“O encanto das cegonhas”, por António Matias Coelho

Foto: Ambiente Magazine

Andam por aí, aos pares, às vezes aos bandos, procurando alimento nos arrozais ou então voando, no seu jeito peculiar, grandes asas abertas pairando sobre os nossos olhos que as seguem.

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São aves queridas da nossa gente que as acarinha e protege por ver nelas bons sinais e acontecimentos felizes. Trazem-nos no bico, de França e de outros lados, os bebés que esperamos para nos rejuvenescer e permitir sonhar com um futuro melhor.

Seguem princípios respeitáveis, como se fossem pessoas de muito sólida formação: são de um único amor na vida, para os filhotes extremosas, lutadoras pela sobrevivência e vizinhas simpáticas que abalam com o frio mas voltam sempre na primavera seguinte.

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Nos ramos dos eucaliptos, nas torres e chaminés, nos braços dos postes de eletricidade, em tudo o que seja alto, fazem o ninho como quem constrói uma sólida habitação. E aí ficam, olhando o mundo de cima e atraindo o nosso olhar.

Os antigos gregos diziam que Antígona, irmã de Príamo, rei de Troia, sendo muito vaidosa, se gabou à deusa Hera da beleza dos seus cabelos e que Hera, roída de inveja, os transformou em serpentes, os mais repugnantes dos répteis. Mas Zeus, que era quem superiormente mandava no universo dos deuses, apiedou-se de Antígona e resolveu fazer dela uma cegonha[1], a mais graciosa das aves.

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O Antigo Testamento considerava a cegonha abominável[2], não devendo por isso ser comida, mas há outras passagens da Bíblia que se referem a ela como ave simpática e de bom augúrio[3].

Na Europa medieval acreditava-se que as cegonhas não só alimentavam as crias como também os pais envelhecidos e no Extremo Oriente viam nelas um símbolo da imortalidade. Até ao século XVI persistiu no Ocidente o costume de levar em conta o comportamento das cegonhas em caso de condenação à morte: se uma delas pousasse por perto do lugar onde se tinha armado o cadafalso ou voasse incessantemente em redor da árvore onde se faria o enforcamento, deveria ser indultado o pobre que ia morrer porque esse pousar ou esse voar da cegonha eram uma mensagem de Deus, um sinal aos homens de que tinha sido injusta a humana condenação.

Símbolo da energia feminina e da fertilidade, as cegonhas surgem na nossa cultura associadas à maternidade e ao nascimento, dizendo-se que trazem no bico, de sítios muito distantes, os bebés que vêm nascer à nossa terra. Esta lenda tem relação sobretudo com a circunstância de as cegonhas serem, em regra, aves de arribação que chegam a Portugal no início da primavera, o tempo do renascer da natureza.

São animais de grande dimensão. Uma cegonha adulta pode medir mais de um metro de altura e pesar à volta de três quilos, chegando as asas a ter dois metros de envergadura. Vivem em campos abertos, nas proximidades de lagos e lagoas, em zonas pantanosas, nas várzeas, nas pastagens e, como acontece por exemplo na ribeira de Ulme, nos arrozais. Procuram alimento nesses ambientes, especialmente em águas pouco profundas, como nos canteiros do arroz, valendo-se das patas compridas e do longo bico avermelhado. Comem pequenos vertebrados, como rãs, cobras e peixes, bem como minhocas, insetos, cigarras e gafanhotos, desempenhando um papel importante no equilíbrio dos ecossistemas.

Foto: Wikipedia

Não há infidelidade entre as cegonhas que são absolutamente monogâmicas. Uma vez constituído, o casal mantém-se unido a vida inteira. O ritual de acasalamento é muito exuberante e ruidoso. As cegonhas não têm faringe e por isso não emitem sons vocais, mas produzem sons batendo continuadamente com os bicos, a isso se chamando gloterar. Tendo encontrado a companhia ideal para construir o ninho e a vida, macho e fêmea lançam-se num verdadeiro concerto de bicos que batem, inclinando a cabeça para trás, assim fazendo um ao outro juras de amor para sempre.

Constroem o ninho em conjunto, ela e ele. É tarefa árdua que exige muito voar. De onde os encontram, trazem abundante quantidade de ramos que entrelaçam, erguendo uma estrutura grande, complexa e resistente que por norma é utilizada em anos sucessivos. No entanto, sendo árdua a tarefa, a construção do ninho demora, em média, apenas uma a duas semanas. Fazem-no sempre nas alturas. Aqui nestas terras é possível vê-los nos grandes eucaliptos, onde às vezes se juntam numerosas colónias, nos postes de alta tensão e nas chaminés de casas e fábricas abandonadas. Com um apurado sentido de propriedade e um forte instinto de defesa, o casal protege o ninho de forma aguerrida em caso de ataque de eventuais inimigos.

Em março e abril dá-se o acasalamento dos casais novos. A fêmea põe então uma única postura anual de três a cinco ovos. A incubação dura cerca de um mês, nascendo os filhotes ainda na primavera. Pai e mãe tratarão deles, dividindo tarefas como é próprio de casais felizes, e protegem-nos com o maior desvelo durante o tempo em que crescem no ninho. Se chover, abrem as enormes asas como se fossem um guarda-chuva gigante para com elas protegerem os pequenitos. Ao cabo de dois meses, já em pleno verão, as crias estão prontas a voar e na próxima primavera procurarão companheiro ou companheira para acasalar, dando seguimento à vida da espécie.

A mais comum entre nós é a cegonha-branca. Vem-lhe o nome da linda cor com que se apresenta, toda alva à exceção das penas das asas que são pretas e das patas e do bico que são avermelhados.

Dizem os livros que as cegonhas são aves migratórias. Eram. Mas o mundo, mesmo o mundo das cegonhas, está de facto muito mudado. Até há uns anos, chegavam cá na primavera, ficavam durante os meses quentes e, em tornando os dias frios, iam-se embora, invernando em África que é terra de maior calor. Mas as variações climáticas próprias do aquecimento global e a abundância de alimento na nossa terra fizeram-nas mudar de hábitos e há muitos casais que por cá ficam o ano inteiro, a vida inteira.

Na década de ’80 a espécie passou uma fase má, com uma acentuada diminuição do número de indivíduos. A introdução da monda química, feita por avioneta sobre os arrozais, descarregando grandes quantidades de um produto que mata as ervas e sabe lá a gente mais o quê, não há de ter sido alheia a este fenómeno na nossa zona. Nessa altura, face à crescente mortandade, chegaram a ser adotadas medidas para proteger as cegonhas. Atualmente o problema está ultrapassado e veem-se por aí às dezenas, cada vez mais, marcando a paisagem onde vivemos nós e elas. Parece que um dos fatores que ajuda a explicar a recuperação tem a ver com a proliferação dos lagostins-vermelhos da Luisiana, uma espécie exótica infestante que as cegonhas apanham e comem com grande satisfação e proveito.

Fazem-se contagens de cegonhas e dos seus ninhos como se fazem de pessoas e das suas casas. De dez em dez anos também. Em 1994, o número de cegonhas-brancas no mundo era de cerca de 166 000, havendo em Portugal uns 3300 ninhos. Em 2004, nos últimos censos de que tenho conhecimento, o número de ninhos ocupados no nosso país tinha subido para 7684, o que significa um aumento para mais do dobro em apenas uma década. O distrito de Santarém, com 804 ninhos, é um dos que conta mais cegonhas, logo a seguir a Beja, Évora e Setúbal. É, pois, ave do sul a cegonha. É aqui a sua terra[4].

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[1] Ovídio, Metamorfoses
[2] Levítico, 11, 13-19; Deuteronómio, 14, 12-18
[3] Zacarias, 5, 9; Job, 39, 13
[4] Este texto foi originalmente publicado no meu livro ‘Os Abrigos da Memória’, editado pela Câmara Municipal da Chamusca em 2012, p. 93-97.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Excelente artigo/crónica sobre as graciosas cegonhas. Obrigado António Matias pelos bons textos com que nos brindas. Também a propósito da dedicação das cegonhas aos seus filhos, depois de algum tempo de ensino e aprendizagem sobre as coisas da vida dr cegonhas como alimentação, procura de abrigo, solidariedade entre a colónia, chegs o tempo da emancipação, que ocorre pelo S. João. Na nossa terra, já o povo dizia sobre a maioridade dos seus filhos e a emancipação que ” pelo S. João cegonhos ao chão” que significa que mesmo que os filhotes não quisessem sair do ninho eram encorajados a fazê lo. Exvelente lição para os homens. Abraço.

  2. Belo texto, parabéns.
    Durante dias passados, repentinamente, desapareceram dezenas de cegonhas, em Castelo Branco, mortas ou vivas, quem sabe ?
    Na cidade da Guarda, já la vai mais de um mês, desapareceram, o casal e os filhos, mortas ou vivas , quem sabe ?

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