Francisco Fanhais, do azul do lápis ao vermelho do cravo (c/vídeo)

Há precisamente 45 anos, a 24 de abril, Portugal vivia em ditadura e Francisco Fanhais continuava exilado em França, depois do Estado Novo lhe ter censurado a vida. 24 horas depois fazia-se História e o cantor começava a preparar as malas para regressar. Falámos com ele pouco antes de “Cantar Abril” na Escola Dr. Manuel Fernandes, em Abrantes, num espetáculo dado aos alunos em 2016, e ficámos a conhecer o homem que nasceu em Vila Nova da Barquinha e ajudou a fazer a Revolução dos Cravos com a voz e uma guitarra.

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Zeca Afonso vai ecoando pela biblioteca da Escola Básica e Secundária Dr. Manuel Fernandes, em Abrantes, durante a nossa entrevista, minutos depois do último teste de som do concerto intimista para o qual Francisco Fanhais foi convidado para “Cantar Abril”. Decorria o ano de 2016 e a hora em que percorremos 75 anos de vida foi rápida e no final apenas restaram alguns minutos para o cantor pegar na capa A4 com os temas escolhidos, juntar-se à guitarra e partilhar um pouco de si.

No início da conversa regressámos ao tempo da “Velha Senhora”, mais precisamente ao momento em que um médico de clínica geral se valeu da especialidade de obstetra para ajudar o filho a nascer em casa. A formação do pai em medicina é um ponto chave do destino, uma vez que ao seguir de Santarém para estudar no Porto acabaria por conhecer a futura esposa no colégio onde dava aulas.

Vila Nova de Gaia, terra natal da noiva, foi o local do casamento e os conhecimentos do curso passaram da teoria à prática no Entroncamento, como médico da CP. Mais tarde, o casal mudava-se com o primeiro dos quatro filhos para a Praia do Ribatejo (Vila Nova da Barquinha) onde Francisco Fanhais viria ao mundo no dia 17 de maio de 1941, oito anos após o nascimento do Estado Novo pela Constituição de 1933.

A segunda classe ia na bagagem do cantor quando a família regressou à cidade que se preparava para partilhar a fama dos comboios com a dos fenómenos de O.P. Brito. Foi por lá que Francisco Fanhais terminou a primária e, aos dez anos, tomou a decisão de incluir a sotaina no guarda-roupa inspirado pelo coadjutor do padre local com quem jogava à bola no recreio. Confessa que o “fatinho preto, gravatinha e camisa branca” chocaram a mãe na primeira vez que o viu “naqueles preparos”. Quatro anos mais tarde rumava de Santarém para Almada, onde esteve até 1958, no seminário dos Olivais.

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Francisco Fanhais nasceu na Praia do RIbatejo, em 1941, e fez a escola primária no Entroncamento. Fotos: mediotejo.net

Os pedidos para cantar eram constantes em criança, um “jeito” reconhecido nos três locais onde se preparou para a vida eclesiástica. A música que lhe associou o nome à Revolução dos Cravos começou pelo piano e o canto gregoriano num cenário de fé e postura “obediente”. Segundo o cantor, ser interventivo não implica obrigatoriamente um espírito rebelde, mas sim “um posicionamento que se toma em relação à realidade social que nos envolve”.

O espírito viria a revelar-se mais tarde nos Católicos Progressistas, críticos do regime desde a carta entregue pelo bispo D. António Ferreira Gomes a Salazar em 1958.

A austeridade do ensino na altura refletia-se no professor que mais estimulou o espírito musical de Francisco Fanhais ao dar-lhe os seus primeiros “discos absolutos”, dois LP’s de 33 rotações com a gravação da primeira e nona Sinfonias de Beethoven. Obras intemporais dirigidas pelo maestro italiano Arturo Toscanini no vinil que em pleno século XXI continua a tocar no Alvito, vila alentejana para onde o cantor se mudou no início da década de 80.

O impacto seria igualmente forte quando descobriu o “Menino Bairro Negro”, dado a conhecer também por um padre do seminário quando saiu o EP de 45 rotações (1963) com o pedido de “ouvir aquilo baixinho”. O primeiro contacto com o tema e “Os Vampiros”, no disco em que Zeca Afonso fez a transição das baladas de Coimbra para a temática social, foi “um murro no estômago”: Aquilo “é que era cantar”.

O primeiro contacto com o tema e “Os Vampiros”, no disco em que Zeca Afonso fez a transição das baladas de Coimbra para a temática social, foi “um murro no estômago”: Aquilo “é que era cantar”.

Salazar caiu da cadeira no ano em que o Francisco Fanhais e Zeca Afonso se conheceram pessoalmente durante uma sessão cultural nas Grutas das Lapas (Torres Novas) a 28 de dezembro de 1968.

A data é recordada com precisão pois tomou conhecimento dela pelo relatório da PIDE – Polícia Internacional e de Defesa do Estado, entregue pelo polícia aos superiores com três meses de atraso por lhe ter sido vedado o acesso ao local. O encontro em Setúbal, na casa de Zeca Afonso, fortaleceu os laços de amizade entre os cantores quando perceberam que partilhavam na música e na poesia instrumentos “ao serviço de uma causa comum”.

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“Cantar Abril”, na Escola Dr. Manuel Fernandes, em Abrantes. Fotos: mediotejo.net

O álbum de estreia “Cantilenas” foi editado no ano seguinte, quando já era pároco no Barreiro e professor de Religião e Moral no liceu oficial, e por lá se manteve até ser proibido pelo Estado Novo de cantar, exercer o sacerdócio e lecionar. Os tais instrumentos eram encarados como uma arma de ataque? Francisco Fanhais abre o sorriso sereno que marcou a entrevista e o concerto quando responde, citando Zeca Afonso: “A música é comprometida quando o músico, como cidadão, é um homem comprometido.”

Em suma, a força da arma não reside na música, mas em quem escreve e canta sobre a realidade que o rodeia.

Fazer parte do “mais forte apoio moral da ditadura”, a Igreja, e ser músico de intervenção nunca foi encarado como uma dicotomia, antes pelo contrário. Para Francisco Fanhais, cantar era a sua “maneira de ser padre” pois tinha a oportunidade de transpor para a música os valores cristãos que acredita serem “completamente compatíveis” com os de Abril.

Aos companheiros que defendiam o Evangelho, juntavam-se os conscientes “de uma sociedade que exige cidadãos de corpo inteiro a lutar pelo Homem em si próprio”. O ponto de encontro no caminho era a luta pelo bem comum.

Com o 25 de Abril, a batina foi arrumada, ao contrário da crença “nos valores mais profundos do Evangelho” que ainda hoje o acompanha.

Luta essa que se reforçou com a fama trazida pela participação no programa Zip-Zip, o lançamento do segundo álbum “Canções da Cidade Nova” (1970) e a entrada “no caminho perigoso” de denunciar a falta de condenação da Igreja à Guerra Colonial.

A postura do antigo padre que encara o sentido de matar ou morrer como um interesse de quem quer “alimentar a indústria de guerra” era aceite pela população, mas gerou incómodo no regime salazarista. Em abril de 1971 decidiu partir para França, tornando-se num opositor à distância ao tornar-se militante da LUAR – Liga de Unidade de Ação Revolucionária dois anos depois.

A viagem foi feita à boleia de Zeca Afonso com paragem no sul de Espanha para um concerto do condutor, deixando para trás a certeza de querer “transformar a Igreja a partir de dentro”. A batina foi arrumada, ao contrário da crença “nos valores mais profundos do Evangelho” que ainda hoje o acompanha.

Passou a ter a partilha da música com a comunidade emigrante como prioridade até ao dia em que ligou a um amigo e foi questionado: “Então, não sabes o que se passa em Portugal? Está tudo virado do avesso”.

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Fotos: mediotejo.net

O que se passava era a revolução de 25 de abril de 1974, cuja responsabilidade ainda não sabia atribuir. Seria “a extrema direita a querer voltar atrás” ou “um golpe democrático”? A resposta foi dada pelas “músicas revolucionárias na rádio”, entre as quais ouviu as suas. Continuou a acompanhar a situação encostado ao aparelho e quatro dias depois, mal teve a confirmação da abertura das fronteiras, entrava no comboio com destino a um país livre.

Chegou no dia 30 com amigos e, ao pararem em Vilar Formoso, abriram a janela “para respirar pela primeira vez o ar puro do Portugal novo”. A sensação que começa por definir como “indescritível” acaba por ser comparada a outras alegrias únicas na vida, como o nascimento dos filhos que surgiram mais tarde.

Inspira profundamente como se conseguisse sentir aquele ar novamente e complementa “foi ver realizado um sonho. Sabíamos que o fascismo havia de cair como um fruto maduro, mas saber que houve alguém que deu um empurrão à árvore…”.

Chegou no dia 30 com amigos e, ao pararem em Vilar Formoso, abriram a janela “para respirar pela primeira vez o ar puro do Portugal novo”.

Já no “Portugal novo” continuou a transmitir os valores em que acredita munido de uma guitarra. Os dois netos pequenos escutam, num misto de orgulho e estranheza, ao ver o avô no palco. Na sua opinião, a geração deles não está perdida e o 25 de Abril é encarado “com interesse” superior a um capítulo dos livros de História. A tortura dos amigos (nunca esteve preso, apesar ter sido procurado em casa depois de aderir à LUAR), a repressão nas escolas, o medo “do vizinho do lado ser um agente da PIDE” e a dificuldade de se exprimir livremente que conta nos concertos é ouvida com atenção e “assimilada”.

Apesar das gerações mais jovens terem as suas músicas de intervenção, os “clássicos” perduram e Francisco Fanhais preferia estar no ponto evolutivo da sociedade em que deixavam de ser necessários por não “haver lugar para denunciar os vampiros”.

Partilhamos a inquietação se esses vampiros irão existir sempre e o cantor, que ajudou na transição do azul do lápis para o vermelho do cravo, responde: “Não sei se vão existir sempre, eu continuo a lutar para que deixem de existir. É preciso que seja dada prioridade às pessoas e ao direito que elas têm de viver numa sociedade mais justa e mais fraterna. A política e a economia devem estar ao serviço desses objetivos e não o contrário.”

*Entrevista publicada a 25 de abril de 2016, republicada em abril de 2019

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