Constância | Descobrir a história da Caima a partir de um misterioso baú

Foi a partir desta arca com documentos que se iniciou a investigação da história da Caima. Foto: mediotejo.net

Aquilo que é hoje a fábrica de pasta de papel Caima em Constância, esconde uma longínqua história de 130 anos que começa na Inglaterra, passa por Albergaria, no distrito de Aveiro, e desde 1962, marca a vida e a paisagem de Constância.

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A comemoração do 130° aniversário da Caima serviu de pretexto para uma investigação histórica que envolveu três arqueólogos industriais: Jorge Custódio, Susana Pacheco e Sofia Costa Macedo e teve como ponto de partida uma misteriosa arca com cerca de 150 documentos.

Para além da exposição que está patente na Casa-Memória de Camões, têm sido organizadas conferências sobre a história da empresa, a última das quais terá lugar a 17 de maio, último dia da referida exposição.

E até ao fim do ano, a administração da Caima tem intenção de lançar um livro sobre a história da empresa, resultado da investigação daqueles três arqueólogos. O anúncio foi feito pelo diretor fabril Gualter Vasco, no final de mais uma conferência na Casa-Memória de Camões realizada no final do mês de março.

Gualter Vasco, diretor fabril da Caima e Jorge Custódio. arqueólogo industrial. Foto: mediotejo.net

Perante um auditório esgotado, Jorge Custódio abordou a génese da fábrica da Caima, cuja investigação teve como ponto de partida uma arca existente na empresa contendo cerca de 150 documentos sobre a The Caima Timber Estate & Wood Pulp Company, Limited.

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Para esta investigação histórica a equipa de arqueólogos consultou vários arquivos como os existentes na fábrica de Constância e na fábrica de Albergaria – de que grande parte se encontra no arquivo municipal de Albergaria-a-Velha –, assim como arquivos estatais, municipais e distritais, entre os quais os do antigo Ministério das Obras Públicas e do Ministério da Economia.

Recorreram também a arquivos estrangeiros, nomeadamente ao National Archives, em Inglaterra, onde pesquisaram e trouxeram mais de 300 documentos. Foi, aliás, em Londres que encontraram os estatutos originais da criação da The Caima Timber Estate & Wood Pulp Company, Limited, a informação mais antiga da Caima.

A Caima começou a existir durante o reinado de D. Luís, em Albergaria, onde foi construída a primeira fábrica em 1891. Mas a sua data de fundação remonta a 17 de maio de 1888. A Fábrica de Albergaria, construída em meados de 1891, foi a primeira unidade de produção de pasta química em Portugal.

O auditório da Casa-Memória de Camões recebeu mais uma conferência. Foto: mediotejo.net

Na primeira sociedade eram poucos os sócios e cada um tinha apenas uma ação num total de 75 mil libras como capital inicial, revelou Jorge Custódio durante a conferência, durante a qual ia projetando documentos e fotografias da época.

O coordenador do trabalho de investigação abordou os rudimentares processos de fabrico que se usavam na época, em que a presença de técnicos e diretores estrangeiros era uma constante.

Sendo uma indústria inovadora em Portugal nos finais do século XIX, foi necessário trazer o equipamento completo e uma equipa da Alemanha para montar a fábrica uma vez que não existia aqui mão-de-obra especializada.

E a instalação em Albergaria não foi por acaso, é que ali existiam os minérios de que a fábrica necessitava para a sua produção. Por isso, Caima, nome do rio ali próximo, era também uma unidade industrial mineira.

Um aspeto pouco conhecido e revelado por Jorge Custódio foi o impacto ambiental e social que teve a fábrica naquela região no final do séc. XIX e início do séc. XX. Greves, motins, incêndios de origem criminosa e até atentados bombistas marcaram esses tempos conturbados em que a população local e os trabalhadores lutavam contra a poluição uma vez que a água chegou a estar inquinada. Também a presença de estrangeiros não era bem vista por alguns setores da sociedade.

A Caima, que começou por produzir pasta de papel apenas a partir da madeira de pinheiro, alargou depois ao eucalipto. É nesta altura que a espécie de crescimento rápido começa a ser plantada de forma intensiva acabando por substituir o pinheiro na indústria de celulose. Foi também nesta altura que a empresa começou a comprar madeira aos proprietários uma vez que a matéria prima das suas propriedades já não era suficiente.

Num processo de crescente modernização, a Caima cresceu durante a Primeira República, esteve sempre ativa na I Guerra Mundial, na ditadura militar, na II Guerra Mundial, no 25 de abril de 1974, na integração de Portugal na Comunidade Económica Europeia (CEE) – agora União Europeia –, na adoção da moeda única e no fim do escudo.

Foi em 1962 que a Caima se instalou em Constância e onde atualmente garante cerca de 300 postos de trabalho. Esta fase da empresa será o tema da próxima conferência a realizar a 17 de maio.

Exposição patente até 17 de maio

No auditório da Casa-Memória de Camões em Constância está patente até 17 de maio a exposição sobre a história da Caima, que percorre as 13 décadas da empresa e do seu enquadramento político, económico, social e cultural em Portugal e na Europa.

Através de vários núcleos, a exposição convida o visitante a mergulhar na história industrial portuguesa. Mostra também como a organização industrial e comercial resistiu às duas Grandes Guerras, quando as dificuldades se acentuaram dramaticamente, com a proibição estatal de exportação dos seus produtos.

A exposição pode ser visitada gratuitamente aos sábados e domingos entre as 14h30 e as 18h00.

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