Irmã Lúcia: A pastora, a “santa” e a mulher normal que escrevia muitas cartas

Irmã Lúcia a trabalhar na sua correspondência. Arquivo do Carmelo de Santa Teresa-Coimbra

Figura expedita de forte personalidade; bem-humorada e bastante espirituosa; de perfil honesto, mas inteligente; trabalhadora industriosa e com capacidades de liderança; grande narradora de histórias e destinatária de milhões de cartas de famílias em crise que lhe pediam ajuda. Assim foi Irmã Lúcia de Jesus… Uma mulher normal em todo o seu modo de ser, particular na responsabilidade que assumiu como missão para a vida e que deu a Fátima a sua dimensão universal. Viveu a vida de contemplação por que se regem todas as religiosas de clausura, sendo até grande defensora da manutenção da regra da congregação. O mediotejo.net foi procurar traçar o perfil daquela que será uma das maiores figuras da região, agora que se aproxima o centenário da data que marcou para sempre a sua passagem pela terra.

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No Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra, ainda se sente a presença da Irmã Lúcia. Ao tocarmos à campainha, a pesada e rude porta de madeira impõe um certo respeito. Único convento devolvido à congregação carmelita anos depois da instauração da República, ergue-se imponente e isolado sobre si no coração do centro histórico da cidade dos estudantes.

Há um hall de entrada obscuro, no qual observamos um retrato pintado da Irmã Lúcia, de olhar baixo e severo. À esquerda uma capela em tons dourados, de estilo barroco, onde ao fundo se ergue uma grande grade que veda a passagem para outra sala, onde assistem às missas as irmãs carmelitas. Do lado esquerdo uma sala, a que chamam locutório, também ela com uma grade a vedar o contato. É aqui que aguardamos a chegada de uma Irmã que connosco vem recordar Lúcia dos Santos.

Fotografia mais conhecida dos três pastorinhos de Fátima, em 1917. Lúcia à esquerda, seguida de Francisco e Jacinta. foto D.R.
Fotografia mais conhecida dos três pastorinhos de Fátima, em 1917. Lúcia à esquerda, seguida de Francisco e Jacinta. foto D.R.

A pastorinha de Fátima viveu neste convento de clausura os últimos 50 anos da sua (longa) vida. Diz-se que teria sido esse o seu desejo desde jovem, depois que começou a sentir as repercussões de fenómeno de Fátima. Em 1917, altura dos acontecimentos da Cova da Iria, tinha 10 anos. A morte dos primos, ainda crianças, pela gripe espanhola, deixou-a sozinha e com um pesada missão sobre os ombros de adolescente, procurada como santa por muitos que acorriam em desespero ao seu encontro, o que a levou a querer afastar-se da vida pública e a dedicar-se ao que se chama uma vida de contemplação.

Morreu há 11 anos, a 13 de Fevereiro de 2005. Atrás de si deixou um legado imenso: quase 70 malas de viagem repletas de cartas de fiéis de todo o mundo. Ainda hoje, uma década decorrida sobre o seu desaparecimento, chegam cartas ao Convento de Santa Teresa, pedindo graças a Irmã Lúcia. O “Memorial da Irmã Lúcia”, pequeno museu junto ao Carmelo de Coimbra, guarda vários dos pertences da pastora e memórias da sua vida na instituição, tendo sido visitado em 2015 por 7300 pessoas (dados do Carmelo de Coimbra). Perto do Centenário das Aparições, ficamos a saber que a Beatificação já não deverá chegar a tempo da famosa data.

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Em Fátima, aumenta por estes dias a esperança na canonização dos dois jovens primos. Por Coimbra recorda-se uma mulher adulta, que criou uma história particular e muito mais longa que o que supusera na infância.

A vidente que preferiu escrever cartas

No locutório somos recebidos por um rosto jovem e bem-disposto, que ao longo da conversa não deixa de salientar a satisfação e o carinho com que fala na Irmã Lúcia. Chama-se Irmã Ana Sofia, tem 37 anos, vive no Carmelo de Coimbra desde 1996 mas é natural de Santarém, tendo convivido com Lúcia dos Santos durante a última década da sua vida. Foi aliás por intermédio desta que acabou por escolher a vida religiosa e de clausura, após, na resposta a uma carta que lhe dirigiu, a ter convidado a passar uma temporada no Carmelo.

A Irmã Ana Sofia entrou para o Carmelo ainda muito jovem, em 1996. Conviveu com a Irmã Lúcia na última década da sua vida. foto mediotejo.net
A Irmã Ana Sofia entrou para o Carmelo ainda muito jovem, em 1996. Conviveu com a Irmã Lúcia na última década da sua vida. foto mediotejo.net

A Irmã Ana Sofia começa por nos entregar um pequeno livro chamado “Irmã Lúcia a memória que dela temos”, da autoria da Irmã Maria Celina de Jesus Crucificado. É uma memória breve do Carmelo de Coimbra, escrita logo depois da morte da vidente, e que pode ser encontrada à venda facilmente em Fátima. Nas primeiras páginas encontramos de imediato um breve relato do que Lúcia narrava ter sido a sua vida logo após as Aparições e de como se procurou afastar de Fátima e da imagem de “santa” que a perseguia. No Carmelo de Coimbra entrou já com 40 anos, em 1948, após a reestruturação das ordens religiosas, tendo ajudado na recuperação de toda a estrutura, fortemente degrada por ali se ter instalado um quartel. “A Igreja eram as cavalariças”, comenta posteriormente a Irmã Ana Sofia.

Mas quem era a Irmã Lúcia? Que mulher era esta que viveu 50 anos fechada num convento em Coimbra, depois de duas décadas em Espanha, uma passagem como protegida numa casa particular em Lisboa e a infância na Cova da Iria? A memória da Irmã Ana Sofia é a dos últimos anos de Lúcia dos Santos, até ao momento da sua morte, que testemunhou com outras Irmãs na cela da vidente.

Boa parte das histórias que nos conta são do conhecimento público, não fosse a própria Irmã Lúcia uma grande narradora de histórias, que contava de memória sobre vários episódios da sua vida. O que não é tão conhecido e pouco reportado é a intensa atividade epistolar que marcou a vida da vidente de Fátima e que tem constituído uma parte significativa do processo de Beatificação, com o qual a Irmã Ana Sofia está envolvida. A Irmã Lúcia rendida às novas tecnologias e que com 90 anos ainda tentou aprender a trabalhar com um computador. Não insistiu, até porque tinha um aparelho antigo mas semelhante que lhe permitia, à máquina, responder a algumas das muitas cartas que recebia, assinando à mão o seu nome.

“O caminho pós-Fátima foi difícil”, explica a Irmã Ana Sofia. As pessoas que acorriam a Fátima destruíram os terrenos da família, queriam que ela fizesse milagres. Em Espanha também era procurada. Já na clausura, mesmo com a Igreja do Carmelo cheia de curiosos que a queriam ver, dedicou-se apenas a responder a milhões de cartas.

Irmã Lúcia em jovem. foto D.R.
Irmã Lúcia em jovem. foto D.R.

Estas cartas são confidenciais e nunca serão mostradas ao público. A Irmã Ana Sofia fala, no entanto, um pouco sobre o que, na generalidade, pediam. “Recebia muitas cartas de famílias divididas e com problemas”, explica. Na generalidade as missivas pediam orações, mas “a grande maioria era pedir orações por casos muito concretos”, como mulheres que não conseguiam ter filhos, problemas de saúde, financeiros ou até com colegas de trabalho.

“As cartas também pediam muitos conselhos”, comenta, a que Irmã Lúcia procurava dar resposta. Aconselhava a “perdoar, a amar, a ter caridade com o próximo, mas dava esse conselho personalizado. E acho que isso era muito importante para a pessoa”. Nessa correspondência também entram personagens da monarquia, os Papas, Salazar e mesmo o General Franco. Algumas das cartas eram respondidas com um simples cartão já impresso, que Irmã Lúcia apenas assinava (“Irmã Lúcia recebeu a sua carta e reza pela suas intenções”). Outras respondia pessoalmente, tendo escrito cerca de 11 mil cartas que estão neste momento a ser analisadas no âmbito do processo de beatificação. A Irmã Lúcia rendida às novas tecnologias e que com 90 anos ainda tentou aprender a trabalhar com um computador.

A Irmã Ana Sofia traça o perfil de uma mulher normal, que cativava pela atenção que depositava nas pessoas e pelas histórias pormenorizadas e contadas com alegria pela religiosa, que ficaram para sempre na memória do Carmelo de Coimbra. Na imagem pública deixou um rosto introspetivo e quase severo. Na intimidade era uma pessoa “muito alegre, muito extrovertida”. “Tinha sempre a resposta na ponta da língua, não se deixava ficar”. De uma inteligência perspicaz e preocupada com os valores da Igreja.

Irmã Lúcia no jardim do Carmelo. Arquivo do Carmelo de Santa Teresa - Coimbra
Irmã Lúcia no jardim do Carmelo. Arquivo do Carmelo de Santa Teresa – Coimbra

Sabia ler espanhol e italiano, para cartas em outras línguas pedia tradução. Lia sobretudo livros de espiritualidade ou jornais da Igreja, mantendo-se assim informada sobre o que se passava no mundo. Preocupavam-na temas como os jovens, as vocações e a aprovação da lei do aborto. Não ouvia música, embora cantasse no coro e soubesse tocar órgão.

A Irmã Ana Sofia comenta que Irmã Lúcia era “um símbolo” para muitas pessoas, uma “figura emblemática” para várias culturas, mas que na prática sempre procurou manter um certo resguardo da imagem de vedeta que, a dada altura, a afligia. Lembra um episódio com responsáveis da comunidade muçulmana que passaram pelo Carmelo de Santa Teresa e pediram para falar com a Irmã Lúcia. Visitas só com autorização do Vaticano, mas o grupo começou a rezar e a religiosa entendeu que deveria recebê-los. A Irmã Ana Sofia pondera que o que eles “procuravam nela era um bocadinho aquela união”, pois Lúcia “acabava por ser esta figura de união e de alguma esperança”. “Ela acolhia isso muito bem e tentava este diálogo pela paz e pela união”.

Um percurso de mulher e não de criança

Irmã Lúcia é Fátima, mas Fátima ficou na infância de Lúcia. Quem viveu no Carmelo de Coimbra foi uma mulher adulta e consciente, marcada por uma entrada na adolescência traumática e o assistir do desmembramento da família, da sua credibilidade, e da alegria que marcou os seus dias de criança. A fase após as Aparições também não é muito conhecida do público, apesar de existirem alguns relatos sobre ela.

Irmã Lúcia contava histórias da família, de como a mimavam, de como ia para a eira ver estrelas com o pai. “Vê-se que o ambiente familiar era muito bom”, comenta a Irmã Ana Sofia. “O pai chegava a casa e ela corria para os braços” dele, que lhe trazia tremoços. “Foi muito doloroso para ela” ver como as Aparições afetaram a família.

A vida que teve depois foi em tudo diferente. Nas Doroteias, em Espanha, ensinaram-na a trabalhar, local onde ganhou experiência de vida. Para as Carmelitas trouxe essa maturidade, encarregando-se das obras de recuperação do edifício de forma pessoal e assertiva.”Ela ia mesmo falar com os operários” e vigiava os trabalhos. Também orientava a horta e fazia muitos bordados e terços.

A Irmã Ana Sofia já viria a conhecer a “pastorinha” numa fase mais debilitada, mas em que a religiosa ainda mostrava vitalidade e vontade de ajudar. Acordava, como todas, às 6 horas, ia à missa, à oração e dedicava-se aos seus trabalhos no Carmelo, respondendo às imensas cartas ao fim da tarde. No horário de recreio convivia, contava as suas histórias. “Uma coisa que chamava muito a atenção é que ela tinha sempre muito trabalho”, constata.

Aos 80 anos trocou a máquina de escrever por uma ligada à eletricidade. Procurou ter uma mentalidade aberta e ir percebendo o funcionamento dos novos tempos. “Passa muito a imagem de uma pessoa fechada” refere, mas era uma “pessoa muito aberta, muito dinâmica”.

Viveu com imensa alegria o ano 2000 e a beatificação dos dois primos, a derradeira “aprovação” de Fátima 80 anos depois dos acontecimentos.”Pedem-nos muitas relíquias da Irmã Lúcia”, mas a Irmã Ana Sofia salienta que, para já, não podem dar. Nos últimos anos a saúde foi diminuindo gradualmente e três meses antes de morrer passou a ficar o seu tempo na cama. Dizia que sofria, mas que era “pelo Santo Padre”. Foram as suas últimas palavras.

Esteve lúcida até ao fim, apesar do sofrimento, tendo lido um fax que chegou do Vaticano, do Papa João Paulo II, no dia da sua morte. “Mesmo a doença ela aceitou muito bem”, constata, referindo que a médica dizia que ela “era uma vela que se ia apagando”. Teve alguns momentos de fragilidade ao longo da vida, mas no geral foi uma mulher com bastante saúde e que morreu dada a avançada idade, rodeada de toda a comunidade carmelita, que rezava junto dela, na sua cela. “Olhou para todas. Marcou-me muito esse olhar. (…)Depois olhou para a Madre, tentou formular um beijo, fechou os olhos e ficou”.“Não vimos nada mas de certeza que Nossa Senhora estava ali naquele momento”.

A vida depois da morte

Só depois do seu desaparecimento é que se descobriu que a Irmã Lúcia tinha tido mais visões de Nossa Senhora durante a vida. Com ninguém havia comentado esse facto, tendo apenas deixado o testemunho entre os seus documentos. Uma amostra do que de facto foi sempre a sua atitude, recusando-se a que os holofotes recaíssem sobre ela e que se repetisse a passagem depois de Fátima. Também havia guardado a corda que atou à volta do corpo com os primos. A Irmã Ana Sofia lembra que Irmã Lúcia dizia que já estava a “demorar muito tempo”, que Nossa Senhora dissera que também a levaria mas que os anos iam passando.

Irmã Lúcia nos últimos anos da sua vida. Arquivo do Carmelo de Santa Teresa - Coimbra
Irmã Lúcia nos últimos anos da sua vida. Arquivo do Carmelo de Santa Teresa – Coimbra

Segue agora o processo de Beatificação, que neste momento, após a recolha de todas as cartas e documentos, encontra-se no fim da sua fase diocesana. O processo é longo e ainda deverá demorar ano e meio a ser concluído. Não chegará por certo a tempo de 2017. Se for aceite no Vaticano, Irmã Lúcia vai tornar-se “venerável”. É preciso um milagre para a beatificação e dois para a canonização. “Não nos preocupa o milagre porque temos recebido muitas graças, algumas delas são autênticos milagres”, constata, mostrando-se confiante.

Perguntamos-lhe ainda o que leva alguém, mesmo sendo religiosa, a escolher uma vida contemplativa. A Irmã Ana Sofia explica que tudo está ligado com a Vocação. Uma vida de clausura pode ser “o Céu” se estiver dentro do chamamento de uma pessoa, mas também pode ser o seu oposto, mesmo entre religiosas. Ela escolheu este caminho, assim como a Irmã Lúcia, para rezar por todo o mundo e assim cumprir a sua missão.

No 13 de Fevereiro, data da morte da Irmã Lúcia, a Igreja do Carmelo ainda se enche de gente. “Há qualquer coisa aqui que move as pessoas”.

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