“Parir na rua aos 22 anos”, por Helena Pinto

@Dreamstime

Não há quem não tenha ficado chocado com o bebé recém-nascido encontrado num contentor em Lisboa. Seguimos as notícias e foi uma alegria saber como aquele pequeno ser conseguiu resistir às adversidades e se encontra de boa saúde.

Esta é a primeira parte desta história. Esperemos que tenha seguimento positivo e que esta criança tenha um futuro digno à sua frente.

A segunda parte da história é a mãe desta criança. Encontrada sem dificuldade pela Polícia Judiciária, foi presa sem resistir, como contam as notícias. Ficamos a saber que tem 22 anos, vive na rua e nunca foi acompanhada na gravidez. E mais, tudo indica que dissimulou a gravidez pois nenhuma equipa de rua sinalizou a situação.

Viver na rua, vamos repetir para tentar aproximar a nossa percepção dessa realidade – Viver na rua! Não sabemos como é. Ter 22 anos e viver na rua, não sabemos o que é. Estar sozinha e grávida, sem acompanhamento médico, como terá sido? Como ficou grávida? Foi uma relação consensual ou uma violação? As mulheres em situação de sem abrigo tem uma grande probabilidade de serem violadas.

As vozes que se levantaram clamando contra esta rapariga devem parar para pensar e se interrogar como é que ela chegou a esta situação. É fácil demais dizer que é culpada e ficamos por aí. Mas não nos sentiremos também culpados e culpadas quando pensamos como  é possível uma jovem de 22 anos viver uma gravidez sozinha na rua, e depois parir nas mesmas condições?

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Este caso é uma derrota dos princípios da Igualdade, da Inclusão Social, da Solidariedade. Convoca a nossa tolerância é certo, mas também deve convocar a nossa indignação. É preciso passar das palavras aos actos, é preciso pôr em prática os planos para tirar as pessoas em situação de sem abrigo da rua. E definitivamente, não só na época do Natal. É a dignidade da vida humana que está em causa e um Estado de Direito Democrático deve garantir o direito à habitação, consignado na Constituição da República.

Quem resume esta situação a um caso de polícia está errado, profundamente errado, para além de falhar no humanismo, falha no diagnóstico e falha na solução. Por isso junto a minha voz a todos aqueles e aquelas que apelam ao fim da prisão preventiva da jovem e que seja encaminhada para uma instituição que verdadeiramente a ajude.

7 COMENTÁRIOS

  1. Sim claro, o bebé saltou sozinho para dentro do ecoponto, ou então foi a sociedade e não ela que o atiraram para lá… andam por ali diariamente equipas de rua a dar apoio aos sem-abrigo, porque motivo ela se escondeu sempre? Porque nunca pediu ajuda? Ela estava à um ano na rua, só quem não sabe a promiscuidade que existe nessas situações pode pensar que ela sabia quem era o pai da criança.
    Existem na zona albergues com vagas porque não foi para lá? A maioria não vai porque não gosta de cumprir regras, seria o caso?
    Cometeu um crime e tem que pagar por ele como qualquer outro cidadão.

    • Ainda bem que compreende a situação da rapariga, dá para ver que já esteve nessa situação também, muitos parabéns pelo comentário construtivo.
      Comentários inteligentes são realmente de outro nivél !

  2. Será que as Saras e outros jovens que vivem na marginalidade e na rua deste pais se deixam ajudar? Pois tenho muitas duvidas, e falo em dentro de vários casos.

    .

  3. Concordo e entendo que se não se tem condições nem vontade pode “abandonar” a criança, mas nunca no lixo para morrer. Isso, mais do que um crime, é atentar contra aquilo que nos faz humanos. Se merece cadeia ou internamento numa instituição psiquiátrica só um estudo do caso o dirá. Defender um ser humano que abandona outro, indefeso?? Não. O que aconteceu á “tradiçao” de abandonar as crianças à porta das igrejas??? Não sabemos o que aconteceu à progenitora (não mãe, que isso é outra coisa) para cometer tal acto, mas NADA o justifica. NADA MESMO.

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