ESPECIAL FÁTIMA | John Haffert, o americano que levou Fátima ao mundo

John Haffert na juventude, em Ourém. FOTO: Fundação Oureana

Falecido em 2001, John Mathias Haffert é um nome já pouco conhecido das novas gerações que vivem e visitam Fátima. Mas este norte-americano foi uma da figuras que mais contribuiu para a dimensão internacional da cidade religiosa. Haffert interessou-se igualmente por D. Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável natural do Médio Tejo, realizando esforços para recuperar a então decadente vila medieval de Ourém. Do seu legado restam hoje no concelho a Fundação Oureana e o Exército Azul.

PUB

Quem nos fala de John Haffert é o seu “filho espiritual” e presidente vitalício da Fundação Oureana, Carlos Evaristo. O encontro decorre no Exército Azul, em Fátima, que é atualmente um Hotel, espaço que foi a sede internacional do maior movimento, em termos civis, que se incumbiu de difundir a mensagem de Fátima, chegando a possuir 80 milhões de filiados e tendo sido dele representantes, nos respetivos países, personalidades como o Presidente dos EUA John Kennedy.

“Conheci o John Haffert porque entrevistei a Irmã Lúcia”, recorda Carlos Evaristo, referindo-se a uma entrevista polémica na qual a religiosa falava do segredo de Fátima e da parte relacionada com a conversão da Rússia. “Era um católico muito conservador, de extrema bondade e generosidade. Que tinha muita vontade de ver e de estar com Nossa Senhora. Pelo que às vezes era um tanto ingénuo quanto a visões. Deixava-se guiar por sinais”, recorda. “Era um homem muito cómico também. Escrevia livros em 30 dias, todos best-sellers”.

Mas como chegou John Haffert ao concelho de Ourém? A edição de janeiro da Visão História fala um pouco do percurso deste americano em Portugal e de como levaria, por via do Exército Azul, Fátima ao mundo. Não aborda tanto, porém, é o interesse de Haffert por Ourém e os motivos que inicialmente o trouxeram à região. A resposta está, explica-nos Carlos Evaristo, em D. Nuno Álvares Pereira, que, recorde-se, foi o 3º Conde de Ourém.

ESPECIAL FÁTIMA | John Haffert, o americano que levou Fátima ao mundo
John Haffert com o Duque de Bragança, que possui atualmente o título de Conde de Ourém. FOTO: Fundação Oureana

Filho de um empresário da comunicação, Haffert era já herdeiro de uma grande fortuna quando chegou a Portugal. “O senhor Haffert tinha um tio ligado à Ordem do Carmo e, desde muito cedo, quis ser carmelita”, recorda Carlos Evaristo. Já seminarista, chegou a Portugal à procura das origens do escapulário (objeto ligado à História dos carmelitas) e de D. Nuno Álvares Pereira, que, recorde-se, no final da vida se tornou carmelita. A visita deu-se em 1946, quando a vila “estava abandonada”, e viviam inclusive nas ruínas do Castelo de Ourém oito pessoas, refere.

Haffert terá ficado “chocado de ver tudo em ruínas”, comenta Carlos Evaristo, apesar do Castelo ter sofrido uma recuperação anos antes. “Nesta sua primeira visita houve então o convite para ir conhecer o Santuário de Fátima”, recorda.

ESPECIAL FÁTIMA | John Haffert, o americano que levou Fátima ao mundo  ESPECIAL FÁTIMA | John Haffert, o americano que levou Fátima ao mundo
Fátima, 1942. facebook “Fátima a Preto e Branco”

Em 1946, relata a Visão História, Fátima ainda era um lugarejo, estando a Basílica clássica há vários anos em construção, longe das perspetivas económicas que hoje tanto se debatem para a cidade. Haffert visitou o espaço com uma câmara de filmar de 8mm e, durante a bênção dos doentes, filmou uma moribunda que conversava, aparentemente, sozinha. Narra Carlos Evaristo que nas imagens do filme (que se encontrarão no arquivo do Exército Azul) a moribunda era, de repente, como que “puxada” e obrigada a levantar-se. Estava paralisada e viu-se curada.

Tratava-se, refere Carlos Evaristo, de um dos milagres que ficaram na época associados a Fátima, neste caso o de Arminda de Jesus Campos. O momento terá impressionado de tal forma John Haffert que viria a ser o princípio da fundação do Exército Azul.

Haffert visitou a Irmã Lúcia e desse encontro terá nascido a ideia de transportar pelo mundo a imagem da Virgem Peregrina, que o próprio mandou fazer, entregando uma ao Santuário e outra ficando no Exército Azul. As imagens, como é público, correram o mundo. Carlos Evaristo explica que Haffert e a Irmã Lúcia planearam uma “campanha de compromissos”, numa perspetiva de levar Fátima além da cortina de ferro, nomeadamente no bloco de leste, onde o regime comunista fechara os países à religião.

ESPECIAL FÁTIMA | John Haffert, o americano que levou Fátima ao mundo  ESPECIAL FÁTIMA | John Haffert, o americano que levou Fátima ao mundo  ESPECIAL FÁTIMA | John Haffert, o americano que levou Fátima ao mundo
John Haffert e o Papa João Paulo II. FOTO: Fundação Oureana

O Exército Azul foi assim criado em Fátima para fundar um “exército bizantino católico” de padres, que estivessem preparados para quando se desse a consagração de Fátima e, em consequência, a conversão da Rússia – uma parte do segredo de Fátima (a primeira parte foi a visão do inferno pelos pastorinhos e a terceira, revelada só em 2000, da tentativa de homicídio do Papa João Paulo II). Mas “demorou muito tempo”, reconhece Carlos Evaristo, não se efetivando em 1960 como se aguardava. O edifício acabou por transformar-se numa hospedaria, a primeira do género a existir em Fátima.

Nesse entretanto, porém, Haffert procurou internacionalizar a mensagem de Fátima, nomeadamente nos EUA, onde mandou construir um Santuário de Fátima em Asbury, Nova Jérsia, com uma cópia exata da antiga Capelinha das Aparições. Para os EUA levou também muitos fatimenses, nomeadamente os que haviam assistido ao milagre do sol, alguns por lá ficando. Da sua autoria foi também o programa da NBC “Countdown 1960”, grande líder de audiências, que tinha por objetivo difundir Fátima e preparar a revelação do seu segredo.

“Para os americanos ele era o Mr. Fátima”, comenta Carlos Evaristo. “É o grande pioneiro das peregrinações internacionais”, as quais começou a promover, possuindo dois aviões Boeing 737 para o efeito. As rotas realizaram-se durante cerca de meio século, com escala em Portugal três vezes por semana. Segundo Carlos Evaristo, Haffert trouxe “pessoalmente” a Fátima, com passagem no percurso pelo Castelo de Ourém, cerca de 3.5 milhões de pessoas. A agência de viagens que possuía atingiu os 30 milhões.

Esta rota pela região de Fátima tornou-se o padrão de visita do turismo religioso estrangeiro e ajudou a potenciar o concelho de Ourém, mas também a envolvente, como Leiria, Batalha, Lisboa ou Sintra, nota a Visão História. Na vila medieval, Haffert comprou vários edifícios históricos, os quais restaurou, entre eles a atual Pousada. No Paço dos Cónegos instalaria um restaurante medieval, que atualmente ainda abre para iniciativas da Fundação Oureana. Haffert foi também o autor da primeira biografia em inglês do Santo Condestável.

O legado de Haffert começou a decair após a revolução de abril e o desmembramento do bloco de leste, além do seu afastamento da gerência do Exército Azul, misturando-se hoje com o meio empresarial de Fátima e as muitas outras empresas de turismo que se instalaram na localidade. A vila medieval de Ourém deve-lhe parte da conservação que hoje detém, existindo aí uma rua com o seu nome.

Neste centenário das Aparições de Fátima, lembrar John Haffert é essencial para se perceber o crescimento da cidade e a sua divulgação pelo mundo. Ainda que marcado pelo tempo em que viveu, Haffert foi o primeiro grande defensor civil da cidade religiosa, que nela investiu das mais variadas formas, incrementando o cenário hoteleiro que hoje a define e dá emprego a uma parte significativa da população.

DEIXAR UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here