Ourém/EUA | Newark, a cidade dos emigrantes portugueses que está a perder a diáspora

Parada do Dia de Portugal em Newark, EUA, 9 de junho de 2019 Foto: mediotejo.net

A grande parada do Dia de Portugal em Newark, Nova Jérsia, EUA, chegou a reunir várias centenas de milhar de pessoas. No domingo, 9 de junho, as perpetivas apontavam para 15 mil espetadores. O número é sintomático da saída dos portugueses desta região, naquela que ainda é uma das maiores comunidades portuguesas nos EUA, procurando outras cidades no país em busca de oportunidades ou já se integrando completamente na cultura norte-americana. Na viagem de agradecimento da Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Ourém aos emigrantes da região de Newark e Yonkers, já em Nova Iorque, em diversos momentos oficiais, foi da dispersão da diáspora que se falou e de uma nova realidade já não tão recetiva a populações estrangeiras. 

Ao que nos foi indicado no Sport Club Português de Newark, existem 14 ranchos folclóricos de casas portuguesas na região de Newark. Mas só tomamos consciência dessa realidade na grande parada do Dia de Portugal, onde os grupos se sucedem com trajes meticulosos e execuções rigorosas, em certa medida mais fiéis ao espírito que alguns ranchos nacionais.

Mas não obstante a larga existência de clubes e associações de raiz portuguesa, é por diversas vezes comentado ao longo da viagem, entre 6 e 10 de junho, que os festejos de tradição lusa estão a diminuir de intensidade, acompanhando a dispersão da comunidade por outras zonas dos EUA e a chegada a Newark de grandes comunidades hispânicas e brasileiras.

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Assim o constata Augusto Amador, português natural da Murtosa (Aveiro), cujo pai chegou aos EUA em 1927, a partir do Brasil, integrando os primórdios da comunidade lusa de Newark. Autarca na Câmara Municipal desta cidade há várias décadas, único português a exercer funções públicas, comenta com algum desânimo que provavelmente será o último.

Nos anos 90, adianta, a comunidade portuguesa atingia as 25 mil pessoas. Hoje situa-se nas 10 mil, sendo 10 a 15% da população de Newark (45% são afro-americanos, mais de 20% são hispânicos, registando-se também o crescimento da comunidade brasileira entre os designados caucasianos).

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Augusto Amador foi o primeiro português a ser eleito para um cargo público em Newark, sendo atualmente também o único. Vê com pessimismo a saída dos portugueses da cidade Foto: mediotejo.net

Na senda da lotação da cidade de Nova Iorque (estima-se que cerca de 5 milhões de pessoas deveriam sair da cidade), a cerca de meia hora de distância, Newark tem estado a crescer, o que se tem evidenciado sobretudo na especulação imobiliária, explicou o autarca.

Com um grande fluxo de emigração lusa nos anos 60, “os portugueses construíram um bairro, uma comunidade segura, pelo que é apetecível investir aqui”. Adquirindo mais poder de compra, foram porém abandonando o território, não sendo já mais a maior comunidade étnica de Newark.

Augusto Amador foi o primeiro português eleito para um cargo público em Newark, sendo atualmente uma espécie de presidente da junta do bairro de Ironbound, o bairro português por tradição, embora possua mais funções a nível municipal, assemelhando-se mais a um vereador.

Com as mudanças verificadas na comunidade portuguesa, constata que a vida política também se torna mais complicada, são necessárias alianças para conseguir votos e o futuro da representação portuguesa neste município aparente ir sofrer profundas alterações. Mas “a vossa vinda de vez em quando dá-nos ânimo para continuar”, comentou o autarca à comitiva ouriense, aquando a visita à Câmara Municipal de Newark na segunda-feira, 10 de junho, último evento oficial do programa.

Em representação do grupo, o presidente da Assembleia Municipal de Ourém, João Moura, sublinhou “a honra” que foi para a comitiva de meia centena de ourienses participar na parada do Dia de Portugal.

“Não foi uma logística fácil, mas foi a forma encontrada para agradecer o apoio a estes que estão longe”, comentou. “Foi muito mais que uma parada, foi uma parada com muito simbolismo”.

Augusto Amador explicou à comitiva ouriense a metodologia do poder local americano, que possui uma democracia mais direta que em Portugal Foto: mediotejo.net

Estão registados nos EUA 1,4 milhões de portugueses, adiantou ao mediotejo.net Isabelle Coelho – Marques, presidente da New York Portuguese American Leadership Conference, mas a responsável acredita que existam muitos mais, sobretudo de 3ª e 4ª geração, sendo os números distorcidos por lacunas nos recenseamentos.

O Estado com mais portugueses é a Califórnia, seguindo-se o de Massachusetts. Nova Jérsia encontra-se em terceiro lugar, seguindo-se Nova Iorque e Connecticut.

 

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