Constância | O jardim-poema que Gonçalo Ribeiro Telles desenhou para evocar Camões (c/ vídeo e fotogaleria)

Num pequeno terreno debruçado sobre a confluência dos rios Tejo e Zêzere, o arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles criou há precisamente 30 anos um jardim muito especial. Ali, entre árvores, flores, frutos e ervas aromáticas, reúne-se toda a flora mencionada na obra camoniana: 52 espécies alusivas aos cantos de Os Lusíadas, bem como à época dos Descobrimentos e dos nossos “Heróis do Mar”. Gonçalo Ribeiro Telles morreu esta quarta-feira, 11 de novembro, aos 98 anos, e o Jardim-Horto de Camões de Constância, não tendo a grandiosidade de outras obras com a sua assinatura, como os jardins da Gulbenkian, é uma das suas criações mais originais. Para o nome maior da língua portuguesa imaginou este “poema vivo”, que se vai transmutando e vestindo novas cores a cada dia. 

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No coração de Constância, entre as margens verdejantes e espaços ajardinados, nasceu um jardim maior que todos os jardins do mundo. Só ali podemos encontrar, visitar e absorver entre cores, aromas, cheiros e sabores que nos entram pelos olhos e pelo olfacto sem ser preciso permissão, a História de Portugal e recordar a coragem e valentia dos “Heróis do Mar” que cruzaram mares nunca navegados, dobraram cabos, superaram todas as tormentas.

É um jardim verdadeiramente especial – uma homenagem em perpétuo movimento a Luís Vaz de Camões, que se diz ali ter vivido na então “Casa dos Arcos”, agora sede da Associação Casa-Memória de Camões.

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Jardim-Horto de Camões, em Constância, desenhado pelo arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles. Fotografia: Jorge Santiago/mediotejo.net

O Jardim-Horto, desenhado pelo arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles e aberto ao público em 1990, reúne toda a flora mencionada na obra camoniana, totalizando 52 espécies representadas.

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O arquiteto-paisagista Gonçalo Ribeiro Telles esteve recentemente de visita ao Jardim-Horto de Camões, acompanhando as obras de recuperação, quase 30 anos depois de o ter projetado. Foto: DR

À entrada, destaca-se o monumento do mestre Lagoa Henriques, inaugurado pelo presidente da República, General Ramalho Eanes, em 1981, e por trás um enorme painel, uma obra de Dália Lacerda Machado, de 2019, contando as viagens de Camões pelo mundo, desenhando as rotas de Lisboa a Macau, avançando por África e pela Índia.

Entrando no jardim, inicia-se um percurso feito de plantas de dois tipos: mediterrânicas e exóticas. Cruzando as influências dos Descobrimentos com a cultura portuguesa e fazendo recuar no tempo, aos livros de História e ao estudo dos cantos d’ “Os Lusíadas” e outras obras da lírica camoniana.

Foto: Joana R Santos/mediotejo.net

Ao chegar, encontramos o monumento a Manuela de Azevedo, falecida em 2017. Jornalista, mulher de armas, fundadora da Associação Casa-Memória de Camões e a principal responsável pela luta para instalar na vila os três patrimónios a Camões. A Casa-Memória, por exemplo, demorou 20 anos a ser concluída, num processo moroso que durou até 2005.

O seu objetivo era abrir aquele equipamento ao público, dando a conhecer a vida e obra de Camões, que diz a comunidade, viveu a certa altura em Punhete (Constância). Uma luta que ainda hoje dura, tendo já a Casa-Memória conseguido o reconhecimento de Interesse Cultural por parte do Ministério da Cultura, mas aguardando-se financiamentos e apoios para apetrechar com equipamentos aquele edifício e abrir-se as portas, dando-lhe a ansiada e merecida utilidade.

A cânfora, uma das grandes árvores do Jardim-Horto. Veio do Oriente e conta já 30 anos. Foto: Joana R Santos/mediotejo.net

A frondosa cânfora já nos acolhe a atenção, do alto dos seus 30 anos – os mesmos que o jardim já conta – e com muitos metros de altura. Veio diretamente do Oriente e é uma das plantas exóticas em destaque, juntando-se à pimenta, ali perto.

Atrás, também a caneleira disputa o céu, com a sua larga copa e robusto tronco, cujos galhos, raspados e secos dão origem ao pau de canela tão usado nas receitas de bolaria portuguesa.

Salta-nos aos olhos o longo corredor de roseiral, com rosas de todas as cores e feitios, ao comprimento do Jardim. A rosa é a planta mais vezes mencionada por Camões na sua obra, e por isso, não é de somenos importância este espaço a si dedicado.

Foto: Joana R Santos/mediotejo.net

Vamos avançando e encontramos até a silva, o aloé, a hera, a cana-da-índia, a violeta, as coroas imperias e as açucenas, o medronheiro, o loureiro, o craveiro e as maravilhas, o goivo, a hortênsia, a salva, o rosmaninho, o alecrim…

No Jardim Horto encontramos ainda as plantas aromáticas e as árvores de fruto, caso da hortelã, da macieira, da salsa e dos coentros, do alecrim e do rosmaninho, da manjerona. E logo a seguir um mar de trevos, por entre os canais antigos, compostos na calçada portuguesa.

O castanheiro faz sombra a praticamente todo o horto após o meio dia, com uma copa gigante e a perder de vista, que nos rouba algum tempo para podermos observar e analisar cada galho, folha e toda a dimensão da árvore. O tronco é quase tão grosso como o do freixo, e faz inveja ao medronheiro e à pequena amoreira.

De tão grande que é, quase faz passar despercebida a maior esfera armilar de Portugal, ali colocada a assinalar os 500 anos dos Descobrimentos, trazida por um helicóptero da Força Aérea pelos seus 500 kg, em 1998.

Foto: Joana R Santos/mediotejo.net

Avista-se um poço árabe, conservado e acarinhado por ser um dos poucos poços descobertos nos arredores da região. E vamos passando, olhando os canaletes, quando nos cruzamos com a romãzeira, florida de um laranja elétrico.

Nisto, um tabuleiro de xadrez em ponto grande. Cumprindo a vontade de Manuela de Azevedo que sempre quis colocar este elemento no jardim. A particularidade? As peças gigantes, com o tabuleiro desenhado na calçada, permitem ser movidas para um combate que adivinha durar horas a fio, exigindo paciência e sabedoria.

No meio de tanto arvoredo, e para troca, a laranjeira, ali junto ao anfiteatro do Planetário de Ptolomeu, está carregada de laranjas, e aos seus pés, entre um manto de hera, surgem os enamorados da estátua “A Ilha dos Amores”, de Lagoa Henriques.

Foto: Joana R Santos/mediotejo.net

No anfiteatro, além das questões astronómicas com representação dos 7 Céus, pondo a Terra como centro do Universo. Representada a teoria geocêntrica e os signos do zodíaco, pode ainda fazer-se a experiência de, a certo ponto e pousando o pé no centro do auditório, falar e ouvir o eco da nossa voz, que se amplifica naquela construção.

No coração de tudo, o corredor central, paralelo aos vários canteiros que vamos espreitando. Forrado a videira, e acompanhado com oliveiras pluricentenárias, muitas com os ramos a serem enleados pelas vides.

Foto: Joana R Santos/mediotejo.net

Entramos ladeados pelas paredes de cana-da-índia no esplendoroso Pavilhão de Macau, recentemente requalificado com materiais vindos daquela região. Com muros ondeados, a lembrar o simbolismo do Dragão Chinês, a branco, e a contrastar com o vermelho das paredes e pilares e com o telhado em tons de verde azulado.

O repuxo leva a água a escorrer entre as pedras da cascata, formando uma ligeira queda de água. Vêem-se peixes no lago habitado por nenúfares de flores amarelas ou rosadas. Despontam as plantas do papiro, em tufos plantados nos cantos daquele ponto oriental.

O Jardim-Horto, verdadeira ode ao Poeta, é uma sugestão para a escapadinha de fim-de-semana ou num feriado, quer seja romântica ou em família, no culminar de um passeio à beira-rio e pelas ruas do centro histórico da Constância.

Jardim-Horto de Camões
Coordenadas GPS: 39° 28′ 28,2″ N / 8° 20′ 22,8″ W 

HORÁRIO
Funciona todos os dias: das 9.00 às 12.30 e das 14.00 às 17.00 horas

PREÇÁRIO
Adultos: 1,50 €
Jovens dos 10 aos 17 anos: 1 €
Estudantes: 1 €
Terceira idade (a partir dos 65 anos): 1 €
Crianças até aos 9 anos: gratuito
Preços para escolas e grupos sob consulta no Posto de Turismo
(Abre gratuitamente ao público no feriado do 10 de junho, todos os anos)

Contactos:
telefone: 249 730 052
fax: 249 730 289
e-mail: turismo@cm-constancia.pt

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Joana Rita Santos
Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres: o conhecimento e o saber, a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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