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À Descoberta de Dornes | A península encantada do Zêzere (c/vídeo)

É vila, mas apelidam-na de aldeia. Uma península banhada pelo rio Zêzere (albufeira de Castelo de Bode) que terá servido de ponto estratégico militar nos inícios da nacionalidade. Foi sede de concelho, de freguesia e agora é simplesmente uma localidade. Dornes tem o encanto da História e da Natureza a competirem entre si, mas vai-se despovoando aos poucos. É um ponto escondido de um Portugal profundo, o retrato de um país rural que se vai esquecendo aos olhares da globalização. É a única das aldeias finalistas do Médio Tejo nas mais bonitas de Portugal.

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“Foi uma vila com mais de mil pessoas e hoje tem quatrocentas…”. O comentário alerta-nos enquanto tiramos fotografias. Um grupo de três pessoas visita o largo da Torre Pentagonal de Dornes, mas continua o seu percurso sem se demorar, no que parece ser o trilho marcado do Percurso Pedestre local. Mais tarde, procurando dados do Census, apercebemos que tais números refletem os limites da antiga freguesia de Dornes, que registou, em 2011, 594 pessoas. No Census de 1950 contabilizava 1 568. Nos tempos em que ainda era concelho, em 1801, atingia os 2 287 habitantes, em 43 km² de território.

Banhada pelo rio Zêzere, Dornes tem uma pequena praia e uma marina onde estacionam alguns barcos. Há hipótese de fazer viagens de canoa. FOTO: mediotejo.net
Banhada pelo rio Zêzere, Dornes tem uma pequena praia e uma marina onde estacionam alguns barcos. Há hipótese de fazer viagens de canoa. Foto: mediotejo.net

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Atualmente, quantos serão? Dornes não é mais freguesia, nem concelho. Temos dúvidas se a designação de vila ainda lhe assenta. É uma localidade pitoresca na orla do rio Zêzere, com uma misteriosa torre templária, uma Igreja dedicada a Nossa Senhora do Pranto, mandada construir pela Rainha Santa Isabel, e algumas crenças associadas à sua localização. Tem uma pequena praia fluvial e é possível fazer ali passeios de canoa ou gaivota pelo rio. Há um passeio pedestre e a indicação da Grande Rota do Zêzere.

Apesar da sua longa história, não se tornou um pesado ponto turístico. Possui um restaurante central, outro mais afastado. “Há imensa gente que pergunta por mercearias”, ouvimos comentar, informação pertinente uma vez que também não encontramos nenhuma. Muitas moradias, uma estalagem. É um local turístico de passagem, sossegado, ideal para residências artísticas, escapadinhas de fim-de-semana ou mesmo um retiro espiritual.

A primeira vez que a jornalista ouviu falar em Dornes foi em 2007, com o filme “Dot.com”. Na película, Dornes é “Águas Altas” (curiosamente bem perto existe uma Águas Belas), uma aldeia do interior de Portugal sobre a qual um engenheiro cria um site, de forma a conseguir financiamento para melhorar os acessos. Uma empresa espanhola chamada “Drinam” não gosta de ver o nome de uma marca sua, a “Águas Altas”, apropriada online por este pequeno site português e nasce assim a intriga, uma crónica social e de costumes recheada de humor, onde se parodiam os efeitos dos interesses políticos-económicos-jornalísticos e a luta de uma pequena comunidade para conseguir sobreviver.

É uma homenagem a Dornes e ao interior de Portugal, sobre a qual sobrevive hoje na localidade uma placa comemorativa a dar conta da passagem por ali das filmagens e da ante-estreia do filme, na presença do então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. Mais recentemente, a novela da SIC “Rainha das Flores” também tem gravado aí algumas das suas cenas.

Fora estes pequenos episódios e algum material turístico de Ferreira do Zêzere, sabe-se muito pouco sobre Dornes. A Torre Pentagonal será (“ou não”, como refere a página do município), obra do General romano Sertório, que dominou boa parte da Península Ibérica e está ligado à lenda da vizinha Sertã. O território esteve depois na posse dos Templários, à qual sucedeu a Ordem de Cristo. Outra versão refere que a Torre Pentagonal foi construída aquando da reconquista cristã e formação de Portugal, no século XII, por motivos estratégicos, pelo cavaleiro templário Gualdim Pais, estando a sua história ligada à fundação de Ferreira do Zêzere.

Mais pacífica é a história da Igreja de Nossa Senhora do Pranto. Foi mandada construir no século XIII pela Rainha Santa Isabel e reconstruída no século XV pelo Comendador D. Gonçalo de Sousa, da Ordem de Cristo. Da Igreja destacam-se os azulejos, o órgão de tubos, as imagens de pedra de Nossa Senhora do Pranto e de Santa Catarina e o óleo do “Descanso na fuga para o Egipto”. A romaria a Nossa Senhora do Pranto ocorre a 15 de agosto.

Uma viagem a Liz-Fátima

Chegamos estão a tocar as 9 horas. Diz-se que as populações do campo acordam com o raiar do sol, mas em pleno agosto o despertar é lento e tardio. As cigarras já cantam e o calor começa a apertar. O Posto de Turismo está fechado, só abre às 10 horas. Um morador pinta o seu muro de branco, aproveitando a brisa mais fresca da manhã, enquanto o seu vizinho prepara o equipamento para regar a horta. O dia promete ser quente e a vila ainda é apenas silêncio. As uvas amadurecem, as flores clamam urgentemente pela rega. Quase nenhum carro se avista e poucas pessoas cruzam o nosso caminho.

A Torres Pentagonal divide opiniões. Há quem lhe dê data da invasão romana, outros da reconquista cristã pelos templários. FOTO: mediotejo.net
A Torre Pentagonal divide opiniões. Há quem lhe dê data da invasão romana, outros da reconquista cristã pelos templários. Foto: mediotejo.net

À medida que se desce a colina até Dornes, no sentido de quem sai de Ferreira do Zêzere, vão-se sucedendo as estações que compõem uma Via Sacra e que terminam no Santuário de Nossa Senhora do Pranto. Cruzes de dimensão significativa, embelezadas com vasos de flores e mosaicos que narram a paixão de Cristo vão guiando o nosso caminho. No fundo da cova está a vila, cuja passagem do rio Zêzere criou o seu desenho, em formato de península.

Segue-se pela rua principal e rapidamente chegamos à Torre Pentagonal. A localidade em si não demora mais que meia hora a percorrer. Tentamos entrar na Igreja, mas encontra-se encerrada. Subir à Torre é outro mistério, não vemos indicação de que tal seja possível. Já a paisagem é imensa. A serra, o rio, os barcos e a pequena marina onde várias embarcações, antigas e mais recentes, estão estacionadas.

Há um Centro Intermodal junto ao rio, mas o edifício em madeira está fechado. À medida que a manhã avança, uma equipa de organização de atividades na natureza chega à praia e instala vários equipamentos e coletes salva vidas, para quem desejar passear no rio de canoa. Uma família vai dar um passeio de gaivota e alguns proprietários saem com os seus barcos para um dia no Zêzere.

Dornes acorda já perto das 10h30. Há pessoas que percorrem a aldeia para fazer o percurso pedestre e alguns veraneantes estendem as toalhas na praia. Em pouco tempo, não se percebe bem de onde, a vila enche-se de automóveis. Numa casa voltada para o rio alguém toca piano durante toda a manhã. Na outra margem avistam-se caravanas e crianças em grande algazarra na água. As águas mexem-se finalmente, há movimento. A vila vai ganhando vida.

A romaria ao Santuário de Nossa Senhora do Pranto é a 15 de agosto. FOTO: mediotejo.net
A romaria ao Santuário de Nossa Senhora do Pranto é a 15 de agosto. Foto: mediotejo.net

As moradias encavalitam-se, adequando-se ao relevo montanhoso da península. As ruas são largas, calcetadas, mas as casas estão ligadas entre si, descendo a encosta. No centro, uma casa em ruína destoa. Está para venda. O antigo edifício da junta dá mostras de também necessitar de uma requalificação urgente. Não há o traçado característico das aldeias ribatejanas e o povoado encanta sobretudo pela paisagem que o rodeia e os mergulhos no rio. A natureza é também aqui uma das grandes riquezas do Zêzere.

Tiram-se fotos, tenta-se perceber a história do lugar. A vila é o coração de uma certa mística que envolve toda a região e que reúne em poucos quilómetros Fátima, Tomar e Dornes. Diz-se que é nesta zona que se situa o centro intraterreno de Liz-Fátima, um centro planetário que prepara a terra para uma Nova Era. À medida que percorremos as ruas e observamos a casas e as memórias, tentamos ir à descoberta deste lado mais espiritual da vila. Mas sem sucesso. Se há mistério, este permanece escondido e certos descobertas vão necessitar de uma outra aventura…

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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2 COMENTÁRIOS

  1. Visitei Dornes ha três dias atrás. Nem o calor que se faz anormalmente sentir nem o facto de ser dia de semana, fez despertar a terra. O restaurante perto do rio estava fechado e não conseguimos encontrar ninguém da terra a quem perguntar uma informação. Ficamos a saber que a autarquia de ferreira do Zêzere preserva as suas raizes de tal maneira que nem a existência duma comum casa de banho é reconhecida como necessária. Presumo que perante o número elevado de reclamações a resposta seja”… deixem-se de modernices e vão ao pinhal…” . Adorei Dornes, mas nao há encantamento que justifique uma total ausência civilizacional.

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