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Quinta-feira, Janeiro 27, 2022
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Alcanena | Mantas de Minde: quando as mãos tecem um “produto de luxo” (c/vídeo)

A história das Mantas de Minde tem quase 400 anos e confunde-se com a história da terra que lhes dá nome e a evolução económica das suas gentes. O mediotejo.net foi conhecer a arte que aqueceu um povo e o rosto de quem não deixa morrer um produto que deixou de ser popular, para passar ao epíteto de luxo. Porque esta lã é 100% de ovelha e a produção totalmente artesanal. O resultado é único e dotado de uma especificidade genuína. Como nunca a máquina industrial conseguiu equiparar…A tradição mostra-se no Concurso 7 Maravilhas na categoria Músicas e Danças, com o Hino Mantas da Nossa Terra, pela Sociedade Musical Mindense.

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Começámos pelas perguntas mais básicas. Ainda há teares? Aqueles de madeira, à moda antiga, cujos contrapesos eram pedras e a lã da trama urdida em teia; onde a tecelagem se fazia lenta e penosamente, ao ritmo matemático dos pedais e do labor engenhoso das mãos, construindo-se padrões axadrezados com uma técnica quase misteriosa…

Ainda há mantas ditas puras? Aquelas bem quentes cardadas à mão, com as cores terra das lãs dos rebanhos ou com tons tingidos segundo receitas tradicionais…

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A resposta encontrou-se em Minde, Alcanena, onde o Atelier de Tecelagem do Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro (C.A.O.R.G.) partiu do princípio da genuinidade para recriar uma arte que se foi perdendo na industrialização. Os teares são por isso os de madeira, antigos instrumentos de trabalho já esquecidos e entregues por velhos donos à instituição, e todo o produto o mais puro possível, feito apenas de lã de ovelha, comprada na região da Guarda.

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Na manufactura das verdadeiras Mantas de Minde respeitam-se os produtos e as técnicas herdados: 100% lã e 100% portuguesa, as receitas de tinturaria, os padrões originais e todo o processo da produção. São estas as mantas a concurso – “as 7 maravilhas da Cultura popular”.

O artesão, Roberto Ferreira, aprendeu o ofício com o sogro, que já tecia com o respetivo pai. Disseram-lhe que aprendeu depressa. O gosto tende a inspirar a vocação.

Vemo-lo trabalhar com uma agilidade eficaz, não perdendo uma linha, não falhando um pedal, numa subtileza só possível a quem faz de uma arte profissão. Perguntamos-lhe quanto tempo leva a tecer uma manta. Lisa e simples, de um metro, a tecer bem e depressa e sem contratempos (fios partidos, etc) demorará uma manhã. Se acrescentarmos padrões e tamanhos variados já são outras contas.

A tecelagem artesanal não era a área de Roberto Ferreira, que estudou topografia e agora presta vários serviços ao`C.A.O.R.G. A tecelagem, explica, foi evoluindo ao longo dos séculos, acabando os teares por ser tornarem mecânicos. A Manta de Minde que se faz numa manhã no Atelier, seria reproduzida às centenas no mesmo tempo por uma máquina. A concorrência de outros mercados ditou o fim dos teares – de todos eles, mecânicos ou manuais – e o sogro de Roberto Ferreira teve que fechar a fábrica que possuía.

Tendo aprendido a arte do tear e surgindo a oportunidade no C.A.O.R.G, Roberto Ferreira aceitou o desafio. Pelo Atelier de Tecelagem passam todos os dias dezenas de curiosos, pessoas idosas nostálgicas dos tempos passados a trabalhar as lãs e mais jovens visitando o espaço, também comercial. De botas, malas, bancos, luvas às próprias mantas, de tudo se faz e vende, a preços que superaram os 100 euros. A associação quer que este seja tido como um “produto de luxo”, diferente das variadíssimas mantas de retalhos que se vendem um pouco por todas as regiões do país.

“É um trabalho pesado”, admite Roberto Ferreira, mas promover uma arte antiga e poder partilhá-la com quem vem de fora “tem outro sabor”. Explica os movimentos, a rotação das linhas, as particularidades do ofício. Os pés trabalham a um ritmo frenético, difícil de reproduzir apenas com a observação. Ao seu lado esquerdo, perfilam-se os rolos de linha (canelas), de variadas cores, que depois se colocam nas lançadeiras. Pesquisamos a manta que tece – esquerda, direita, esquerda, direita, muda de linha – encontramos um padrão elaborado. Quanto tempo isto leva a criar? Não chegamos a ter resposta…

As mantas de Ninhou

A arte das Mantas de Minde terá nascido no século XVII, no Convento dos Frades Arrábidos, que já faziam mantas grosseiras. Com o desenvolvimento do trabalho dos religiosos, o Rei D. João V estabeleceu em Minde um mercado anual de lãs, em julho, por altura das festas de Santana. “Daí em minderíco chamar-se santana às festas”, constata a presidente da direção do C.A.O.R.G., Maria Alzira Roque Gameiro.

“Minde era uma região pobre, de gado miúdo”, constata, sendo a venda das mantas de lã de ovelha um suporte da economia local.

Lã lavada, cardada, fiada, urdida, tecida. O processo sofre vários passos e está recheado de um vocabulário já pouco conhecido. As técnicas têm sido esquecidas e as mantas confundidas com as restantes mantas de retalhos do país. Com o tempo os teares de madeira apodreceram, foram queimados como lenha, à medida que a industrialização tomava conta de um negócio, também ele já defunto. “Cheguei a conhecer uma oficina com 20 teares a funcionar”, reflete Maria Alzira Roque Gameiro.

No centro de Minde, o Atelier de Tecelagem não quer ser tido como uma fábrica. Mas quer que se lhe reconheça a qualidade e o traço único, ao nível do melhor que se faz em Portugal.

Alcanena e as mantas de Minde nas 7 Maravilhas Músicas e Danças através do Hino Mantas da Nossa Terra (Sociedade Musical Mindense). Foto: CMA

Na sequência da candidatura apresentada pelo Município de Alcanena, foram atribuídos ao Município os Selos de Nomeados enquanto candidatos à edição das 7 Maravilhas da Cultura Popular® a decorrer em de 2020.

No passado dia 5 de junho, a Presidente da Câmara Municipal de Alcanena, Fernanda Asseiceira, acompanhada pelos Vereadores Maria João Gomez, Luís Pires e Hugo Santarém, entregou à direção da Sociedade Musical Mindense, a placa de nomeado na categoria Músicas e Danças – Hino Mantas da Nossa Terra.

*Reportagem publicada em 2016, republicada em junho de 2020

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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