Ourém | A extraordinária casa de Filipe Saraiva na Melroeira (c/video)

Houve quem dissesse que a casa tinha uma certa forma de igreja. A construção foi rápida e despertou bastante curiosidade na vizinhança, não fosse a magnitude da obra e o seu estranho desenho pentagonal, que Filipe Saraiva descreveu como o do imaginário de uma criança. Concebida a partir de módulos de betão, a moradia localizada na aldeia de Melroeira, freguesia de Nossa Senhora das Misericórdias, venceu os International Architecture Awards 2018, uma importante distinção no âmbito da arquitectura.

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Este foi o culminar de um processo que já havia passado por outras referências na imprensa britânica e americana e que deu a conhecer ao mundo uma casa construída em materiais atípicos, funcional e integrada de forma sustentável no seu ambiente. “A extraordinária casa da Melroeira” foi o mote para uma conversa com o arquiteto Filipe Saraiva, que decorreu na noite de sexta-feira na Casa do Administrador – Museu Municipal de Ourém. 

A aldeia é pequena e a casa é grande, mas ainda assim demos algumas voltas antes de encontrar o edifício, que possui a particularidade de alguma forma se camuflar com a natureza. O desenho, conceção, e também parte da construção (Filipe Saraiva está ligado à empresa ouriense Vigobloco), foram do próprio proprietário, que é arquitecto de profissão e possui um atelier em Ourém.

Utilizando o betão, o aço e a madeira, Filipe Saraiva edificou com pormenores variados a casa para a sua família, num estilo minimalista e a partir de uma perspetiva funcional próprios da arte contemporânea.

Ourém | A extraordinária casa de Filipe Saraiva na Melroeira (c/video)
Filipe Saraiva nasceu em França mas vive no concelho de Ourém desde a infância Foto: mediotejo.net

A casa é na prática um prisma de base pentagonal em betão negro que remete para a arquitectura industrial, com uma frente erguida em paralelos de madeira. O contraste, com fundo em vidro, oferece uma estranha sensação de equilíbrio, um pouco como toda a restante moradia, pensada mediante certos princípios de meditação das filosofias orientais.

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Filipe Saraiva, 46 anos, nasceu em França e veio ainda criança para o concelho de Ourém, tendo frequentado o ensino secundário em Leiria, no curso de Artes, e iniciado a licenciatura em Arquitectura na Universidade do Porto, formação que viria a concluir já na Universidade Técnica de Lisboa. “Sempre me fascinou criar espaços, sítios, que as pessoas possam usufruir”, confessou ao mediotejo.net.

Com dois filhos e uma vida profissional bastante agitada, Filipe Saraiva quis criar uma casa onde a família convivesse, numa base que respondesse de forma simples às várias necessidades do dia a dia e proporcionasse uma sensação de “acolhimento”.

Esta é a razão pela qual a sala, a cozinha e os acessos à garagem e aos quartos funcionam em espaço aberto.

Ourém | A extraordinária casa de Filipe Saraiva na Melroeira (c/video)
Filipe Saraiva também desenhou alguns dos móveis, nomeadamente do exterior Foto: mediotejo.net
Ourém | A extraordinária casa de Filipe Saraiva na Melroeira (c/video)
Alguns pormenores da moradia concebida por Filipe Saraiva Foto: mediotejo.net

O arquitecto desenhou ainda várias das peças de mobiliário, usando materiais como a madeira e a cortiça. Destes pormenores apercebemos-nos assim que nos sentamos no magnífico alpendre que constitui a frente da moradia, onde a mesa do chá é um cepo de árvore, as cadeiras são forradas a cortiça e uma antiga mesa de carpinteiro foi reconvertida em móvel de exterior.

De forma subtil, estas peças acabam por contar um pouco da história e das preferências de Filipe Saraiva, que narra com satisfação o trabalho de conceção de todo o conjunto e a sensação de conforto que este proporciona.

Já a estrutura é um contínuo de módulos de betão, com isolamento por dentro, que faz com que a casa se mantenha a uma temperatura agradável todo o ano, mesmo com as altas temperaturas a aquecerem as paredes exteriores. Filipe Saraiva criou ainda uma cisterna para aproveitar as águas pluviais, permitindo assim a manutenção de um pequeno lago que compõe a pitoresca escadaria em “nenúfares” de betão da entrada principal.

Em dias de nevoeiro, comenta, por vezes a casa “desaparece” na paisagem, tal é a sua integração na natureza. O prémio de arquitectura, atribuído pelo Museu de Arquitectura e Design de Chicago em conjunto com o Centro Europeu de Arquitectura Art Design e Estudos Urbanos, tem assim “um sabor especial”, uma vez que foi atribuído à sua própria casa.

Aqui, o arquiteto deu completamente asas à sua imaginação. “O meu único limite foi o orçamental”, confessa.

Ourém | A extraordinária casa de Filipe Saraiva na Melroeira (c/video)
“nenúfares” em betão apontam o percurso pelo jardim Foto: mediotejo.net
Ourém | A extraordinária casa de Filipe Saraiva na Melroeira (c/video)
Prisma em betão negro é finalizado por paralelos em madeira que compõem a frente da moradia Foto: mediotejo.net

O uso do betão deveu-se em parte à sua ligação à empresa Vigobloco, que vende precisamente pré-fabricados de betão, mas Filipe Saraiva frisa as vantagens do material, nomeadamente a versatilidade, a solidez e durabilidade e os menores custos de manutenção.

“Sempre fui um apaixonado por sistema de construção alternativos”, admite, além do que atualmente se começam a vencer preconceitos do passado e a utilizar-se cada vez mais este tipo de soluções.

A casa, adianta posteriormente, foi ainda pensada de um ponto de vista de redução de consumos energéticos. Com bastantes entradas de luz e o privilégio pelo branco no interior, há pequenos pátios internos que passam completamente despercebidos de quem apenas vê um grande bloco por fora.

Ourém | A extraordinária casa de Filipe Saraiva na Melroeira (c/video)
Moradia tem um conjunto de pequenos pormenores da autoria do arquiteto Foto: mediotejo.net

Mais de um ano depois da família se mudar para a Melroeira, Filipe Saraiva esteve em Atenas (Grécia) no dia 27 de setembro para receber o International Architecture Award 2018, na categoria “Private Homes”. A vitória não seu deveu a uma candidatura ao concurso, explicou ao mediotejo.net.

A casa já havia integrado uma listagem do site “ArchDaily” e sido classificada como “Casa do Ano”, surgindo posteriormente mencionada como “Casa da Semana” no jornal britânico “The Independent”. Foi também mencionada no jornal norte-americano “Wall Street Journal”. A nomeação para o prémio foi assim uma surpresa.

O projeto “Casa da Melroeira” integrou também a exposição “The City and the World”, que começou em setembro de 2018 em Atenas e terminou a 21 de outubro em Chicago (EUA). A Câmara Municipal de Ourém aprovou por unanimidade no mês de setembro atribuir um voto de reconhecimento ao arquiteto.

*publicado em setembro de 2018, republicado em março de 2019

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