Abrantes | Associação Palha de Abrantes assinala 25 anos e vontade de avançar para novos projetos

Lurdes Martins, presidente da direção da Associação Palha de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

A Palha de Abrantes acaba de cumprir 25 anos de atividade. Tempos que nem sempre foram fáceis, mas um quarto de século depois a Associação de Desenvolvimento Cultural tem memórias para contar, prémios para mostrar, e projetos consolidados, como o cineclube Espalhafitas ou a revista Zahara. A associação abrantina celebra o passado mas também o presente ainda que num cenário de pandemia e sem sede. O mediotejo.net foi falar com a presidente da Associação, Lurdes Martins, que nos recebeu no Sr. Chiado onde a Palha de Abrantes se instalou em 2013.

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O Sr. Chiado é o ponto de encontro da Associação Cultural Palha de Abrantes. Um espaço aberto a debates ou tertúlias, a conferências, de lançamento de livros, de exposições, concertos musicais, onde se bebe um café, onde se compra a Zahara e onde se preparam projetos que nascem de ideias para mostrar à cidade, ao concelho e ao País.

Depois de ter passado pelo Convento de São Domingos e pelo Edifício Carneiro, em abril de 2013, a Palha de Abrantes reabriu naquele espaço, na Praça Raimundo Soares, no centro histórico da cidade de Abrantes. O edifício foi cedido à Associação pelo proprietário através de um contrato de comodato no sentido de dar continuidade ao trabalho cultural até então desenvolvido e dinamizar novos projetos.

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Associação Palha de Abrantes assinala 25 anos de atividade. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Uma missão cultural que começou há 25 anos, especificamente em junho de 1995, com a criação da Associação que se afirmava “ao serviço dos criadores”, pela iniciativa de José Alves Jana, numa época em que “o ambiente cultural em Abrantes era muito pobre”, afirma o próprio no artigo sobre a efeméride que escreveu para o nº 35 da revista Zahara.

No ano seguinte ao seu nascimento, a Palha de Abrantes recebeu a proposta de realização de um Festival do Imaginário. Acabou por realizar duas edições (em 1996 e 1999) o que lhe deu maior visibilidade. Aliás, a primeira com o titulo “Do mundo da imaginação à imaginação do mundo” contou com a presença do ministro da Cultura de então, Manuel Maria Carrilho, sendo um evento com grande impacto e difusão na comunicação social nacional.

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O segundo Festival do Imaginário decorreu subordinado ao tema “Utopia, Totalitarismo e Liberdade”. Nos anos em que o evento aconteceu, realizaram-se edições dos ‘Encontros de Abrantes’.

O Festival do Imaginário “não tinha paralelo no País. Reunia um conjunto de pessoas muito valiosas. Miguel Serras Pereira que já trabalhava como tradutor, homem da literatura, foi extremamente importante nos contactos que organizou” designadamente com o filósofo espanhol Fernando Savater, intelectuais de França, de Lisboa onde se inclui Eduardo Lourenço, explica a presidente da direção, Lurdes Martins, falando de um festival “pluridisciplinar, que não apontava para uma direção mas congregava” uma série de áreas de interesse. “Mário Cláudio esteve cá, Inês Pedrosa foi a jornalista de serviço”, lembra.

A este propósito Lurdes Martins diz não entender a razão dos eventos “acabarem em Abrantes. Não têm continuidade! Não sei se é aquela ideia propagada de sermos sistematicamente empreendedores e inovadores que faz que nos cansemos ao fim de dois três anos, ou se é um esgotamento dos projetos ou se é outra coisa qualquer”, observa, confessando que lhe dá “prazer, que os programas se mantenham e que se enriqueçam a si próprios e que se enovelem e que criem uma história, memória, uma matriz”.

Depois do Festival do Imaginário muitos outros projetos nasceram, desde a Escola de Artes Plásticas, cujo primeiro professor foi Massimo Esposito, aos já referidos Encontros de Abrantes, passando pelo Café com Letras ou a revista Canal.

O Festival do Imaginário foi um evento que ainda hoje é uma imagem de marca da Associação Palha de Abrantes (Foto: Palha de Abrantes)

“Outros projetos poderiam ter nascido e não nasceram porque quando as pessoas estão em determinados lugares tudo o que produzem é bom e tudo o que os outros produzem é mau ou sem interesse”, critica Lurdes Martins, vincando que a Associação Cultural existe “para a sociedade civil e tem de funcionar para as pessoas” sendo necessário colocar de lado os “egos”, uma maleita da qual considera que Abrantes sofre.

No início da Associação, tal como hoje, a literatura (e o livro) apresentava-se como uma das artes de eleição da coletividade e a Palha de Abrantes abriu a livraria Contracapa, no Centro Coordenador de Transportes de Abrantes, que passou a funcionar como espaço privilegiado de diversos eventos culturais, mas que viria a fechar anos mais tarde.

“Para mim nunca fez sentido a livraria naquele local, sempre a vi ali como algo a prazo”. Lurdes nota que “a compra de livros funciona por impulso” e não “numa livraria que funcione longe, com as pessoas que vão para o autocarro, num edifício que era desconfortável, feio, fora de mão”. Ainda assim diz ter dado “muito trabalho ter aquela livraria a funcionar com atividades sistemáticas e exposições”.

Um projeto com “muito má gestão, com contratação de funcionários quando deles não necessitava” e com a obrigatoriedade de existir durante sete anos devido ao apoio financeiro do IEFP, lamenta Lurdes Martins, falando nas “imensas dívidas” da livraria e de um “momento de extrema dificuldade”.

Eduardo Lourenço no Festival do Imaginário. Foto: Palha de Abrantes

Apesar do momento “difícil”, Lurdes Martins não baixou os braços e procurou pessoas que quisessem dar continuidade à Palha de Abrantes. “Quando foi preciso resgatar a Palha da morte, Carlos Arez esteve comigo, Laurent, que ainda hoje é o nosso tesoureiro, o [Martinho] Gaspar, pessoas muito diferentes que durante muito tempo seguraram a casa. Fechámos a livraria mas conseguimos não fechar o projeto. As pessoas que estavam na livraria não quiseram trabalhar nas escolas [através das empresas de inserção] e posso dizer que pagámos a essas mulheres até há pouco tempo”.

Atualmente a Palha de Abrantes conseguiu criar “uma estabilidade financeira que não tinha e que nunca teve”, assegura a presidente admitindo, no entanto, a existência de dívidas. Ou seja, “um grande trabalho da contabilidade, e houve tempos em que conseguimos, além dos pagamentos, fazer algumas poupanças”. Situação financeira que importa porque “sempre que queremos candidatar-nos ao PRODER temos de mostrar viabilidade”.

José Martinho Gaspar , coordenador do CEHLA – Centro de Estudos de História Local de Abrantes. Créditos: desportoemabrantes

Lurdes Martins confessa de ter vontade de trabalhar em novos projetos, incluindo nas plataformas digitais, mas diz que “há muita coisa boa a acontecer” culturalmente na Internet. “A própria maturidade da Associação exige que o trabalho seja um pouco diferente”, considera.

O Centro de Estudos de História Local de Abrantes (CEHLA), hoje coordenado pelo professor José Martinho Gaspar, foi apresentado em 2002, sendo um projeto nascido de uma proposta de Eduardo Campos, já falecido. O CHELA organizou as primeiras Jornadas de História Local, em maio do ano seguinte, no decurso das quais apresentou a revista de História Local Zahara, com periodicidade semestral e cuja longevidade é assinalável (o n.º 35 foi lançado na semana passada).

Um trabalho que há 18 anos “é desenvolvido por um grupo de voluntários apaixonados por História Local e que colocam de pé, de seis em seis meses, a revista”, frisou Lurdes Martins.

Revista Zahara. Créditos: mediotejo.net

E como o cinema é outra arte de eleição da Associação, após esses tempos conturbados surge o cineclube Espalhafitas, com todos os projetos colocados em prática em torno da Sétima Arte. A realização de documentários, o cinema de animação, o trabalho desenvolvido nas escolas nesta área, festas (da Ucrânia, do Cinema Italiano, da Cultura Cigana), ciclos e eventos de onde se destaca o Animaio, são exemplo do trabalho da Palha de Abrantes.

“O Animaio é o projeto mais caro” da Associação e “não tem qualquer apoio. O reconhecimento deve-o à qualidade que tem. Temos de fazer coisas diferenciadoras. Já chegámos a trabalhar com 10 turmas num ano, representa 10 mil euros só para o filme” excluindo as despesas anexas, deu conta a dirigente associativa.

“Estamos sem capacidade de fazer isto!”, garante. “O Animaio não cabe em nenhuma das medidas do FinAbrantes, consome todo o valor da medida 1 e não pode porque temos a publicação da revista Zahara. Este ano trabalhámos até março e com a pandemia parou. Todos os anos trabalhamos com pessoas que vêm de fora, ora não é o melhor de fazer”, em cenário de covid-19 com regras de distanciamento social. “Vamos ver!” antecipa quem não tem o hábito de atirar a toalha ao chão.

Palha de Abrantes conquista melhor curta metragem nacional de animação com o filme “Harmos”

Entre os muito prémios arrecadados, destaque para o primeiro prémio conquistado com o filme “Harmos” [Harmonia], em 2018, na 42.º edição do festival internacional Cinanima que o distinguiu como melhor obra por realizadores menores de 18 anos, que já havia conquistado a melhor curta de animação feita em escolas no Prémio Nacional de Animação desse ano na categoria oficinas.

“A escola é o lugar onde as pessoas aprendem, relacionam-se, discutem. Pensei que não poderia ser só fazer filmes. Assim criamos um tema, pode ser ou não da atualidade. No ano que trabalhamos os livros de Luís Sepulveda fui às escolas, passámos as obras, o autor, o português, levámos a geografia, a fauna e flora, a aceitação do outro, expliquei onde era o Chile. É um processo muito longo, para depois chegar a uma semana em que vamos fazer um filme. O cinema é a última coisa! Os miúdos contam a história e os profissionais da animação põem as mãos ao trabalho. Quando fazemos um trabalho assim os filmes ganham alma”, revela.

Um trabalho que Lurdes também pratica nas Atividades de Tempos Livres da Associação, atualmente a única fonte de receita da Palha de Abrantes.

Filme “Chile” da Associação Palha de Abrantes venceu o AÇÃO05! – Festival de Vídeo Escolar. Foto: DR

O Espalhafitas surgiu porque “era preciso ir buscar outra vertente além dos livros e o cinema era outra forma de arte que tinha em nós muita aceitação”, revela. Na época o cineclube contava com mais de 300 sócios, com quotas mensais de 5 euros.

O nascimento do Espalhafitas coincidiu com a reabertura do cinema no Cineteatro São Pedro, após um longo período de encerramento. A ideia passava por “dar uma alternativa ao cinema comercial. Juntámos algumas pessoas que gostavam muito de cinema e começamos a perceber que era uma área completamente diferente, com muito público”. Um projeto apoiado pelo ICA [Instituto do Cinema e Audiovisual] o que, com as quotas dos sócios, possibilitou uma almofada financeira, explica Lurdes.

Então, dentro dos sistemas de cultura, surgiu a possibilidade de fazer aquilo que Lurdes Martins mais gosta. “Criar, estabelecer relações. E nasceu o projeto ‘Há cinema na Aldeia’ e nas aldeias começamos a fazer pequenos documentários”, tal como acontece atualmente, estando a trabalhar a obra “do sr. Pimenta de Rio de Moinhos, de 90 anos”.

Depois Carlos Coelho, professor na ESTA [Escola Superior de Tecnologia de Abrantes], o outro principal dinamizador do cineclube juntamente com Lurdes Martins, pensou em desenvolver na escola uma área de Cinema e de Audiovisual, curso que permanece até hoje.

Mas a atividade do Espalhafitas sofreu um revés, em 2014, com o final do protocolo de cedência do Cineteatro São Pedro, por parte da Câmara Municipal de Abrantes, que termina com a exibição das sessões regulares do cineclube, às quartas-feiras. As sessões passam então a acontecer no espaço do Sr. Chiado e mais recentemente no Centro Cultural Gil Vicente, em Sardoal.

Com a chegada da pandemia, o cinema volta a estar suspenso, embora Lurdes Martins garanta que a Associação “tem tudo preparado para o Drive In” adiantando que Vila de Rei pode ser a solução.

Jornadas de História Local de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Sobre a compra do Cineteatro São Pedro pelo Município, Lurdes considera que a autarquia “neste momento já deveria ter chamado os implicados no cinema e no teatro, reunir com os agentes no terreno e conversar sobre o cineteatro. É claro que são os políticos que decidem mas ouvir os outros nunca fez mal a ninguém”, observa.

O trabalho ligado ao cinema, que a Palha de Abrantes desenvolve inclusivamente com as escolas, Lurdes Martins considera “de formação de públicos”. A ideia não passa por criar “uma espécie de nicho mas dar uma alternativa” à corrente dominante. “Isso é uma das funções de uma associação cultural”, defende.

Quanto ao âmbito da Palha de Abrantes, a presidente também defende “não ser uma associação urbana. Os documentários, fazer pequenos projetos [nas aldeias] ajuda as populações a terem autoestima, valoriza as pessoas”.

XVI Jornadas de História Local. José Alves Jana, o primeiro presidente da direção da Associação Palha de Abrantes

Lurdes considera ainda que “muitas das atividades” da Palha de Abrantes tem igualmente lugar nos museus. “Adequam-se aos museus” projetados e em desenvolvimento na cidade. “Tal e qual como funcionámos durante um ano ligados ao cinema, com crianças das escolas, podemos muito bem estar ligados agora”, diz, referindo-se nomeadamente ao Museu Ibérico de Arqueologia e Arte de Abrantes e ao Museu Charters de Almeida, que estão em fase de obra.

A presidente da direção lamenta que a Palha de Abrantes não tenha uma sede no centro histórico da cidade depois de sair do Edifício Carneiro, na Rua de São Pedro. “Temos metade das coisas no Castelo, outra metade na galeria e no mercado antigo. Claro que nos perguntaram se queríamos ir para Alferrarede…”.

Recusaram, por considerarem que a saída da Associação do cidade contribuiria ainda mais para o “esvaziamento” existente no centro histórico e que tal não dignificaria “uma Associação Cultural com 25 anos, com um trabalho desta qualidade e com esta frequência”.

Lurdes Martins sublinha que “qualquer lugar com uma Associação” como a Palha de Abrantes “tiraria o melhor partido dela”. Mas para a presidente da direção, Abrantes atravessa “um período de molho”, confessando ter um farol de esperança nos futuros museus da cidade. Pode ser que “tragam algum élan que Abrantes não tem”.

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