Sertã | Era uma vez a maior festa da leitura em voz alta em Portugal (c/fotogaleria)

Foto: mediotejo.net

No dia 7 do mês 7 decorreu a Maratona de Leitura número 7 no concelho da Sertã, levando todos a ler excertos de livros, a contar histórias, a suspirar memórias… Tudo isto, em voz alta. Num ato de coragem, os leitores miúdos e os mais graúdos partilharam um dia em cheio, com cheiro a livros. Ali todos tiveram voz, numa história que se escreve desde 2012, quando o evento deu os primeiros passos. Este ano, a homenagem foi rendida a uma figura maior que dá nome à Biblioteca Municipal, no ano do centenário do seu nascimento, mostrando quem foi o homem, o pedagogo, o padre jesuíta, o escritor, o pensador. Celebrou-se a leitura e recordou-se a vida e obra do Padre Manuel Antunes.

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Começou ao início da madrugada, depois das doze badaladas míticas das histórias de encantar. Dezenas e dezenas de inscritos para partilharem um simples, mas maravilhoso, dom: o da leitura. O concelho, calmo, soalheiro, radiante, esperava a chegada das muitas iniciativas e convidados. E, enquanto acordava, iam aumentando os movimentos cruzados pelas ruas da Sertã.

Na Alameda da Carvalha, à sombra dos freixos de folha estreita, e entre os muros pintados de branco, como se de um livro maior saísse, a estátua de Manuel Antunes preparava-se para acolher um coroa de flores alaranjadas e brancas, pelas mãos de dois dos seus familiares, do presidente da Câmara José Farinha Nunes e do estudioso José Eduardo Franco.

A Ricardo Belo de Morais coube a tarefa de falar sobre este reconhecido padre jesuíta, um pedagogo da democracia e da liberdade, que marcou gerações e gerações de alunos e que muitos artigos assinou na revista Brotéria, fundada pelo Padre Joaquim da Silva Tavares, natural de Cardigos, concelho de Mação. Revista da qual chegou a ser diretor.

Sertã | Era uma vez a maior festa da leitura em voz alta em Portugal (c/fotogaleria)
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Falar do Padre Manuel Antunes e pensar a sua vida e obra resulta, inevitavelmente, num livro. Lançado na manhã de sábado, dia 7, no Cineteatro Tasso, e que conta com textos inéditos compilados numa antologia diversa. Na presença de José Eduardo Franco, Joana Lopes, Miguel Real e do docente do Agrupamento de Escolas da Sertã, António Martins,  houve tempo para abordar a sua busca pelo conhecimento, o seu modo de estar e escrever, e para citar excertos de alguns dos seus trabalhos, como o genial artigo que consegue colocar em análise a vida e obra de três poetas portugueses, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e José Régio: os “Três poetas do Sagrado”.

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No livro, o episódio inédito e biográfico, contado a Joana Lopes, escritora sertaginense, pela sua avô de 93 anos que recorda a figura de Manuel Antunes no dia do seu exame de 4ª classe. Um texto feito de sensações vividas pelos seus pés descalços, os únicos da sala, por não ter sapatos, e que aborda muito além do homem do pensamento, buscando a sua ligação à terra, às origens e à essência humana.

José Eduardo Franco, que por tanto se dedicar ao estudo da vida e obra do Padre Manuel Antunes se considera seu “discípulo”, faz ainda menção à importância da leitura em voz alta e da partilha comunitária da leitura, bem como encontrava ponto de aproximação ao outro, para perceber a sua perspetiva. O livro “Repensar Portugal”, esse, devia constar da cabeceira dos políticos portugueses, dado que as suas palavras encerram uma atualidade inacreditável, num instinto prospetivo muito próprio vindo do século XX.

126 pseudónimos envoltos em toponímia da sua terra e da região

Sertã | Era uma vez a maior festa da leitura em voz alta em Portugal (c/fotogaleria)
No pátio do Seminário das Missões, em Cernache do Bonjardim, durante o percurso literário sobre as raízes do Padre Manuel Antunes e seus pseudónimos inspirados em locais e lugares da Sertã e redondezas. Foto: mediotejo.net

O documentário do programa 70×7 da RTP2, de 2005, começava a ser emitido no Tasso, e à porta, ali junto ao Miradouro Caldeira Ribeiro, aguardava uma das muitas figuras que cimentavam a presença do Padre Manuel Antunes neste dia a si dedicado, com uma súmula de textos sobre este ícone da cultura portuguesa e um marcador de livros. Respirava-se leitura em cada canto e em cada espaço público da vila. Encontros inesperados, improváveis, com Padre Manuel Antunes, com escritores e contadores de histórias, com animadores. Um frente a frente literário que soava das colunas da avenida.

Imbuídos deste espírito literário, partimos à descoberta do “homem de múltiplas faces”, e provavelmente o autor com mais pseudónimos criados. 126 mais precisamente, baseados em topónimos de aldeias e lugares da região. Apanhamos o autocarro no Clube da Sertã e seguimos guiados pela voz de Dora.

“O nosso passeio vai passar por locais que contêm o nome que o Pe. Manuel Antunes deu aos seus pseudónimos. Está bem? Conseguem-me ouvir lá atrás?”, questionava, em voz bem alta e entre solavancos, curvas e contracurvas, para um autocarro cheio, com escritores, estudiosos ou meros amantes de livros, curiosos com a iniciativa.

Passamos Mougueira e surge um dos primeiros pseudónimos – Artur Mongueira -, e logo, logo, vamos aproveitar a sombra da Igreja da Várzea de Cavaleiros para um primeira leitura. “Férias e Festa”, pela voz de familiar do padre jesuíta, com o sino da igreja a dar o ar de sua graça. Passagem pela biblioteca itinerante da Guarda, da Biblioteca Eduardo Lourenço, uma das muitas espalhadas pelas freguesias do concelho, todas equipadas a rigor para levar a festa às aldeias. Ali, dois ingredientes-chave: livros e contadores de histórias.

O calor apertava, era quase meio dia, e com direito a troca de autocarro pelo meio, seguimos viagem. Dora também continuava a sua história, em voz alta, sobre detalhes históricos e turísticos à passagem. Todos ouviam atentamente. Passamos perto dos Bombeiros, e do outro lado, ficaria o lugar de Regorices. Ali nascera Manuel Antunes.

E lá calha outra das assinaturas. André Venestal. Nome da primeira, e bem pequena, aldeia a ter eletricidade, depois das vilas de Cernache do Bonjardim, Pedrógão Pequeno e Sertã.

Por falar em Cernache, por ali ficamos. Direitos ao Seminário das Missões para “uma visita que não é de médico, mas é de enfermeiro”, diz Dora, numa corrida interessante contra o tempo. Os escritores têm de regressar a tempo para o almoço e prosseguirem as suas participações noutras atividades. Adiante.

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A Festa na Aldeia: bibliotecas itinerantes de todo o país estacionaram nas freguesias do concelho, promovendo sessões de contos para comunidade. Foto: mediotejo.net

Entramos na Igreja do Seminário, fresca, alta. Apreciamos o esplendor dos quadros, imagens, altares e das Relíquias de São Nuno. E, no jardim do pátio, uma segunda leitura. Claro está: em voz alta e para todos. Aguardava a Sala do Santo Condestável. Tempo para conhecer a figura histórica de Cernache do Bonjardim, que se acredita ser a sua terra natal. A uns metros, a sua figura ergue-se na estátua alta. Para trás, o Atelier do artista Túllio Victorino, pintor impressionista, que teve como mestres Columbano Bordalo Pinheiro e José Malhoa. Somos convidados a notar a sua janela, estreita mas com 4 metros de altura, por onde fazia passar as suas telas para o exterior.

De volta ao autocarro, com destino à vila da Sertã, as placas toponímicas depressa nos levam de volta à busca pelos pseudónimos. Pedro Palhais, Luís Amioso, Carlos Cumeada, Leonel Cardigos, L. Fratel, A. Trízio,… Alguns ficam no ouvido, certamente.

E à entrada da vila, a última leitura do percurso literário, nesta volta e reviravolta pelas raízes de Manuel Antunes. “Cultura sem raízes e raízes sem cultura”, do volume 88 da Revista Brotéria, ano de 1969, fechou a manhã com chave de ouro, mostrando mais uma vez a atualidade da escrita antunesiana.

24 horas a libertar textos e a avivar livros em voz alta

Sertã | Era uma vez a maior festa da leitura em voz alta em Portugal (c/fotogaleria)
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Já recompostos, vamos espreitando o programa. E lá vamos despertando para espaços e iniciativas paralelas. Na Alameda da Carvalha, a Chef Andantinni e seu ajudante davam a escolher Poesia à La Carte, com recurso a uma sistema fora de série, que colocava pares de ouvintes de auscultadores a fruir poesia pela voz da Chef.

E começamos outra caminhada, levados pelo áudio que surgia na Avenida Gonçalo Rodrigues Caldeira. Chegamos à Biblioteca Municipal, e do lado direito a exposição sobre o que foi escrito sobre o Padre Manuel Antunes na imprensa portuguesa ao longo dos anos. Subimos ao último piso, sala infantojuvenil Joana Lopes. Ali decorre a maior e ininterrupta Maratona de Leitura da Sertã.

Entre as estantes de livros, o palco dos corajosos que foram soltando a voz, bem alto, para fazer ouvir boa literatura à portuguesa. Crianças, sozinhas ou em grupo, acompanhadas ao piano por Marco Figueiredo. Outros adultos inscritos foram partilhando as suas escolhas.

Cristina escolheu “História de um caracol que descobriu a importância da lentidão”, de Luis Sepúlveda, porque não só da escrita do homenageado sertaginense se fez o evento. A riqueza literária trouxe também outros autores, que puderam também partilhar os seus textos ou as suas obras. Caso de Sandra Carvalho, com a animosa leitura de um excerto da obra “Lágrimas do sol e da lua: saga das pedras mágicas”, ou do jovem escritor Pedro Rodrigues com a leitura de textos do livro “(A)mar”, também constantes no blogue “Os Filhos do Mondego”.

Já Filipa Martins optou por trazer “Com o mar por meio”, dando corpo e emoção às cartas trocadas entre Jorge Amado e José Saramago. E nisto, Ricardo Belo de Morais traz de volta o Padre Manuel Antunes e lê “Três poetas do Sagrado”, de 1957, publicado na Brotéria; a inscrita Leonor Loureiro leva na mão o peso de “Repensar Portugal”, uma das grandes obras do padre jesuíta. Mais acima, na Igreja da Misericórdia, não havia assento para ficar a assistir à interessante conversa sobre tudo e sobre nada, entre Valter Hugo Mãe e Pilar del Río.

No meio desta “maratona de eventos”, como disse Ana Sofia Marçal, diretora da Biblioteca Municipal Padre Manuel Antunes, há encontros inesperados com dezenas de escritores, que vêm dar voz aos textos, mas que ficam, apreciam, participam. Que, quase despercebidos, se envolvem com a comunidade nesta festa literária.

Na Fonte da Boneca já se ouve o CLEVA, Coro de Leitura em Voz Alta de Alcochete. Muitas onomatopeias entoaram em uníssono, atraindo dezenas de curiosos ao jardim, junto à ribeira.

Sertã – Coro de Leitura CLEVA de Alcochete, na Fonte da Boneca, participa na sétima Maratona de Leitura – 24 horas a ler.

Publicado por mediotejo.net em Sábado, 7 de Julho de 2018

Ao fundo da Avenida, na Casa da Cultura, outro livro foi lançado. Uma biografia ilustrada, pelas mãos da escritora sertaginense Joana Lopes e com ilustração de Mafalda Milhões. “Manuel, o menino com asas de livros” surgiu a público entre os trabalhos de 423 alunos de 1º ciclo da Sertã, que desenharam e fizeram trabalhos de artes plásticas baseados no património histórico, cultural, móvel e imóvel da sua terra através do projeto “Leitores do Património”.

Tanto a acontecer, em tantos locais distintos, mas todos com público a assistir. A Maratona continuava, as leituras não se esgotavam, mesmo entre este rebuliço automático de troca de vozes, ora vou eu, ora segue a leitura A, depois a B, e se a C não pôde vir, arranja-se a D. Estava tudo controlado. Às 21h00, o palco muda para o Castelo.

No alto, já de noite, as leituras deixaram invadir-se pela gastronomia local. Joe Best cozinhava maranho, enquanto Fernando Alvim ia lendo um texto preparado para a ocasião, acompanhado ao piano.

Pelo segundo ano, Pedro Lamares regressa à Maratona, e traz consigo o recital “A poesia é uma arma carregada de futuro”. Começou por ler Miguel Torga, seguiu-se Alberto Caeiro… não mais parou. Até a dança surgir, com a voz de Tiago Salazar a conduzir os passos, ora suaves, ora rígidos, da bailarina de vestido de cetim.

A fechar a noite, Ricardo Fernandes trouxe um texto de autoria própria, uma viagem pela vida de Clara, cônjuge do compositor alemão Robert Schumann.

Sertã | Era uma vez a maior festa da leitura em voz alta em Portugal (c/fotogaleria)
Ana Sofia Marçal e a equipa da Maratona de 2018, encerraram esta 7ª edição, no palco do Castelo da Sertã. Foto: Vitorino Coragem

E passava da meia noite, quando Ana Sofia Marçal e a equipa da Maratona de Leitura deste ano sobem ao palco. Numa leitura emotiva, expressiva, embalada ao piano, recordou a primeira edição, realizada em julho de 2012, numa manhã de sábado. “Se podemos sonhar, também podemos tornar os nossos sonhos realidade”, leu, citando Walt Disney.

A diretora frisou que foi a Sertã o primeiro concelho do país a receber uma Maratona de Leitura desta dimensão, com 24 horas ininterruptas. E por esta razão, a Sertã é, nada mais, nada menos, que “o palco da leitura em voz alta” do país.

Este ano, com o Padre Manuel Antunes enquanto homenageado, seguindo-se a Niels Fischer (2105), Fernando Pessoa (2016) e D. Nuno Álvares Pereira (2017). Celebrou-se a sua vida e obra, lendo-se os seus textos e recordando a importância que dava à leitura em voz alta.

“A leitura em voz é uma forma de expressão e de aprendizagem. É um ato de liberdade e de partilha. É o desvendar de um novo mundo, viajando através das páginas de um livro”, leu Ana. E a despedida surge, acompanhada de fogo de artifício estrategicamente posicionado na torre do castelo. A festa literária termina, mas muitas certezas se guardam. Mais 24 horas virão. Resta continuar a ler. Até 2019.

Espreite a fotogaleria com registo de vários momentos desta Maratona literária:

 

 

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