“TEJO: o sonho austeritário para o sul da Europa”, por Nelson de Carvalho

Lembro-me de que, nos anos 90, a Câmara de Abrantes mandou fazer um Plano Diretor para o Saneamento Básico. O objetivo era que fosse o instrumento orientador para cumprir o objetivo de Bruxelas de atingir um nível de atendimento (população servida de tratamento de águas residuais) superior a 90%.

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Dele decorreu um programa de construção de ETAR, creio que entre 95 e 99, de que refiro, de cor, Martinchel, Souto e Carvalhal (a norte)  a que mais tarde outras se juntaram (Aldeia do Mato …), intervenções de requalificação da ETAR de lagonagem de S.Facundo e mais tarde a construção da de Vale das Mós, e um conjunto de redes de saneamento associadas …

Desse Plano derivou um programa central de intervenção, candidatado e aprovado para financiamento comunitário o âmbito do Sub-programa B do QCA, chamado “Cuidar do Tejo”, e onde se incluiam as ETAR de Abrantes (Fonte Quente) e Rio de Moínhos na margem norte (mais tarde saneamento e ETAR em Mouriscas) e Tramagal, Rossio/São Miguel, Pego, Concavada e Alvega na margem Sul. De modo complementar avançou-se com o encerramento e a reabilitação ambiental e paisagística da antiga lixeira, ela própria situada na margem direita do Tejo.

Isso no tempo em que Bruxelas (e o Estado Português) tinham como políticas centrais as politicas ambientais: saneamento e gestão de resíduos urbanos. É da mesma altura a construção do aterro sanitário e do ecocentro bem como a instalação da rede de ecopontos.

E assim foi nos municípios do país.

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Todavia as coisas mudam.

Bruxelas passou a querer outras coisas. A partir de 2009, com o estalar da crise financeira na sequência da crise dos bancos associada à nova guerra económica global que as economias emergentes  abriram, a Europa e Bruxelas passaram a sonhar outras coisas, particularmente para os países mediterrânicos: criar as condições para que se pudessem tornar no grande parque industrial da Europa para sediar o capitalismo desqualificado, livre das obrigações em matéria de custos sociais e ambientais (os países centrais e nórdicos ficariam com a economia “limpa”).

E agora, sim, o Tejo. Há cerca de um ano, todos os dias, fotos e vídeos do Tejo inundaram as redes sociais. Poluição como nunca visto. E um fenómeno novo: as autoridades (o Estado) espanholas e portugueses remetidas ao silêncio. Em Bruxelas os tecnocratas assobiavam para o ar. Tajo/Tejo? Isso é aonde?

É o estrondo diário que corre nas redes sociais, em particular no Facebook, e um enorme trabalho de cidadãos e associações que coloca todos os dias o problema e exige soluções.

Há dias, só há dias, uma delegação de parlamentares europeus visitou o Tejo, em Espanha. Não sei porquê, não havia deputados portugueses na comitiva. Os ministérios do ambiente e os parlamentos nacionais começam agora a olhar e a fazer coisas. Mas daqui a pedaço vamos ver novos vídeos com a data do dia.

CURIOSO. Parece que o problema está mesmo entregue apenas aos cidadãos e à sua cidadania activa. Persistente e insistente.

Os Estados habituaram-se a estar de joelhos e Bruxelas sonha com outras coisas …

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3 COMENTÁRIOS

  1. Bem lembro desse tempo em que havia mundos e fundos da Europa, sem que os autarcas e os governos tivessem a preocupação de enxergar com que dinheiro e meios iriam fazer face no futuro á manutenção de todos os sistemas instalados, e se alguns seriam mesmo necessários. Fez-se porque havia muito dinheiro, mas sem critério. Hoje não há dinheiro, e fecha-se os olhos aos grandes grupos econômicos que tomaram de assalto o país e fazem o que querem com o compadrio das instituições estatais, que cumprem e nem fazem cumprir a lei. Somos uns vendidos, isso sim. As eleições valiam, e ainda valem todas as benesses, mesmo que mais tarde sejamos tão, ou mais pobres que antes. Parece que Bruxelas passou a querer outras coisas – Esta sua frase é reveladora da dependência externa, tanto política e econômica, que só rebaixa á classe de lixo os partidos políticos portugueses, que parece não serem capazes de pensar e agir por si mesmos. As pessoas e as diversas organizações cívicas estão sozinhas, como sempre estiveram, tanto em ditadura como em democracia. Um abraço

  2. Boas.Gostaria de olhar de forma positiva para esta entrevista, dada por Nelson Carvalho. Não sei se o vou conseguir e depois nem sequer conheço pessoalmente o senhor. Tendo em atenção a sua última posição… e que me permito transcrever…CURIOSO. Parece que o problema está mesmo entregue apenas aos cidadãos e à sua cidadania activa. Persistente e insistente….e reconheço-o que é uma boa surpresa para mim.Até me fez subir o ego. Mas porquê só agora em 2016 e não antes? Isso é uma outra história. Sobre as partes negativas da sua ex-actuação como ex-presidente da Câmara e ex-Presidente da Assembleia, não o devo abordar aqui dado o descontexto e deselegância, mas lanço o repto, snr Nelson talvez fosse interessante falarmos. Contacte-me.

  3. Pois, está visto que a culpa é toda de Bruxelas.
    Primeiro, canalizaram para cá bateladas de dinheiro e incentivaram a realização projetos de tratamento e requalificação ambiental. Até obrigaram a ter legislação ambiental mais exigente, equivalente à que já existia noutros países mais esclarecidos. Mas eis que, e vejam bem a perfídia disto, não nos explicaram como utilizar de maneira responsável os recursos. O dinheiro dos contribuintes (do norte, cá está), não trazia instruções de uso. Foi propositado.
    E em seguida, para concluir o plano maquiavélico, fecharam a torneira, deixando-nos endividados e dependente daqueles a quem pedimos (muito) dinheiro emprestado. Foi tudo um plano, está mais que visto!
    Claro que a culpa disto não é nossa nem dos nossos governantes. Muito menos dos nossos autarcas, do ICN (Instituto da Contemplação da Natureza) ou do PEV (sim, temos um partido ecológico na AR). Mais uma vez, fomos vítimas. Que fatalidade!
    Quando não nos sabemos governar, a culpa é sempre de Bruxelas.

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