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Quinta-feira, Janeiro 20, 2022
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Covid-19 | Farmácias da região com filas à porta e agendas lotadas para realizar testes

Já não há vagas disponíveis em muitos locais para realizar testes laboratoriais na véspera de Natal e de Ano Novo. Os autotestes também esgotaram em vários concelhos.

Desde que entraram em vigor as novas medidas para conter o alastrar da pandemia de covid-19, a 1 de dezembro, definindo que mesmo as pessoas duplamente vacinadas têm de apresentar um teste laboratorial negativo para viajar, entrar em lares e hospitais ou aceder a grandes eventos culturais ou desportivos, as farmácias não têm tido mãos a medir.

Na quinta e sexta-feira multiplicaram-se as filas à porta das farmácias da região, onde os telefones também não paravam de tocar, com utentes a tentarem agendar testes. Como a validade do teste realizado é de 48 horas, já não há vagas disponíveis em muitos locais para as próximas sextas-feiras, nem para a véspera de Natal e de Ano Novo.

O problema agudiza-se nas farmácias que realizam testes comparticipados pelo Estado (gratuitos para o utente), pois só 17 o fazem em toda a região do Médio Tejo. Neste momento, qualquer cidadão português pode efetuar um teste de antigéneo gratuito nas farmácias e laboratórios aderentes, desde que não tenha já repetido mais do que quatro testes num mês, sem ter de apresentar qualquer justificação para o fazer. Se há poucas farmácias aderentes, ainda menos laboratórios de análises clínicas existem disponíveis até ao momento, pelo baixo custo assumido pelo Serviço Nacional de Saúde.

(Ver lista das farmácias e laboratórios aderentes na região, concelho a concelho, no final deste artigo)

Na Farmácia António Lucas, no Entroncamento, estabelecimento que aderiu à comparticipação estatal na realização de testes rápidos, eram várias as pessoas no interior a aguardar pela sua vez. Utentes saíam do espaço e outras cirandavam cá fora, à espera de entrar. A azáfama parecia grande. Seguimos até à Farmácia Carvalho, na mesma cidade, onde nos disseram que as dúvidas são muitas e o consenso ainda pouco, pelo que a maioria das pessoas nem sabem que tipo de teste precisa de fazer.

Há já pessoas que não conseguem realizar testes em tempo útil e ficam emocionalmente devastadas. “É que esposa que não consegue ver o marido que está no lar, o filho que não pode visitar a mãe que está no hospital…”

Embora este estabelecimento não tenha aderido à realização de testes comparticipados, é referida uma maior afluência na aquisição de autotestes, sendo que algumas pessoas querem adquirir apenas para terem em “stock” em casa. Era o caso de um cliente que pediu 15 testes de uma vez, para guardar para o Natal.

A Farmácia na Atalaia, em Vila Nova da Barquinha, é uma das duas que realiza testes comparticipados no concelho. Créditos: mediotejo.net

Situação repetida na Farmácia Tente, na Atalaia, em Vila Nova da Barquinha, onde no momento já não haviam autotestes, sendo a data prevista para entrega na próxima terça-feira. É também consensual que a gratuitidade dos testes leva muitas pessoas a quererem testar-se “só porque é grátis e têm direito”, sem efetivamente necessitarem, o que pode vir a trazer complicações caso hajam verdadeiras necessidades, referem os farmacêuticos.

Poucas farmácias aceitaram fazer os testes comparticipados, e que são gratuitos para o utente, por entenderem que o valor pago pelo Estado (10 euros) não cobre os custos do serviço prestado

Já na Farmácia da Terra não conseguimos falar logo com o responsável Pedro Marques, que também não tinha mãos a medir com o trabalho, mas o Diretor Técnico confirmou-nos mais tarde o que já era previsível: que a partir do momento em que a portaria que permite a realização de testes antigénio gratuitos (através de comparticipação) entrou em vigor no dia 1 de dezembro, a afluência “disparou para números que são difíceis de corresponder”, em termos de vagas de agendamento.

“Na Farmácia Terra do Entroncamento só temos agendamento do dia 13 para a frente, sendo que os dias 23 e 24 de dezembro já estão completamente lotados e o dia 31 já está a caminho da lotação máxima. Na Farmácia da Terra da Chamusca tive a indicação de que até meio da semana que vem já temos a agenda praticamente cheia e a sexta-feira seguinte também. Portanto, há este aumento da procura nos feriados e nos fins de semana, como já era hábito quando houve esta testagem comparticipada em junho”, referiu o farmacêutico.

ÁUDIO | Pedro Marques, diretor técnico das Farmácias Terra

Esta lotação dos agendamentos parece decorrer também da baixa adesão das farmácias da região, “pois os recursos são limitados”, refere Pedro Marques, explicando que o foco das farmácias “é prestar o seu serviço comum à população, de aconselhamento e despensa do medicamento”. Além disse, refere, “muitas farmácias não aderiram à portaria por não terem as condições ou os recursos humanos necessários” e, uma vez que “estes testes também são caros (…) e o valor da comparticipação é diminuto”, torna-se mais difícil “pensarem em recrutar mais funcionários ou pessoas qualificadas” para fazer este tipo de serviço. “E isso depois satura, de alguma forma, aquelas que prestam o serviço com a comparticipação do Estado.”

O farmacêutico diz que nota, acima de tudo, que a realização de testes é para poderem realizar visitas a lares e hospitais, embora também tenha havido uma procura nos dias de fins de semana e feriados por causa de eventos, como concertos ou jogos de futebol.

O Drop Bar, em Torres Novas, com capacidade para 200 clientes, decidiu fechar, considerando inadmissível “pedir aos clientes dos bares que apresentem certificado digital e teste laboratorial negativo, quando se disponibiliza uma única farmácia” na cidade

Daniel Pereira, diretor-técnico da Farmácia da Barquinha e responsável pela parte da testagem, refere uma transversalidade neste ponto: “Às vezes as pessoas não dizem ao que vão, podem sentir-se incomodadas por estarem a ocupar o espaço de outras, mas nós tentamos responder a tudo. As pessoas que realmente se queixam mais – e essas exteriorizam mais o motivo – são as pessoas com situações mais emocionais”, e que ficam devastadas por não conseguirem realizar um teste em tempo útil. “É a esposa que não consegue ver o marido que está no lar, o filho que não pode ir visitar a mãe que está no hospital…”

Contudo, salienta, “não podemos esquecer que há pessoas que vêm fazer o teste porque tiveram um contacto ou porque suspeitam que tiveram um contacto, ou têm algum sintoma”, tendo em conta que Vila Nova da Barquinha é também um dos concelhos da região com mais casos por 100 mil habitantes. Mas a partir do dia 1 de dezembro, com a introdução das novas medidas, “o que até há uns dias atrás era o mais comum – o contacto, o receio, a suspeição – agora é mais um motivo para a pessoa vir fazer o teste”, refere.

ÁUDIO | Daniel Pereira, da Farmácia da Barquinha

Neste estabelecimento teve de haver uma “desmultiplicação” do pessoal, diz o diretor técnico, entre o que é o dia-a-dia da farmácia e a testagem (que emprega uma pessoa a tempo inteiro na realização dos testes e pelo menos mais uma a registá-los), pelo que as marcações estão a ser feitas já só para daqui a uma semana e meia. Até ao momento não esgotaram os autotestes neste estabelecimento, mas confirma-se um aumento da procura.

A Farmácia Higiene, em Torres Novas, é a única que realiza testes comparticipados neste concelho. Créditos: mediotejo.net

Na Farmácia Higiene, em Torres Novas, a única no concelho que faz testes de laboratório comparticipados pelo Estado à covid-19, o ritmo “tem sido uma loucura”. Rita Barroso, a farmacêutica responsável, explica ao mediotejo.net que esta é a única farmácia que presta este serviço entre Torres Novas e Alcanena, pelo que se encontra na prática a responder aos dois concelhos.

As entradas e saídas de clientes não paravam, tendo a entrevista decorrido num curto espaço de tempo entre dois utentes. Na sexta-feira, 3 de dezembro, a responsável adiantava que já só tinha vaga para marcação de teste de laboratório para a próxima quinta-feira, dia 9.

Margarida Nicolau, da Farmácia Nicolau, em Torres Novas, diz que a comparticipação do Estado não é suficiente para cobrir os custos do teste e toda a logística necessária para prestar esse serviço. Créditos: mediotejo.net

Quem procura testes à covid-19 pretende sobretudo estar “mais livre” para ajuntamentos, como festas, constata a responsável. Além dos testes comparticipados, a Farmácia Higiene também vende autotestes, mas a procura tem sido tanta que já só têm os mais caros, de cinco euros cada um. ”Não chegou a esgotar”, refere, mas as pessoas procuram sobretudo os mais baratos.

O facto de existir apenas uma “farmácia de oficina” de testes comparticipados em Torres Novas já levou o Drop Bar a fechar portas. Numa mensagem deixada no Facebook, a administração constata que “pedir aos clientes dos bares que apresentem certificado digital e teste laboratorial negativo, quando se disponibiliza uma única farmácia, numa cidade como Torres Novas, para a realização grátis dos mesmos, é estar a atirar areia para os olhos dos proprietários”.

O espaço, do ator Carlos Cunha, tem lotação de 200 pessoas. “Se cada cliente quiser ir fazer o teste à farmácia Higiene (única disponível para o efeito) na sexta-feira, para poder frequentar o Drop durante o fim de semana, esta não tem capacidade para a realização dos mesmos. E há mais bares e discotecas em Torres Novas. Sendo assim, é com muito pesar, mas sem deitar a toalha ao chão, que encerramos temporariamente”, anunciaram.

Além da Farmácia Higiene, também os laboratórios de análises Fernanda Galo e Mª Teresa Parente realizam testes comparticipados em Torres Novas, mas ainda assim as vagas para agendamentos não dão resposta às reais necessidades dos habitantes.

Farmácia Nicolau, em Torres Novas. Créditos: mediotejo.net

A Farmácia Nicolau, em Torres Novas, encontra-se também a tratar dos procedimentos necessários para também realizar testes de laboratório, pagos pelo utente. Segundo constatou a diretora técnica, Margarida Nicolau, a comparticipação do Estado não é suficiente para cobrir a logística. “Ainda não analisámos a situação na totalidade”, adiantou ao mediotejo.net, mas tendo em conta o material a descartar e o valor à hora do farmacêutico, “os 10 euros da comparticipação não paga toda essa despesa”.

AÚDIO | Margarida Nicolau, da Farmácia Nicolau, em Torres Novas

Esta farmácia tem vendido sobretudo autotestes, e as encomendas que chegavam para um mês agora desaparecem em menos de uma semana. Os clientes levam desde dois a cinco testes de uma vez, referindo a responsável que a testagem se destina, sobretudo, poder ir a eventos ou visitar familiares em lares.

No concelho de Ourém existem quatro “farmácias de oficina” a fazer testes gratuitos (comparticipados), duas em Fátima (Santo António e Fátima), uma em Ourém (Verdasca) e outra na Gondemaria (Gil Gameiro).

O mediotejo.net passou pelas três farmácias que existem na cidade de Ourém para obter informações sobre a afluência à testagem, mas o grande número de clientes ou a ausência dos responsáveis dificultaram a recolha de declarações. Ainda assim, na Farmácia Leitão foi-nos adiantado que já não havia autotestes, havendo ruptura destes produtos nos próprios fornecedores. “É uma corrida doida”, comentou um dos técnicos da farmácia.

A partir desta segunda-feira, 6 de dezembro, o Centro Hospitalar do Médio Tejo vai fazer este tipo de testes nos seus hospitais, em Abrantes, Tomar e Torres Novas, embora com “os preços de custo do teste” imputados ao utente, entre os 20 e os 45 euros.

Farmácias e Laboratórios que realizam testes comparticipados pelo Estado
(até 4 testes gratuitos para o utente, por mês)

ABRANTES
Farmácia Motta Ferraz
Farmácia Silva
Laboratório Clenlab
Laboratório de Análises Clínicas Dr.ª M.ª Luísa Santos Costa

ALCANENA
Não há

CONSTÂNCIA
Não há

ENTRONCAMENTO
Farmácia da Terra
Farmácia António Lucas

FERREIRA DO ZÊZERE
Farmácia Graciosa
Farmácia Soeiro
Laboratórios Fernanda Galo

MAÇÃO
Farmácia Catarino
Laboratório de Análises Clínicas Dr.ª M.ª Luísa Santos Costa

OURÉM
Farmácia Verdasca (Ourém)
Farmácia Fátima (Fátima)
Farmácia Santo António (Fátima)
Farmácia Gil Gameiro (Gondemaria)

SARDOAL
Não há

SERTÃ
Não há

TOMAR
Farmácia Grave
Farmácia Misericórdia
Farmácia São Pedro (São Pedro de Tomar)
Laboratórios Fernanda Galo

TORRES NOVAS
Farmácia Higiene
Laboratório de Análises Clínicas Mª Teresa Parente
Laboratórios Fernanda Galo

VILA DE REI
Não há

VILA NOVA DA BARQUINHA
Farmácia Tente (Atalaia)
Farmácia Oliveira/Da Barquinha
Laboratórios Fernanda Galo

Fonte | Infarmed, listagem de farmácias e laboratórios que realizam testes antigénio comparticipados

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

Licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade da Beira Interior. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo. Ávido leitor, não dispensa no entanto um bom filme e um bom serão na companhia dos amigos.

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