Sábado, Fevereiro 27, 2021
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“Barragem de Castelo do Bode inaugurada há 70 anos”, por José Martinho Gaspar

Completaram-se 70 anos sobre a data da inauguração da Barragem de Castelo de Bode, a 21 de janeiro. Reflexo de uma sobreposição da fação industrialista do Estado Novo à génese ruralista do regime, confirmada nos anos seguintes com os Planos de Fomento, a Barragem de Castelo de Bode foi inaugurada com pompa e circunstância no já longínquo ano de 1951. A cerimónia contou com a presença daquelas que eram então as duas figuras maiores da política nacional, o Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, e o Presidente da República, Marechal Carmona.

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Em 1945, havia sido anunciada, por parte do Governo, a denominada “política de eletricidade”, que trouxe a Portugal uma comissão inglesa que integrava sete personalidades com elevada reputação técnica, especialmente interessadas em Castelo de Bode. Na sequência dos levantamentos efetuados por este grupo, constituíram-se a Hidroelétrica do Zêzere e a Hidroelétrica do Cávado, sociedades onde o capital público era maioritário.

As obras da Barragem de Castelo de Bode arrancaram em março de 1946, as escavações iniciaram-se em março de 1947 e, em setembro deste ano, o leito do rio estava a seco. Em julho de 1948 deu-se início à colocação de betão nas obras definitivas; em outubro de 1949 principiava-se a montagem de equipamento na central; em abril de 1950 começava o enchimento da albufeira; em janeiro de 1951, mês da inauguração, entrou em funcionamento o primeiro grupo gerador. O objetivo primeiro era o fornecimento de energia elétrica a Lisboa, pondo fim ao papel crucial desempenhado durante largos anos pela Central Tejo.

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Durante estes cinco anos de obras, a azáfama nas margens do Zêzere, neste vale entre os concelhos de Abrantes e Tomar, foi significativa. As obras de construção de uma barragem de betão (do tipo arco gravidade), com 115 metros de altura e um desenvolvimento do coroamento de 402 metros, com três turbinas (o projeto inicial incluía cinco), fez com que se fizessem transportes de dimensões especiais que ainda estão na memória de alguns mais idosos.

Chegou-me um destes dias às mãos, através de um amigo, a revista ACP, órgão oficial do Automóvel Club de Portugal, dos meses março/abril de 1950, onde, na página 17, se narra a aventura que foi a viagem de 30 dias, entre Lisboa e Castelo de Bode, do rotor de 64 500 kgs, que o redator intitulou “Lá vem o camião gigante que tem muito que contar…”.

Dá-se conta da curiosidade que tal transporte suscitou, a ponto de se terem organizado excursões para o verem avançar, no seu passo de caracol, num trajeto pautado por inúmeras dificuldades.

O Camião Gigante
O camião gigante protagonista da aventura que foi a viagem de 30 dias, entre Lisboa e Castelo de Bode, para transporte do rotor de 64 500 kgs

Houve a necessidade de cortar árvores centenárias, de reforçar estradas, de improvisar pontes e, na passagem, o “monstro” derrubou muros e postes e, cansado do peso que transportava, avariou mais do que uma vez até chegar ao destino.

Porque uma barragem hidroelétrica não é constituída apenas por um enorme bloco de betão e um conjunto de turbinas, um empreendimento desta natureza implica a submersão de um espaço considerável que até aí se destinava a múltiplas actividades. Por essa via, o rio Zêzere sofreu, num longo percurso, o alargamento do seu leito sobre casas e terras de cultivo, o mesmo acontecendo a algumas ribeiras.

A albufeira da Barragem de Castelo de Bode constituiu-se, deste modo, como uma enorme barreira entre dois mundos: a zona do pinhal (Beira Baixa), a norte, e, a sul, os olivais e terrenos mais baixos que indiciam o Alentejo e são domínio ribatejano (estende-se pelos concelhos de Abrantes, Figueiró dos Vinhos, Ferreira do Zêzere, Sertã, Tomar e Vila de Rei).

Ainda a barragem não estava inaugurada e as queixas já se faziam sentir. No Jornal de Abrantes de 14 de janeiro de 1951, um habitante do Souto referia-se com preocupação aos caminhos que haviam sido cortados com a subida das águas, a populações que ficaram praticamente isoladas e ao facto de não terem sido construídas verdadeiras alternativas para circulação.

Se é certo que existiam algumas barcas de passagem, como na Ribeira do Souto, o embarque de animais era particularmente difícil e já havia desencadeado acidentes.

Antiga Roda no Rio Fundeiro, submersa pela albufeira

Pela perda das suas casas ou das suas terras, muitas pessoas abandonaram a região, num êxodo como na região não há memória. Volvidas mais de seis décadas, alguns anciãos continuam a preferir nem tocar no assunto ou desviam a conversa dos acontecimentos dos anos cinquenta, já outros, ainda que com tristeza sonhadora, fazem questão em confidenciar tudo aquilo de que se recordam.

Para avivar a memória, recorrem às palavras de Manuel Coelho, poeta popular, analfabeto, de Valadas, concelho de Vila de Rei, que, na época, inventou várias quadras. Será sintomática quanto ao estado de espírito das gentes da região, aquela em que se diz:

De Constância ao cimo do Zêzere,
Eu digo com ligeireza,
Em lado nenhum há alegria,
Em todo o lado há tristeza.

“Em todo o lado há tristeza”, afirmou-o Manuel Coelho e confirmam-no as histórias que tantas vezes ouvi, porque nasci numa aldeia junto à albufeira. A tristeza terá sido tanto mais dolorosa quanto maior a mudança provocada na vida de homens e mulheres, a começar por aqueles que tiveram de abandonar as suas casas, como os habitantes da Foz da Ribeira, Conqueiro, Pombeira, Videiral ou Casal da Barca, mas igualmente dos que viram as suas terras alagadas, que eram o seu ganha-pão e lhes haviam sido legadas pelos antepassados.

Adeus ó Água das Casas,
A ti pouco te conheço,
Cobriram-te as melhores terras,
Deixaram-te a ponta do cabeço.

Com efeito, a par daqueles que se viram obrigados a partir para o Alentejo, Lezírias Ribatejanas ou América do Sul com os poucos tostões de uma expropriação algumas vezes pouco clara, tivemos os que se viram obrigados a readaptar a sua existência.

Da charneca fizeram terra arável e viram-se obrigados a procurar aquilo que nunca faltara aos seus nateiros – água. Nateiros eram terras ribeirinhas que cercavam ribeiras como o Codes, especialmente férteis em virtude das enormes cheias de Inverno.

Obras de construção da Barragem de Castelo de Bode

A propósito destas cheias, contam-se histórias de heróis que conseguiam, utilizando barreiras e outros obstáculos, desviar o percurso do Codes, para que na sua torrente infernal de inverno esta ribeira não levasse consigo as terras férteis – esse Codes que trazia fertilidade mas que também tudo levava, caso o não impedissem.

cartaz

Fotografia de grupo com todos os funcionários que inauguraram a barragem, a 21 de janeiro de 1951. Créditos: mediotejo.net/ fotografia disponibilizada por António Mourão, filho de José Mourão, um dos funcionários da Hidro Eléctrica do Zêzere na inauguração de Castelo do Bode

Nos anos 80, com o direcionar da água da Barragem de Castelo de Bode para o abastecimento de Lisboa, alterou-se aquele que era o seu principal objetivo. Nos dias que correm, com um plano de água com ótima qualidade, com cerca de 60 kms de comprimento, Castelo de Bode será o que nós quisermos ou soubermos fazer dela.

José Martinho Gaspar nasceu em Água das Casas (Abrantes), na década de 60 do século XX, e vive em Abrantes. É Professor de História e Mestre em História Contemporânea. Desenvolve a sua ação entre aulas, atividades associativas (Palha de Abrantes e CEHLA/Zahara, mas também CSCRD de Água das Casas), leitura e escrita, tanto de História como de ficção, sendo autor de vários artigos e livros. Apaixonado por desporto, já não vai em futebóis, mas continua a dar as suas voltas de bicicleta. Afinal, diz, "viver é como andar de bicicleta: não se pode deixar de pedalar e quando surge um cruzamento escolhe-se o nosso caminho".

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