Quando se fala no “Museu de Mação”, a primeira coisa em que se pensa é na arqueologia, mas o museu municipal que ganhou novo fôlego no início deste milénio é muito mais do que isso. Conversámos com o seu diretor, Luiz Oosterbeeck, sobre o projeto que tem como elemento basilar a comunidade local e que se afirmou além fronteiras, descobrindo que, na sua essência, o Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado do Vale do Tejo é um espaço sobre pessoas, com pessoas e para pessoas.
Um dos marcos mais recentes do museu municipal de Mação foi a inauguração, em janeiro de 2015, da exposição permanente “Gestarte – Do Gesto à Arte: Criar, Fazer, Comunicar” pelo então secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier. O gesto surgia como ponto central, focado nas primeiras mãos que tocaram o concelho e chegaram até aos nossos dias através de muitas outras.
Marcámos encontro com Luiz Oosterbeeck, diretor deste equipamento cultural no edifício localizado no Largo Infante D. Henrique, e o tempo voou, oscilando entre a Pré-História, os primórdios do museu municipal, as suas memórias de vida, a sociedade atual e o futuro. Uma viagem longa na qual percebemos que neste museu as épocas estão ligadas por diferentes gestos humanos, que moldam um destino comum.
GESTOS FUNDADORES

O Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado do Vale do Tejo ganhou esta designação já no novo milénio, mas a história do espaço ligado deste a sua génese à arqueologia começou muito antes, quando João Calado Rodrigues, maçaense com especial predileção pela arqueologia, o idealizou na década de 40. Começava então a história do Museu Municipal Dr. João Calado Rodrigues, dedicado à pesquisa e partilha da Pré-História do concelho.
O “sonhador” não chegaria a ver a ideia materializada, mas o resto da população de Mação sim, com a abertura ao público, em 1986, pelas mãos do município e de Maria Amélia Pereira. Surgiram as áreas da etnologia e da arte e o espaço passaria a ocupar o lugar do terceiro museu municipal de arqueologia mais antigo do país. Os anos foram avançando e as portas abrindo e fechando até que a viragem do milénio trouxe a descoberta de uma gravura rupestre paleolítica com mais de 20 mil anos, na margem do rio Ocreza.
A descoberta de uma gravura rupestre paleolítica com mais de 20 mil anos, na margem do rio Ocreza, trouxe Luiz Oosterbeeck ao concelho
A visão de João Calado Rodrigues sobre a importância da história de Mação na história do resto do mundo confirmava-se mais de meio século depois e a antiga IP6, hoje A23, trouxe Luiz Oosterbeeck e a sua equipa até ao concelho. Poderia ter sido apenas mais um dos muitos projetos a integrar o vasto currículo do especialista, mas não – e o elemento que acabou por gerar o atual Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado do Vale do Tejo foram as pessoas.
GESTOS PARTILHADOS

Às pessoas que passaram pela região em tempos remotos, deixando para trás provas da sua existência através dos artefactos que integram o acervo do museu, juntaram-se as da comunidade local do presente. Estas surpreenderam Luiz Oosterbeeck e o professor coordenador do Instituto Politécnico de Tomar (IPT) relembra o dia em que contactou os responsáveis autárquicos para a apresentação da figura rupestre aos meios de comunicação social nacionais.
“Estas pessoas [em Mação] têm o sentido das prioridades na vida, que é uma coisa
difícil de encontrar.”
À hora marcada, nem um elemento apareceu para falar em frente às câmaras de televisão. A razão não era o contacto que admite ter sido feito com pouca antecedência, mas o idoso de uma das freguesias do concelho, cuja idade avançada merecia uma homenagem. O executivo tinha mantido a agenda programada, deixando indicações de que a equipa de Luiz Oosterbeeck teria todo o apoio dos restantes trabalhadores municipais.
Passaram-lhe diversos pensamentos pela cabeça, entre eles o de que “isto não existe”… Acabavam de entregar “apoios da câmara a um indivíduo que nunca viram na vida e que nem se deu ao trabalho e ao respeito de os contactar com antecedência”.
A opção de ficar por uma aldeia local em vez de obter protagonismo nacional solidificou-se: “Estas pessoas têm o sentido das prioridades na vida, que é uma coisa difícil de encontrar.”

O elo estava criado e mantém-se quase duas décadas depois. Na altura, a autarquia contrapôs o pedido inicial para que os sítios arqueológicos fossem protegidos com o desafio da equipa assumir a coordenação do museu, uma vez que a diretora anterior já se encontrava aposentada. Muitas das caras que a população hoje conhece bem começaram então a fazer parte do quotidiano da vila.
Nunca foram muitas, a média rondará as dez, e apesar do número ser reconhecido como insuficiente, asseguram um projeto que procurou atender “às expectativas das pessoas de Mação” e a intenção de atrair pessoas de fora com algo “que não pode ser mostrado noutros locais, e isso é o património arqueológico”.
Os primeiros anos focaram-se nesta visão, com o envolvimento dos habitantes na discussão pública sobre o que deveria ser o museu, através da realização de um inquérito a 880 pessoas, mais de 10% da população do concelho. Quanto aos visitantes, o número já superou os cem mil.
GESTOS PENSADOS

A noção de que “Mação é diferente” é recorrente ao longo da conversa com Oosterbeek. Ficámos a conhecer os quatro pilares do projeto que tem conquistado espaço além das paredes do edifício localizado no Largo que a população conhece por Largo da Feira. A arqueologia surge em primeiro lugar seguida, sem ordem prioritária, pela arte, a etnografia e a arquitetura e território.
A aposta inicial incidiu no primeiro devido à experiência da equipa, apesar dos quatro temas estarem pensados desde o início. A arte, por sua vez, é o pilar menos desenvolvido. Uma das razões apontadas é a falta de espaço, que deverá ser solucionada com a remodelação do museu, prevista para breve, permitindo organizar exposições temporárias com os acervos de arte sacra existentes, bem como de arte contemporânea.
Ainda assim, a ligação milenar do concelho à arte tem sido perpetuada nos últimos anos através da realização de algumas iniciativas, numa ótica de colaboração com entidades locais e nacionais. Entre elas encontram-se a Faculdade de Belas Artes de Lisboa, o Instituto Politécnico de Tomar, a Galeria do Centro Cultural Elvino Pereira e a Escola de Pintura “Lápis de Cor” de Mação (Projeto AMARTE).
O terceiro pilar está associado às questões da etnografia, a que Luiz Oosterbeeck prefere chamar “os objetos e os saberes da memória”, na medida em que pensa menos na “perspetiva do investigador” e mais “da organização das comunidades”.
Nesta lógica, foram criados os Espaços de Memória em diversas freguesias do concelho, que ganharam maior dinamismo a partir de 2010. Estes locais “de memória e de futuro”, acrescenta, ajudam a “imaginar como as coisas terão sido no passado” e fazem refletir sobre as mudanças ocorridas desde então.

O primeiro Espaço Memória, criado em Cardigos, foi estruturado com os habitantes locais, entre eles o mais idoso, o Sr. Luís, lembrado como “uma pessoa extraordinária”. Em breve surgirá o espaço de Ortiga, em resposta ao “desejo da comunidade” em ter onde reunir e partilhar os seus objetos de memória. A empreitada na antiga escola primária já foi adjudicada e as duas salas receberão um Espaço Etnográfico com a mesma filosofia, ou seja, gerido pela comunidade com o apoio técnico do museu.
Foram criados Espaços de Memória em diversas freguesias do concelho, para ajudar a “imaginar como as coisas terão sido no passado” e para refletir sobre as mudanças ocorridas desde então
As áreas da arquitetura e território formam o quarto pilar, com alguns estudos feitos no primeiro domínio e diversos programas de gestão no segundo, desenvolvidos desde 2001 no âmbito do trabalho realizado em conjunto com o IPT. Mais tarde surgiu o polo do Centro de Investigação, o CGEO – Centro de Geociências, reconhecido pela UNESCO e que envolve a Universidade de Coimbra, o Instituto Politécnico de Tomar, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e o ITM – Instituto Terra e Memória.
A última vertente, diz, é “a menos visível em Portugal, mas a mais forte internacionalmente” com projetos, sobretudo, no Brasil, e trabalhando com equipas italianas, espanholas, lituanas, chinesas e de outros países. A coordenação, assegurada na maioria dos casos, assenta numa lógica de “mudar o modelo de gestão do território acabando com a divisão entre cultura, educação e economia e fazendo uma formação de toda a população numa lógica diferente de discussão permanente”.
GESTOS MULTICULTURAIS

Cada pilar tem evoluído de forma diferente, muitas vezes condicionado pelos recursos financeiros e humanos que são geridos todos os dias com base numa estratégia que Luiz Oosterbeeck simplifica: “Não queremos fazer as coisas mal feitas, aquelas que fazemos são para funcionar”.
Em suma, aposta-se na qualidade em detrimento da quantidade e, para tal, trabalha-se com a convicção de que “toda a gente corre, nós não corremos. É preferível fazer devagar, para fazer bem”.
Toda a gente corre, nós não corremos. É preferível fazer devagar, para fazer bem.
Com tempo, surgiu o IMT – Instituto Terra e Memória, resultante da parceria entre o IPT, a autarquia maçaense, o Centro Europeu de Investigação da Pré-História do Alto Ribatejo (CEIPHAR) e o Centro de Interpretação de Arqueologia do Alto Ribatejo (CIAAR). A associação sem fins lucrativos foi fundada em 2010, cinco anos depois da reabertura do museu ao público, centrado na formação e na investigação que granjearam reconhecimento internacional.
A missão definida há oito anos assenta na pesquisa e formação em arqueologia, gestão do património cultural e gestão do território, sendo posta em prática a partir do edifício da antiga Escola Primária de Mação, localizado no Largo dos Combatentes.
Aqui encontram-se parte da reserva das coleções, os serviços educativos que realizam regularmente oficinas ludopedagógicas assentes na experimentação, junto da comunidade escolar e os laboratórios.

A estratégia do ITM foi distinguida no passado mês de maio pela APOM – Associação Portuguesa de Museologia com o Prémio Instituição. O galardão entregue à Câmara Municipal de Mação e ao ITM por Marcelo Rebelo de Sousa no Museu Nacional dos Coches juntou-se ao de Projeto Internacional, atribuído pela mesma entidade em 2014, e confirmando o sucesso do trabalho desenvolvido em mais de uma dezena de países.
No Largo Infante D. Henrique, cujo andar de baixo se encontra atualmente encerrado para obras de reabilitação, mantiveram-se exposições, os serviços administrativos do museu e a biblioteca especializada. Esta, tal como os laboratórios, é frequentada pelos estudantes que frequentam os cursos de mestrado e doutoramento.
Segundo Luiz Oosterbeeck, o objetivo passa por torná-la numa “referência mundial” nas áreas de especialidade, sobretudo na vertente arqueológica em que se destaca como a “terceira melhor” do país e a “melhor” em domínios como a arte rupestre.

Esta aposta integra a intenção de criar em Mação um Centro de Formação com “um nível muito avançado” e um dos investimentos previstos é no digital, nomeadamente com a aquisição de novos computadores. “Um aluno que queira fazer um mestrado, pode vir para Mação e não precisa de sair porque não há nada de fundamental, nem de especialidade, que ele não encontre aqui”.
Todos os anos rumam a Mação dezenas de estudantes de todo o mundo e o projeto do museu acabou por contribuir para uma cultura de diversidade em Mação, onde é recorrente a população cruzar-se com estrangeiros na rua. Os estudantes ficam seis meses no concelho e as suas rotinas acabam por se integrar no quotidiano dos habitantes. A aceitação não foi pacífica nos primeiros tempos, recorda, e ao fim de quatro anos ainda se debatia se “o projeto do museu tinha sentido”.
GESTOS PESSOAIS

Falar de diversidade remete-nos para a história de vida do diretor científico do Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado do Vale do Tejo. Filho de pai holandês e de mãe indiana, Luiz Oosterbeeck assume que na infância e na adolescência “o normal era as pessoas serem diferentes”.
Às diferentes nacionalidades dos pais, juntavam-se o padrinho suíço, a madrinha que viajava pelo mundo como hospedeira de bordo e as ideologias políticas antagónicas de alguns membros da família.
Filho de pai holandês e de mãe indiana, Luiz Oosterbeeck assume que na infância e na adolescência “o normal era as pessoas serem diferentes”
Nasceu na Holanda, mas as primeiras memórias são as dos tempos passados no Bairro Azul, em Lisboa, para onde a família se mudou quando tinha 10 meses de idade. Na adolescência, assistiu ao crescimento de quase 10% da população, com o regresso dos chamados “retornados”, na década de 70. Entre eles vieram muitos muçulmanos e cedo se habituou a conviver com os “homens de saias” com que os outros gozavam.
Foi ali perto, no Bairro de São Sebastião da Pedreira, na altura o “mais conservador de Lisboa”, que se criou a Mesquita Central de Lisboa e a decisão dos responsáveis políticos da altura espelhava a cultura de diversidade que diz já ter existido ao nível da administração central e hoje assenta numa visão economicista, semelhante à existente no resto da Europa, no que respeita aos refugiados.

A diferença deve ser parte natural da vida, considera. E uma pessoa culta, acrescenta, não é o “maluco que lê livros que mais ninguém lê”, mas sim alguém “atento ao que se passa à sua volta e genuinamente interessado na diversidade”.
À noção de diversidade junta-se a de proximidade, a que se gera entre as pessoas “que se falam”. A mesma que diz resistir no “bairro da mãe” e existir em Mação, onde não descarta viver no futuro, depois de assumir ser difícil definir qual é o “seu lugar”.
Tendo completado os 58 anos de vida no passado dia 24 de agosto, Luiz Oosterbeeck revela-se uma pessoa prática e assume ter chegado “a um ponto” em que não quer “perder tempo” com títulos. Prefere rodear-se das pessoas em quem confia.
O ensino que motivou a ida para o Instituto Politécnico de Tomar, na década de 80, chegando a morar na cidade templária até regressar para Lisboa, é defendido como “um investimento a prazo” e não deve ser encarado “como um mercado”.
Acrescenta que as universidades, em vez de ficarem reféns dos rankings, deviam preparar pessoas “felizes”, e “para a vida real”, e não focar-se na discussão dos números, nem promoverem uma educação que afunile os conhecimentos.
A arqueologia, à qual está inquestionavelmente associado – não só em Mação, mas no resto do mundo que percorre regularmente para reuniões, conferências ou trabalhos de investigação – reflete a importância do cruzamento de saberes.
As universidades, em vez de ficarem reféns dos rankings, deviam preparar pessoas felizes, para a vida real
Surgiu-lhe “por revelação” quando seguiu para uma escavação arqueológica em França, no final do primeiro ano do curso de História, e se deparou com “uma universidade instalada numa escavação”. Acabou por fazer um doutoramento em Arqueologia, área de conhecimento que diz combinar três campos que o interessam “muito”: as ciências humanas, as ciências naturais e a engenharia. A carreira que começou na área das Letras seguiu outro rumo, sorrindo quando diz: “depois gostei e a vida foi assim”.
A mesma vida que o levou até Mação e a assumir a responsabilidade de um museu municipal que começou a ganhar forma em 1943 e, apesar dos altos e baixos, não perdeu a sua principal vocação. Perante as visões alheias que oscilam entre quem vê estes espaços como “caixas para guardar coisas velhas” e quem tenta transformá-los em “salas de espetáculos”, defende um museu focado em “estudar e formar as pessoas para terem um olhar erudito sobre a realidade”.
Um local que assegure meios para que todos “entendam o que está à sua volta”, assumindo-se como um espaço de onde é possível falar sobre “o que quer que seja, conversar”, mantendo-se rigoroso.
“Se as pessoas vierem ao museu para isso, serve-lhes para a sua vida. Não é para serem arqueólogos, ou algo do género. É para serem cidadãos, no sentido de viverem a vida da ‘cidade’ e terem uma visão crítica sobre ela”.
*Entrevista publicada em agosto de 2018, republicada em janeiro de 2019
