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Domingo, Junho 13, 2021

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Abrantes | Maestro abrantino leva projeto de ‘Primeira Aula de Música’ às escolas de Cabo Verde

O Primeira Aula de Música (PAM), projeto de educação musical do maestro abrantino José Miguel Vitória Rodrigues, vai chegar a todas as escolas de Cabo Verde, através da Associação de Músicos de Santiago. O jornal mediotejo.net falou com o maestro que defende “a educação pela arte”, e que explicou a identidade do projeto e o seu objetivo, dando conta que as aulas online vão iniciar brevemente. As aulas presenciais, devido à pandemia, só em 2022.

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O projeto Primeira Aula de Música existe desde 2008, criado por José Miguel Vitória e pelo irmão Tiago Rodrigues, “visa a formação de públicos num regime mais informal e também trabalhar dentro do processo académico com alunos ao nível do pré-escolar e no ensino básico. Entretanto já ramificou para outras áreas”, começa por explicar José Miguel Vitória ao nosso jornal. Ou seja, visa uma intervenção pedagógica, e ao mesmo tempo lúdica, do ensino da música, numa relação direta com a formação de públicos (nos alunos), e capacitando com valências formativas e performativas (professores e alunos).

A iniciativa de levar o projeto a Cabo Verde, surgiu na sequência de um convite que José Miguel Vitória recebeu no inicio deste ano no sentido de integrar um ciclo de conferências organizado pelo Conservatório de Música de Moncada, de Valência, quatro maestros, representando quatro países: Costa Rica, Portugal, Itália e Grécia.

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A Associação de Músicos de Santiago interessou-se pelo projeto português porque em Cabo Verde “ao nível do ensino da música e da atividade musical estão sedentos de formação e também de projetos aliciantes para envolver os mais jovens – e também a comunidade musical local”, refere.

O maestro mostrou disponibilidade para avançar com o seu projeto naquele país africano até porque não será a primeira vez que o Primeira Aula de Música vai além fronteiras, tendo já uma experiência no Brasil durante dois anos consecutivos (2014/2016). “Estava para regressar ao Brasil em 2020” o que não aconteceu devido à pandemia, afirmou.

Mas tal, nota, “contribuiu para o enriquecimento do portefólio do projeto Primeira Aula de Música no domínio da formação profissional, na área da Educação e na área da Música”.

O Primeira Aula de Música procura congregar pessoas com formação no âmbito do ensino da música e restantes práticas artísticas, com um entendimento musical, social e cultural diferente e “está disponível para trabalhar em parceria em rede”, sublinha o maestro.

O maestro José Miguel Vitória. Créditos: DR

Conta que o presidente da Associação de Músicos de Santiago, Alcides Gonçalves, “o promotor da iniciativa, de acordo com as sugestões que lhe enviei”, considerou o projeto no sentido de ser implementado em Cabo Verde.

A ideia passa por envolver os agentes culturais e músicos de Cabo Verde e capacitá-los e torná-los professores dentro da comunidade, nas escolas e nos diversos espaços onde possam ter oportunidade de prática de música.

Neste momento estão três propostas em cima da mesa, uma que visa a formação de profissionais que trabalham em bandas de música na vertente de ensino, em escolas de música nomeadamente nas bandas municipais (o equivalente às bandas filarmónicas em Portugal).

“A ideia é pegar nos músicos mais experientes, nas bandas, e dotá-los de formação e competências para ensinar outros. É uma gestão de recursos humanos dentro do quadro da própria banda”, explica.

Outra proposta passa pela formação de maestros, nomeadamente dotá-los de novas estratégias. Recorda-se que as primeiras filarmónicas surgem em Cabo Verde nos anos 1960 do século XX.

A terceira inclui as escolas de rede de ensino público do país, sendo que o Ministério da Cultura de Cabo Verde está envolvido no processo no sentido da socialização do mesmo. “O objetivo, à semelhança do que fiz no Brasil, é dotar os profissionais locais de competências, uma parte de capitação, para que possam colocar o projeto em prática ao nível do ensino da música em monodocência coadjuvada”.

À semelhança, o Primeira Aula de Música já faz esse trabalho no Município da Chamusca, desde o ano letivo passado sendo que no arranque do projeto também foi aplicado em Constância. Segundo o maestro, esse regime de parceria com o Município de Chamusca foi também ponto de interesse por parte de Cabo Verde.

Academia de Músicos de Abrantes (AMA) durante os ensaios para o espetáculo com Miguel Gameiro nas Festas da Cidade de Abrantes 2019. Créditos: José Miguel Vitória Rodrigues

José Miguel Vitória explica que a monodocência coadjuvada diferencia-se das tradicionais Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC), nomeadamente na ligação que estabelece com o professor titular de turma, enriquecendo a sua prática.

“Desenvolvemos os nossos planos de aula, o nosso reportório original, adequadas àquelas faixas etárias, também com canções temáticas em que trabalhamos um reportório especifico com aquele grupo de alunos. O objetivo é o desenvolvimento de projetos artísticos específicos para aquelas faixas etárias num contexto de sala de aula”. No contexto de pandemia, como professor, tal como a sua equipa, tem trabalhado muito em contexto virtual “o que tem dado alguma viabilidade ao próprio projeto”, afirma.

José Miguel Vitória deu o seu último concerto presencial no dia 7 de março de 2020 e provavelmente não voltará a subir ao palco até final de 2021 mas necessitava de continuar a dar assistência aos alunos. “O que fiz na altura, em conjunto com uma colega, foi procurar formação no sentido de como dar aulas online. Paguei e fiz uma formação durante uma semana”.

Nessa sequência, o Primeira Aula de Música propôs, numa vertente online, igualmente o ‘Despertar com a Música’ e também para o projeto da Chamusca “montámos um regime de aulas à distância. Através do canal do YouTube do Município OBE 2140 atingiu uma visibilidade muito grande”, conta acrescentando que dinamizou algumas aulas através do Facebook. Nessa vertente online ainda desenvolveu um projeto para o Museu Nacional da Música, entidade parceira do Primeira Aula de Música no domínio do serviço educativo.

A atividade online “A Filarmónica da Aldeia da Música Viaja até ao Museu Nacional da Música” foi apresentada no Dia Internacional dos Museus, a 18 de maio.

O maestro José Miguel Vitória Rodrigues com Jú Garcia. Créditos: DR

Vinca que “cientificamente está provado que a música ajuda à integração, à inclusão, à capacitação das crianças para melhores cidadãos. E nós músicos, maestros, compositores, precisamos de público bem formado, para os nossos espetáculos e concertos. Esta capacitação e formação de profissionais em Cabo Verde visa sobretudo a valorização de uma educação cultural, social e musical para dotar as crianças de outras ferramentas que lhes possibilitem ir um pouco mais além”.

Para José Miguel Vitória a música traz “disciplina, rigor, prazer”.

E se “os africanos têm uma natureza musical muito forte”, o diagnóstico apurou que o ensino da música em Cabo Verde “funciona muito como tradição oral”. Ora, a evolução dos tempos “leva-nos para uma aprendizagem mais sustentada, alicerçada em estratégias pedagógicas que possibilitem serem melhor sucedidos nas suas práticas, mas sobretudo uma educação pela arte”.

Também por isso, o maestro tem outro projeto em carteira, com os olhos postos numa academia de jovens músicos para trabalhar em regime de orquestra.

“Esperamos conseguir materializar. Em que os jovens das várias ilhas do arquipélago de Cabo Verde, se concentrem numa formação de uma ou duas semanas em que tenhamos possibilidade de desenvolver trabalho ao nível da música de câmara, da música de conjunto de orquestra, na formação de pequenos workshops de instrumento para monitorizar o desenvolvimento desses jovens músicos, também capacitando”, indica dando como exemplo a Banda Militar de Cabo Verde.

O projeto vai arrancar por uma formação online com os monitores das escolas, que darão seguimento a uma formação iniciada por José Miguel Vitória em regime de mentoria, há cerca de um ano, no continente e nos Açores. “O objetivo é transportá-la para Cabo Verde e trabalhar com as bandas municipais locais e com os monitores e maestros” sendo que a formação de maestros também passará por formação online numa primeira fase “quando a pandemia tiver totalmente resolvida, então desenvolver atividades práticas locais para complementar esta formação online”

Até porque “o ensino da música não se pode resumir naquilo que está num computador, num tablet ou num telemóvel. Embora já existam ferramentas e funcionalidades que permitem dar aulas de música, mas é preciso que a qualidade da Internet do lado de lá seja pelo menos similar à do lado de cá, para não haver desfasamentos”.

Contudo, diz o maestro, o objetivo desta primeira fase do trabalho é criar bases para mais tarde poder fazer uma intervenção local e isso “está no bom caminho porque já iniciámos uma atividade no mês de maio, um webinar, um encontro da comunidade musical onde tivemos a participação do professor Iramar Rodrigues do Instituto Dalcrouze, de Genebra, com o titulo ‘O Incremento da Valorização da Educação Musical'”.

No dia 9 de junho haverá um outro encontro em regime de webinar para apresentar práticas artísticas diversificadas que possam ser desenvolvidas num contexto de sala de aula visando a educação pela arte tendo a música como elemento principal.

Academia de Músicos de Abrantes (AMA) durante um espetáculo nas Festas da Cidade de Abrantes 2019. Créditos: José Miguel Vitória Rodrigues

Apesar de levar o projeto Primeira Aula de Música para Cabo Verde, José Miguel Vitória não deixa de identificar em Portugal, nomeadamente na região do Médio Tejo, uma falha na valorização do ensino musical.

“Poderia ser mais valorizado o ensino da música numa vertente de educação pela arte, poderia ser mais valorizado o tal ensino da monodocência coadjuvada porque iria dar outra credibilidade ao trabalho desenvolvido pelos profissionais na área da música. Isso poderia contribuir para uma sociedade juvenil mais preparada enquanto público, e para alargar os seus horizontes porque vivemos numa sociedade consumista, direcionada para o YouTube – nada contra – mas é importante que os jovens percebam que existem outras coisas e outras formas de materializar. E o Primeira Aula de Música tem conseguido isso ao longo dos anos” num projeto de investimento familiar a chegar a um ponto do caminho que necessita de “uma identidade própria”, sublinha.

Manifesta-se um convicto defensor da “educação pela arte” como acontece em outras partes do globo designadamente Estados Unidos, no Brasil, Itália, Espanha, e nessa medida defende as parcerias com os municípios, à semelhança do que acontece na Chamusca e já estabeleceu com diversas instituições.

Contudo, “as parcerias têm de ser mais sustentadas para que possa resultar num projeto mais efetivo”, afirma referindo os Projetos Educativos Municipais “em que as Câmaras Municipais começam a ter maior autonomia nesses Projetos Educativos” Daí sugere “uma aposta no ensino através da arte e sobretudo da música, porque congrega ao seu redor o outro conjunto de artes”.

Em Portugal, José Miguel Vitória reconhece que falta a dita “educação pela arte”. Reconhece a existência de “projetos locais que já vão seguindo essa linha mas falta base e falta continuidade. Há apostas locais durante um período de tempo mas a música não é um projeto que se possa resumir a um ano ou a dois ou a quatro, tem de ser um projeto no mínimo pensado para dez anos, se não há continuidade perde-se a essência daquilo que é a própria Educação”.

Relativamente ao cenário epidemiológico, o maestro considera que “a pandemia veio expor a nu e cru as fragilidades que já existiam antes da pandemia. Se é um setor já com muitas fragilidades, artistas a trabalharmos a recibos verdes, se estamos doentes vamos para casa recuperar sem subsídio de doença, tudo à nossa custa. E quando nos solicitam um concerto acham o valor muito caro, mas quantas horas demorarmos a preparar um concerto? O que investimos para atingirmos aquele nível de performance, qual a carga psicológica que temos para fazer um concerto de grande responsabilidade?”, interroga admitindo que a Cultura “é o primeiro setor onde cortam”.

Ao maestro a pandemia trouxe “um período de reflexão, de colocar em perspetiva tudo aquilo que fazia há 30 – celebrei 30 anos de carreira em 2020 e não deu para fazer quase nada” tendo em conta que perspetivava ser profissionalmente “um ano de ouro” nomeadamente iria a Chicago e ao Brasil. Mas também por razões familiares, porque a sua mulher “está envolvida noutra pandemia; a luta contra o cancro. Tive de gerir todo este projeto. No entanto, têm sido dois anos de grande aprendizagem”, revela.

Em Cabo Verde, o projeto vai arrancar brevemente nas aulas online. De forma presencial o planeamento aponta para 2022.

José Miguel Vitória tem 43 anos, começou a sua carreira profissional como monitor de escola de música na Filarmónica de Rossio ao Sul do Tejo, e desenvolve a sua atividade profissional na área do ensino, na área da direção musical, como maestro, da criação musical enquanto compositor e na área de músico enquanto performer.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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