Crónica | Fátima e os jornais locais

sala de imprensa no Santuário de Fátima. Foto: mediotejo.net

“O que pode fazer um pequeno órgão de comunicação social regional num acontecimento mediático, como a visita do Papa a Fátima, onde estão os grandes órgãos nacionais e internacionais e agências noticiosas com equipas compostas por vários jornalistas, vários câmaras e vários repórteres fotográficos nos diversos locais onde se vão desenrolando os acontecimentos?”

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O meu colega e fotógrafo Paulo Jorge de Sousa deixou esta questão na sua página de facebook este domingo, 14 de maio, enquanto premissa de um conjunto de fotografias que tirou durante as cerimónias de Fátima do fim-de-semana. Por lá deixei um comentário com sinais de frustração, numa constatação algo desalentada da concretização desta fatídica semana. “O que tem efetivamente interesse local, quando tudo o que é de interesse dos locais já está a ser transmitido (e melhor) pelos nacionais? O que é pertinente e o que é acessório quando nem tempo sobra para pensar?”, indaguei, tendo refletido já longamente sobre os últimos dias.

A pergunta que o Paulo Jorge Sousa fez este fim-de-semana andava eu a fazê-la desde sensivelmente maio de 2016, com especial ansiedade assim que se tornou evidente que o Papa Francisco estaria presente na celebração do centenário das aparições (ou visões como agora se resolveu chamar) da Cova da Iria. O que escrever? Que abordagem oferecer aos leitores do mediotejo.net que pudesse não ser oferecida por qualquer um dos 1500 jornalistas/fotógrafos/operadores de câmara que estariam estacionados em Fátima durante o 12 e 13 de maio?

Crónica | Fátima e os jornais locais

Cresci numa aldeia a poucos quilómetros de Fátima, tendo feito boa parte da minha formação e toda a minha vida profissional, dentro e fora do jornalismo, na cidade. Do lugar conhecia a história e os bastidores dos jornais, restauração, hotelaria e comércio de artigos. De Papas, fora uns flashbacks muito remotos de um helicóptero a sobrevoar um campo de futebol cheio de gente algures em 1991, tinha a experiência, ainda adolescente, de ir ver ao recinto do Santuário a beatificação de Francisco e Jacinta Marto com João Paulo II e, já jornalista, andar a tentar tirar uma fotografia digna ao Bento XVI.

No primeiro ficou-me a sensação de um recinto onde mal me podia mexer e de só ter percebido que tinha sido revelado o tão famigerado segredo quando cheguei a casa e vi a repetição do momento na televisão. No segundo, a sensação frustrante de andar a correr atrás do impossível. Tudo o que me lembrava de fazer já alguém estava a publicar, com uma velocidade tal e perfeição de execução que me deixava apenas a ambição quase fútil de tirar uma bendita fotografia ao Papa Bento XVI.

Naquele 13 não estava preparada. E disse a mim própria, à chegada deste centenário, que não ia repetir a triste figura.

Como em todos os bons sonhadores, a ignorância é sempre boa conselheira. Ainda assim nos primeiros quatro meses do ano consegui elaborar um conjunto de reportagens que, de uma forma geral, não vi repetidas em mais nenhum meio nacional. Foram reportagens sobretudo locais, focadas nas pessoas de Fátima, na política, na economia e no mundo de bastidores que era aquele que eu conhecia. Tentei obter resposta a questões que já me colocara e procurar o olhar daqueles que vêem em Fátima a sua casa, o seu emprego, a sua escola e não o tal “altar do mundo” que atrai multidões e gestos de sacrifício.

Pelo caminho, numa passagem pelos arquivos do concelho, aprendi imenso. Sobre o que foi efetivamente Fátima em 1917, longe do conto de fadas que me habituara a conhecer e a reproduzir, e no que se transformou ao longo dos anos. As suas figuras e as suas polémicas. Descobri nos meus vizinhos testemunhas vivas de uma Cova da Iria que deixou de existir. Procurei o milagre, os pastores, os republicanos, os padres e os santos. Foi uma boa viagem…

Mas à medida que se aproximava o 13 de maio e que a catadupa de produções jornalísticas, académicas e literárias começava a invadir as prateleiras, fui-me dando conta da minha própria ilusão. Onde éramos uma dúzia o ano todo, passámos, mais uma vez, a ser dezenas e, no fim, centenas. Ao centenário e ao Papa juntou-se uma canonização meio in(esperada). Lentamente, mas de forma consistente, já não procurava informação para novos artigos, ela chegava-me diretamente pelo facebook de notícias publicadas por outros media.

O facto é que – esquecera-me! – há muita gente que conhece Fátima e anda por estas paragens desde os tempos em que João Paulo II levou um tirou e sobreviveu a outro. E a memória é algo que não se compra nem vem com a licenciatura. A profissão de jornalista precarizou-se, muitos dos rostos mudaram ou são tão imberbes quanto o meu, mas aqueles “grandes” que merecem a reputação que construíram continuam por aí. No momento em que foram necessários, voltaram. E contra uma memória de décadas há pouco que se possa fazer, mesmo que, como foi constatado numas Jornadas de Comunicação no Santuário, todas as figuras desta história centenária já tenham morrido.

Isto tudo para constatar que chegada aos dias 11,12 e 13, apesar de todo o meu esforço prévio, o facto é que acabamos todos, nacionais, regionais e locais, a repetir os mesmos passos uns dos outros. Mesmo que não seja essa a vontade dos locais – afinal o nosso ponto de vista tem que ser outro – já alguém dizia que o jornalismo não é pensamento, é ação. E o jornalista local vê-se sozinho (vá, com um colega ou dois) a competir com equipas enormes que exploram literalmente todas as abordagens possíveis e imagináveis, 24 horas por dia, do acontecimento que estamos a presenciar. E mesmo que tentemos fugir da caixa, esta é uma caixa limitada, que não consegue combater a velocidade do inevitável morrer dos acontecimentos.

O que resta aos jornais locais num evento como o centenário de Fátima e a visita do Papa?

Dei por mim numa rotunda a procurar não perder as televisões de vista, senão a segurança não me deixava passar, mesmo com acreditação a dizer “Press” igual à deles, à margem de um acontecimento que localmente teria (ainda) mais relevância.

Fui impedida de andar por uma avenida porque se lembraram de me perguntar o nome do meu órgão de comunicação e naquele espaço, salientaram, só podia circular determinado canal de televisão… Levei mais de uma hora a regressar ao gabinete de imprensa, a correr contra o tempo para ainda conseguir escrever algo antes da procissão das velas, porque não pude, simplesmente, mesmo com acreditação de “Press”, atravessar dois metros de rua onde ia passar, dali a apenas meia hora, Sua Santidade.

Não estou a criticar as forças de segurança, que fizeram um trabalho hercúleo e muito digno, ao nível do melhor que o país tem para oferecer. Todo o dispositivo de segurança está de parabéns e tal merece ser dito e sublinhado.

A 14 de maio, Fátima voltou a ser uma aldeia. E dos 1500 jornalistas, fotógrafos e operadores de câmara resta apenas a dúzia que dá as notícias durante todo o ano, tão úteis aos grandes órgãos para repescar em momentos de grandes eventos. Não é uma critica, muito menos a quem faz jornalismo em condições adversas e precisa de todo o apoio possível que nós, locais, possamos oferecer. É simplesmente uma constatação. Como na história das aparições, há duas Fátimas: a de todo o ano e a do 12 e 13 de maio.

Deste centenário restou-me a peripécia de ter descoberto o miraculado, o pequeno Lucas, junto ao presbitério, cerca de 15 minutos antes do terço. Reconheci os pais porque, sozinha, fui a todas as conferências de imprensa que consegui assistir, fora os momentos que falhei após um desmaio apoteótico que não cabe nesta crónica. Peguei na câmara, tirei uma foto. Ele sorriu para mim e deixou-se fotografar, brincado alegremente com a irmã. [Essas fotos viriam a ser reproduzidas por vários jornais nacionais e alguns nem sequer pediram autorização.]

Avisei um colega que por ali andava e continuei o meu percurso. Centenas de jornalistas/fotógrafos/operadores de câmara naquele espaço e, apercebi-me pouco depois, já revendo as fotos, que fora (talvez) a única a dar conta da passagem da criança.

Terá sido por ser local e andar à procura da diferença? Não me parece. Entretanto perdi tempo à espera de uma passagem do Papa da qual fui (todos os jornalistas foram) afastada. E não, não o fotografei. Aliás, a bem da verdade, nem o vi. Passou por mim de papamóvel a uma velocidade acima do esperado, quando tentava filmar em direto. Um segundo de perfil, foi a minha vitória. Da varanda da sala de imprensa, abafada por tantas câmaras e máquinas fotográficas, nem via bem o ecrã gigante, pelo que perdi praticamente todo o ritual religioso.

Este 13 de maio teve muita coisa, eventualmente até algum exagero. Mas talvez tenha faltado, sobretudo, um pouco mais desse Papa Francisco que nos habituámos a invejar doutras paragens e que, como o Presidente Marcelo, fica a tirar selfies com o povo.

Entretanto jogou o Benfica e o Salvador ganhou a Eurovisão. Parece que vem a Ourém no dia 18 de junho, nas festas do município. Nesse dia já não há Papa nem jornais nacionais e internacionais. E aí seremos – nós, locais e regionais – apenas jornalistas, a tentar obter duas palavras de uma figura conhecida.

1 COMENTÁRIO

  1. […] O que resta aos jornais locais num evento como o centenário de Fátima e a visita do Papa? Dei por mim numa rotunda a procurar não perder as televisões de vista, senão a segurança não me deixava passar, mesmo com acreditação a dizer “Press” igual à deles, à margem de um acontecimento que localmente teria (ainda) mais relevância. (Mafalda Gameiro, mediotejo.net) Ler mais… […]

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