Ourém | Berço dos “franceses”, um concelho que se construiu com a emigração

Imigração Portuguesa em França. Foto: Décembre 1964 © Gérald Bloncourt - Musée national de l'histoire et des cultures de l'immigration

Este fim de semana, 12 e 13 de agosto, celebra-se no Santuário de Fátima, concelho de Ourém, a peregrinação dos Migrantes. O município é conhecido por possuir uma grande tradição emigrante, sobretudo para França, tendo sido criado em 2016 o Gabinete de Apoio ao Emigrante. A freguesia de Espite, em particular, celebrou esse facto tão marcante das suas aldeias em 2011, nos seus 800 anos, com a inauguração de um monumento ao emigrante e uma monografia. Nesta como em outras freguesias do concelho, comprovam as respetivas estatísticas, ainda hoje há mais eleitores que população. 

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Sara Tavares, 37 anos, professora de línguas a viver em Gaia. Os pais são naturais da freguesia de Atouguia, Ourém, mas nasceu, cresceu e fez toda a sua formação em Gagny, França. Há 15 anos regressou à casa dos progenitores, na aldeia de Casal Novo, e manteve-se por terras lusas. O seu percurso é o retrato da emigração ouriense do século XX, que começou com a partida dos pais, enquanto jovem casal, para França, nos anos 70.

“Eu morei 22 anos na periferia de Paris, em Gagny (região de Seine saint Denis, 93) onde vivem muitos portugueses da zona de Ourém, principalmente da freguesia de Atouguia”, começa por contextualizar ao mediotejo.net. “Em muitas ocasiões convivíamos entre nós, aos fins de semana em casa de uns e outros, sempre a falar da terra. A convivência com outras nacionalidades era muito pouca, até com os franceses. Os amigos dos meus pais eram os amigos da terra, os amigos de infância que também tinham emigrado e viviam perto de nós. Estou a falar de dezenas de famílias”, conta.

“Com os filhos dessas famílias, como eu nascidos em França, acabámos por nos tornar amigos, pela convivência dos nossos pais. Era giro porque nos encontrávamos muitas vezes noutras ocasiões, sempre à volta da comunidade portuguesa, como por exemplo as aulas de português ou a catequese (em português)”, salienta.
Mas quando vinha de férias a Portugal, Sara Tavares gostava de ter amigos “locais”, misturando-se com primos e com os amigos destes. “Gostava de não ser considerada como uma emigrante. Fiz muito esforço para disfarçar ao máximo o sotaque”, admite. “Mas muitos dos filhos de emigrantes acabavam por reencontrar aqui os amigos de lá e passavam as férias juntos, naturalmente. O que começou a criar este fosso entre filhos de emigrantes e os jovens de cá que ainda hoje se mantém. Uma pena…”, constata.
As férias de verão eram sempre por isso esperadas com “muita ansiedade”. “Vale mais um mês aqui que um ano inteiro lá”, cita Sara, uma frase cliché entre os emigrantes. “Era contar as semanas a partir de junho e pensar nas festas da aldeia, nos casamentos e outros encontros de família que íamos ter… Ainda hoje os meus amigos que lá moram vivem esta situação, para a maioria. As semanas na terra são a recompensa de um ano de trabalho. Porque todos se sentem portugueses e gostam de estar em Portugal e hoje de trazer os filhos deles, netos da primeira geração, para manter viva a cultura portuguesa (às vezes a língua)”, refere.

Mas ao contrário dos amigos que decidiram ficar em França, Sara optou por regressar. “Os meus pais sempre tiveram o sonho/projeto de voltar para Portugal e cresci a ouvir falar nesse regresso. Por isso, para mim, era natural pensar que um dia voltaria para cá. Voltar no meu caso não se aplicava porque nunca tinha cá vivido, mas era o verbo que usava e é aquele que a maioria dos filhos de emigrantes usa”, explica. O mesmo aconteceu com a irmã, regressando ambas inclusive antes dos próprios pais.

“Quando acabei o curso, podia vir trabalhar um ano para uma escola em qualquer país do mundo e, claro, decidi candidatar-me para Portugal, numa ideia de ver o que dava. Tinha 22 anos: se gostasse de cá estar, ficava, se não gostasse, voltava para França e fazia lá a minha vida. Gostei e fiquei”, termina.

Ourém | Berço dos "franceses", um concelho que se construiu com a emigração
Sara Tavares integrou a 2ª geração de portugueses em França, filha do fluxo dos anos 60/70, mas regressou à terra dos pais. Foto: Sara Tavares

Por este mês de agosto, o concelho de Ourém saboreia um misto de línguas que vai muito além dos limites do turismo religioso da Cova da Iria. É o regresso dos “franceses”, como a tradição oral teima em intitular aqueles que parecem ter perdido a nacionalidade, falando ora em português ora em francês, um aglomerado das duas na mesma frase, passeando pelo território de carro com matrícula estrangeira ou recente, alugado para as férias de verão. Longe vão os tempos em que a chegada dos emigrantes mostrava a riqueza que havia no resto da Europa em contraste com o conservadorismo agrícola de Portugal, mas Ourém tem hoje a marca na sua cultura e arquitetura do que foi e ainda é a emigração, em especial a de França.

Esta sexta-feira, 11 de agosto, celebra-se a Festa do Emigrante em Ourém. Em 2016 o município criou inclusive um gabinete para responder às dificuldades daqueles que passam a maioria do ano fora da sua terra natal. Berço dos “franceses”, Ourém celebra os que ajudaram a moldar a face do concelho no último século.

Um perfil do emigrante ouriense

Não é fácil fazer o retrato do emigrante ouriense, entre aquele que partiu na grande vaga de emigração dos anos 60, sobretudo para França, e o que saiu do país com a crise de 2008, já para muitos mais países. Estamos a falar na prática de três gerações que se cruzaram nas mudanças sociais e económicas dos últimos 50 anos e a entrada de Portugal na União Europeia.

O fotógrafo Gérald Bloncourt é conhecido pelo seu trabalho, nos anos 60, sobre os imigrantes portugueses em França. As suas fotografias a preto e branco mostram o percurso a pé pelos Pirenéus, a entrada clandestina, os bairros de lata nas imediações de Paris (os “bidonvilles”), as autorizações de residência, o trabalho na construção civil e os rostos da pobreza que marcavam então a comunidade portuguesa. Entretanto passou mais de meio século, chegando-se em muitos casos a uma terceira geração de emigrantes portugueses que já quase não fala português, radicados nos seus países de acolhimento. Outros, porém, voltaram. Até que tiveram que tornar a partir.

Um trabalho de investigação da Rede Europeia Anti-Pobreza (Núcleo Distrital de Santarém), de 2005, constata que “os dados estatísticos sobre a emigração são bastante exíguos principalmente a partir dos anos oitenta”, tendo o Instituto Nacional de Estatística (INE) “principal entidade nacional de recolha de dados estatísticos, alterado a metodologia de recolha de informação a esse nível, devido à abertura de fronteiras e à dificuldade de controlo deste fenómeno a partir daí”. O perfil que se possa traçar dos emigrantes, neste caso os dos distrito de Santarém, tem que ser feito com base nos recenseamento nacionais e comparações com outros dados estatísticos existentes.

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imigração portuguesa em França/ os “bidonvilles” ou bairros de lata portugueses nos anos 60. Foto: Gerald Bloncourt

A autora desta investigação destacava assim que em 2005 “a emigração em Portugal é maioritariamente temporária, com destino à Europa, de indivíduos em idade activa e com o ensino básico”. Já não era uma emigração com “as características e o volume de outros tempos”, mas os países de eleição permaneciam a França (7.399), a Suíça (4.785) e o Reino Unido (3.893), “que no conjunto representam mais de 59% do total da emigração”. No Reino Unido a emigração tendia a ser mais permanente que temporária.

Passada cerca de uma década sobre este estudo, a página eletrónica Observatório da Emigração, em conjugação com as bases de dados do INE e do PORDATA, dá-nos um quadro semelhante de dados. No início do século XXI a emigração havia diminuído significativamente em relação aos anos 60/70 e os inícios de 90, situação que se foi alterando a partir de 2008, com um pico de saída de população em 2014. Em 2016 este ciclo retraiu-se ligeiramente. Continua a ser maioritária a emigração classificada como temporária, com França no topo das preferências dos portugueses, seguida da Suiça, do Reino Unido, Alemanha, Canadá, EUA, Espanha e Brasil.

Há cerca de 2 milhões de portugueses espalhados pelo mundo, referem os dados do Observatório da Emigração. Cerca de 1,4 milhão vivem na Europa e 775 mil na América.

Não existindo dados concretos da emigração no distrito de Santarém, em particular o concelho de Ourém, sabe-se porém que se enquadra no padrão dos movimentos migratórios de Portugal desde meados do século XX. Na Câmara de Ourém sugerem-nos a consulta da mais recente obra de Ana Saraiva, Casas (Pós) Rurais entre 1900 e 2015.

Entre 1864 e 1960, constata a autora, a população do concelho de Ourém foi sempre crescendo, apesar das guerras, das dificuldades económicas e de algumas vagas epidémicas. O ponto mais alto de população no concelho está registado em 1960, com 47.511 pessoas (os Census de 2011 registaram 45.887 residentes).

Ao longo de 30 anos houve uma descida de 7 mil habitantes, com várias fases, “principalmente por influência da emigração para França”, salienta Ana Saraiva. Esta descida inverteu em sentido contrário durante a década de 90 e em poucos anos (de 40.185 em 1991 para 46.216 em 2001). Ao longo da primeira década do século XXI registou-se um pequeno decréscimo populacional, mas no geral teremos que aguardar pelos Census de 2021 para percebermos o impacto real da crise de 2008 na movimentação da população.

“Jorge Carvalho Arroteia (1983) já tinha defendido que Vila Nova de Ourém fora dos primeiros locais de partida de emigração ilegal de Portugal para França”, cita Ana Saraiva. Espite terá sido a primeira localidade portuguesa de emigração para Champigny e territórios vizinhos, em França, por alturas da I Guerra Mundial. Há um conjunto de homens ourienses destacado para a frente de guerra, em Flandres, em 1917 que não foram dados como mortos nem regressaram a Portugal. Entre 1918/1919 há também registos de passaportes de emigração masculina para França. Esta primeira emigração foi constituída por militares e trabalhadores agrícolas, que aproveitaram a guerra e o seu rescaldo para irem trabalhar na reconstrução daquele país.

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População de Espite foi a primeira a nível nacional a emigrar para a construção civil em França, no pós I Guerra. O ciclo tornou a repetir-se em massa no pós II Guerra. Foto: Gérald Bloncourt

Na sequência da destruição provocada pela II Guerra Mundial, França lançou-se num grande programa de construção civil e obras públicas que durou até aos anos 60. A necessidade de mão-de-obra levou novamente a uma subida da emigração masculina para aquele país. “De 4.567 emigrantes em 1955, subiam para 38.046 em 1964”, cita na Saraiva, “entre 1962 e 1974, dos imigrantes que entraram em França, 62% eram portugueses”.

Há assim uma grande ligação de Ourém à imigração francesa, com raízes desde o início do século passado. Assalariado agrícola num país pouco industrializado, o emigrante português era no entanto habilidoso, com grande espírito de sacrifício e ambição de ascensão económica e social. O ouriense enquadrava-se neste perfil, refere Ana Saraiva, optando-se pela França por não haver capacidade económica para tentar países mais longínquos, como o Brasil. Antes do 25 de abril, a fuga à miséria e à pobreza, à guerra colonial e ao conservadorismo do Estado Novo eram os grandes impulsionadores da emigração.

A revolução e a adesão à União Europeia, constata a autora, vieram alterar as condições do país e a forma como se encaravam os emigrantes. Em consequência, a partir dos anos 80 começam a regressar muitos casais que haviam emigrado, “com Ourém a registar uma das taxas mais elevadas de regresso do país”. Criar negócios próprios, encontrar uma vida mais calma e social que a vivida nos subúrbios de Paris, a consciência de que os filhos se integrariam melhor no contexto social e território de origem dos pais, o acompanhamento de família já idosa, o ocupar finalmente a casa construída “na terra” com o dinheiro da emigração e uma noção que Portugal estava a desenvolver-se estão entre os motivos do regresso enumerados.

A agricultura foi sendo abandonada desde os anos 60, com o crescimento do comércio, da indústria e da construção civil, que teve no crescimento económico da então vila de Fátima o seu grande alicerce a nível municipal. Ana Saraiva refere que nos anos 90 a empregabilidade de Fátima (comércio, hotelaria e restauração) e Ourém (serviços) cresceu significativamente. A título de exemplo, a Cova da Iria teve uma explosão demográfica de 708,5% entre 1940 e 1981.

Assim, no dealbar do século XXI o concelho de Ourém encontrava-se num contexto inverso àquele que o dominara durante 30 anos: um grande regresso de emigrantes conjugado com o afluxo de imigrantes, sobretudo da Europa de Leste, que se instalaram em Ourém e Fátima.

A chegada de um novo ciclo de emigração ao país e a Ourém, semelhante ao dos anos 60, começa a pressentir-se em 2002, com a redução do investimento na construção civil. Com a crise financeira a rebentar em 2008, dá-se novo pico de saídas a partir de 2011, mas deste vez por todo género de trabalhadores/empresários da construção civil. França está mais uma vez entre as preferências, mas Ana Saraiva constata que a emigração dos últimos anos se dividiu por muitos mais países.

Ourém, no geral, contraiu-se, mas não a cidade de Fátima. Um certo padrão repete-se: quem parte são jovens solteiros com o ensino básico, gerentes de empresas insolventes que deixam a família em Portugal e até ex-emigrantes. Eventualmente as famílias reúnem-se lá fora ou entra-se num ciclo de viagens de ida e volta constante.

O caso de Espite

“Afirmar que Espite foi e ainda é uma terra de emigrantes é um lugar-comum, tal a evidência aos olhos de todos”, escreve Jacinto Gonçalves na sua monografia de Espite. O autor salienta o Brasil, desde 1822 até anos 30 do século XX, e a França, anos 60 e 70, como as preferências de destino dos habitantes locais nos últimos dois séculos.

“Sentindo-se como que encurralados no seu isolamento e miséria, nem sempre conseguindo angariar o seu sustento e da família, o espitense encontra na emigração a resposta às suas privações”, constata. Primeiro para terras de Vera Cruz, na sequência da abolição da escravatura, e a partir da I Guerra com um interesse crescente pelos gauleses, tendo integrado o Corpo Expedicionário Português (CEP) 27 espitenses, na Flandres.

Em 2011 a freguesia celebrou os seus 800 e lembrou este legado com a inauguração de um monumento ao emigrante. Chegou a ser uma das maiores freguesias de Ourém. Desmembrada sucessivamente, hoje é sobretudo floresta (50%) e zona agrícola (26%). Possui 1.104 residentes (census 2011) e 1.157 eleitores (recenseamento eleitoral, 2017).

*Bibliografia consultada:

Fernandes, Helena (2005) Dinâmicas Sociais e Económicas do Distrito de Santarém – Uma Abordagem Estratégica, s/e. Núcleo Distrital de Santarém: REAPN – Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal

Gonçalves, Jacinto (2011) monografia de Espite, 1ª ed. Espite: Junta de Freguesia de Espite

Saraiva, Ana (2017) Casas (Pós) Rurais entre 1900 e 2015, 1ªed. Lisboa: Edições Colibri

Legislação

Diário da República, de 17 de julho de 2017, 2.ª série – Nº136, Parte C, Número de eleitores inscritos no recenseamento eleitoral, até ao dia 15 de junho
de 2017

Bases de Dados

INE – Instituto Nacional de Estatística (https://www.ine.pt/)

Observatório da Emigração (http://observatorioemigracao.pt/)

PORDATA – Base de Dados do Portugal Contemporâneo (http://www.pordata.pt/)

 

 

 

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