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Terça-feira, Dezembro 7, 2021
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Abrantes | Feira revela uma cidade mais doce que traduz o saber de gerações

Desde o ano de 2002 que Abrantes acolhe a Feira Nacional de Doçaria Tradicional, certame que agrega doceiros de todo o país, dos mais tradicionais aos mais criativos. A iniciativa visa divulgar, promover e perpetuar no tempo a memória da doçaria tradicional portuguesa com foco especial, este ano, nos produtores locais. O mediotejo.net esteve na Feira e falou com alguns dos mestres doceiros que até este domingo mostram e dão a provar o que melhor sabem fazer.

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Sendo Ribatejana de gema, Abrantes não nega que beneficia de influências do Alentejo e da Beira Baixa que se verificam também nos métodos de confeção e nos aromas que enriquecem a doçaria, conferindo-lhe especificidades da região, como é o caso da famosa palha de Abrantes e das não menos famosas tigeladas.

Mas celebridades à parte, na 19ª Feira da Doçaria Tradicional, que decorre no centro histórico da cidade até este domingo, são mais que muitas as sugestões tentadoras com mais de uma centena de doces regionais representantes das melhores características do património gastronómico português. Este ano com especial atenção e dedicação aos doceiros de Abrantes, promove-se o que de melhor se faz na doçaria local.

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19ª Feria Nacional de Doçaria Tradicional de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Marmeladas, compotas, mel e doçaria produzidos ainda de forma artesanal, com destaque para os doces abrantinos de origem conventual, como a palha de Abrantes, as tigeladas, as broas de mel, a lampreia de ovos, as limas, as castanhas doces ou os mulatos, e com origem, possivelmente, nos conventos femininos que existiram na cidade entre os séculos XIV e XVI, nomeadamente no Convento da Graça.

19ª Feria Nacional de Doçaria Tradicional de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Após um ano de interregno, devido à pandemia de covid-19, os doces e os doceiros voltam a marcar presença no certame, numa enorme tenda colocada na Esplanada 1º de Maio. Todos os doceiros com quem o nosso jornal falou, manifestaram satisfação por este regresso à normalidade, particularmente por verem, que desta vez, são mais os pais que trazem os filhos e não tanto os avós, como era comum.

Desde pequena que o mundo do açúcar em forma de guloseima fascinava Maria Luís Madeira. Natural de Abrantes, mas residente em Constância, trabalhou durante 20 anos na área farmacêutica e fazia “bolos para os amigos”, diz ao mediotejo.net.

Há oito anos, quando ficou desempregada, por incentivo de uma amiga decidiu dedicar-se aos doces “a 90%”, sendo certo que já participava nas Festas da Cidade de Abrantes e outros certames da região.

Maria Luís Madeira na Feira de Doçaria de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

A partir desse momento, Maria Luís começou a fazer as delicias dos abrantinos com a sua torta de laranja, as tigeladas, os coscorões, broas, brigadeiro de chocolate, bolo de caramelo salgado, de nozes, amêndoa, pasteis de nata, pampilhos e uma variedade imensa de guloseimas.

A ‘Maria dos bolos’ como hoje é conhecida em Abrantes, gosta muito da doçaria, mas confessa-se dividida; vai ter de optar entre a sua profissão e continuar a confecionar doces, porque não consegue conciliar as oito horas laborais e o volume de trabalho, aumentado com a pandemia, uma vez que com o confinamento começou a fazer salgadinhos. “Dia e noite não páro!”, diz. Seja qual for a decisão, esperamos voltar a provar as suas delicias numa outra ocasião.

As tigeladas da Ana também marcam presença no certame. Enquanto Ana fabrica os doces para vender na Feira, Piedade Bandarra, amiga e colaboradora de Ana, recebe os visitantes no expositor recheado de palha de Abrantes, castanhas de ovo, broas fervidas de avelã, de mel e café, suspiros, pastéis de amêndoa, cavacas e telhas de amêndoa.

Piedade Bandarra na Feira de Doçaria de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

A aventura de Ana Maria Custódio pelo mundo dos doces começou em 2012, na área do cake design, contudo, a curiosidade pela confeção de doçaria tradicional falou mais alto e Ana colocou as mãos na massa, designadamente de broas, em 2017.

Começou por fazer os seus bolos em casa e vender apenas a amigos mas rapidamente os seus doces foram conquistando palatos. “A avó fazia tigeladas e Ana acompanhou a avó. Depois trabalhou num espaço de doçaria e mais tarde achou que era tempo de se lançar. Na altura já com 50 anos”, conta Piedade.

Decidiu arriscar o seu próprio negócio em Alferrarede, junto ao núcleo do Sporting. Inicialmente “com muito menor movimento, mas as coisas foram crescendo” e hoje é um negócio de sucesso. “Está a fazer aquilo que gosta” embora uma arte “muito trabalhosa. Em situações normais começamos às 06h00. Hoje começamos às 05h00”.

Para Piedade este tipo de certame “é muito importante” para a divulgação dos produtos e dos produtores locais. Neste regresso do certame, a afluência de clientes na Feira “tem sido bastante”, assegura.

Os seus produtos podem hoje ser encontrados em alguns mercados da região, nomeadamente aos domingos em Mouriscas, ou adquiridos através de encomenda.

As broas de palha de Abrantes da Pastelaria 2000. Créditos: mediotejo.net

Na Pastelaria 2000, as experiências e inovações saem das mãos de José Pereira mas é a sua filha Cátia quem lança os desafios da inovação. As cores, texturas e aromas são marca registada da pastelaria. Todos os anos traz um produto novo à Feira de Doçaria de Abrantes, este ano é o pastel de caramelo salgado e as broas de palha de Abrantes.

“Este ano lançamos a delícia de caramelo salgado. Já temos a delícia de leite mas inovámos na vertente doce/salgado. Temos também a broa fervida de fios de ovos que é a junção das duas tradições; os fios de ovos com a broa de mel e nozes”, explica Cátia Pereira.

A Pastelaria leva ainda ao certame outros novos produtos criados durante a pandemia “a pensar neste período pós covid” com o objetivo de “aumentar as vendas, como o xadrez colorido, pastel de nata de pistácio, de oreo e o pastel de tigelada de abóbora”, que mereceu o prémio degustação do Prémio Food Fab Lab, dinamizado pelo TagusValley – Parque Tecnológico do Vale do Tejo.

Além disso, destaque para as variadíssimas bolas de Berlim “desde recheios de petazetas, kinder bueno, ferrero rocher, nutella, de abóbora”, este ano, “a estrela” da Pastelaria 2000, até às coloridas massas de alfarroba, beterraba e spirulina.

Cátia Pereira também considera o certame “muito importante” para “valorizar os produtores locais. Infelizmente quem é de dentro valoriza menos do que quem é de fora. Esta forma de divulgar, de criar novos novos produtos é também uma forma de nos valorizarem”.

Nota que antes do produto final “há muitos testes para que tudo resulte, para que o sabor esteja lá, na redução do açúcar, na combinação da matéria prima” como é o caso da broa de palha de Abrantes. “Fizemos vários testes até conseguir”. Novas ideias já fervilham na cabeça de Cátia, mas… “fica para o ano”.

Sandra Silva na Feira de Doçaria de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Sandra Silva é de Tramagal e apresenta ‘Sonhos Doces’. Aprendeu a fazer doces “por curiosidade”, depois a filha interessou-se pela confeção de doces e Sandra descobriu a paixão pelo cake design. A aventura começou num workshop de cupcakes e bolachas em que ambas participaram.

Em 2019, inaugurou a sua loja ‘Sonhos Doces’ em Tramagal onde também comercializa artigos e produtos para festas, mas anteriormente esteve três anos a trabalhar em casa conciliando com o emprego que tinha na altura. Acabou por despedir-se e arriscar abrir o seu próprio espaço.

O seu produto mais forte são “as bolachas” de laranja, limão, café, baunilha, chocolate, de pintarolas, gengibre, menta e chocolate e na loja vai variando o tipo de artigos e aceitando encomendas.

Sendo época das broas já apresenta na Feira as clássicas broas fervidas e amassadas e ainda popcakes, suspiros e brigadeiros.

Pedro António na na Feira de Doçaria de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

A Confeitaria Palha de Abrantes é outra presença regular na Feira de Doçaria Tradicional. Primeiramente recebeu o nome de pastelaria Carmi, em 1964, fruto do trabalho de Daniel António. Pedro António, o filho, cresceu entre receitas, segredos e cheiro de canela e erva-doce e hoje preserva o negócio continuando a apostar no fabrico de palha de Abrantes, tigeladas e broas, designadamente de batata doce, de noz e mel e de abóbora.

“As broas fervidas são uma das nossas identidades, as tradicionais e duas especialidades. As tradicionais são feitas com café e as especialidades temos uma de batata doce, com mel e noz que já ganhou um prémio gastronómico e uma de mel, noz e abóbora que tínhamos deixado de fazer com a pandemia e que regressou para ficar”, disse ao mediotejo.net.

A Confeitaria Palha de Abrantes confeciona broas fervidas todo o ano e não apenas na época do Santos. “Na verdade ter três variedades de oferta durante a pandemia, onde até tivemos fechados, onde houve uma dificuldade enorme em encontrar as abóboras, decidimos por tempo indeterminado, que acabou agora, deixar de fazê-las”, explica Pedro.

Garante que a procura do tipo de broas depende da idade. “As pessoas de mais idade têm tendência em procurar a broa mais tradicional de mel e noz e depois na faixa etária dos 50 anos para baixo procura muito a de batata doce. É realmente uma broa muito boa que tem outra textura, outro sabor com o mesmo processo e a nobreza dos ingredientes utilizados”.

19ª Feria Nacional de Doçaria Tradicional de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

O regresso à Feira “é sempre uma incógnita com tudo o que sabemos da pandemia, mas é verdade, mostrou-se no primeiro dia, que as pessoas estão ansiosas por voltar à normalidade, desejosas de voltar a ter a terra delas com a dinamização que é costume e que parou. Ontem notámos um maior afluxo do que é normal para uma sexta-feira”, refere.

Pedro António disse estar “muito contente por estar de volta” à Feira, “independentemente do negócio que se venha a fazer”, e considera a tenda na Esplanada 1º de Maio uma boa solução. “Acho que temos todas as condições para fazer o trabalho de divulgação da cidade, da terra e também dos outros doceiros de outros locais. Este é um certame especialmente abrantino mas temos doçaria de todo o País, este ano sem Açores e Madeira com muita pena nossa, gostamos muito de os ter cá, não há ginjinha, regras que têm a ver com a pandemia, mas para o ano já cá estão e estamos muito contentes de voltar”.

A arte de aprender e ensinar a fazer doces

Com entrada livre, a 19ª Feira Nacional de Doçaria Tradicional conta com um vasto programa de animação. Este sábado, estivemos na oficina de doçaria do Agrupamento de Escolas Verde Horizonte de Mação que se propôs a ensinar a arte de confecionar doces tradicionais, com produtos locais, revestidos por um toque de inovação.

Os chefes Bárbara Vieira, Raquel Rosa e Luís Tiago apresentaram enroladas de poejo com calda de Chave Dourada, cremoso de mel e docinhos de Mação. Trabalham na Escola Verde Horizonte nos cursos de cozinha e pastelaria e de turismo e trouxeram à oficina sete alunos, cinco de cozinha e dois de turismo.

“Tentamos agarrar nos sabores de Mação, é lá que estamos a desenvolver este projeto de Educação e tentamos mostrar aos nossos alunos a utilização dos produtos endógenos. Trabalhamos muito com o mel, que é característico, o Chave Dourada vinho licoroso que só está presente em Mação. E hoje trouxemos pastelaria tradicional, um bocadinho conventual e viemos dar uma nova versão”, explicou a chef Barbara Vieira ao nosso jornal.

Alunos e professores confecionaram “um cremoso de mel, com queijo de cabra também muito usual na zona de Mação, depois um bolo de mel, coloca-lo em camadas. Depois as filhoses enroladas com calda de mel, Chave Dourada, aromatizada com estrela de anis, canela. E por fim um docinho de Mação que leva presunto, feito à base de gemas e amêndoa”, disse, por sua vez, a chef Raquel Rosa, acrescentando que à mistura do doce com salgado “as pessoas têm aderido bem”. Note-se que o doce leva uma calda, na qual se adiciona o osso do presunto e ainda presunto desidratado, mas asseguramos; é delicioso!

Este sábado, estivemos na oficina de doçaria do Agrupamento de Escolas Verde Horizonte de Mação que se propôs a ensinar a arte de confecionar doces tradicionais, com produtos locais, revestidos por um toque de inovação. Créditos: mediotejo.net

Os chefes dão conta que, apesar da pandemia, tendo sido o turismo uma das mais afetadas, os alunos continuam a mostrar interesse pela área da hotelaria e restauração.

“Notamos que continuam empolgados porque veem o mercado continuar a mexer, a área do turismo continuar a mexer, percebem que existe espaço para eles e estão muito entusiasmados. Tanto na parte da cozinha como do turismo tentamos dar-lhes todas as condições para que percebam que é uma área que vai continuar, e naturalmente tem de continuar, a desenvolver-se a expandir-se”, diz Bárbara.

Para o chef Luís Tiago este tipo de workshop permite divulgar o trabalho que se faz na escola de Mação e “é extremamente importante uma vez que vamos colocá-los em frente ao público e um bocadinho à prova. Toda a organização que têm de ter no espaço, desde a organização do material à limpeza… e têm de ter esse respeito pelo produto que hoje em dia é fundamental”, destacou.

Admite que os alunos inicialmente sentem-se constrangidos mas “esperamos que corra tudo bem”. E correu! A Feira Nacional de Doçaria Tradicional continua de tenda aberta até este domingo, às 23:00, aceitando encomendas a pedido para entrega ao domicílio.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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