Ourém: Há em Carmen Zita muito mais que uma Biblioteca…

Carmen Zita Ferreira, 41 anos, respira e vive Ourém. É a bibliotecária que todos conhecem, que conta histórias às crianças e conversa com os grandes escritores. Este domingo, dia 31, apresenta no Salão Nobre dos Bombeiros Voluntários de Ourém o seu mais recente livro infanto-juvenil, “O Morcego Bibliotecário”. Dona de uma sensibilidade maternal e de um sorriso contagiante, reconhece que as crianças são um público exigente, que não hesita em dizer o que pensa.

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Em 2014, após uma visita a Ourém, o escritor Valter Hugo Mãe escreveu uma crónica no jornal Público com Carmen Zita enquanto protagonista. O momento viveu-o com “intensidade”, por lhe ter sido possível potenciar a visibilidade da Vila Medieval de Ourém através do olhar de um dos mais importantes escritores do panorama português atual. Afinal, para captar a atenção de novos e velhos leitores, é necessário saber estar de olhos e ouvidos bem atentos ao mundo que nos rodeia.

O que inspirou “O Morcego Bibliotecário”?

Eu sempre gostei de morcegos e sempre achei que eram animais injustiçados, talvez por viverem em grutas escuras e serem noctívagos. De certo modo, os morcegos sempre foram associados à noite e a histórias de terror e a lendas de assombro. Porém, eles são uns bichinhos bem bonitos e têm uma grande importância ecológica e económica. São grandes controladores das populações de insetos, são responsáveis pela propagação de sementes dos frutos que comem, pela reprodução de mais de quinhentas espécies de plantas, visitando as flores à noite, como fazem de dia as abelhas e até há morcegos que se alimentam de pequenos animais como os ratos e os gafanhotos, que causam prejuízos à agricultura.

Ora, para além de todas estas facetas importantes ao equilíbrio ambiental (das Serras de Aire e Candeeiros, por exemplo, de onde é natural uma das personagens principais do livro), os morcegos também ajudam a preservar os livros em algumas bibliotecas (como por exemplo na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, de onde é natural outra das personagens principais). Assim, foi nas grandes qualidades destes pequenos e misteriosos mamíferos que eu me inspirei.

Ourém: Há em Carmen Zita muito mais que uma Biblioteca…

“As crianças procuram-se a elas mesmas e aos outros. Sentem-se seguras com finais felizes, sentem medos, sem terem de vivenciar os perigos que os provocam diretamente, sentem curiosidade.”

É necessária alguma forma de estar/uma condição especial para escrever livros para crianças?

Penso que o que é essencial para se escrever, ou pintar, ou compor é estarmos de olhos e ouvidos bem atentos a tudo o que nos rodeia. Não só ao que nos rodeia fisicamente, mas também ao mundo em geral. A grande condição para escrever é, na minha opinião, estar disposto a receber, a compreender, a estudar as várias facetas do ser humano e do mundo que nos envolve. Para se escrever livros para crianças, não é diferente.

O que é que as crianças procuram nas histórias?

As crianças procuram-se a elas mesmas e aos outros. Sentem-se seguras com finais felizes, sentem medos, sem terem de vivenciar os perigos que os provocam diretamente, sentem curiosidade. Gostam de ser estimuladas pelo absurdo. Procuram humor, empatia, aventuras.

São um público exigente?

São um público muito exigente e que não tem qualquer problema em expressar de viva voz aquilo que sente e pensa. E isso é fenomenal para quem escreve, ou ilustra ou conta histórias.

Como é que se deu a sua entrada no mundo da escrita?

O meu primeiro livro chama-se “Jogo de Espelhos” e é um livro de poesia. Surgiu depois de, com a escritora Susana Júlio, termos escolhido do conjunto de poemas escritos na Universidade, 90 poemas de cada uma que achávamos mereciam ser publicados. Eu escolhi os dela, que resultaram no livro “Riscos que ficaram no tempo” e ela escolheu os meus, que resultaram precisamente no “Jogo de Espelhos”. Até 2010 os textos que escrevi foram todos de poesia.

A partir de 2010, ao editar “O Bicho de sete cabeças”, um texto em prosa que teve um sucesso inesperado, dediquei mais do meu tempo à prosa, isto sem ter abandonado por completo a poesia.

Muitos escritores que começam pelos romances, a dada altura escrevem para crianças e o contrário também acontece. Na verdade, eu acho que os livros não têm um público-alvo assim tão definido.

Costuma ter feedback dos leitores?

Sim, principalmente nas escolas e bibliotecas que visito com os meus livros infantis.

Que lhe dizem?

São sempre muito agradáveis. Fazem perguntas sobre mim, sobre os livros, têm curiosidade em conhecer pormenores por trás dos textos e das ilustrações. As crianças, os Professores, os Educadores, os Bibliotecários e os outros adultos que participam nos encontros com leitores são, acima de tudo, encorajadores. Se não fossem os ecos que vou recebendo nesses encontros, provavelmente não teria passado do primeiro livro.

É diferente ser escritor de livros infantis do que, por exemplo, de romances?

Não creio que seja muito diferente. Muitos escritores que começam pelos romances, a dada altura escrevem para crianças e o contrário também acontece. Na verdade, eu acho que os livros não têm um público-alvo assim tão definido. Os livros vão encontrando os seus leitores. Muitos dos leitores dos meus livros são, efetivamente, adultos. A maior parte dos meus escritores favoritos tem publicadas obras para adultos e obras para crianças.

Quando esteve em Ourém, o escritor Valter Hugo Mãe dedicou uma crónica à visita que ambos realizaram à Vila Medieval no Jornal Público. Como sentiu a homenagem?

Senti-a com muita intensidade. Ver que um escritor com a qualidade, a sensibilidade e a experiência que o Valter Hugo Mãe tem ficar encantado com a Zona Histórica, o Castelo, a Sé, a Pousada, as ruas, as árvores e as lendas de Ourém foi magnífico. Sentir que, através dele, muitas outras pessoas sentiriam o impulso de vir visitar esta região encheu-me de orgulho e gratidão.

(ver link: https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/belissima-vida-1630717)

Há lugar para novos escritores em Portugal?

Claro que sim. Haverá sempre. Os escritores consagrados também já foram novos no meio. Haverá sempre lugar para novas histórias, cheguem elas até nos em que suporte for.

As Bibliotecas já deixaram há muito tempo de ser um repositório de livros. Ao longo dos anos as bibliotecas têm vindo a assumir vários papéis.

Sendo bibliotecária, como encara a atual situação das Bibliotecas? Estão a desaparecer ou a reconverter-se?

Estão a reconverter-se e a reinventar-se para atingirem os objectivos e cumprirem a importante missão que lhes são atribuídos. As Bibliotecas já deixaram há muito tempo de ser um repositório de livros. Ao longo dos anos as bibliotecas têm vindo a assumir vários papéis. Estes vão desde fortalecer os hábitos de leitura, promover o conhecimento sobre a herança cultural, assegurar o acesso dos cidadãos à informação até apoiar, participar e criar programas e atividades de instrução para os diferentes grupos etários e sociais.

Como é um dia na Biblioteca de Ourém?

Depende. Nos dias em que recebemos grupos e convidados para participarem em atividades que organizamos, o dia pode ser fantástico, stressante e muito intenso. Nos dias em que a atividade que nos ocupa mais tempo é o atendimento, o dia pode ser mais calmo, mas também muito gratificante. Quando estamos mais tempo a tratar de assuntos mais técnicos como a Catalogação e a Indexação, o dia habitualmente exige muito de nós.

Já está a pensar num novo livro? Pode adiantar alguma ideia em desenvolvimento?

Já. Como eu costumo dizer, estou sempre a pensar num novo livro. Tenho várias ideias em desenvolvimento, mas como não faço ideia qual delas verá primeiro a luz do dia (ou se alguma delas verá), não posso revelar qualquer uma delas.

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