“Cebolas”, por Armando Fernandes

Imagem: iStock

No ano passado estive em Rio Maior no dia “maior” da feira/festa dedicada à cebola. Para lá do negócio de venda e compra do estimado bulbo, não estávamos a sofrer os efeitos da pandemia, não chorávamos os mortos em consequência da maleita, muitos deles enterrados ou cremados de modo quase secreto em virtude do temor da propagação do micróbio, levando a extremos de os entes chegados não poderem despedir-se e chorarem os seus mortos.

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Ora, a cebola quando descascada (‘Descascando a cebola’, é título de um famoso livro de Gunter Grass onde o famoso autor revela ter sido atraído na sua juventude pela doutrina nazi) e cortada obriga ao cerrar de olhos já chorosos porque dos referidos bolbos se desprenderem intensas fragrâncias a originarem lágrimas tão copiosas como as de Maria Madalena.

A história da cebola principia na mitologia e vai até aos nossos dias e, os leitores interessados em ler as suas qualidades biológicas e químicas têm na Internet ampla informação, por isso mesmo só abordo as suas virtudes no campo das artes culinárias e gastronomia.

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Os documentos da história da alimentação dão-nos conta de episódios centrados nas cebolas seja porque os cronistas lhe atribuem poderes de recuperação sanitária, ou seja, são inimigas dos vírus, seja por doentes de atrofias na visão as consideraram benéficas no seu tratamento, seja ainda por, a par de outros alimentos, constituírem revigorantes corporais, para lá das mezinhas, chás, composições milagrosas e superstições eivadas de bruxaria e misticismos.

Os tratados medievais dão-nos preciosas informações, por isso volto a lembrar o Tratado escrito pelo único Papa português, João XXI. Dou sempre como bem empregue o tempo gasto a consultá-lo.

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Se perguntarmos a uma Mestra cozinheira quão importante são as cebolas para ela, a senhora aludirá à sua poderosa presença em guisados, estufados, assados, gratinados, sem esquecer as ceboladas a coroarem escabeches, saladas frias e quentes de todos os matizes.

Um chef lembrará os caldos destinados a doentes e as sopas impregnadas de mariscos e/ou de peixes brancos muito considerados na denominada alta cozinha. Os auto entendidos ou jeitosos utilizam as cebolas a eito, práticos na construção onanista do bacalhau cru, desfiado a preceito, não as dispensam cortadas às rodelas pingadas de azeite e aspergidas de pó de pimento queimão. No capítulo onanista do fiel amigo, proliferam os especialistas, cada qual elabora a mais luxuriosa receita. Pedindo meças em prosápia aos caçadores e pescadores.

Os árbitros de elegâncias à mesa aludem à halitose (os brasileiros do sertão diziam e escreviam bafo de onça, não sei se o termo continua a ser usado) provinda ingestão de cebola crua, os pobres de pedir e famintos sempre as apreciaram sem receio de ofenderem as pituitárias de fino recorte: Pudera!

A fome ignora normas de manutenção de bom hálito, nós que vamos vivendo sem a megera nos atormentar, sempre que mastigarmos (mesmo em conserva avinagrada) convém evitarmos o tal bafo celebrizado numa telenovela brasileira. Lembram-se?

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