“Liceu de Abrantes comemora cinquentenário”, por José Martinho Gaspar

Liceu de Abrantes - A cerimónia de abertura oficial (Fotografia cedida por Belmira Bispo)

“Podemos dizer que desde 1963, ano em que pela primeira vez expusemos as nossas razões a Sua Exª o Ministro da Educação Nacional para a criação de uma Secção de ensino liceal em Abrantes, não mais abandonámos a ideia, por nos parecer justa em relação à cidade e a toda esta vasta região que a circunda, distanciada dos liceus existentes cerca de 100 quilómetros para qualquer dos lados”. De acordo com a imprensa local, estas palavras, proferidas a 2 de outubro de 1967, integram o discurso do Presidente da Câmara Municipal, Dr. Agostinho Baptista, na inauguração da Secção do Liceu Nacional de Santarém, em Abrantes. Era o culminar de um trajeto marcado por diligências várias, levadas a cabo pelo município e por alguns abrantinos, que recolheram assinaturas e com elas deram força ao empenho institucional.

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O despacho de Galvão Teles, Ministro da Educação Nacional, que criou a Secção Liceal abrantina foi assinado a 26 de julho de 1967 e no início do mês seguinte a notícia desta resolução fazia a capa da imprensa local abrantina. O Jornal de Abrantes, que várias vezes defendera tal empreendimento nas suas colunas, contava que “Esta boa nova é motivo do maior regozijo para os habitantes do concelho, que assim passam a usufruir dos benefícios do ensino liceal oficial, a acrescentar ao liceal particular a que Abrantes até à data tudo deve […]”. O semanário abrantino, quando se preparava a instalação do novo estabelecimento de ensino, trouxe às suas páginas a preocupação de que pudesse faltar ousadia num momento de extrema importância para a cidade e para o concelho. O periódico, por um lado, não se mostrava favorável à abertura de apenas alguns ciclos liceais, antes sustentando o arranque com “todos os graus deste ensino médio”, por outro lado, alertava para um episódio verificado em Tomar, “[…] onde um idêntico benefício teve de ser retirado em parte, cerca de um ano depois de concedido”.

"Liceu de Abrantes comemora cinquentenário", por José Martinho Gaspar
Primeiros Finalistas (Ano letivo 1971-1972)
Foto: DR

Quando foi recebida a boa nova na cidade, foi preparada por Fernando Velez uma manifestação para celebrar a abertura da secção liceal, em que intervieram o organizador, o Presidente da Câmara Municipal, o Presidente da União Nacional e o Arcipreste. O Jornal de Abrantes, entretanto, não deixou de sugerir alguns edifícios que se mostravam adequados para o funcionamento do novo estabelecimento. Deixava-se em aberto a hipótese da nova escola se instalar na Casa Milho, no Convento de S. Domingos ou no “Edifício Abreu”, localizado junto ao Castelo, vulgarmente denominado Casa Carneiro. Foi exatamente neste último espaço, onde funcionara a Escola Industrial e Comercial de Abrantes entre 1955 e 1959, até à inauguração das suas instalações definitivas, que se estabeleceu a secção liceal.

No final de setembro de 1967, deslocou-se a Lisboa uma comitiva de cerca de uma centena de abrantinos, os quais, acompanhando o Governador Civil e o Presidente da Câmara, apresentaram cumprimentos ao Ministro da Educação Nacional e agradeceram-lhe a criação da secção liceal em Abrantes. O Ministro Galvão Teles foi convidado para a inauguração, convite que se estendeu ao Dr. Sabino Costa, Diretor-Geral do Ensino Secundário, que terá sido determinante para que a abertura do ensino liceal público em Abrantes se tenha tornado uma realidade. A 2 de outubro, decorreu a inauguração da Secção Liceal de Abrantes, a qual integrou o programa de encerramento das comemorações do cinquentenário da elevação de Abrantes a cidade. Às 11 horas, o Bispo de Portalegre e Castelo Branco celebrou uma missa na igreja de S. Vicente; a partir das 12h30, no Edifício Carneiro, aconteceu a cerimónia civil, que contou com a presença do Diretor-Geral do Ensino Secundário, onde fizeram uso da palavra o Presidente da Câmara, bem como o primeiro Reitor, Dr. João Gomes Pequito, que se manteve em tais funções entre 1967 e 1975. O Liceu abriu apenas com três turmas, duas de 1.º e uma de 3.º ano (atuais 5.º e 7.º) e, na totalidade a comunidade escolar (alunos, funcionários e professores) integrava 111 elementos.

Em 1971, quando o Decreto-lei n.º 447 criou o Liceu Nacional de Abrantes, a escola já tinha mais de 500 alunos e procurava encontrar soluções para o carácter exíguo das suas instalações. As salas de aula estenderam-se aos pavilhões contíguos ao edifício principal e, algum tempo depois, ocuparam também a “Casa da Mocidade”, onde funcionara a Mocidade Portuguesa, na Rua Nova.

"Liceu de Abrantes comemora cinquentenário", por José Martinho Gaspar
Instalacoes do Colegio La Salle onde o Liceu se estabeleceu em 1975-1976
Foto: DR

Em 1974/75, estavam inscritos no Liceu 1.575 alunos. Na sequência de um acordo com a empresa proprietária do Colégio La Salle, algumas turmas passaram a integrar as instalações desta escola. No ano letivo seguinte, o Liceu estabeleceu-se definitivamente nas instalações que haviam pertencido ao Colégio La Salle, que deixara de ter atividade em Abrantes.

"Liceu de Abrantes comemora cinquentenário", por José Martinho Gaspar
Alunos e professores do Liceu, nos anos 70
(Foto cedida por Etelvina Bernardino)

Em 1979, a 22 de novembro, o Liceu de Abrantes assumiu a designação Escola Secundária Nº 2 de Abrantes. Em 1992, na sequência de um processo muito participado, escolheu-se o patrono para o estabelecimento de ensino, que se passou a denominar Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes.

Na sequência da constituição dos agrupamentos verticais de escolas em Abrantes, em 2007/2008 a Escola Dr. Manuel Fernandes tornou-se sede do Agrupamento que passou a integrar as escolas e jardins de infância do Agrupamento Abrantes Oeste e, posteriormente, também a Escola do 1º Ciclo e Jardim de Infância da Chainça. Entretanto, em 2012, o Agrupamento Dr. Manuel Fernandes agregou-se ao Agrupamento Escolar de Tramagal, o qual passou a denominar-se Agrupamento de Escolas Nº 2 de Abrantes.

"Liceu de Abrantes comemora cinquentenário", por José Martinho Gaspar
Novas instalações após intervenção da Parque Escolar
Foto: DR

Para comemorar os cinquenta anos de uma instituição que marcou de forma indelével a região, constituiu-se uma comissão que coordenará as atividades comemorativas do cinquentenário, a qual é presidida por Mário Pissarra, docente aposentado que lecionou ao longo de muitos anos na escola a que muitos continuam a chamar “Liceu”. As atividades comemorativas arrancam a 21 de outubro, com uma exposição, uma sessão solene, um sarau e um jantar de convívio para todos os que, de uma forma ou de outra, têm uma ligação a este estabelecimento de ensino cinquentenário.

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José Martinho Gaspar nasceu em Água das Casas (Abrantes), na década de 60 do século XX, e vive em Abrantes. É Professor de História e Mestre em História Contemporânea. Desenvolve a sua ação entre aulas, atividades associativas (Palha de Abrantes e CEHLA/Zahara, mas também CSCRD de Água das Casas), leitura e escrita, tanto de História como de ficção, sendo autor de vários artigos e livros. Apaixonado por desporto, já não vai em futebóis, mas continua a dar as suas voltas de bicicleta. Afinal, diz, "viver é como andar de bicicleta: não se pode deixar de pedalar e quando surge um cruzamento escolhe-se o nosso caminho". Escreve no mediotejo.net à quarta-feira.
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