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Domingo, Setembro 19, 2021

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Abrantes | Indecisão sobre futuro da Central do Pego aquece debate político, com postos de trabalho ameaçados

Manuel Valamatos disse ontem em entrevista à Agência Lusa estar “preocupado” com o atraso na decisão do Governo em relação ao que será o futuro da Central Termoelétrica do Pego, que deixará de funcionar a carvão em novembro deste ano. Declarações que vão no mesmo sentido das que já tinha adiantado ao mediotejo.net, a 12 de junho, quando o Ministro do Ambiente e da Ação Climática anunciou – para surpresa geral – que o Governo considerava que “os acionistas da Central a carvão do Pego perderam o direito ao ponto de injeção à rede elétrica”, por se terem desentendido, e que o mesmo iria ser, em breve, “atribuído por concurso público”.

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Neste momento, adiantou à Lusa o presidente da Câmara de Abrantes, várias empresas prestadoras de serviços na Central do Pego, com as quais se reuniu na passada semana, iniciaram “processos de despedimento coletivo muito preocupantes”.

Manuel Valamatos afirmou ainda que, quer em reuniões tanto com o ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Matos Fernandes, quer com o secretário de Estado da Energia, João Galamba, “a esta altura já deveria ter sido feita a apresentação de um grande projeto para o Pego”. Contudo, segundo o autarca, não só não foi apresentada qualquer iniciativa, como foram feitas declarações contraditórias, com o Governo a pedir à Tejo Energia para apresentar um projeto até ao fim de julho e a afirmar, simultaneamente, que irá abrir um novo concurso público. “Isto é paradoxal, antagónico”, lamentou.

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O ministro do Ambiente e Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes, não revelou ainda a decisão do governo sobre o futuro da Central do Pego. Créditos: DR

Os dois acionistas da Central do Pego, a TrustEnergy e a Endesa, entraram há alguns meses em desacordo em relação ao futuro da estrutura, após a suspensão da atividade a carvão, em 30 de novembro de 2021.

A TrustEnergy, acionista maioritária, quer reconverter a Central num Centro Renovável de Produção de Energia Verde, projeto que, de forma faseada, implicaria um investimento de 900 milhões de euros, como explicou em entrevista ao mediotejo.net o presidente executivo José Grácio, em maio. Para a TrustEnergy, o futuro da Central do Pego passa pela “eletricidade, hidrogénio e outros gases renováveis a partir de diversas fontes primárias de energia local, como a solar, eólica e resíduos florestais”, sendo que no curto prazo a aposta seria na biomassa (queima de resíduos florestais).

O segundo maior acionista discorda da decisão de uma reconversão baseada na biomassa. Em declarações à Lusa, em 28 de maio, Nuno Ribeiro da Silva, presidente da Endesa Portugal, explicou que a empresa não se entendeu com a TrustEnergy, e propôs ao Governo a realização de um novo concurso, propondo um investimento de 600 milhões de euros que “inclui a construção de uma central solar fotovoltaica de 650 megawatts (MW), o desenvolvimento de 100 megawatts (MW) de capacidade de armazenamento com baterias e a instalação de um eletrolisador com capacidade de produção de 1.500 toneladas/ano de hidrogénio verde”.

José Grácio, presidente executivo da TrustEnergy, defende a criação de um cluster de “energia verde” Foto: mediotejo.net

Na entrevista ao mediotejo.net, o presidente executivo da TrustEnergy congratulava-se pelo facto de “o Governo, a autarquia local, a Comunidade intermunicipal do Médio Tejo e o acionista maioritário” estarem “alinhados com o futuro de reconversão da central”, tendo manifestado a sua satisfação pelas declarações da ministra da Coesão Territorial em recente visita a Abrantes sobre o projeto da Tejo Energia, que emprega cerca de 200 pessoas.

De visita ao Pego no dia 14 de maio, onde inaugurou o Sistema de Abastecimento de Água ao Sul do Concelho de Abrantes, Ana Abrunhosa assegurou que “haverá no próximo quadro comunitário de apoio um pacote financeiro para ajudar à reconversão da Central do Pego”, a par de “outras verbas para estas áreas, no âmbito do PRR, nomeadamente para centros de energia através do hidrogénio”.

A central do Pego “poderia ser um problema, mas não é um problema, é uma oportunidade e é assim que os empresários, o presidente da Câmara e o Governo o encaram”, afirmou então a ministra aos jornalistas. “Não podemos abandonar uma infraestrutura que aí está sem lhe dar um futuro e uma nova vida”, concluiu.

Ana Abrunhosa, ministra da Coesão Territorial. Fotografia de Luís Ribeiro

Contudo, um mês depois destas declarações, e a pouco mais de três meses da paragem anunciada para a produção a carvão no Pego, o ministro do Ambiente baralhou todas as “cartas de intenções” e voltou a dar jogo, com o anúncio de um novo concurso público, mas sem revelar o trunfo que terá na manga – que interesse superior poderá estar em causa para que se deitem por terra anos de negociações e milhões em projetos de investimento e estudos de viabilidade económica e ambiental?

Pedro Matos Fernandes disse, há duas semanas, estar “a trabalhar com as autarquias na procura de uma solução”, mas, perante a insistência dos jornalistas, não adiantou mais detalhes: “Sabemos o que queremos fazer, mas não queremos anunciar agora.”

ALTERNATIVAcom diz-se “estupefacto” com declarações do presidente da Câmara

O movimento ALTERNATIVAcom viu as declarações de Manuel Valamatos à Lusa como “muito preocupantes, reveladoras de grande nervosismo e desorientação”, lembrando que, no passado recente, alertou por diversas vezes para a urgência de serem tomadas medidas que acautelassem o futuro da Central e dos postos de trabalho.

“Em 22 de setembro de 2020 afirmámos que ‘se tem assistido a uma enorme e preocupante confusão e indefinição, avançando-se com ideias avulso e mal fundamentadas – todas elas contraditórias e polémicas – seja para prolongar a atividade da Central a carvão ou simplesmente desmantelá-la, seja para a substituir pelo processamento de biomassa ou pela produção de hidrogénio verde’ e exortámos a Câmara e a Assembleia Municipal de Abrantes a (…) tomarem uma posição firme junto das entidades governamentais e empresariais, no sentido de que estas esclareçam rapidamente e com total transparência qual o futuro que projetam para a Central Termoelétrica do Pego, seus trabalhadores e fornecedores; Adotarem uma atitude exigente face às intenções e planos do Governo, das empresas e de quaisquer outras entidades envolvidas, tudo fazendo para transformar esta ameaça numa oportunidade que sirva os interesses atuais e prospetivos de Abrantes; Absterem-se de defender ou apoiar, e se for necessário denunciar, quaisquer soluções ou projetos técnica e economicamente mal fundamentados, insuficientes ou prejudiciais para Abrantes, ou com contornos políticos pouco claros, venham eles de onde e de quem vierem; Assumirem o papel e a responsabilidade que lhes cabe no âmbito do Fundo para a Transição Justa, designadamente da prevista reconversão económica, ambiental, habitacional e dos transportes, incluindo o apoio técnico e financeiro à criação e investimento em pequenas e médias empresas, formação de recursos humanos, transferência de trabalhadores e introdução de tecnologias energéticas sustentáveis”.

O ALTERNATIVAcom diz ainda que já este ano reforçou ser esta “uma realidade que o município não pode ignorar ou apenas simular empenho, devendo pôr os interesses de Abrantes antes e acima dos interesses partidários ou outros”, questionando “o ue acontecerá se grandes empregadores como a FRASAM (com cerca de 80 trabalhadores) ou a Central Termoelétrica do Pego (com cerca de 300 permanentes e 500 ocasionais) encerrarem?”

O presidente da Câmara, escrevem em comunicado, foi “sempre empurrando com a barriga e perdendo tempo com questões técnicas que não lhe diziam respeito, em vez de se centrar nas suas responsabilidades – impactos locais na economia, emprego, saúde e ambiente”, e “aparece agora, desesperado, a correr atrás do prejuízo”.

Bloco de Esquerda critica multiplicação de “reuniões e mais reuniões, sem que nada se defina”

O vereador do Bloco de Esquerda na Câmara Municipal de Abrantes, Armindo Silveira, lamenta igualmente “o arrastar deste processo”, temendo “que se chegue a novembro sem que nada aconteça”, quando “há pelo menos um ano e meio este tema tem sido debatido e analisado em reuniões de câmara”, com o BE a submeter também perguntas ao ministério do Ambiente, sem resposta.

“Não nos pronunciamos sobre projetos que não conhecemos, como é o caso do hidrogénio verde de que agora se fala tanto, ou dos painéis fotovoltaicos, ou do metano. O projeto que foi submetido para apreciação na câmara municipal dizia respeito à biomassa, e nesse caso aprovámos a localização prevista”, explica ao mediotejo.net. “Questionámos apenas a viabilidade do projeto, porque não há matéria florestal suficiente na região – ou até no país. O próprio projeto que nos foi apresentado referia que a Central só iria funcionar três meses por ano com biomassa”, por falta de matéria prima, adianta.

No que diz respeito às declarações de Manuel Valamatos, lamentando a falta de clarificação do governo sobre o que pretende fazer no Pego, Armindo Silveira concorda que é urgente haver essa clarificação, criticando que se façam “reuniões e mais reuniões, sem que nada se defina”. No terreno, lamenta, “as coisas não andam”.

Tudo isto, considera, é fruto de “uma viragem muito rápida para a descarbonizarão da economia”, havendo “grandes empresas” ligadas ao hidrogénio verde a posicionarem-se para estes concursos, a nível europeu, bem como no setor da energia fotovoltaica.

“Fala-se de vários investimentos” na área solar em propriedades na zona de Abrantes, diz Armindo Silveira, à semelhança do que está a avançar no Gavião. Tal como o que venha a ser projetado para a Central do Pego, considera que “os poderes locais têm de ser responsáveis” e “não apoiar investimentos só porque é importante para a Economia, sem pensar também no custo ambiental e no equilíbrio da utilização dos solos”.

Secretariado Distrital de Santarém do Partido Socialista reforça apelo ao Governo

Na sequência da entrevista do presidente da Câmara de Abrantes à Lusa, também o Secretariado Distrital de Santarém do Partido Socialista emitiu hoje um comunicado, reforçando que “será muito negativo se existir um desfasamento entre o fecho da central e o início de um novo projeto já que aquela infraestrutura, pelo número de postos de trabalho que envolve, tem um grande peso em termos económicos e sociais para a região do Médio Tejo”.

A transição energética, como enfatiza a Comissão Europeia, deve acontecer de forma socialmente justa não deixando para trás os trabalhadores dos setores em transição, lembram. “É preciso garantir oportunidades de requalificação profissional e emprego. Por isso mesmo a Comissão Europeia criou uma ferramenta específica, o Mecanismo para uma Transição Justa, que visa garantir que a descarbonização se materializará de modo equilibrado. Até 2027 serão disponibilizados entre 65 a 75 mil milhões de euros para aliviar o impacto da descarbonização nos países mais afetados”.

Por tudo isto, “o Secretariado Distrital de Santarém do PS apela ao Governo, em particular ao Ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes, e ao secretário do Estado Adjunto e da Energia, João Galamba, a melhor atenção para este assunto, nomeadamente no que toca à salvaguarda da situação destes trabalhadores”.

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Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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