“Este nome RIBATEJO”, por António Matias Coelho

É a única região portuguesa que não tem mar nem fronteira com Espanha. Nenhuma como ela se situa, portanto, tão adentro do país.

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Terra baixa e larga, muito fácil de percorrer, sempre foi mais sítio de passagem do que lugar de permanência. Daí a diversidade de elementos que constituem a sua cultura, fruto de múltiplas influências que aqui foram chegando e o tempo caldeou.

Leva no nome o Tejo que a percorre de ponta a ponta e lhe dá vida e sentido. É terra de águas por perto e de uma complexa relação com elas. Mas não se esgota na imagem da lezíria, dos campinos, dos cavalos e dos toiros a que às vezes a pretendem reduzir. Tem outros mundos em si e mais vastos horizontes.

Ribatejo lhe chamamos, lindo nome lhe puseram.

 

Portugal fez-se de Norte para Sul. Começou por ser o Condado Portucalense, do Minho até ao Douro ou ao Mondego, e depois foi crescendo na direcção da moirama, com avanços e recuos. Fixou a linha do Tejo, uma posição estratégica, tomando uma série de castelos erguidos ao longo dele: Belver, Abrantes, Ozêzar (na foz do Zêzere), Almourol, Cardiga, Torres Novas, Santarém, Lisboa. E depois estendeu-se mais para sul, para lá do grande rio, para as terras de Além-Tejo, até conquistar o distante reino dos Algarves.

É curiosa a designação que o país fixou para a imensa parte do território da sua metade sul, das proximidades do Tejo até à serra algarvia, e que, embora de forma contraída, continuamos a usar: Alentejo, além do Tejo, como se fosse um acrescento e não uma parte integrante.

Por analogia, às terras chegadas ao rio, entre as Beiras e Além-Tejo, se chamou terras de Riba, outro jeito de dizer margem, e Ribatejo ficou.

Não há em Portugal região mais fácil de atravessar. Basta olhar para um mapa e ver que os grandes eixos de comunicação, com início em Lisboa, sempre passaram por aqui: de barco, antes de mais, Tejo arriba; de diligência também, tomando a estrada real, por Santarém e Tomar, a caminho de Coimbra, tendo na Golegã, se tiver fundamento a história que se conta da origem do seu nome, um local de passagem e de descanso, onde se mudava de montada na estalagem que uma galega fundou; de comboio, pela linha do Norte que nos passa ao pé da porta; de automóvel, mais recentemente, pela autoestrada que corre tão perto de nós…

Por ser fácil de percorrer e dispor de terras férteis, sempre o Ribatejo foi um local de convergência de gente de muitos lados, aqui vinda porque a vida é difícil e por cá a Natureza se mostra mais generosa. Só deste último século, sem ter que ir mais atrás, ficaram diversos nomes de gente que aqui chegou, à procura de pão para a boca e que depois ia embora, embora às vezes ficasse: gaibéus, caramelos, barrões, ratinhos, serranos, bimbos, avieiros… Essa gente trouxe consigo, para além da precisão, gostos, costumes, cantigas, danças, sabores, tradições, maneiras de estar na vida. E o Ribatejo é herdeiro de tudo isso.

Tem-se discutido muito o que é, afinal, o Ribatejo, tanto em termos culturais, etnográficos e folclóricos como no que respeita à própria delimitação do seu espaço geográfico. As enciclopédias dizem que é quase todo o distrito de Santarém (todos os concelhos, exceto os de Mação e Ourém), mais o da Ponte de Sor (do distrito de Portalegre) e os da Azambuja e Vila Franca (que pertencem a Lisboa). A estes 22 concelhos juntamos nós, e muitos outros connosco, Alcochete, o Montijo, a Moita – a Moita do Ribatejo – e o Barreiro que dependem de Setúbal mas são tão ribatejanos como nós. É, pois, uma área imensa, dispersa por quatro distritos, densamente povoada ao longo do Tejo, em especial na parte mais a jusante, e quase um deserto humano quando se deixa a lezíria e viramos rumo ao sul. Parecendo não ter a personalidade vincada de outras regiões do país, como Trás-os-Montes ou o Algarve, encontrou na diversidade e na complementaridade das partes que a constituem a sua força e a sua razão de ser.

Há umas décadas atrás, nos tempos do Estado Novo, a propaganda oficial criou, divulgou e impôs uma imagem do Ribatejo que, ainda agora, continua a ser muito forte: lezíria, campinos, cavalos e toiros, realçando símbolos, como o barrete verde ou o colete encarnado, e manifestações, como o fandango ou a pega de caras, que se assumiram como emblemas do Ribatejo. O Ribatejo é tudo isto, e disto deve orgulhar-se, porque também por isto se identifica, se distingue e se afirma. Mas é mais do que isto, muito mais.

Basta olhar outra vez para o mapa para comprovar que assim é: o campo, as terras da Borda d’Água, de que aqueles valores são próprios, é apenas uma parte, e uma parte pequena, das terras do Ribatejo. Há depois as outras duas desta trilogia de que é feita a região que é a nossa: o bairro e a charneca. Bairro é a zona ondulada, a norte, salpicada de povoações e coberta, outrora mais do que hoje, de vinhedos e olivais – uma paisagem tão característica dos concelhos de Santarém e de Torres Novas, por exemplo, e em parte também do da Golegã, antes do milho vir tomar conta de tudo. E a charneca, terra pedregosa e pobre, caminho do Alentejo, entrecortada de ribeiras onde a vida ainda mexe, que os arroteadores desbravaram, a poder de charrueco ou apenas de enxadão, ao longo de quase um século, e o eucalipto conquistou em menos de trinta anos… Essa área imensa, do Rossio à Ponte de Sor, todo o interior dos concelhos da Chamusca, de Coruche, de Salvaterra, de Benavente e do Montijo, entre outros, é terra ribatejana, distante e nem sempre lembrada, mas parte da mesma realidade plural e complexa que é a nossa região.

Terra ampla e aberta, muito permeável às influências externas, no coração do país, nem norte nem sul, nem litoral nem interior, campo fértil, bairro antigo, charneca imensa, a meio lhe corre o Tejo, espinha dorsal, veia cava, estrada líquida, cheias que matam e que criam, traço de união, essência da nossa vida e razão deste nome – Ribatejo.

 

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