Mação | A brutal violência do fogo onde “parece que até a terra arde” (REPORTAGEM)

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Cardigos, manhã de rescaldo depois de uma noite de terror. No lugar das chamas instalou-se agora o negrume, o intenso cheiro a queimado, os esqueletos de árvores e postes a fumegar, cujas bases ainda continuam a ser moídas por pequenos focos de lume.

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O alerta de calor e o cansaço das noites de sobressalto parece ter afastado as pessoas da rua. Ainda assim, há quem ande a fazer contas à vida, vendo o que o fogo levou das suas propriedades, pela segunda vez. A última, que ninguém esquece, foi há precisamente 16 anos, em julho de 2003.

Durante a manhã desta segunda-feira, entramos pela Fonte Boa e Amêndoa, seguimos no cruzamento em direção à vila de Cardigos. Os meios estão dispersos por vários pontos, aproveitando a calmaria. O calor já aperta, com o céu encoberto por um manto de névoa, sustendo o fumo que ali ficou, à passagem do fogo.

Passando a vila, e a envolvente da praia fluvial intacta, seguimos caminho até passar Chaveira, Casais de São Bento e em Portela dos Colos viramos à esquerda para as Casas da Ribeira de Cardigos. Até aqui, gabamos o verde que resiste, mas temendo que ainda não esteja nada a salvo. Os receios ficam suspensos à passagem dos carros da GNR, da Proteção Civil, dos Comandos de corporações de bombeiros. Vieram de muitos pontos do país: Alcanede, Alhandra, Montijo, Fátima, Pedrógão Grande, Pernes, Penacova… tantos que é difícil apontar.

A descer para Casas da Ribeira, e enquanto encostamos à beira da estrada à procura de orientação, pisando a entrada de terrenos fustigados no dia anterior, de olhos postos naquele plano cinzento, arrasado, onde nem as árvores de fruto se aguentaram… algo chama a atenção.

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Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Uma senhora, de chapéu de palha na cabeça, com uma camisa vestida para proteger do sol, saia, botas calçadas e enxada na mão, anda no fundo da horta, olhando em volta como que a tomar consciência do que ali se passou.

Deixamos de a ver. E, intrigados, continuamos caminho, para uns metros à frente… voltarmos atrás e lá a encontrarmos novamente.

Maria Celeste Lopes, de 77 anos, quis regressar de manhã ao seu terreno para saber se algo se tinha safado ao lume. Tinha a horta, herdada dos pais, e, mesmo ao lado, um pedaço de pinhal. As árvores de fruto e as oliveiras também por ali se viam, tostadas pelas labaredas.

Um sistema de ligação de água a uma nascente ali no terreno, obra de há 50 anos feita pelo falecido pai, era o que valia a Maria Celeste para regar as plantas e o quintal lá na aldeia. O lume deu cabo de tudo.

“Agora fiquei sem nada. Neste terreno aqui já não fazíamos sementeira, agora é mais à porta de casa. Mas no tempo do meu pai fazíamos”, diz, acrescentando que a mãe ainda está viva, contando já 102 anos.

“Os meus irmãos foram todos à vida deles, e só eu é que fiquei por aqui. E apesar não podermos fazer uso da terra, mandávamos lavrar isto de vez em quando, para manter as árvores… Antigamente era uma horta muito cheia de milho e outras coisas, tudo verdinho. Agora…”, suspira, encolhendo os ombros.

O azeite que tirava daquela terra, com a colheita ano após ano, está comprometido. As oliveiras foram castigadas de tal forma que, só de as olhar, Maria Celeste fica de voz embargada e sem reação.

“Olhe ali aquela, tão carregadinha que estava, e agora toda caída no chão. É uma tristeza, carregadinhas de azeitona… é uma tristeza”, insiste, talvez na esperança de que se o disser em voz alta possa doer menos a dura realidade que os olhos veem.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

“Isto parece que foi uma comemoração do aniversário do outro incêndio que passou, em 2003. Fez 16 anos no sábado… Agora foi pior. À volta da povoação foi horroroso, com um fogo muito violento.”

Já poucos resistem em Casas da Ribeira. “Às vezes ponho-me a contar… devemos ser umas vinte e tal pessoas”, diz. Nota-se o seu cansaço, depois de dois dias de aflição. “Começaram a arder umas casas que já estavam em ruínas, eu fiquei estafada a acarretar baldes de água para não se propagar às outras casas… Foi uma estafa…! E não resolvemos nada!”, admite, com ar desolado.

E logo lhe assalta a memória um episódio triste vivido pelo vizinho. “Tive muita pena dele. Só há pouco é que soube, porque até na aldeia não sabemos ainda nada uns dos outros… Mas ele tinha lá o carro, e até me deu boleia para eu ir a Cardigos ontem, e deixou-o em frente à minha casa, num largo pequeno. Deixou-o ali toda a tarde. À noite, o que é que lhe havia de dar! Pegou no carro e foi pô-lo num barracão que lá tem, onde o costuma guardar. De noite, estava por ali algum resto de lume, pegou-se ao barracão e ardeu tudo. E um depósito de gás também… foi tudo e não sobrou nada”.

Ainda assim, do mal o menos, diz, pois na aldeia ninguém ficou ferido, e ficaram por ali, sem ser necessário abandonarem as suas casas. Naquela povoação, que “até dizem que é a que tem estado mais limpa”, afiançou Maria Celeste, não havia muito a fazer. “Mas pronto… quando é assim, pega-se em todo o lado! Parece que até a terra arde!”, atira, convicta das suas palavras, junto a um feixe de lenha que, por incrível que pareça, ali ficou por arder.

“Vinha por aqui ver se consigo pôr uma nova mangueira, mas já é muito difícil e fica muito caro, porque a casa ainda é longe daqui. Estou à espera que o meu irmão venha no fim-de-semana para ver o que havemos de resolver, se não olhe… fico assim… infelizmente”, remata, perdendo forças e já sem saber o que dizer.

Pedimos para tirar uma fotografia, e Maria Celeste, no meio de tanto cansaço, naquele cenário melancólico e cinzento, consegue esboçar um sorriso e dizer que está muito “desgrenhada”. Ajeita depressa o chapéu.

Depois lembrou as irmãs, casadas em Cardigos, e com quem não conseguiu ainda conversar para saber como estão as coisas para lá. Para dificultar, as telecomunicações tinham ido abaixo, com postes deitados no chão, semi-consumidos, e estando ainda os operadores a esticar cabos e a substituí-los ao longo do dia.

“O meu telefone fixo nunca mais deu nada. Eu não tenho telemóvel. E as minhas irmãs já estavam em pânico porque não sabiam nada de mim… e então ligaram para uma vizinha que tinha telemóvel e lá falei com todas, para as sossegar”, conta, assegurando que o telefone lhe faz “muita falta”, por meio de um “aiai…” de quem desespera ao antecipar que poderá ficar sem meios de contacto durante algum tempo.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Finda a conversa, foi ver o que era feito do sistema da água. Já era meio dia, e queria Maria Celeste pôr-se ao caminho debaixo do sol quente, que já era hora de ir tratar do almoço. Oferecemos uma boleia de carro. “Não é preciso, é a descer, chego num instante”, repete.

Lá a convencemos, e depressa chegamos ao centro da aldeia. “A minha casa é esta aqui”, gesticula, enquanto sai com a enxada na mão e um molho de baraços. E despede-se com um “obrigadinha e haja saúde”, recolhendo-se em sua casa.

Ao sair da povoação, entra-nos pelos olhos um panorama crescentemente desolador. O fogo deixou rasto, pintando tudo – mesmo tudo! – de negro, algo visível à medida que subimos para o centro da vila, tendo visão periférica sobre o território. Ali ainda era possível distinguir a terra queimada daquela que estava por arder.

Subimos pela rua do cemitério, de muros chamuscados assim que o fogo ali chegou no domingo, cercando a vila.

O posto de comando já se tinha mudado para junto do Quartel de Bombeiros de Cardigos, e na manhã desta segunda-feira António Louro, vice-presidente da Câmara de Mação, deu indicação de que os meios estavam distribuídos estrategicamente por diversos polos, prontos para o ataque.

Até à uma da tarde, nenhuma frente estava ativa. Mal se sabia que, nas horas seguintes, reacendimentos tomariam proporções tais, gerando uma guerra pelo protagonismo entre três ou quatro focos.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

Entre Roda e Arganil, depois entre São Bento, Chaveira e Chaveirinha, passando nas colinas paralelas à praia fluvial de Cardigos, o fogo estava a testar os limites: dos bombeiros e dos habitantes.

Roda já tinha sido invadida pelo fogo, que depressa engoliu a casa de um idoso. A esta altura, as sobras do que o fogo não devorou saltavam à vista: as mangueiras com partes derretidas, espalhadas pelo chão, deixadas como o homem as tinha largado – à força – quando resgatado pelas autoridades, que o levaram dali.

Também o balde, usado para distrair as chamas que lhe consumiam a habitação, ali estava à beira da estrada, derretido até ao nível da água que continha.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

À nossa frente surge nova coluna de fumo negro. E pouco depois já se avista uma outra. O que temíamos estava prestes a acontecer… “Já há fogo na Roda e anda ali na zona de São Bento”, diz um habitante, enquanto o gemido das sirenes e a passagem imponente de meios aéreos vem confirmar o facto.

A floresta sobrevivente aos incêndios de 2017 não renovou a mesma sorte. Do campo de tiro de Cardigos avistam-se as frentes ativas, as mesmas que invadiram São Bento, Chaveirinha e Chaveira, e que vieram em direção à barragem do Vergancinho, do lado de cima da praia fluvial de Cardigos.

O lufa-lufa começou novamente, com os carros de bombeiros a seguirem os jipes de comando, de sirenes ligadas. Estava prestes a iniciar-se nova batalha, pela terra e pelo ar.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

As labaredas tão mais altas que os pinheiros bravos, alcançam uma força quase sobrenatural, com uma chama intensa, com um laranja tão forte quanto a velocidade a que galga montes e vales.

Ainda alcançamos Vasco Estrela, no seu Ford Fiesta branco. Apesar do notório cansaço, tristeza e alguma revolta, continuou a percorrer o teatro de operações de uma ponta a outra, assegurando-se de que ninguém correria perigo com estes reacendimentos. Ponderamos pedir-lhe um ponto de situação, mas desistimos. Afinal basta ver o que está diante dos nossos olhos.

A certa altura, o vento muda, o fogo deixa para trás as aldeias e foca-se no arvoredo. Os castelos de fumaça fundem-se com as nuvens no céu. No calor da tarde, e com aviões constantemente a atravessar o céu de Cardigos, os populares saem à rua, vigilantes sobre o estado das coisas.

Não é que não sejam já familiares estes sons, o aparato, o corre-corre neste tipo de tragédias. Mas a paciência começa a esgotar-se e o desânimo paira no ar. A população está cansada de tanto fogo, ano após ano. O verde, cor da esperança, teima em abandonar estas terras.

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