“As anti-princesas e as unhas de gel”, por Helena Pinto

Hoje é dia 15 de Março…., já passou o dia 8 – Dia Internacional da Mulher, valerá a pena voltar ao tema? Eu acho que sim, seja 8 ou 15, Março, Agosto ou Novembro…

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Banaliza-se o Dia Internacional da Mulher tentando esvaziá-lo do seu conteúdo – já não há necessidade… deviam ser todos os dias (tipo, como o Natal, que é quando o homem quiser) ou, como cada vez mais se vê, pretende-se introduzir uma normalidade festiva e consumista que passa por “ementas especiais” nos restaurantes, as já tradicionais flores que se oferecem às mulheres (esta coisa de associar sempre flores – frágeis, a precisar de cuidado permanente – às mulheres, começa a irritar, sem responsabilidade para as flores, é claro…) ou inovamos e oferecemos unhas de gel, maquilhagem, em local público, como fez a Câmara Municipal de Coimbra resumindo assim este dia à prestação de um serviço de embelezamento, coisa que nenhuma mulher deve esquecer e que a autarquia deve providenciar àquelas que não o podem ter. Ridículo e grave.

As mulheres foram discriminadas ao longo de séculos. Por um motivo: por serem mulheres. E ainda são, por muito que nos apresentem hoje a imagem das mulheres independentes, realizadas, super-mulheres e já agora, sempre bem maquilhadas…

O que o 8 de Março nos ensina, no meu ponto de vista, com uma história riquíssima que é impossível resumir em poucas palavras, mas que merecia ser novamente contada e escrita, é que a libertação da mulher e a sua afirmação na sociedade passa, sobretudo e em primeiro lugar, pelo reconhecimento cabal dos seus direitos e pela assunção da sua liberdade, sem serem obrigadas a prestar contas ou a justificar o seu comportamento – a frase “o lugar da mulher é onde ela quiser” significa isso mesmo.

Os tempos recentes mostram como não estamos perante uma mudança consumada. Seja o que nos chega dos Estados Unidos da América, onde foi eleito um Presidente misógino, que passou uma campanha eleitoral inteira a insultar as mulheres, sejam as declarações de um deputado europeu que afirma que “as mulheres devem ganhar menos que os homens, porque são mais fracas, mais pequenas e menos inteligentes (!!!)” ou mesmo o retrocesso que em 2015 viu a luz do dia, por escassos meses felizmente, imposto pela direita no nosso país, que introduziu alterações à lei da interrupção voluntária da gravidez, referendada, introduzindo a subalternização das mulheres e uma tutela sobre as suas decisões.

Não raras vezes sentimos uma força que nos puxa para trás. Seja quando dizem “que somos menos inteligentes” ou quando nos oferecem “unhas de gel”, quando somos condicionadas pelo assédio moral e sexual, quando somos agredidas dentro da nossa própria casa, quando dizem que temos que ter “cuidado com o que vestimos”, quando somos preteridas no emprego porque engravidamos.

Sim, o 8 de Março faz todo o sentido e mais sentido faz não darmos nada por adquirido para todo o sempre. A minha geração sabe bem o que foi a luta pela participação no espaço público, ouvimos vezes sem conta coisas semelhantes às proferidas pelo eurodeputado – “vão coser meias” – ficará para a história como a frase mais emblemática…

Neste mês de Março chegou uma nova coleção infantil editada pela “Tinta da China”, reeditando uma criação da editora argentina Chirimbote – As anti-princesas, com heroínas reais, que apresentará as mulheres como elas são. Como diz a Editora: “As anti-princesas não têm super-poderes, mas são super-poderosas e sabem que as mulheres reais é que podem mudar o mundo.” No final do ano passado foi publicada uma banda desenhada de José Ruy, sobre Carolina Beatriz Ângelo, a primeira mulher portuguesa a votar.

São muito bons sinais. Dar a conhecer outras histórias às crianças em pequenas, a elas e a eles, não fará tudo, mas fará muita diferença.

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