Eu bem te avisei, Herculano. Se era esse o seu desejo, o homem que aqui viesse, que o olival e a vinha lhe dariam as boas vindas como a cidade nunca o faria. Mas tu, qual monge no seu mosteiro, nem ao Imperador (1), que diabo. E lá foste, enfraquecido, adoentado, daqui de Vale de Lobos a Lisboa, para que ele, o Imperador aqui não viesse e apenas te visse lá bem longe daqui do teu refúgio.

Mas, como percebeste, tal não bastou, Herculano. Como já acontecera com Victor Hugo em Paris, agora também contigo, o Imperador o que queria era conhecer-vos pessoalmente aos dois: a ti e ao teu mundo, Herculano. Sentir o porquê de alguém que tendo sido tudo o que foi e tendo tido tudo o que teve, porque decidiu agora que o olival era bem mais digno que os corredores do poder ou que a enxada mais leve que uma consciência quando não suporta o peso da intriga.

E se fizeste tanto, Herculano. Apesar da cegueira do teu pai e dos negócios infelizes do teu avô não te permitirem continuar os teus estudos superiores. Mesmo assim, não te ficaste. Depois dos estudos humanísticos na casa oratoriana das Necessidades, estudaste francês, inglês e alemão. E paleografia ou diplomática na Torre do Tombo, o que naquele tempo era obra. Bem sei que os encontros com a tal Marquesa (2) em S. Domingos de Benfica foram influenciadores e decisivos. Tu próprio o reconheces nos teus Opúsculos.

Viveste num tempo em que muito aconteceu. És ligeiramente mais novo que Garret e Castilho, mas com alguns anos mais que Camilo, Eça ou Antero. Nasceste em plenas invasões francesas, cresceste com o exílio da família real no Brasil, embrulhaste-te nas lutas liberais. E fôste um bravo, também. Do Mindelo e não só. Estudaste, lutaste, investigaste, escreveste. Viveste num misto de amor pelas letras e amor pela Pátria. E mergulhaste em várias bibliotecas. Na de Rennes. Na do Porto. E, literalmente, na da Ajuda. É tua uma das mais importantes Histórias de Portugal e ainda hoje fonte de muitas outras. É tua uma das mais importantes obras de recolha do património histórico nacional, o “Portugaliae Monumenta Historica”. São tuas algumas das mais nobres e distintas contribuições para a cultura em Portugal: a “Panorama” – revista de literatura e de história, a fundação do Grémio Literário, os Opúsculos e toda a tua obra.

Mas, sobretudo, é teu o irrepreensível exemplo de verticalidade de carácter com que pautaste a tua vida.

Por tudo isto Herculano, não merecias partir tão cedo. Não tinhas que ter ido a Lisboa, já tão enfraquecido e adoentado. O Imperador que cá tivesse vindo (como veio). Ver-te, mas não despedir-se.

Agora, cá fica a azeitona por apanhar…

______

Notas: (1) – Alexandre Herculano, já adoentado, deslocou-se a Lisboa no dia 1 de Setembro de 1877, para se despedir do Imperador D. Pedro II que o havia visitado em Vale de Lobos; veio a falecer treze dias depois; (2) – Marquesa de Alorna, com quem Alexandre Herculano privou e de quem era admirador confesso.

*Por vontade do autor, os seus textos não cumprem as regras do novo acordo ortográfico.

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

Entre na conversa

8 Comments

  1. Com o teu cunho, marca d’água impossível de ‘copiar’, mais uma excelente crónica que tanto me acrescenta, pelo conteúdo, a forma, o prazer de poder continuar a ler-te.
    Muito obrigada, Adelino Correia-Pires e mediotejo.net.
    Um abraço!

  2. Boa, Adelino Pires,

    É com estes pedacinhos de prosa que subimos ao outeiro da nossa alma e de lá vemos

    o mundo todo, o antes , agora e o depois.

    É bom que continue.

    1. Obrigado Alfredo,
      Para quem, como o meu amigo, tem o “espírito da coisa”, sabe bem tê-lo por cá. Mesmo daí do norte, onde o vento sopra mais forte…
      Um abraço e até quarta-feira.

  3. Boa, Adelino Pires,

    É com estes pedacinhos de prosa que subimos ao outeiro da nossa alma e de lá vemos

    o mundo todo : antes , agora e depois.

    É bom que continue.

  4. como seria util q assim o soubessem ensinar no ensino…
    conta-se dele uma estoria saborosa qd apos a sua morte – ja nesse tempo…- jornalista mais atrevido e sensacionalista indagou à sua empregada como era ele na intimidade …
    ela respondeu-lhe:
    Olhe! o sr dr era um grande preguiçoso! Passava o dia sentado a ler e a escrever!…
    Assim se julgam os mestres…

Deixe um comentário

Leave a Reply