Fátima: Quem é o vidente dos Outdoors?

Outdoor na A1. Foto: mediotejo.net

Adotou o nome de Irmão Carlos Gabriel e, apesar de nos dar alguns dados pessoais ao longo da entrevista, pede que não sejam publicados. Nem que sejam tiradas fotografias. Associado à bruxaria, o espiritualismo ainda é o lado obscuro da religiosidade, tantas vezes ligado a burlas e à exploração económica das crenças populares. Para seu resguardo, e de quem procura a sua ajuda, diz, opta por esconder o rosto. A bem da verdade, dos vários outdoors espalhados pela A1 e anúncios em jornais nacionais e regionais, é a imagem de Jesus Cristo que surge sempre, anunciando os serviços do “Vidente de Fátima”. O mediotejo.net quis saber quem era este homem.

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É um prédio na zona da rotunda dos Três Pastorinhos e a indicação da localização é realizada com alguma discrição. Após o contacto telefónico, recebemos uma mensagem com as orientações a seguir para chegar ao local, o mesmo processo, adianta Carlos Gabriel, por que passam os seus clientes. Assim fazemos, sem grandes dificuldades em descobrir o edifício.

Chegados ao local, tocamos à campainha indicada e subimos ao primeiro andar. Prédio de apartamentos tradicional, sem nada que o distinga, com algum comércio em redor. Junto à porta do vidente há um escritório de advogados. Batemos e somos logo recebidos por uma senhora risonha, que nos encaminha para a sala de espera. Aí aguardamos alguns minutos.

Espaço amplo, com várias cadeiras em redor, confortável. Decoração um tanto eclética, com simbologia diversa. Há um quadro do Papa Francisco, de Nossa Senhora de Fátima, uma estátua de Buda, imagens do Sagrado Coração de Maria e de Jesus e ainda dois sapos, dos que se colocam em jardins.

Nas paredes destaca-se outro tipo de informação: para que o cliente peça recibo se o desejar e que todos os objetos religiosos são benzidos e tratados pelo Irmão Carlos Gabriel. Uma mesa com diversos jornais expõe as páginas onde vieram publicitados os serviços do Vidente de Fátima, alguns com testemunhos de pessoas que lhe pediram ajuda. Há ainda pequenos livros de orações, que facilmente se encontram nas livrarias de Fátima. Ainda na sala de espera, reparamos numa mesinha que expõe um livro de reclamações.

A funcionária chama-nos e entramos no escritório do Vidente. Há uma mesa, duas cadeiras e uma enorme variedade de objetos dispostos, de terços, crucifixos, imagens, quadros, um ostensório, orações e toda uma série de produtos associados ao espiritualismo que não conseguimos identificar.

Por trás do Irmão Carlos Gabriel há um grande quadro de Jesus Cristo, a preto e branco, uma imagem bonita e tradicional que também se encontra frequentemente por Fátima. Atrás da secretária, no centro de todos estes objetos, está o vidente, um homem alto, vestido de preto e camisa branca com um pequeno crucifixo na lapela e um rosto maduro. Viremos a saber que é significativamente mais jovem do que suporíamos. Domina uma sensação de sobrecarga de informação: há imensas coisas nesta sala. Um intenso cheiro a rosas vai ficar impregando em nós, até bastantes horas depois.

É Carlos Gabriel quem inicia a conversa, expondo pouco depois que não quer que o fotografemos ou escrevamos os seus dados pessoais, a fim de preservar a sua vida particular e a das pessoas que a ele acorrem, que ficariam assim vinculados ao preconceito da bruxaria. “O mundo espiritual continua a ser atingido por um flagelo, ninguém quer saber de ninguém”, explica. Daí as imensas histórias de burlas que afetam o setor e, admite o vidente, constituem a sua luta diária por credibilidade. “Honestidade e sinceridade”, afirma, é o seu lema de vida. “A pessoa vem cá, mas a minha opinião não se sobrepõe à de um médico”, refere. Há coisas que não faz e recusa com frequência clientes que procuram milagres que não pode executar.

Dentro do mistério que é a sua existência, diz-nos que se chama Carlos e que Gabriel é o seu anjo da guarda. Confessa que é do Norte do país e que dá consultas em Fátima há 22 anos. Já esteve noutros pontos da cidade e mudou-se há alguns anos para aquele escritório, dedicando ao espiritualismo 80% do seu tempo atualmente. Tem outra profissão, admite, mas pede que não a divulguemos. Dá ainda consultas em Aveiro e recentemente no Porto. Periodicamente faz viagens à Europa, onde chega a atender um centena de pessoas.

Diz-nos que tem o dom da cura, o qual herdou da mãe, que também já teria sido dotada de capacidades. Com 21 anos sofreu um acidente bastante grave, que o deixou ligado a uma máquina em estado vegetativo. Ao longo do internamento realizou 17 operações e teve várias paragens cardíacas. A dado instante fez uma promessa que se conseguisse viver sem estar ligado a uma máquina iria para Fátima. O desejo não foi realizado em pleno, mas o Irmão Carlos Gabriel decidiu manter a promessa e tem dedicado as últimas décadas à ajuda espiritual de quem o procura.

Em jovem, conta, o trabalho era feito em locais públicos, de forma gratuita. Hoje tem que colocar as coisas doutro modo, porque também precisa de sobreviver. Reconhece que a questão monetária gera desconfiança, por isso passa recibo de todos os objetos religiosos que vende no seu escritório e presta contas às finanças das suas consultas, 50 euros cada. Os objetos religiosos que vende têm um preço bem acima da média das lojas de rua em Fátima, mas tal deve-se ao facto de terem assistido a um determinado número de missas, terem a bênção de um padre e outra bênção do vidente. Um objeto de três euros chega facilmente aos 30 euros.

Admitimos que achamos caro, mas Carlos Gabriel explica que se tratam dos valores usados no mundo do espiritualismo e têm a sua razão de ser. Quem acredita na proteção que estes objetos trazem, aceita o valor como válido. Por razão semelhante, muita da publicidade que tem espalhada por diversos meios de comunicação é oferecida por clientes, que querem ver a mensagem do Vidente de Fátima difundida. Os outdoors da A1, confessa, foi um desses casos de apoio.

Os outdoor colocados na A1 e muitos anúncios na imprensa são oferecidos por clientes, diz o vidente. Foto: mediotejo.net
Os outdoors colocados na A1, em ambos os sentidos, e muitos anúncios na imprensa nacional e regional, são oferecidos por clientes, diz o vidente. Foto: mediotejo.net

O vidente salienta ainda que tem livro de reclamações e contabilidade organizada e que nunca foi a tribunal devido às suas atividades de espiritualismo. O mediotejo.net procurou conferir se o vidente estava associado a algum caso de burla junto das autoridades policiais e, do que apurou, não há qualquer registo de crime praticado. 

“Serviço honesto e transparente”, sublinha por diversas vezes, “honestidade, sigilo”, mas descrição ao máximo em todos os locais onde atua, porque “as pessoas não precisam de dar a conhecer que precisam de ajuda”.

Tentámos falar com algumas dessas pessoas que o procuram mas não foi, de facto, possível. Nem mesmo no dia em que nos deslocámos ao consultório, uma vez que a sala de espera se encontrava vazia, antes e depois da nossa entrevista.

 Mas o que faz exatamente o Irmão Carlos Gabriel? Não teve formação sacerdotal, embora em adolescente frequentasse grupos de oração ao fim-de-semana, conta. O que faz advém dos dons que recebeu, desde tratamentos espirituais, mezinhas, proteções contra pessoas que nos querem mal, etc. Também faz exorcismos – como vários padres na hierarquia católica – tendo obtido recentemente a autorização oficial (leia-se, da Igreja) para o efeito, afiança.

“Aqui não se fazem milagres nem se vendem milagres, é uma caminhada com fé para quem quer fazer uma nova caminhada”, defende. “Não faço trabalho de bruxaria, mas faço todo o trabalho de apoio que é fortalecer e proteger”. O vidente defende que quando uma pessoa não está bem espiritualmente, qualquer pequeno problema é enorme. “As pessoas não são inferiores umas às outras, estão é mais ou menos protegidas”, explica. “Não se é maluco por falar com Deus e não é preciso ir para a Igreja todos os dias.”

Em Fátima há 22 anos, Carlos Gabriel diz que nunca teve problemas com o Santuário de Fátima e já teve inclusive a iniciativa de comprar uma caravana e dar apoio aos peregrinos durante dois anos. Gostava de retomar o projeto. E afiança: “A minha religião é a de Deus.”

18 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns pelo excelente trabalho, É pena que fique apenas a opinião do “vidente”, pois seria muito interessante a opinião dos possíveis “clientes”, mas certamente foi o possível.

    • Caro Eduardo, tentámos falar com algumas das pessoas que o procuram mas não foi, de facto, possível. O mediotejo.net procurou também conferir se o vidente estava associado a algum caso de burla junto das autoridades policiais e, do que apurou, não há qualquer registo de crime praticado.

      • Só um pedido de correcção: não estamos a falar de Espiritualismo, mas sim de Espiritismo que é- digamos assim- sua forma mais primária.
        De qualquer forma é um tipo de fraude do qual nem o próprio tem consciência, mas é fraude: o cliente paga por nada, nem à luz da Ciência, nem do Espiritualismo onde não pode, nunca haver cobranças seja de que tipo for.
        De qualquer modo, e atendendo à história clínica do Sr. Carlos Gabriel, seria muito importante haver uma avaliação de teor neurológico e/ ou psiquiátrico.
        Obrigado pelo trabalho.

        • Quem sabe sabe, e a grande ciência e sabedoria são soberanas no conhecimento de tudo o que existe, fisico ou não, apenas o desconhecido será sempre desconhecido e imoral além de ciência obscura usada pelos ignorantes, porque atrapalha o comercio é fortemente criticada e condenada. Francamente não vou esperar que a evolução da ciência nos dê respostas acerca disto no futuro, mas lembro alguns impossíveis que se foram desvendando ao longo dos séculos e se provaram ser reais e naturais em vez de mitos e bruxarias, tanto com as mudanças de mentalidades como com as pesquisas cientificas. Todas essas descobertas ao longo dos milénios da nossa existência me fazem ser menos arrogante nas minhas opiniões acerca do que existe ou não, e pelo menos tento não ofender aqueles que acreditam em algo que os “inteligentes” afirmam não existir. Parece que ficam muito incomodados com a ignorância dos ignorantes.

  2. É pena não terem falado com nenhum dos “clientes” desse senhor. Ficariam a saber que ele que se diz tão benemérito e que quer ajudar os outros o faz a troco de muito dinheiro. Numa consulta em que cobra os tais 50€, pede mais de 1000 € para ajudar o cliente a resolver um problema, diz o referido senhor que é para mandar rezar missas e que nada é para ele, que as missas são muito caras e consoante o que se pretende assim são o número de missas que terá de mandar rezar. Se não pode pagar esse valor, nada feito! Palavra do senhor vidente. Espanta-me que as ordens religiosas não façam nada para o impedir de usar a religião católica para estes fins. Quem houve a publicidade que lhe é feita fica com a impressão de que ele está relacionado com esta religião. Tenho pena que deixem estas pessoas continuarem a explorar quem está desesperado e numa última esperança gasta o pouco que tem à espera de ajuda.

    • Os desesperados tentam tudo e pagam muitas vezes o que for preciso. Imaginem quantas crianças pobres e familias aflitas eu poderia ajudar se obtivesse esse dinheiro

  3. Obrigsdo pela entrevista e comentários.Só veio confirmar,as minhas suspeitas, á cerca desse Charlatão.Um verdadeiro Vidente não cobra pelas consultas. Açeita o que a pessoa quisér dár. E não esconde a sua cara, nem a sua morada.

  4. Para a próxima marquem consulta sem informar que são jornalistas e talvez aí consigam produzir algo melhor que este artigo publicitário.

  5. Já Jesus dizia dai de graça aquilo que vos foi oferecido….é típico vidente de pouca fé,até pode ter poder,mas ele não pode cobrar nada aos clientes pelas consultas mesmo que invoque o fator sobrevivência,e quanto a ter uma autorização da Igreja para fazer exorcismos simplesmente não acredito,porque igreja é totalmente contra o espiritismo e médiuns etc, e este senhor é um simples médium como tantos que andam por ai…o melhor que faz é vender os seus produtos,mas não cobrar consultas,é bem mais honesto e Deus aceita isso…

  6. porque nao lhe pedem para se identificar mas em publico dar nome correto morada ??? como faz o outro bruxo de cor???? nao da porque andam decerteza atras dele.perserverar os clientes ou perserverar se a ele proprio????

  7. Porque é que este jornal nao se faz passar por cliente e sabera a verdade se sentir lhes dinheiro e mais…. é por telefone e tem que saber bem quem sao as pessoas e muito mais pois so abre a porta sabendo quem é . quanto pagou para a publicidade??? paga tudo quando lhe convem….

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