Abrantes | Processo de estruturação do Centro Hospitalar foi “traumático”, diz Silvino Alcaravela

Silvino Alcaravela na sua casa em Abrantes, com o Hospital Doutor Manoel Constâncio ao fundo. Créditos: mediotejo.net

Silvino Alcaravela, natural da Barrada, no concelho de Abrantes, tem 74 anos e dedicou a vida à gestão hospitalar. Primeiro no Hospital de Abrantes e depois no Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT), cargo que envolveu alguma polémica e de onde saiu diretamente para a reforma por sentir não ter “condições de liderança”. Uma década passada, o mediotejo.net conversou com ex-administrador e percebeu que deixou para trás os gabinetes e o stress para aproveitar a calmaria da aldeia, a companhia da família e o convívio com os amigos. As mágoas, no entanto, continuam presentes.

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A conversa com Silvino Alcaravela não foi o primeiro encontro do ex-administrador hospitalar com um jornalista. Desses últimos encontros com a comunicação social, nos idos de 2007, e da polémica sobre a gestão do Centro Hospital do Médio Tejo (CHMT), resultou o afastamento de Silvino Alcaravela da presidência do conselho de Administração do Centro Hospitalar e a sua imediata aposentação.

“A certa altura vi não ser possível e dirigi uma carta ao ministro da Saúde dizendo que, não havendo condições de liderança para continuar a gerir o CHMT, solicitava a cessação da minha comissão de serviço na circunstância da minha aposentação”. No dia em que se aposentou deixou o Centro Hospitalar do Médio Tejo.

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“Ninguém me mandou embora mas como dizia o outro: um mau final às vezes estraga uma longa vida”, disse Silvino Alcaravela ao mediotejo.net, dez anos depois de se reformar e de abandonar a gestão hospitalar que, na verdade, foi a sua vida. Uma corrida cansativa e, no final, algo dececionante. “Frustração! Afinal, os frutos resultantes não são assim tão apetecíveis”.

Sem arrependimentos porque “não era possível fazer diferente”, e com “a consciência tranquila” pela inexistência de “favorecimentos” ao Hospital de Abrantes em detrimento das outras duas unidades hospitalares (de Torres Novas e Tomar) que compõem o CHMT.

Mas agora, uma década passada, trocando a azáfama da cidade pela pacatez da aldeia da Barrada, no concelho de Abrantes, aceitou o convite da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) para presidir, em Tomar, às V Jornadas da Inovação e Liderança em Saúde, nas Conferências de Valor 2018 da APAH, que acabou, em junho último, de lhe atribuir uma Menção Honrosa na presença da secretária de Estado da Saúde, Rosa Valente de Matos, pelos serviços prestados à administração hospitalar e ao Serviço Nacional de Saúde.

Era o regresso de Silvino Alcaravela a uma sala com 300 administradores hospitalares e à área profissional à qual se dedicou de corpo e alma, começando em 1980 em Abrantes até 1982, ainda no velho hospital, e em 1984, onde iniciou a instalação do novo hospital da cidade, como administrador, e com Luís Fernandes como presidente do conselho de administração.

“Fizemos o processo de instalação do novo hospital de Abrantes, aberto em 1985, sem qualquer inauguração”, lembra.

Silvino Alcaravela na Quintas Conferências de Valor da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, em Tomar. Créditos: DR

O hospital de Abrantes “abriu numa circunstância curiosa, sem presença de ministro, nem de Presidente da República, nem sequer de secretário de Estado”, refere, recordando que a construção do Hospital Dr. Manoel Constâncio conseguiu-se por “insistência e sentido de oportunidade do engenheiro Bioucas (na época presidente da Câmara Municipal de Abrantes) que a certa altura, perante o ministro da tutela, insistiu que tinha um terreno e que havia condições para construir um novo hospital”.

Em pleno governo do Partido Socialista, com Mário Soares como primeiro-ministro, o chefe de Governo passou por Abrantes na época em que o hospital estava na fase final de construção. Silvino Alcaravela foi almoçar com Mário Soares ao Hotel Turismo quando o então primeiro-ministro lhe disse: “Vai haver eleições e em outubro viremos inaugurar o hospital”.

As eleições legislativas decorreram a 6 de outubro de 1985, vencidas pelo Partido Social Democrata, liderado por Aníbal Cavaco Silva. A grande surpresa dessas eleições foi o PRD, recém fundado, que conseguiu pouco mais de 1 milhão de votos, conquistando 45 vagas no Parlamento.

Mário Soares “perdeu as eleições, não veio e o hospital não foi inaugurado porque os governantes que se seguiram não tiveram a mesma visão política e olharam para o hospital como uma espécie de elefante branco do Partido Socialista”, conta.

Seguiu-se um período de 10 anos de governo de Cavaco Silva. “O amor pela casa não era grande e isso marcou a primeira década do hospital. Foi porventura o único aberto sem escola de enfermagem, todos os hospitais abertos na década de 80 tinham associados a escola de enfermagem. Tivemos de fazer a abertura do hospital de modo faseado. Não tinha o equipamento todo e era preciso equipar, era preciso investir e houve algumas dificuldades nesse período”.

Recorda que as pessoas diziam: “Afinal não era o Hospital de Abrantes, era Abrantes do Hospital. Uma maneira jocosa para afirmar uma certa megalomania na sua construção”, explica Silvino Alcaravela.

Curiosamente, passados poucos anos, quando o Hospital de Abrantes estava na fase da adolescência, surgem duas novas unidades hospitalares (Tomar e Torres Novas) “com programas funcionais paralelos como se em 240 mil habitantes houvesse espaço para ter três hospitais iguais uns aos outros” observa.

Essa nova realidade inicia, a partir de 1995, um processo de reengenharia do Centro Hospitalar. Silvino Alcaravela com António Branco (na liderança), e outras figuras dos conselhos de administração dos três hospitais, receberam a incumbência de desenhar a reestruturação dos hospitais porque “não podiam ter todos as mesmas valências, tinha de haver complementaridade”, conta.

Em determinado momento, o ministro Correia de Campos decidiu integrar os três hospitais em Centro Hospitalar e designou Silvino Alcaravela para fazer parte do primeiro conselho de administração juntamente com António Branco.

Antes dessa decisão decorreu ainda uma primeira experiência de Grupo Hospitalar. Cada hospital, apesar do grupo e de existir uma gestão articulada, possuía o seu próprio conselho de administração. Correia de Campos entendeu “não ser a solução e que era preciso integrar o funcionamento dos três hospitais sob o comando de um único conselho de administração” e, em 2001, passa a Centro Hospitalar do Médio Tejo.

A vivência hospitalar e da saúde marcaram a vida de Silvino Alcaravela, nascido na aldeia de Barrada, na freguesia de São Facundo, no concelho de Abrantes, a 24 de março de 1945, dia da Operação Varsity, a maior operação militar paraquedista lançada pelas forças Aliadas durante a Segunda Guerra Mundial, iniciando o fim do regime nazi de Adolfo Hitler.

“Tive pouco tempo para viver e muito para trabalhar, e não foi só no Médio Tejo, porque ao longo deste processo desenvolvemos imensos processos em colaboração com o Ministério da Saúde”, revela.

A circunstância de “relativo desacarinhamento” durante 10 anos não impediu o desenvolvimento de “experiências inovadoras em gestão, da qual saiu o processo de avaliação da produção dos hospitais em grupos de diagnóstico homogéneo e que hoje baseia, por exemplo, o financiamento dos hospitais, financiados não pelo número de doentes mas em função das dificuldades de tratamento e das características dos mesmos”, um projeto que mereceu apoio norte-americano.

Silvino deslocou-se, então, aos Estados Unidos, para ver os projetos a funcionar. “Esse projeto, juntamente com o de gestão de enfermagem, da revisão de utilização e planeamento de altas, integra um conjunto de experiências que fizemos em Abrantes, que muito nos orgulha e que afirmaram o hospital”.

A opção pela reforma era também o regresso às origens na Barrada, onde nasceu e cresceu. Ainda que no ativo, Silvino Alcaravela nunca passava um fim de semana fora da aldeia, assegura a sua mulher Otília.

O avô foi proprietário de uma padaria, o pai padeiro, a mãe doméstica e trabalhadora rural. Na Barrada, como em muitas aldeias naquela época, não havia água canalizada e as mulheres iam buscar a água à fonte, nem havia luz elétrica, por isso, na escola ainda estudou à luz de candeeiro e de candeia acesa.

Muito novo vendeu pão com o pai por Vale de Zebrinho. Lembra-se que, da primeira casa até à última, quase todas as pessoas compravam fiado. “Não tinham dinheiro para pagar e pagavam no final da safra, no final da apanha da azeitona”.

Poderia ter sido esse o seu destino, mas em Alvega construiu-se um pequeno colégio (o Externato de Santo António) e um dos professores, Manuel Lourenço Vitória, igualmente natural da Barrada, aliciou os pais de Silvino para que o filho fosse estudar.

“Íamos todos os dias a pé da Barrada para Alvega, cerca de sete quilómetros, por caminhos de cabras ao longo da ribeira, mal vestidos e mal calçados, e muitas vezes acontecia, quando chegávamos ao colégio, íamos assistir à primeira aula de matemática molhados e das meias só levávamos os canos porque o tecido era fraco e não aguentava a caminhada. Comíamos nos bancos da Praça da República”, recorda.

No colégio fez o quinto ano, dispensando às duas secções, e nessa circunstância Fernando Mascarenhas Loureiro, que hoje empresta o nome à Escola Básica de Alvega, disse-lhe que tinha de continuar. Assim fez o sexto e sétimo ano no Liceu de Portalegre, sentindo-se “bastante acarinhado” e obtendo bons resultados.

“Realmente fui bom aluno, sempre com distinção. O primeiro classificado no liceu, eleito para ser presidente da comissão de festas dos alunos”. Na universidade seguiu o mesmo caminho de sucesso, sendo o primeiro classificado do seu curso e, por isso, convidado para assistente.

Licenciou-se em Ciências Sociais e Políticas pelo ISCSP (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas – Universidade Técnica de Lisboa), foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian desde o sexto ano até final da licenciatura e um dos alunos indigitado para a assembleia de escola para integrar o grupo de colóquios pedagógicos para reestruturação das ciências sociais no Instituto.

Sendo jovem num país em Guerra Colonial em África, Silvino passou o seu período militar na Guiné como alferes miliciano em comissão civil, durante dois anos, sem sequer se fardar, onde substituiu Otelo Saraiva de Carvalho no Centro de Formação e Turismo, em Bissau. A sua missão passava por receber jornalistas. “Quando o general Spinola estava na sua afirmação recebeu muitos jornalistas de várias partes do mundo e diplomatas internacionais que por ali passaram”, explica.

Como diretor do Centro de Informação e Turismo, chegou a ser júri do concurso Miss Guiné ao lado de Vera Lagoa, que a propósito de uma festa na Ilha de Bubaque escreveu no Diário Popular sobre essa sua preferência.

Regressou a Portugal e entrou como assistente no ISCSP ao mesmo tempo que trabalhava como sociólogo num grupo para as “32 melhores empresas portuguesas” dando apoio na sociologia do trabalho, até ao 25 de Abril, quando acontece a nacionalização das empresas.

Nessa ocasião, o apelo da terra fá-lo voltar a Abrantes para lecionar, em 1975, na Escola Industrial e Comercial de Abrantes (hoje escola Dr. Solano de Abreu) e ser diretor na Escola de Tramagal.

Silvino Alcaravela na sua casa em Abrantes, olhando o Hospital ao fundo

Até que no horizonte da sua casa, em Abrantes, surgia a silhueta de um novo hospital, e perante a instabilidade do ensino, encontrou ali o desafio. De férias no Algarve concorreu à Escola Nacional de Saúde Pública, candidatando-se ao curso de Administração Hospitalar, a pós-graduação necessária para administrar hospitais. Selecionado juntamente com outros 25 candidatos, terminou o curso em 1980 com a melhor nota, o que lhe permitiu escolher a sua terra: Abrantes.

Em 2001, antes da integração em grupo hospitalar, o Hospital Dr. Manoel Constâncio “ocupava o quarto lugar no ranking da eficiência dos hospitais portugueses, segundo a classificação do professor Pedro Pitta Barros da Universidade Nova de Lisboa. Uma honra, por termos liderado a gestão desta área juntamente com uma grande liderança de Luís Fernandes e com a liderança de enfermagem muito forte da enfermeira Zélia Silva, com o apoio do engenheiro hospitalar Nelson Baltasar”, sublinha.

Era esta a equipa que havia estruturado o hospital de Abrantes de 1985 a 2000, data em que passou a integrar o Grupo Hospitalar.

Silvino Alcaravela lembra das solicitações “para muitas ações de formação no Ministério em Lisboa, por exemplo o projeto de Planeamento de Altas, o projeto dos Centro de Responsabilidade, como Manuel Antunes tinha em Coimbra”. Acabou por ser nomeado por Maria de Belém para integrar esse projeto de estruturação dos CRIS – Centros de Responsabilidade Integradas.

Reformado desde 2007, ainda lecionou no Instituto Politécnico de Tomar, mas a proibição governamental de acumulação de pensões em qualquer atividade no Estado levou à sua saída.

“Tive uma pequena colaboração na mesa administrativa da Santa Casa da Misericórdia durante seis anos, como vice-provedor”, indica. Neste momento é presidente da Assembleia Geral da Liga de Amigos do Hospital, presidente da Assembleia Geral da Associação de Caçadores da Barrada, dedica-se à agricultura e ainda não é pastor, não descartando essa possibilidade se “as pernas e os joelhos deixarem”, graceja.

Filho único, casado com uma ex-professora do primeiro ciclo, pai de dois filhos, que profissionalmente seguiram caminhos diferentes; um médico, outro engenheiro agrícola. Conta seis netos com idades compreendidas entre os 6 e os 17 anos.

Entre a rotina diária, pela manhã lava os canis. “Tenho cinco cães de parar, sobretudo pelo meu filho que é caçador. Regar o pomar e os feijões. Como recoletor se for preciso apanho pinhas para as lareiras do inverno e distraio-me com a Internet”. Apesar de ser “pouco facebookeano” admite estar “um bocadinho ligado às novas tecnologias”. Poderia escrever mais mas habituou-se a ser “comedido”.

O apego que diz ter à sua terra fez com que nunca quisesse viver na capital. “Tive vários convites para subdiretor geral dos hospitais, para conselho da Administração geral de saúde, mas nunca quis ir para Lisboa. A minha família também foi muito importante” e encontrou na mulher, Otília, também natural de Barrada, um apoio “extraordinário”.

A ela diz dever “muito da sanidade mental” que ainda tem, porque “quem passa pelos stresses que passei, desgasta-se”, garante.

Silvino refere-se ao processo “traumático” de reestruturação do CHMT. “Quem abriu um hospital como abri, faz dele um menino que criou. Quando surgem novos hospitais e a necessidade de uma grande transformação desse hospital, é traumático para este que já estava a funcionar. Tinha as suas valências, era considerado um hospital de nível 2, mais diferenciado”.

Por outro lado, compreende e aceita que “as populações de Tomar e Torres Novas tivessem nos seus hospitais uma grande expectativa, de que fossem motores económicos e sociais e geradores de emprego. A expectativa de afirmação das cidades porque as cidades afirmavam-se na tradição dos seus hospitais. Tinham hospitais de misericórdia e passaram a distritais, viram-se com edifícios novos, equipamentos, sonharam ter tudo”.

Para o ex-gestor hospitalar, a perda gerou um processo “conturbado” que ainda hoje se faz sentir. “Isto de mudar pessoas de um lado para o outro é um problema que não é cómodo. A situação deste Centro Hospitalar é de dificuldades. Uma coisa era um hospital único com 500 camas e outra é ter a dispersão funcional que temos”. Situação que teve de gerir.

Lamenta os erros de planeamento. “Se é mal planeado de raiz nunca mais se endireita. Infelizmente este País (Ministério da Saúde) não tinha gabinete de estudos e planeamento quando estes três hospitais foram construídos. Havia na época da sua construção, sobretudo os mais novos, dinheiro da Europa, e é fácil fazer grande. O problema é saber como se aguenta a exploração. No primeiro ano de funcionamento, a exploração de um hospital custa 65% do custo de investimento, são unidades muito caras”, diz, falando de “um grande peso político” na construção das três unidades hospitalares.

Aponta o dedo aos “lobbies locais” e às “clientelas políticas” na pressão das tomadas de decisão.

Por fim, no desenvolvimento do CHMT, foi nomeado presidente do conselho de administração. “O administrador de Abrantes, que tinha pugnado nas reuniões anteriores à estruturação do Centro Hospitalar pelas suas causas, era visto como ‘um homem de Abrantes’ pelos presidentes da Câmara de Torres Novas e de Tomar. Era muito difícil trabalhar neste contexto. Com António Branco era visto de outra forma, havia aqui um anátema”.

Lastima ter contado com “um conselho de administração constituído em más condições, sem unidade. A verdade é que Silvino Alcaravela, administrador em Abrantes, não era pessoa bem vinda para gerir o CHMT. Houve guerrilhas, os lobbies locais movimentaram-se e tentaram destruir a imagem do hospital. Havia pressão, com pessoas a quererem dominar o conselho de administração. Lutei muito!”, assegura, mas diz não estar certo que, ainda hoje, as pessoas reconheçam o seu amor por Abrantes.

No futuro quer dedicar-se às memórias, continuar a viajar em cruzeiros com a esposa, fazer passeios com os amigos e em família, com os filhos e netos, passar férias no Algarve e na Lagoa de Óbidos, como é seu hábito.

Agora apoia os netos e funciona “como taxista” a circular pela cidade. Na aldeia está com gente simples, sem nunca esquecer que durante a sua vida muitas vezes almoçou com um ministro em Lisboa e tomou um copo com o pastor, à noite, no café do Areias.

*Entrevista publicada em setembro de 2018, republicada em janeiro de 2020

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