“Maria de Lurdes Pintasilgo: a coragem do pensamento”, por Helena Pinto

Maria de Lourdes Pintasilgo nasceu em Abrantes, em 1930

Maria de Lurdes Pintasilgo nasceu a 18 de Janeiro de 1930, em Abrantes. Passaram 88 anos sobre o seu nascimento e 14 anos sobre a sua morte (10 de Julho de 2004).

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Maria de Lurdes Pintasilgo é uma figura ímpar da vida política, cultural, social e da cidadania no nosso país, cuja actividade ultrapassou as fronteiras. Não foi só a primeira mulher a ser ministra, primeira-ministra, candidata a presidente da república, é mais do que isso. Maria de Lurdes era uma pensadora. Deixou-nos vários legados, vários exemplos, mas gosto de a recordar como pensadora e gosto também de recordar a sua coragem – intelectual e física – para assumir lugares nunca antes ocupados por mulheres. O dia em que apresentou o programa de governo como primeira-ministra, num parlamento dominado por homens não foi fácil…

Em 2004, o ano da sua morte, teve lugar em Lisboa, um Seminário Evocativo do I Congresso Feminista e da Educação (1), que se tinha realizado 80 anos antes – a 4 de Maio de 1924 no salão da Associação de Socorros Mútuos dos Encarregados de Comércio de Lisboa, organizado pelo Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, presidido por Adelaide Cabete. Foi um acontecimento muito importante, mas quero recordar aquela que foi a última participação pública de Maria de Lurdes Pintasilgo. Integrei a comissão promotora deste Seminário e recordo o seu contributo em dois momentos distintos do programa. O primeiro, numa mesa redonda sobre as Novas Cartas Portuguesas, com as autoras (2) (Maria de Lurdes Pintasilgo prefaciou a 2.ª edição do livro, publicada em 1974) e o segundo, a encerrar o Seminário, numa entrevista realizada por Anabela Mota Ribeiro.

Ao longo da sua vida teve sempre um compromisso, assumido, com as mulheres e com os seus direitos, com o feminismo. Evitava falar da “mulher”, falava das “mulheres”: “evito deliberadamente o uso do singular para tornar explicita a pluralidade das situações, das histórias, das mundivivências” (3).

No mesmo texto, publicado em 1999, podemos ainda ler: “(…) se sobretudo nas últimas décadas, poucos se atreveriam a escrever os exactos encómios e diatribes dos seus antepassados sobre as mulheres, os factos aí estão a revelar que, se houve progresso, talvez ele tenha mais a ver com a contenção das palavras e até, é justo dizê-lo, com a evolução das leis, do que com as práticas directas ou subtilmente discriminatórias que atingem ainda hoje as mulheres. O que não se é capaz de dizer porque se sabe não ser ‘politicamente correcto’, recalca-se e, na primeira ocasião, rebenta como violência física ou como displicência verbal, como discriminação social e económica ou como tentativa de remeter à invisibilidade as mulheres que ousam viver a igualdade”. (4) Podemos afirmar que aqui reside uma das questões com que hoje ainda nos defrontamos.

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Não é possível neste artigo evocar todo o pensamento de Maria de Lurdes Pintasilgo, nem sequer todo o seu percurso. Os direitos das mulheres é uma parte de um vasto pensamento que vai do papel da Igreja e da fé, à política, à economia, ao ambiente, até questões do “como fazer”, “como mudar”, as relações entre o público e o privado,… sempre em permanente questionamento.

Mas é possível dizer que esta história está por fazer e que urge não continuar a esquecer todo o seu legado. Não um acto de evocação, não para lhe dar o lugar que merece na história recente – o que seria suficiente – mas sobretudo, porque o seu legado – feito de muitas perguntas – nos continua a interpelar para a busca de soluções, nos trata por tu, como sujeitos e sujeitas da mudança.

O projecto apresentado em Abrantes no passado dia 18 de janeiro, promovido pelo GRAAL (associação de que foi fundadora), pela Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres e pela Fundação Cuidar o Futuro, com o apoio da Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade e da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (cujas origens remontam à Comissão da Condição Feminina fundada por Maria de Lurdes Pintasilgo) propõe um ano de iniciativas – terminará em Julho 2019 com uma homenagem nacional na Assembleia da República. Será uma excelente oportunidade para divulgar o seu legado, mas será sobretudo uma oportunidade que não podemos deixar passar, para fazer o caminho para as respostas aos múltiplos desafios que nos deixou.

Helena Pinto

 

(1)    O Longo caminho das Mulheres, Feminismos 80 anos depois – Actas do Seminário Evocativo do I Congresso Feminista e da Educação – 2007 – Publicações D. Quixote

(2)    Maria Teresa Horta, Isabel Barreno e Maria Velho da Costa (As três Marias). Na Mesa redonda participaram também: Maria de Lurdes Pintasilgo, Isabel Allegro de Magalhães e Ana Luísa Amaral

(3)    Prefácio do Livro de Regina Tavares da Silva “A Mulher – Bibliografia Portuguesa Anotada (1518-1998), publicado em 1999

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