nós chegaremos a esse ponto e poderemos retomar uma vida normal – se a comunicação social o deixar (risos). Agora se continuarem a dizer que o vírus vai estar cá, que o vírus vai-nos infetar, que as pessoas que foram vacinadas podem continuar a transmitir o vírus… Tudo isso é verdade, mas a mim não me preocupa que os jovens se infetem. A mim não me preocupa que os adultos saudáveis se infetem. A mim o que me preocupa é que os idosos e os mais frágeis e os que têm outras patologias se infetem [e não exista resposta], como atualmente acontece.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita